terça-feira, 18 de maio de 2010

PICNIC (FÉRIAS DE AMOR) - JOSHUA LOGAN

Há certos filmes que marcam por pequenos detalhes na composição da história contada. A química entre os protagonistas, a beleza da imagem, a sutileza na contravenção dos costumes, um certo romantismo realista, onde o que se propõe é contar uma grande história de amor. “Picnic”, ou “Férias de Amor” na tradução brasileira do título, de Joshua Logan, reúne estes detalhes que lhe dão a dimensão de uma doce e contundente narrativa, satisfazendo o espectador, que ao final, tem a certeza de ter assistido uma boa história, sem a pretensão das grandes produções, ou do filme cultuado.
William Holden, apesar de ser criticado na época por ter dez anos a mais do que a personagem, compõe um sensual, sedutor e atormentado Hal Carter, numa interpretação única, que, ao longo do tempo, vem sendo reconsiderada pelos que se lhe admiram a obra. Kim Novak é de um esplendor mágico,sendo irradiada por sua infinita beleza juvenil. Juntos, os atores compõem um dos mais belos casais românticos do cinema dos anos cinqüenta.
Picnic” é o retrato absoluto de um modo de vida da sociedade do interior dos Estados Unidos naquela década. A beleza da fotografia, realizada por James Wong Howe, é realçada pela excelente trilha sonora, com efeitos que sublinham a tensão e a emoção ao fim de cada frase, de cada diálogo mais intenso, dando uma dramaticidade visual que se remete clímax teatral. A atmosfera sensual paira no ar, em um erotismo sutil, que subverte os costumes da época, revelados na antológica cena de dança de Hal e Madge; no dorso nu de William Holden; na seminudez de Kim Novak nos vestiários. O torpor irradiado entre o casal que durante todo o filme tentam fugir da atração irremediável que os impele, faz com que se espere o beijo a cada cena, a cada olhar sutilmente trocado, cada sedução, num ápice final irreversível.
Picnic” é um clássico do filme romântico, é daqueles filmes que longe de querer ser mítico, mantém um ritmo que prende o espectador até a última cena, trazendo ao final, a satisfação de que se assistiu a uma agradável história, com uma emoção à flor da pele. Faz-nos sonhar com os anos cinqüenta, com as belezas sedutoras extintas pelo tempo de William Holden e Kim Novak, em um momento que se eterniza a juventude através da imagem. É, acima de tudo, uma belíssima e comovente história de amor.

O Viajante Errante

Rodado em 1955, “Picnic” trazia para as telas de cinema uma peça homônima de grande sucesso na Brodway, escrita por William Inge. Daniel Taradash foi o responsável pelo excelente roteiro adaptado, e Joshua Logan, pela realização, função que tivera nos palcos da Brodway, quando da estréia da peça, em 1953.
Contada numa narrativa que se passa em vinte e quatro horas, a história começa no momento que o errante Hal Carter (William Holden), chega à pacata cidade interiorana de Halstead, no Kansas. Trazendo um olhar misterioso e uma essência despojada diante da vida, ele mudará, durante a sua curta permanência, os destinos de algumas personagens do local.
William Holden irradia, desde o início, um semblante atormentado, irreverente e de uma leveza fugaz, pronta para ser derrubada a qualquer momento. Ao ser convidado para o papel, o ator, na época com 37 anos, sentiu-se intimidado em aceitar, visto que a personagem tinha uns dez anos a menos do que ele. Para Holden, contracenar com uma Kim Novak, no auge dos seus 22 anos, tendo Cliff Robertson, bem mais jovem, como antagonista, era um grande risco. Felizmente Joshua Logan, foi mais persuasivo do que os temores do ator, extraindo dele um bom momento de empatia com a personagem, revelando-o sensual, apesar da diferença visível de idade com o núcleo jovem do elenco.
Hal Carter chega a Halstead de carona em um trem cargueiro. Traz consigo apenas a roupa do corpo e a determinação de começar uma nova vida. Nas costas carrega as derrotas de uma vida. Atlético, bonito e errante, vem de uma fracassada tentativa de carreira de ator em Hollywood. Desempregado, ele procura naquele pequeno lugar por Allan Benson (Cliff Robertson), antigo colega da época da faculdade. Allan é filho de um agroindustrial, pertencendo à família mais rica do local. Hal conta com a ajuda do amigo para conseguir um emprego.
Antes do encontro esperado com o ex-colega, Hal conhece a amável Sra. Potts (Verna Felton), a quem se oferece para limpar o quintal em troca de refeição. Verna Felton está adorável na personagem, encontrando, na época, grande sucesso que se repercutiu em sua carreira. Enquanto limpa o quintal, a boa senhora pede para Hal tirar a camisa, para que possa lavá-la, assim, ele chegará mais apresentável ao encontro de Allan Benson. A nudez do torso de William Holden causou sensação na época, principalmente pelo ator ter depilado os pêlos, algo ousado para os costumes da época.
Ocupado com a limpeza do quintal, Hal atrairá a atenção da vizinhança da senhora Potts, em especial de três mulheres: da professora solteirona Rosemary (Rosalind Russell), da jovem intelectual Millie Owens (Susan Strasberg), e da exuberante Madge Owens (Kim Novak), a mais bela mulher do local. O primeiro encontro de olhares entre Hal e Madge denuncia a química latente entre os dois, apesar de uma tentativa de negação e desprezo de ambos. A partir daquele momento, o destino de cada um está irremediavelmente eclipsado, condenado a revelar ao espectador uma magnífica história de amor.

