quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O NU MASCULINO ATRAVÉS DA FOTOGRAFIA & NOTURNOS DE MATEUS CAPELO

Em outubro de 2012, o Leopold Museum de Viena apresentou a exposição “Näckte Männer” (Homens Nus), dedicada ao nu masculino, causando grande polêmica em plena segunda década do século XXI. Desde então, textos, críticas, vêm suscitando movimentos em vários países. No fim de setembro de 2013, foi a vez do Musée d’Orsay, de Paris, apresentar a exposição “Masculin / Masculin. L'homme nu dans l'art de 1800 à nos jours”, novamente voltada para o nu masculino, tendo obras conhecidas através de pinturas, estátuas, desenhos, recriadas sob a óptica de fotografias.
Exposições como as de Viena e Paris, geram sempre polêmicas. Apesar da nudez masculina não ser uma temática recente na arte, suas intervenções remetem aos tempos da Grécia e Roma antigas, retratada através de estátuas e pinturas, ainda causa controvérsia e discussões acaloradas permeadas de preconceitos. Se nas artes o nu masculino teve forte presença na pintura e na escultura, na fotografia e no cinema, ela sofreu e sofre uma grande censura em quase toda a história desses dois movimentos.
O nu masculino na fotografia não é algo novo, é tão antigo quanto o próprio nascimento da mesma, na década de trinta do século XIX. Posto em segundo plano, censurado através das moralidades que supostamente ameaçariam a virilidade masculina, o nu fotográfico encontrou sua liberalização explosiva no fim da década de 1960, sendo explorada comercialmente através de revistas voltadas para os públicos feminino e gay.
Longe da exploração através das revistas, cada vez mais a fotografia do nu masculino vem tomando conta da obra de fotógrafos de vanguarda, originando movimentos intimistas e voltados para os diálogos com o corpo, buscando a visão artística e não a exploração mediática, conceituando a beleza estética do movimento do corpo e não do físico do modelo.
É neste contexto de leitura do corpo humano, em movimentos da nudez masculina, que apresentamos a temática através do trabalho do artista gaúcho Mateus Capelo. Fotografando a si próprio, Capelo consegue diálogos viscerais com o corpo, exposto às interrogações da nudez, trazendo cores fortes e quentes, sugerindo uma leitura desenhada por pelos através da pele. É um convite sem pretensões, mas sincero, para que se conheça o trabalho do jovem artista fotográfico.


O Nu Masculino na Grécia Antiga, o Kouros

Frutos de uma sociedade baseada em costumes e moralidades envoltos em dogmas religiosos, conceitos sociais que designam o sexo como forma de prazer e procriação, e o corpo como invólucro de uma alma coberta por peles e músculos, que deve ser preservada além do cotidiano, coberta e só oferecida a sua plenitude na intimidade, a nudez humana sempre foi alvo de curiosidade, cobiça, preconceito, e erotização da anatomia natural.
Considerado íntimo e pessoal, o corpo humano, quando revelado aos olhos de milhares, veio em forma de arte, designada de nu artístico!
O nu artístico, representado através de movimentos de imagens, esculturas, pinturas, cinema e fotografias, permeia por séculos o ideal da perfeição do corpo humano, livre de amarras dos tecidos e das moralidades, exposto em seus músculos e em sua latência de beleza não proibitiva.
O nu artístico é, nas artes, algo tão antigo quanto os próprios conceitos morais e religiosos que permeiam a nossa cultura ocidental monoteísta. Remota dos tempos da Grécia antiga, que nos traz em sua arte nua, estátuas de corpos perfeitos e sem culpa de édens perdidos.
Na história da arte, vamos encontrar os primeiros nus artísticos masculinos na Grécia, no seu período Arcaico (600 a.C - 500 a.C), conhecidos como Kouros.  Os Kouros, estátuas de jovens esculpidos em mármore ou terra cota, em seu tamanho natural (algumas vezes apresentavam tamanhos gigantescos), exibem corpos vigorosos, com porte aristocrático e sem grandes movimentos anatômicos, numa nudez frontal discreta, com uma rigidez latente, influenciada pela arte egípcia, representam a beleza augusta, virtude e beleza são postas lado a lado, numa procura intensa da estética perfeita.
O Kouros é o primeiro nu masculino a ter destaque na história da arte. As estátuas eram feitas para ornar os templos erguidos aos deuses, urnas funerárias e mais tarde, feitas apenas para exaltarem o ideal individual de beleza pretendida pela aristocracia grega.
No período Severo (500 a.C - 450 a.C), intermediário entre o Arcaico e o Clássico, as estátuas abandonam a rigidez e altivez, para dar mais movimento ao corpo, desligando-se da influência egípcia, nota-se o movimento das ancas, a flexibilidade do torso, o corpo como expressão de beleza e gestos, surgindo o famoso perfil grego, unindo testa e nariz em uma linha retilínea. É desta fase o famoso “Bronze de Artemísion” (460 a.C), que seria uma estátua de Zeus, deus do Olimpo e do céu, ou de seu irmão Poseidon, deus dos mares e maremotos.

