sexta-feira, 4 de junho de 2010

AVENIDA SÃO JOÃO - DIGITAIS DA NOITE PAULISTANA

Uma das avenidas míticas da Paulicéia, a Avenida São João é símbolo de uma época que caracterizou a atmosfera boêmia e noturna da capital paulistana. É a maior artéria digital de uma cidade confusa em suas identidades humanas, mas indelevelmente arraigada em sua perspectiva cultural, essência como metrópole.
Se a Avenida Paulista representou a sofisticação, o glamour da burguesia ascendente, a chegada das grandes empresas econômicas, a Avenida São João demarcou o pulsar da identidade paulistana. Nesta artéria foram, aos poucos, nascendo bares, cafés, teatros, cassinos, cinemas, numa efervescente vida noturna que deu forma à geografia humana de São Paulo.
No decorrer das décadas, a Avenida São João perdeu parte da importância na vida noturna da capital paulista. Sua atmosfera underground eleva-se a partir de bares alternativos que vazam os mistérios da noite marginal.
Mitificada pela Música Popular Brasileira, ficou famosa nos versos de Paulo Vanzolini, na música “Ronda”; ou ainda na célebre “Sampa”, de Caetano Veloso. Este ícone de São Paulo é sempre uma descoberta, ainda que mais não seja pelos imponentes arranha-céus que riscam a o seu traçado, e os prédios que se lhe rabiscam um glamour de uma Paulicéia que o tempo ofuscou, mas jamais apagou.

Nascida a Partir da Ladeira do Acu

Nascida da antiga Ladeira do Acu, a incipiente Rua de São João Batista, deve o seu nome à insalubridade que abrangia a região do Anhangabaú, obrigando as pessoas a levarem consigo a imagem de São João Batista para atravessarem o Vale.
O loteamento da chácara pertencente ao comendador Luis Antonio de Sousa Barros, permitiu que se abrissem partes da atual Avenida São João, o largo e a travessa do Paissandu, a Rua do Seminário e a Praça do Correio.
Inicialmente modesta no fim do século XIX e no alvorecer do século XX, a São João era uma rua de botequins e velhas quitandas, que ladeavam o Teatro Polytheama, local onde, tradicionalmente, circulavam os fogareiros de lata de querosene assando castanhas.
Em 30 de junho de 1890, no local onde predominavam bambuzais, coqueiros e arbustos, ergueu-se o Mercado São João, conhecido como Mercado Acu. Consistia em uma estrutura pré-moldada de placas metálicas vindas da Bélgica, sendo ponto de encontro de vendedores oriundos de várias partes do mundo, imigrantes na pulsante São Paulo. Em 1914, o mercado foi demolido, dando lugar à Praça do Correio e à Praça Pedro Lessa, sendo os comerciantes locais transferidos para debaixo do Viaduto Santa Ifigênia.
Em 1911, a antiga Ladeira do Acu, depois Rua de São João, foi alargada, transformando-se na Avenida São João.
Outro ponto histórico da Avenida São João começou a ser edificado em 7 de outubro de 1920, o imponente prédio da Agência Central da Empresa de Correios e Telégrafos. Erguido a partir de um projeto de Domiziano Rossi e do Escritório Técnico Ramos de Azevedo, o prédio foi inaugurado em 20 de outubro de 1922, fazendo parte das comemorações do centenário da independência do Brasil.

Ícone da Vida Noturna Paulistana

A Avenida São João foi uma das primeiras a ser contemplada com os serviços dos bondes elétricos de São Paulo, o que facilitou a expansão da sua vida noturna.
Por muito tempo, o Teatro de Variedades e Comédia Polytheama, um barracão acaçapado, de zinco, sem formas arquitetônicas definidas, sombrio no aspecto geral, era a referência cultural do local, chegando a receber nos seus palcos a grande diva do teatro francês, Sarah Bernhardt. O velho teatro fora erguido para abrigar o circo de Frank Brown, o que lhe explicava o formato circular. O velho Polytheama teve os seus dias de glória, sendo o centro efervescente e cultural de toda a cidade, escrevendo para sempre o seu nome na história paulistana.
Fazia parte ainda da vida noturna da Avenida São João, o Cassino Paulista, situado ao lado do Polytheama. O famoso Café Brandão, na esquina da Avenida com a Rua São Bento, demolido em 1915, para dar lugar à construção do Edifício Martinelli. O famoso Bijou Salão. O originalmente bar e mais tarde casa de espetáculos Moulin Rouge.
A tradição da Avenida São João como ponto de referência cultural e vida noturna da capital paulistana, alcançou o apogeu entre as décadas de 1940 a 1960. Ali ocorriam grandes bailes ao som de orquestras, realizados nas casas da região das Avenidas Ipiranga e São João. Tais casas comportavam grandes orquestras que empregavam mais de quarenta músicos em cada uma delas. Eram destaques a Boate e a Confeitaria Marabá, tendo esta última dado lugar ao mítico Bar Brahma. Neste bar encontravam-se os maiores artistas, jornalistas, políticos e amantes da vida noturna paulistana. Local preferido de Adoniran Barbosa, o mais paulistanos de todos os compositores da MPB.
Histórica, pulsante, a Avenida São João recebe ao longo da sua extensão, grandes cruzamentos: Avenida Ipiranga, Largo do Paissandu, Vale do Anhangabaú, Avenida Prestes Maia, Rua Líbero Badaró e Rua São Bento. Também possui edifícios de relevante importância histórica e econômica: Edifício Banespa, Edifício Martinelli, Palácio dos Correios, Edifício Andraus e Galeria Olido.
Underground, imponente, histórica, moderna, tradicional, a Avenida São João é a própria essência digital de uma cidade plural, formada por uma população vinda de todas as partes do Brasil e do mundo. E como diz Caetano Veloso, em “Sampa”:

“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João”


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