Ricas Personagens Coadjuvantes

Picnic” não se resume aos protagonistas, tendo como ingrediente fundamental os coadjuvantes, numa feliz escolha de elenco. Cada ator abraça o seu personagem com uma comovente interpretação, gerando personagens carismáticas, construindo um retrato definitivo da vida e dos costumes do interior estadunidense da década de 1950. Halstead é a própria sociedade norte-americana, onde cada personagem coadjuvante toma para si um estigma daquela moralidade, aparentemente calma, pacata e leve, mas pronta para ser diluída diante da alma humana, maior e melhor do que qualquer sociedade que se lhe é inserida.
Na casa vizinha à senhora Potts, mora Flo Owens (Betty Field), mulher altiva, que ao ser abandonada pelo marido, dedicou-se às filhas Madge e Millie. Na visão pequena do lugar, um bom casamento é o que se pode oferecer de melhor para uma mulher. Flo prepara Madge, considerada a jovem mais bonita do lugar, para que invista em um bom casamento, aproveitando-se da fugacidade da sua beleza, construindo um alicerce firme para quando ela não mais existir. Se Flo sonha com um bom casamento para Madge, para a inquieta Millie, pensa em uma possível faculdade, sem muita convicção de que um destino baseado no estudo seja o melhor para uma filha. Flo é a própria visão das limitações das mulheres do seu tempo, das ambições que os pais tinham para as filhas. Betty Field constrói uma personagem contundente, emprestando-lhe todos os arranhões de uma vida marcada pelos sofrimentos e limitações sociais.
Na contramão dos sonhos de Flo está Millie, jovem irreverente, que repudia a submissão do destino da mulher. Millie sonha com os estudos, com os sonetos de Shakespeare, menospreza a conduta da irmã, talhada para ser a recompensa de um bom marido, que lhe proporcione uma vida confortável. Millie é a visão de uma nova geração que iria insurgir na década seguinte, quando a mulher ganhou a pílula contraceptiva, queimou sutiãs em praças públicas e disse não às limitações sociais que se lhe eram impostas. Susan Strasberg, na época com apenas 17 anos, traduz com perfeição as inquietações intelectuais de uma adolescente de uma cidade do interior. É a pessoa humana a tentar superar a sociedade em que nasceu, vive e submete-se às suas moralidades.
Uma quarta personagem habita a casa de Flo Owens, a professora solteirona Rosemary, mulher amargurada, que ao ver a juventude distanciar do seu ser e ainda estar solteira aos olhos da sociedade, faz com que se limite às frustrações da sua existência. Reprimida, Rosemary sente-se atraída pela beleza viril do estranho Hal Carter, tão logo o vê sem camisa a limpar o quintal da vizinha. Será ela, através da sua amargura, quem desencadeará o processo de redenção entre Madge e Hal. A professora aluga um quarto na casa de Flo. Mantém um relacionamento morno com o simpático Howard Bevans (Arthur O’Connell), com quem tem esperança de vir a se casar, encerrado a condição de solteira perpétua à qual se viu atirada pela vida. Rosalind Russell proporciona uma antagonista genial, exalando o tom amargo da personagem, numa interpretação que se lhe teria valido uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, só não acontecendo porque ela se recusou a ser inscrita na categoria.
Flo, Madge, Millie e Rosemary não se mantêm indiferentes ao estranho forasteiro que se mostra sorridente e encantador no quintal da senhora Potts, trazendo para as duas casas a presença de uma personalidade masculina, algo que carece o local. Mais tarde a senhora Potts dirá sobre a curta passagem de Hal Carter por seu quintal, que foi bom sentir a segurança da presença de um homem por perto.