O Nu Masculino no Período Clássico Grego

No período Clássico (450 a.C - 323 a.C), o nu atinge o seu esplendor, o corpo ganha dimensão natural, musculatura perfeita, anatomia duelando com a expressão do rosto. O nu representa a vitalidade, o movimento retratado em seu maior realismo, como o “Discóbolo”, do escultor Míron (século V a.C), produzida em 455 a.C, mostrando o momento em que o atleta faz o giro em seu corpo e prepara-se para arremessar um disco. Esta estátua, cuja original teria sido produzida em bronze, demarca a transição definitiva do período Severo para o Clássico.
O esplendor do período Clássico atinge o seu apogeu através das estátuas de Fídias (490 a.C - 430 a.C), escultor ateniense. A ele e aos seus discípulos, são atribuídas as esculturas que decoraram o Parthenon, maior monumento da Grécia antiga, erigido em Atenas.
Outro momento de profunda beleza do nu masculino no classicismo grego é o “Apolo Belvedere”, estátua de mármore, de 2,24m, de Apolo, deus da poesia, da medicina, do sol e da beleza, como arqueiro, no momento em que ele derrota a serpente Píton, em Delfos. Foi considerada, por muitos séculos, símbolo da beleza e da perfeição clássica do homem idealizado pelos gregos, e tido como símbolo de beleza do homem ocidental. Redescoberta na Itália, na época do Renascimento, a estátua foi exposta no Cortile do Palazzo del Belvedere, no Vaticano, desde então passou a ser chamada de “Apolo Belvedere”. Apesar de ser atribuída a vários autores, há um consenso acadêmico que seja uma obra do escultor grego Leocarés, que viveu no século IV a.C., e teria sido esculpida por volta de 300 a.C.
A partir de 323 a.C, a arte da Grécia antiga entra no seu último período, o Helenístico. Nele as personagens mitológicas dão passagem para as históricas, não se retrata somente a beleza no seu esplendor juvenil, mas também o homem
em sua velhice, na sua expressão de angústia, tristeza, num maior realismo. É a civilização grega sendo massacrada pelas invasões, o seu apogeu cultural e filosófico sucumbindo diante do domínio romano, encerrando de vez o período Helenístico. Dessa época, a representação mais famosa é a de “Laocoonte e seus Filhos”, escultura de mármore. Laocoonte, personagem mitológica do ciclo épico da Guerra de Tróia, é representado como um homem maduro e musculoso, trazendo uma expressão de angústia e dor ao ser devorado, ao lado dos seus dois filhos Antífantes e Timbreu, por duas serpentes. A tragédia, segundo a lenda, foi enviada pelo deus Apolo, de quem o troiano era sacerdote, e no momento em que
iria oferecer sacrifícios ao deus Poseidon, recebeu o castigo da morte do deus da luz, sendo devorado por serpentes. A estátua, hoje exposta no Museu do Vaticano, é uma das mais famosas do nu masculino esculpida na Grécia antiga, símbolo do período Helênico. A datação de sua produção é incerta, sendo considerada uma cópia da original a que chegou até os nossos dias, feita em 140 a.C. Também seu autor é desconhecido, alguns atribuem a três escultores da ilha de Rodes, Agesandro, Polidoro e Atenodoro.
Além das célebres esculturas, podemos ver também nus masculinos na pintura de ânforas, mosaicos, vasos, trazendo nesses últimos, muitas vezes, cenas de sexo explícito entre homens maduros e efebos, deuses e mortais.

Da Grécia à Roma Antiga

No período Clássico grego, Alexandre da Macedônia, o Grande (356 a.C - 323 a.C), expande o seu império da Grécia ao norte da África, do Médio Oriente à Pérsia, chegando à Índia. Nas suas conquistas, Alexandre leva a arte e o pensamento gregos, expandindo-os e lançando sua influência por quase todo o mundo antigo. A morte de Alexandre encerra de vez o período Clássico, mas deixa de forma indelével o ideal helênico pelo mundo.
A fusão da arte grega expandida por Alexandre, o Grande, com a arte oriental, em particular a arte persa, é chamada de Helenismo, e sua influência aportaria na Roma antiga em 212 a.C, quando em sua expansão, o poderoso império conquista Siracusa, importante colônia grega na Sicília, ilha mediterrânica.
Os romanos saqueiam Siracusa, levando todas as obras de arte gregas que adornavam a colônia, para Roma. Desde então a influência helenística, apesar de sofrer críticas pela elite romana mais conservadora, toma conta da arte da Roma antiga.
Com o domínio romano sobre a Macedônia do grande Alexandre, e da própria Grécia, as escolas helenísticas dominam Roma. A criatividade romana é limitada, sendo as suas estátuas inspiradas ou mesmo copiadas do modelo grego. Os corpos dos deuses gregos recebem cabeças dos deuses romanos. O nu masculino romano traz na sua representação anatômica o ideal grego de beleza. A estátua em bronze de “Hércules Capitolino” (Século II a.C.) é um exemplo da nudez masculina na representação da arte romana.
Através de Roma, a arte grega perpetua-se e influenciaria toda a arte ocidental.

O Nu Masculino no Renascimento

Com a chegada da cultura judaico-cristã a Roma, apesar de ela já está em uma fase helenizada, e com a conversão do Império Romano ao cristianismo, o nu é abolido da arte. A nudez do corpo passa a ser vista e tolerada como princípio histórico de civilizações consideradas pagãs e politeístas, permanecendo apenas nas obras de arte antigas, vindas principalmente da Grécia.
Na Idade Média, o corpo nu é visto como pecaminoso e fonte de tentações que podem induzir o homem à perda da fé e a entrega à lascívia, algo impensável em um período cultural voltado ao ascetismo e à penitência do corpo. O nu artístico permanecerá adormecido até o Renascimento.
No fim do século XV, o ocidente deixa o invólucro de trevas culturais que o envolvera por toda
a Idade Média. A expansão do comércio, das vias marítimas, do mercantilismo, a descoberta de novos continentes, as revoltas e cisões dentro da igreja católica, derrubando seus dogmas medievais e dando origem a movimentos de uma nova forma de cristianismo ocidental, como a Reforma, fizeram com que houvesse um renascimento cultural intenso e definitivo.
No Renascimento a arte volta a buscar inspiração nos mitos gregos, na perfeição de suas esculturas. O nu artístico volta a ocupar espaço, e os parâmetros de beleza grega do corpo, retratados no período Clássico, servem de escola para pintores e escultores e as suas grandes obras. O belo é o princípio de tudo, e para que seja retratado no seu esplendor, é preciso que se dispa o corpo novamente.
A nudez masculina no Renascimento é exaltada através de corpos perfeitos, de jovens guerreiros e deuses olímpicos, ou mesmo em obras de inspiração judaico-cristã, como “A Criação de Adão” (1508-1512) e “O Juízo Final” (1535-1541), de Michelangelo Buonarroti (1475-1564), afrescos pintados respectivamente no teto e na parede do altar da Capela Sistina, no Vaticano. Não só Adão aparece nu, como o Cristo vingador do “Juízo Final”. Nos afrescos, vários nus masculinos são retratados, mas estes sofreriam censura, quando em 1559, o Papa Paulo IV ordenou ao pintor Danielle da Volterra que lhes cobrisse as partes íntimas. Chegou-se a cogitar que todos os afrescos fossem apagados, mas felizmente não se
concretizou tal fatalidade. Nesse período, também várias esculturas vindas da Grécia antiga, foram amputadas, tendo os órgãos genitais de tais obras sido cobertos por folhas de parreira.
No período renascentista, o nu artístico está presente em vários desenhos de Leonardo da Vinci (1452-1519), num estilo naturalista, inspirados em seus estudos científicos de anatomia. Nus masculinos parciais são vistos nas pinturas de Sandro Botticelli (1445-1510), como o vento Zéfiros de “O Nascimento de Vênus” (1483) ou o deus Marte de “Vênus e Marte” (1483).
Mas a perfeição da beleza do nu masculino do período está no “David” (1501-1504), de Michelangelo, estátua em mármore, com 5,17m, inspirada no herói bíblico, trazendo a predominância de linhas de curvas, veias, numa nudez realista, beirando à perfeição. Quando posta em frente do Palazzo Vecchio, em Florença, Itália, a estátua sofreu com a intolerância e indignação de setores da população local, chegando a ser apedrejada. Com o tempo, a população da cidade acostumou-se a ela.

Outros Movimentos, Outros Nus

O nu masculino, desde o Renascimento, manteve-se presente em todos os movimentos de arte, como no Barroco, que se desenvolveu no século XVII e princípio do século XVIII. Do período podemos encontrar Michelangelo Caravaggio (1571-1610), com nus masculinos parciais e insinuantes em temática bíblica (“Flagelação de Cristo” e “João Batista no Deserto”).
No Barroco, o nu masculino emerge esplendoroso na expressiva obra de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), arquiteto e escultor napolitano, que deixou sua marca indelével na paisagem urbana de Roma, com suas fontes famosas, como a “Fonte dos Quatro Rios”. Bernini mostra a nudez madura e máscula do deus Plutão (Hades), podendo ser vista na escultura “O Rapto de Proserpina” (1621-1622). Uma nudez jovial, alcançando o ideal de beleza grega, está na celebre estátua de “Apolo e Dafne” (1622-1625). O Apolo de Bernini é, sem comparações, a mais bela versão do deus além da Grécia clássica.
Após o Barroco, o Rococó apresenta nus masculinos mais clássicos, com uma elegância sóbria, como a escultura “Mercúrio” (1780) de Augustin Pajou (1730-1809). Ou as obras do
italiano Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770), com várias representações mitológicas dos mitos de Apolo e Zéfiro.
Após a Revolução francesa, ressurge a forma clássica e austera na arte, com o Neoclassicismo. O francês Jacques-Louis David (1748-1825) tem no nu masculino a beleza maior de sua obra, como o clássico “Pátroclo” (1780), trazendo o mito na figura musculosa de um homem de costas, sentado sobre um manto vermelho, ou ainda “As Sabinas” (1799), que descreve o famoso episódio da lenda da fundação de Roma, onde as primeiras mulheres daquela cidade, foram raptadas pelos romanos aos vizinhos, os sabinos, gerando uma guerra sangrenta entre os dois povos, vários nus são postos em um sangrento campo de
batalha, sendo dois nus masculinos, um frontal e outro de costas, em destaque. Também “Leônidas nas Termópilos” (1814), traz a figura central de Leônidas nu, ladeado de outros tantos homens nus. A obra de Jacques-Louis David está repleta de nus mitológicos, podendo ser vistos em “Marte Desarmado por Vênus e as Três Graças” (1824), “Páris e Helena” (1788), onde a nudez é apenas a de Páris, e, “Cupido e Pisquê” (1814).
Anne-Louis Giredot-Trioson (1767-1824), outro expoente francês do Neoclassicismo, deixou a beleza adormecida de Endimião com a pintura “Le Sommeil d’Endymion” (1792).
Antonio Canova (1757-1822), escultor, arquiteto e desenhista italiano, deixou obras expressivas de nus masculinos em suas esculturas neoclássicas, tendo as personagens mitológicas, em particular os heróis, permeando grande parte da temática da sua produção artística, entre elas “Psique Revivida pelo Beijo de Eros”, “Teseu Vencendo o Minotauro” (1781), “Teseu Vencendo o Centauro” (1798), “Orfeu”, “Perseu com a Cabeça
da Medusa” (1800-1801), “Hércules e Liças” (1795-1815), “Páris”, “Palamedes”; ou ainda a nudez da estátua alegórica “Napoleão Bonaparte como Marte Pacificador” (1802-1806).
No século XIX, brotam movimentos de profunda renovação artística, como o Romantismo, Academicismo, Impressionismo e Realismo, tendo nus masculinos que passaram para a
história, como os do francês Jean-Ausguste Dominique Ingres (1780-1867), “Édipo e a Esfinge” (1808), uma das mais conhecidas obras sobre o mito de Édipo e, “Estudo de Nu” (1801).
Destacam-se ainda Eugene Delacroix  (1798-1863), “O Triunfo de Baco” (1861); William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) com “Igualdade Diante da Morte” (1848), “A Juventude de Baco”(1884), “Dante e Virgílio no Inferno” (1850), “Zenóbia Encontrada Por Pastores nas Margens do Rio Araxe” (1850), “O Remorso de Orestes” (1862), “O Primeiro Luto” (1888); Joseph Noel Paton (1821-1901), pintor escocês, com “A Reconciliação de Titânia e Oberon” (1847);  Pierre Puvis de Chavannes (1824-1898), com “Le Travail” (1863).
Dentre esses movimentos do século XIX, o Impressionismo dá destaque ao nu feminino, sendo rara a exploração do corpo masculino. Dentro do movimento, Auguste Rodin (1840-1917), na escultura, é a grande exceção, com obras famosas como “O Beijo” (1889), “São João Batista Pregando” (1878), “O Pensador”, que teve a sua primeira versão em 1880, sendo em escala maior terminada em 1902, e apresentada somente em 1904, e, “A Idade do Bronze” (1875-1876).