A Bela Madge Owens

Millie, audaciosa e desprendida das formalidades morais do lugar, é a primeira a aproximar-se de Hal Carter. Entre ambos é travada uma amizade quase que instantânea, movida pelo carinho fraternal que ele vê na garota, e, por parte dela, pela confusão adolescente de ver um homem tão livre, tão longe do estereótipo dos rapazes que se circulam ao seu redor. É o lado andarilho e errante de Hal que seduz a rebeldia intelectual de Millie.
Paralelamente, Madge assiste à distância, com uma dissimulada indiferença, à amizade da irmã pelo forasteiro. Em momento algum ela consegue manter a frieza e o desprezo que deseja sentir pelo estranho. Madge é a esperança maior de Flo. Ela abraça com determinação o destino que a mãe lhe descortinou. Sabe que é a mulher mais bonita da cidade, e diante da pobreza em que se criou, é a maior arma que pensa trazer na vida. Sem estar apaixonada, aceita ser cortejada por Allan Benson, o filho do homem mais rico do lugar, tornando-se a sua namorada. Madge não questiona os sentimentos, sendo movida pelas pretensões da mãe, quer aproveitar a sua beleza, que um dia passará, usando-a para assegurar um bom futuro, construído sobre um bom casamento. Allan é para ela, a esperança de uma vida segura e confortável, que vai além da sua condição de funcionária modesta de uma loja de quinquilharias. É a possibilidade da ascensão social.
O que Madge desconhece é a mulher que existe dentro dela, amordaçada pela condição social estabelecida, longe do estereótipo que se lhe poderá garantir um bom futuro. Madge não conhece o seu íntimo, confunde os seus sonhos de mulher com os da mãe.
Hal Carter, ao chegar de repente, trespassa-lhe a razão premeditada, os sentimentos domados, o futuro ambicionado. O forasteiro arranca a mulher que há dentro da beleza oferecida ao bom senso e às ambições, fazendo dela uma beleza prometida, pronta para ser beijada com o arrebate do sentimento mais genuíno. Antes que se deixe levar pela atração irresistível por Hal, ela o renega milhões de vezes, sem que se lhe consiga extrair do princípio do sentimento a que é obrigada a retornar.

Cenas Ousadas Para a Época

A chegada de Hal Carter a Halstead coincide com as comemorações do feriado do Dia do Trabalho. Naquele dia, os moradores da cidade reúnem-se em um grande piquenique, promovendo música ao ar livre, coroação da jovem mais bonita da cidade, sendo a principal festa do lugar.
Finalmente Hal encontra-se com Allan Benson. É bem recebido pelo ex-colega. Gentilmente, Allan mostra os silos do pai, suas empresas. Ao saber dos fracassos profissionais de Hal, promete-lhe um emprego modesto, quase que insignificante, nos armazéns da família. Mesmo decepcionado, o forasteiro não o recusa.
Allan não sente uma amizade profunda por Hal Carter. Para ele, o andarilho representa a admiração aos ídolos fabricados pela sociedade norte-americana. Allan Benson, filho de uma família abastada, freqüentara uma faculdade de elite, onde Hal Carter só lá esteve por ser um habilidoso jogador de futebol, tornando-se uma estrela do time da faculdade, o que lhe proporcionava uma bolsa. Hal Carter era o ídolo construído, feito para interter os colegas, dar brilho à faculdade, sem que se lhe fosse exigido qualquer aptidão. Ele era o símbolo da vitória, do ídolo perfeito da América, que só interessava enquanto tivesse vigor físico e bom desempenho nos esportes. Depois de usado, Hal Carter não interessava mais à sociedade elitista que se lhe descortinava o circo máximo. Para Allan, o andarilho era isto, o ídolo da escola, não o amigo comum.
Allan leva o ex-colega ao clube da cidade. Revela o seu interesse pela bela Madge. Não tem amor ou paixão pela namorada, mas não se importa em tomá-la como esposa, apesar da grande oposição do pai, que a considera de família inferior. Sendo um promissor homem de negócios, Allan tenciona ter a mulher mais bonita e cobiçada do lugar como se exibisse um grande troféu. Também Hal Carter é para ele um troféu a ser exibido, o de ídolo do futebol.
A cena que transcorre no vestiário, em que do lado masculino estão William Holden e Cliff Robertson, e do feminino Kim Novak e Susan Strasberg, foi uma das mais ousadas da época, numa tomada que a câmera mostra as pernas dos homens e as mulheres tirando os seus trajes de banho, acentuando ao filme um teor erótico, que visto através do tempo, parece quase ingênuo para os padrões do cinema atual, mas contundentemente sensual em 1955.
Hal Carter e Allan Benson representam os contrastes sociais da sociedade norte-americana, numa bem construída identidade civil de uma época que embora distante, não se diluiu com o tempo, ainda refletindo fortemente nos tempos atuais.
Para celebrar o reencontro, Allan Benson convida Hal para a festa do “Dia do Trabalho”, inserindo-o na maior comemoração do lugar. Ao saber da amizade do ex-colega com Millie, Allan empresta-lhe um carro, para que possa levar a cunhada à festa.
Assim, usando uma camisa emprestada de Allan, Hal Carter segue cantando e feliz, ao lado de Millie, para o piquenique anual do lugar, sem saber que a felicidade fugaz dará passagem para o sentimento definitivo.