O Nu Masculino e o Surgimento da Fotografia

Na primeira metade do agitado e progressista século XIX, surgiu um novo elemento da arte de reproduzir cenas e figuras humanas ou outras viventes, a fotografia. O processo de produzir imagens através da luz por um pequeno orifício já era conhecido da época da Grécia antiga. Desde o século XVI que já se conhecia o método de escurecimento dos sais de prata através da luz. Mas a primeira fotografia realizada no planeta só viria no verão de 1826, feita da janela da casa do inventor francês, Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833). Para conseguir este momento histórico, Niépce deixou uma das placas de sua câmera por oito horas, obtendo uma imagem sem meios tons, do quintal da sua casa. A fotografia está preservada até os dias atuais.
Em 1829, Niépce inicia uma sociedade com Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851), que possibilita ao último, valer-se dos conhecimentos do pioneiro e criar uma câmera
obscura. Daguerre consegue, mergulhando as chapas reveladas em uma solução de sal de cozinha, fixar no papel uma imagem inalterável.
Por longos dez anos, a invenção da fotografia é concretizada, não se atribuindo a um único inventor, mas a um conjunto de várias outras importantes personagens que foram aperfeiçoando o método e adquirindo cada vez mais a fixação da imagem no papel, sem alterá-la. Entre os pioneiros destaca-se o escritor e inventor inglês William Henry Fox Talbot (1800-1877). Seus estudos sobre a invenção da fotografia, ao contrário dos de Daguerre, foram feitos de forma restrita, desde 1835, sendo revelados apenas ao seu ciclo de amigos. Nos dias atuais, foram descobertos estudos do francês Aintoine Hercule Florence (1804-1879), de 1833, numa época que ele vivia no Brasil, que mostram o desenvolvimento de câmera e de imagem fixada por ele em papel, podendo o invento ter sido feito no país.
Os estudos de Talbot e Daguerre coincidem da mesma época, dando a eles o pioneirismo da invenção da fotografia como imagem fixada no papel sem modificações.
Curiosamente, o nu masculino nas fotografias é tão antigo quanto o seu invento. Na segunda
metade do século XIX, quando a fotografia já era uma realidade, o nu artístico, antes usado com frequência nas esculturas e pinturas, passou a ser explorado também por este meio. Mas ao contrário da nudez das pinturas, feitas sob uma ótica de beleza do artista, que manipulava cores e texturas da tez, do ambiente, dando à imagem um efeito próprio de beleza, a nudez fotográfica era mais explícita, crua, sem retoques ou maquiagem de pele e cenário, o que assustava quem a via. Assim, a nudez masculina não agradou inteiramente ao homem, que não gostava de se ver retratado tão realisticamente nu, preferindo sempre, à nudez feminina, sendo vista na fotografia como erótica, provocativa e ladeada de lascívia para despertar o desejo do macho.
A fotografia, ao contrário da pintura, era feita em maior série e atingia não só nobres e artistas, mas várias classes sociais, que não acostumadas com o nu artístico, viam em quem o fazia, pessoas de moralidades duvidosas. Assim, os nus fotográficos, principalmente o
masculino, foram, por muito tempo quase que um tabu intransponível.

Por vários motivos, alguns expostos acima, o nu masculino chegaria pela primeira vez às fotografias, somente em 1872, através do trabalho do fotógrafo inglês Eadweard Muybridge (1830-1904). As fotos de modelos masculinos ou femininos, inteiramente nus, ou com trajes íntimos, foram feitas na Universidade da Pensilvânia, onde Muybridge usou uma série de câmeras, em uma variedade de empreendimentos, como parte do estudo de movimentos. As fotografias dos diversos nus, incluindo a do próprio fotógrafo, foram publicadas somente em 1887, sendo apresentadas com a finalidade de ilustrar estudos científicos, o que garantiu uma aceitação apenas na comunidade acadêmica, já que a nudez em movimento do autor, era vista de uma forma pejorativa e escandalosa. Também o jeito de vida de Muybridge gerava preconceito sobre a sua obra. Em 1874, quando morava em São Francisco, ele matou com um tiro de espingarda, o major Harry Larkyns, amante da sua esposa. Muybridge foi absolvido do seu crime, pelo juiz tê-lo considerado justificável. Mas seu comportamento era visto por todos como errático e instável.
Nos Estados Unidos, muitos foram os pioneiros do nu masculino em fotografia. Entre eles, Fred Holland Day (1864-1933), sendo um dos primeiros a defender no seu país que a fotografia deveria ser considerada uma forma de arte!
Thomas Eakins (1844-1916), pintor e escultor norte-americano, tornou-se um fotógrafo ousado, com abordagens realistas e naturalistas, fotografando momentos de profundo teor erótico, muitas vezes com fundo homoerótico, além de clicar a si mesmo em fotos de nu total. Registros de 1883 mostram a beleza pioneira de Eakins dentro do universo erótico e sensual do nu masculino na então incipiente, arte da fotografia.

Primeiros Nus Fotográficos na Europa

Na mesma ocasião em que o nu masculino era apresentado nos Estados Unidos, na Europa, em 1878, uma tuberculose levou o jovem alemão, estudante de pintura, o barão Wilhelm Von Gloeden (1856-1931), a aportar na ilha da Sicília, Itália, em busca de cura. Estabelecido em Taomina, o barão curou-se da doença e apaixonou-se pelo local e pela beleza dos jovens sicilianos. Obcecado em retratar esta beleza humana e latina, ele especializa-se na arte da fotografia, ajudado pelo primo Wilhelm Von Plüschow (1852-1930), também alemão e vivendo em Nápoles. Ambos fascinados pelos corpos dos jovens do sul da Itália, passaram a fotografá-los nus, em retratos inspirados na arte da Grécia antiga.

Dois anos depois de chegar à Itália, em 1880, Von Gloeden alcança fama através das suas fotografias de efebos nus e em poses que reproduziam a antiga arte grega. Sua obra foge do conceito do nu científico, inaugurando o nu erótico, o filão homoerótico que se irá estender até os dias atuais. Longe dos estúdios, torna-se pioneiro da fotografia ao ar livre. As fotografias de Von Gloeden foram vendidas em larga escala até o início da Primeira Guerra Mundial. Eram cobiçadas por nobres e admiradores das imagens homoeróticas.
Wilhelm Von Plüschow, ao chegar a Roma, mudou o primeiro nome para Guglielmo, equivalente ao seu em italiano. Mais tarde, mudou-se para Nápoles. Assim como o primo, o barão Von Gloeden, fotografava os efebos nativos. A obra de Von Plüschow foi ofuscada pela do primo. Também a sua conduta em terras italianas foram sempre repletas de escândalos, homossexual como o primo, foi várias vezes acusado de aliciar e seduzir menores, o que lhe levou à prisão em 1902, por oito meses. Escândalos seguidos em 1907 e 1910, na mesma vertente, obrigaram-
no a deixar de vez a Itália, regressando a Berlim.
Com a entrada da Itália na Primeira Guerra, o barão Von Gloeden viu-se obrigado a voltar para a Alemanha. A guerra mataria grande número dos rapazes que haviam posado para o
fotógrafo. Após a guerra, a procura por seu trabalho ficou escassa. O nu masculino erótico entraria em um ostracismo, ofuscado pelo nu total ou parcial das celebridades, em especial grandes astros de Hollywood.
Há de destacar ainda, o trabalho do italiano Gaudenzio Marconi (1841-1885), que inspirado em grandes pinturas, como a “A Criação de Adão”, de Michelangelo, produziu belíssimas fotos de nus masculinos. Um de seus registros de nudez, empunhando uma bengala enquanto sentado, com uma elegância pensativa, inspirou o escultor francês, Auguste Rodin, na sua célebre escultura “O Pensador”, além de um nu do modelo August Neyt, em 1877, que também serviria para outra inspiração de Rodin, “A Idade do Bronze”.

A Nudez Masculina em Hollywood

Com o despontar do cinema, o objeto de desejo da nudez passa a ser a dos astros e estrelas de Hollywood. Na primeira fase do cinema mudo, Rudolph Valentino (1895-1926) e Ramon Novarro (1899-1968) são os mais assediados pelo público feminino. Valentino, bissexual, tem morte prematura. Ramon Novarro, homossexual assumido, passaria do estrelato ao quase anonimato devido a sua condição sexual assumida. Tanto Valentino quanto Novarro, são pioneiros no cinema em se deixar fotografar nus, ou seminus.
Com a implantação do Código Hays em Hollywood, nos anos 1920, que definia códigos rígidos de morais de conduta aos atores, proibindo entre outras coisas, assumir-se homossexual e a nudez explícita nos filmes. Com esta conduta, o nu masculino das estrelas, passa a ser visto como homoerótico, o que faz com que se crie o seminu. Até a Segunda Guerra Mundial, fotografias de astros do cinema em trajes atléticos, de banho, são consumidas pelos quatro cantos do mundo. A nudez total é permeada de preconceito e tabus.
Seminus ou nus de atletas nas academias são produzidos por revistas especializadas, consumidas não só por quem frequentava as academias, mas também para um público longe dela, o que gera o nu paralelo, marginal, proibidos e perseguidos por governos e igrejas. Com a proibição de tais revistas, o nu masculino passa a ser definitivamente publicado na ilegalidade.
Além da nudez de Ramon Novarro, feita durante as filmagens da versão do cinema mudo de
“Ben-Hur”, em 1925, há registros de outros astros de Hollywood em ensaios de nudez, como a de Yul Brynner (1920-1985), feitas em 1942, por George Platt Lynes (1907-1955), fotógrafo estadunidense conhecido por suas famosas fotografias de nu artístico masculino; e a de Burt Lancaster (1913-1994). Ambos foram fotografados em nu total, quando ainda muito jovens e antes da fama, sendo essas fotografias reveladas ao público anos depois, correndo soltas na internet nos dias atuais.
Yul Brynner, ator de origem russa, aparece nas fotografias ainda com cabelo, no auge da sua fama ele rasparia totalmente a cabeça, protagonizando clássicos como “O Rei e Eu”.
Burt Lancaster traz nas suas fotos de nudismo uma vitalidade e virilidade juvenis, quase beirando à malícia inocente. Ator respeitado e admirado na Sétima Arte, protagonizou grandes clássicos do cinema, como “A Um Passo da Eternidade”, “O Leopardo”, “O Homem de Alcatraz”, “Os Profissionais” e “Aeroporto”.
Outras fotografias de astros surgem, vez ou outra, como as de Victor Mature (1913-1999), ator de épicos como “Sansão e Dalila”, a foto que corre da sua nudez viril teria sido flagrada num momento que ele esperava o massagista; e de Charlton Heston (1923-2008), numa fotografia de nudez parcial publicada no livro “Hollywood Life”. Assim como Novarro, Heston, o “Ben-Hur” na versão do cinema falado, deixou-se fotografar nu algumas vezes.
Apesar da proibição do nu masculino e feminino na fotografia, ele continuaria com força no século XX através de todos os seus maiores movimentos de arte: Vanguardismo, Fauvismo, Expressionismo, Cubismo, Futurismo, Dadaísmo, Surrealismo, Art Déco, Informalismo, Pop-art...

O Nu Masculino do Terceiro Reich

Indo de contraste ao tabu dos nus nas fotografias, o obscuro, cruel e turbulento período de ascensão do nazismo na Alemanha, usou desta arte para promover o ideal de beleza ariana a ser imposto ao mundo como símbolo de superioridade física e pureza de sangue. As artes visuais são recuperadas ou “regeneradas”, segundo a visão totalitarista nazista, através do clássico grego. O nu é usado para a exaltação da beleza nacionalista e bélica, numa recomposição do militarismo do corpo dos guerreiros espartanos e atenienses. As fotografias e esculturas do nu masculino do Terceiro Reich revitalizam a mitologia helênica numa versão de ação do corpo guerreiro ariano, transpirando vitalidade bélica.
Este período está magnificamente registrado nas imagens da obra da cineasta Leni Riefenstahl (1902-2003), “Olympia”, documentário de 1936, feito para a apresentação dos Jogos Olímpicos de Berlim, realizados naquele ano, em pleno auge do poder nazista.
Olympia” é tido como a apoteose de uma raça, no caso a ariana. No filme, é introduzida ao mundo a espetacular beleza plástica dos atletas comparados às estátuas gregas antigas, numa alusão à supremacia daquele povo bélico pronto para dominar o mundo. É a metáfora do corpo belo e guerreiro, disposto a expandir-se diante de um Estado manipulador, que visa levar a sua juventude ao delírio, fazendo dela a perfeição estética e vitalidade bélica, pronta para superar qualquer outra raça considerada menor.
No filme de Leni Riefenstahl, Hitler apresenta a figura idealizada pelo nazismo da perfeição física e racial. A cineasta consegue, nas cenas iniciais, uma beleza estética revolucionária e ousada para a época, trazendo um balé de nudez humana, comparando-a com as esculturas gregas da época clássica. O nu ariano nazista é a versão totalitarista do ideal grego de beleza.
O nu masculino do Terceiro Reich domina toda Alemanha através de estátuas erguidas sempre com o perfil da supremacia loira, magra e atlética ariana. Destacam-se as esculturas de Arno Breker (1900-1991), o escultor preferido de Adolf Hitler, e de Adolf Wamper (1901-1977). Wamper defendia em suas obras, a figura humana nua, bélica e vitoriosa.
Não se pode deixar de mencionar, também, Hans Surén (1885-1972), defensor do estilo naturalista de vida, e do nudismo nos campos naturalistas. Defendia os exercícios físicos entre jovens, executados ao sol e ao ar livre, sem o uso de roupas. Em 1924 lançou o livro “Der Mensch und die Sonne”, com fotografias de jovens, homens e mulheres, nus e ao sol, praticando esportes. Em 1936, o livro ganhou uma nova edição revisada, com o título de “Mensch und Sonne - Arisch-olympischer Geist”, com forte impacto racial, numa afirmação e criação do corpo físico ideal ariano. Nesta
revisão, o livro trazia ainda citações de “Mein Kampf”, de Adolf Hitler. Até o fim da Segunda Guerra Mundial, “Mensch und Sonne - Arisch-olympischer Geist” vendeu mais de 250 mil cópias. Apesar das associações de nudismo terem sido proibidas na Alemanha em 1933, um decreto da polícia nazista, de 1942, liberou nadar nu nos rios e outros lugares, desde que supostamente ninguém estivesse a assistir. Surén, oficial do partido nazista, seria dali expulso e afastado, em 1942, por ter sido apanhado a se masturbar em público.
No meio de toda a propaganda do nu ariano, da pureza da raça, da ascensão nazista, fugia da Alemanha, em 1933, o fotógrafo alemão Herbert List (1903-1975). List foi um dos maiores fotógrafos do nu masculino. Suas imagens de homens nus, tiradas na Itália e na Grécia, foram produzidas na sua maioria, em preto e branco e, inspiraram a fotografia moderna.
Com a derrocada do nazismo e o fim da Segunda Guerra Mundial, toda a produção do nu de propaganda e apologia à superioridade da beleza e raça ariana foi repudiada e banida dos meios críticos e acadêmicos, sendo consideradas grotescas e de um neoclássico duvidoso.

O Nu Chega às Revistas

Em 1953, Hugh Hefner lança a revista “Playboy”, inaugurando o nu feminino através de publicações periódicas. A nudez feminina, então negada nesse tipo de arte, passa a ser explorada à exaustão, e muitas vezes, sendo focada de forma grotesca e sem conteúdo artístico.
Enquanto a mulher se despia para as objetivas, o homem era renegado a este momento, visto com preconceito e tabu. Nus masculinos em fotografia não eram aceitos nas exposições em galerias, museus e locais públicos. Esta proibição e censura perduraria até o final da década de 1960. Somente em 1968, a Suprema Corte dos Estados Unidos, reconheceria a modalidade da fotografia do nu masculino como forma de arte, após uma ação movida pela revista “Grecian Guide Pictorial”.
Em 1972, o fotógrafo nova-iorquino, Francesco Scavullo (1921-2004), causou grande polêmica, ao fotografar nu o ator Burt Reynolds, para o pôster central da revista “Cosmopolitan”, na edição de abril daquele ano. Assim como Marilyn Monroe, quando posou nua para a primeira edição da “Playboy”, em 1953, Burt Reynolds, duas décadas depois, quebrava um grande tabu. Após a ousadia da “Cosmopolitan”, inaugurou-se as revistas com nus masculinos, tendo a primeira edição da revista “Playgirl”, versão feminina da “Playboy”, chegado às bancas em janeiro de 1973. Desde então, várias revistas de nus masculinos foram lançadas por vários países, sendo na maioria das vezes, voltadas não para o público feminino, mas para homossexuais.
No Brasil, o primeiro nu masculino em ensaio fotográfico para uma revista, foi realizado em 1976, em plena censura da ditadura militar. Foi do ator Mario Cardoso, publicado na revista “Sétimo Céu”, com direito a pôster central. Apesar do ineditismo do fato, o ensaio não causou polêmica e quase que passou despercebido, apesar da revista ter grande tiragem no universo feminino. A tranquilidade da publicação levou, no mês seguinte, a outro ensaio de nu masculino, desta vez com o ator Ney Latorraca.
Tanto a nudez de Burt Reynolds quanto a de Mario Cardoso eram parciais, tendo as genitálias dos atores escondidas. Este padrão, de nudez masculina sem mostrar a genitália do homem, ainda persiste como conceito que muitos insistem em impor como forma de dividir o universo ínfimo do nu artístico e do nu pornográfico.
A primeira grande exposição de nu masculino na fotografia aconteceu em 1978, na “Marcuse Pfeifer Gallery”, em Nova York, sendo praticamente um fracasso, ignorada pela maioria dos críticos, principalmente do sexo masculino. Na época a crítica situou o nu masculino na fotografia como uma concepção limitada, feita especificamente para o universo homossexual. A exposição da genitália masculina, de forma que a mostrava vulnerável e explícita, causou um incômodo geral a quem visitou a exposição, mais precisamente aos homens.
Na década de 1980, o fotógrafo nova-iorquino Robert Mapplethorpe (1946-1989), venceu os guetos homossexuais da sua obra e, conseguiu grande projeção internacional com a nudez explícita de belos homens em suas fotografias, sendo aplaudido e aceito pela crítica internacional, rompendo o ciclo das grandes polêmicas que a temática gerou através dos quase duzentos anos de fotografia no planeta. Apesar de não incipiente no mundo da fotografia, e, em pleno século XXI, o nu masculino ainda é visto com ressalvas e preconceito, como se deixasse à deriva a virilidade frágil do homem.

Noturnos, Ensaio de Mateus Capelo

O nu masculino na fotografia ganhou nos dias atuais, vários adeptos, sendo produzido em longa escala, seja em revistas voltadas para o público feminino ou, principalmente, para o próprio homem no universo gay, seja em séries de ensaios criados para grandes exposições. Temas que recompõem obras de arte antigas, ou cenas mitológicas, continuam a inspirar os fotógrafos que se dedicam a registrar o nu masculino no século XXI.
Apesar de toda esta produção, assim como o nu feminino, há uma exploração da nudez pela nudez, muitas vezes em evocações grotescas, que fazem da arte um ínfimo divisor entre o artístico e o pornográfico.
Para encerrar este artigo sobre o nu masculino através da fotografia, nada mais dignificante do que um ensaio inédito e de beleza pulsante, “Noturnos”, de Mateus Capelo, cedido com exclusividade pelo autor.
Mateus Capelo, jovem fotógrafo gaúcho, surge no contexto de tentar quebrar de vez o tabu e preconceito com o nu masculino, em plena era digital e de manipulação da poderosa mídia formada através das redes sociais. Fugindo da Queer Art, suas fotografias são feitas dentro de um universo intimista, que se utiliza, sem pudores, de toda criatividade e efeitos que se pode obter dentro do universo digital.
Suas imagens sobrepõem-se umas às outras, em projeções que se ampliam e se replicam em cores fortes, onde o corpo se multiplica entre sombras e nuances, e a nudez atua como um diálogo silencioso entre a pele e os pelos, a sombra e o corpo, o homem e a sua força edênica.
O jovem fotógrafo utiliza em seus ensaios o próprio corpo como modelo. Faz da sua nudez a coragem para que outros modelos não se intimidem. E Mateus Capelo sabe muito bem manter a distância entre ele e a imagem, entre o fotógrafo e o modelo, entre a realidade e o ilusionismo lúdico das cores. Seu rosto e corpo estão lá, despidos para a objetiva, mas se perde a nitidez entre o sentido e a intenção, e surge com um traço de mistério que se quer atingir, sem conseguir ir além da imagem que se dissimula pelas marcas digitais, e parece pronta para corromper através de um erotismo latente.
No ensaio do jovem fotógrafo, uma interrogação soturna debate-se muda com o intimismo da pele, num diálogo sem censura com o corpo. Ele prefere não dar título às imagens. Dentro do seu “Noturnos”, prefere enumerá-las através de um contexto único. O ensaio começa com cores que se projetam predominantemente vermelhas e quentes, terminando com um instigante azul a trazer um silêncio frio a dissimular a inquietação aflorada.
“Noturnos 1” inicia o diálogo dúbio, o nu frontal traz um corpo pequeno, cravado no nu maior, de costas, virado para a projeção, costas e tórax redimensionam-se no calor do vermelho, a nudez é coadjuvante do corpo, não se esconde entre parreiras seculares, mas entre o silêncio dos espaços, que se ampliam entre vazios cobertos de pele.
“Noturnos 2, uma das imagens mais marcantes do ensaio, carrega-se de um nu frontal angustiante, o autor-modelo abre os braços pétreos no vácuo, dando densidade à imagem, invocando a nudez  tensa, provocativa, atrás, em cores fortes, outro corpo quase salta, dando ao fundo uma textura da própria pele, dos pelos, que nas imagens do fotógrafo parecem ter vida.
Na imagem intitulada de “Noturnos 3, abandona-se o vermelho, e temos o azul como cor dominante e dominadora, o homem prostrado, exausto ao diálogo do corpo, quase a nos lembrar o Narciso de Caravaggio, ao se perder na fonte que reflete a si mesmo, talvez esta seja a imagem onde a nudez é mais explícita, ampla e definitiva. A nudez que se simula fria, como as imagens que a circundam, torna-se pulsante através de tons vermelhos e amarelos que lhe expelem vida, dimensão, angústia e uma solidão deliberadamente sem fim.
Em “Noturnos 4, novamente encontramos os braços abertos, mas desta vez de costas para a objetiva, e as cores, outrora vermelhas, dão passagem para um azul frio, soturno, solitário. A sombra ergue-se independente, libertadora fora do corpo libertário. Há um silêncio reflexivo. Um momento com o inatingível, com as confrontações que se dão numa leve sensação de paz dentro de um azul fugaz, ao mesmo tempo quase que se sente uma onda a se levantar.
E a onda se levanta na imagem seguinte, “Noturnos 5, onde, sentado, de costas, silenciado por uma solidão contemplativa e momentânea, quase recolhido ao mundo e ao ventre, pinceladas de nanquim fazem da sobreposição do tórax uma onda noturna, em um mar imaginário... Aqui o homem, que em outros momentos do ensaio se mostrou gigante, mostra-se no canto esquerdo acossado, quase menino, imerso no vazio das cores e nas contestações do corpo.
Noturnos 6 encerra o ensaio através de uma grande sombra que se projeta singular, reflexiva à nudez fria e provocativa, encoberta pelo azul impassível. Alinhava todos os diálogos silenciosos, toda a imensidão da nudez exposta aos tabus, aos olhos curiosos, às ousadias dos pelos, da pele, dos espaços entre imagens sobrepostas, da sociedade além da clandestinidade dos leitos.
Analisar o ensaio de Mateus Capelo é uma ode silenciosa ao movimento do corpo. Cada fotografia chama a outra, embora se faça independente e solitária. Mais do que analisar com palavras, o ensaio do fotógrafo é feito para ser sentido, visto com os sentimentos da sensação da primeira visão, ser percorrido com a imaginação. Nele a nudez está lá, mas não é atingida em seu centro nevrálgico. Os pelos falam, a pele trava um diálogo imperceptível às palavras, mas pronto para ser decifrado! A imagem é cor, sangue e pele!


Mateus Capelo

Mateus Capelo, gaúcho de Porto Alegre, nasceu em 9 de outubro de 1984. Graduado em
Filosofia, é cantor, músico, compositor, desenhista e fotógrafo.
Vivendo em Florianópolis, desenvolveu ali um trabalho musical intenso, sendo vocalista de algumas bandas de som alternativo, com influências de MPB, fruitloops, iloop e post punk. Por treze anos esteve na estrada, com a sua voz de timbre marcante e de agudos líricos.
Na fotografia, trabalha com a temática do nu masculino, usando da imagem digital para produzir sua obra, com registros obtidos muitas vezes por câmeras desreguladas, aberturas e programações para atingir a saturação das cores no efeito proposto à visão singular do retrato do corpo.
Sobre o seu trabalho com o nu masculino, em especial, com a nudez do próprio corpo, Mateus Capelo nos revela:
“O corpo é uma coisa que me interessa deveras. O olhar demorado sobre as partes, cada pelo, de tudo que fala na imagem, chama atenção, como se todo o resto fugisse do foco. O corpo enquanto meu, é só algo meu. Não separado de mim, não como 'ele'... e sim como possibilidades, principalmente como paraísos.”
Seu trabalho com fotografias pode ser visto através de sua página na internet:



4 comentários:

Luiz Carlos disse...

Excelente artigo, muito bem escrito e com fotos raras de atores americanos.Ótima pesquisa contemporânea desde o livro da TASKEn, The male nude, de David Leddick que não surgia algo tão importante. O trabalho de MATEUS CAPELO é excelente, belo, corajoso e original.
Mas omitir o precursor do nu masculino na fotografia brasileira ALAIR GOMES é imperdoàvel ! Ainda ha tempo de corrigir.Parabéns !

Luiz Carlos disse...

Excelente artigo, muito bem escrito e com fotos raras de atores americanos.Ótima pesquisa contemporânea desde o livro da TASKEn, The male nude, de David Leddick que não surgia algo tão importante. O trabalho de MATEUS CAPELO é excelente, belo, corajoso e original.
Mas omitir o precursor do nu masculino na fotografia brasileira ALAIR GOMES é imperdoàvel ! Ainda ha tempo de corrigir.Parabéns !

Filosomídia . Leo Nogueira Paqonawta disse...

Realmente, o texto é muito bem desenvolvido e nos dá as mãos aos olhos desde a antiguidade até aos dias presentes para nos apresentar ao artista de "Noturnos" - ser genial, original e f-a-n-t-á-s-t-i-c-o - de artices e dignidade raras. Bem diz o autor que, contemplar a arte de Capelo é mesmo celebrar "uma ode silenciosa ao movimento do corpo", é uma honra. Assim celebramos também seu "birthday" nesse tempo/espaço cibernético. Um artista que está aí para re-evolucionar! Parabéns!

ADEMAR AMANCIO disse...

O nu masculino muito me interessa,com ou sem arte.