A Dança Mais Sensual do Cinema

É no decorrer do piquenique que se estabelece o caminho do ápice dramático. O ambiente é bucólico, onde os habitantes do local confraternizam, como se a felicidade fosse uma constante na vida de todos. No meio da convivência social, lá está ele, Hal Carter, um estranho no ninho, a atrair para si todos os olhares curiosos. Ao seu lado, a divertida Millie. No seu caminho, os olhares cruzados e assustados de Madge, numa dissimulação invisível aos olhos das pessoas.
No meio das comemorações, Madge é eleita a rainha da festa, sendo coroada e levada em desfile, por um barco no meio do rio. Hal olha fascinado para a beleza sublime daquela que já lhe roubava a paz de ser tão livre e errante.
Mais tarde, a festa já rompe as horas. Ao som da música, Hal Carter põe-se a dançar sozinho. Ao vê-lo ali, a despejar uma sensualidade latente, Madge percebe que na festa ela era a única que poderia acompanhá-lo nos passos. Ela aproxima-se sedutora, faz dele o seu par. Os dois convergem em uma dança sedutora, proporcionando uma das cenas mais antológicas do cinema romântico, atingido o ápice esperado do filme, o encontro do casal que no decorrer da trama, evitara-se mutuamente, numa negação aos sentimentos.
A dança entre Hal e Madge atinge os confusos sentimentos de Millie. Até então ela aparecera vestida de qualquer jeito, como um garoto. Hal despertara o seu lado feminino, e ela, ao surgir com um vestido, sente-se triste em vê-lo dançar com a irmã. Millie deprime-se. Para compensar a frustração, ingere uma garrafa de bebida alcoólica, sentido-se mal, a seguir.
Também Rosemary incomoda-se com a dança entre Madge e Hal. Embriagada, ela atira-se para o rapaz, puxando-o para si, tentando forçá-lo a dançar. Hal a repele. Rosemary sente-se rejeitada. Ela insiste em fazê-lo seu par, puxa-o com tanta força que lhe rasga a camisa. A tensão final do rasgo na roupa é acompanhada por um fundo musical contundente, tomando o rosto de Hal Carter em um flash de luz, que se lhe acentua a exposição e a vergonha pela qual passa a personagem. Naquele momento simbólico que tem a camisa rasgada, aparecem Allan e Flo. Sentido-se rejeitada, envergonhada pelos seus atos, Rosemary acusa Hal de ser o responsável pela embriaguez de Millie, de ser ele quem dera bebida à jovem. O forasteiro tenta explicar-se, mas é impedido de poder dar uma justificativa a mostrar a sua inocência. Diante de todos, um enciumado Allan Benson humilha o amigo, dizendo que ele era um errante, que só criava problemas.
Humilhado, recebendo a culpa por todos os escândalos da festa, Hal foge do lugar. Madge não o deixa ir sozinho, a carregar todas as culpas, ela o segue, desaparecendo no breu da noite. Quando se encontram, os dois partem sem rumo no carro que Allan tinha emprestado a Hal.
O ciúme latente de Allan faz com que ele sinta um desejo de vingança. Movido pela cólera, ele denuncia à polícia que o carro da família fora roubado por Hal Carter. Encerrava-se, assim, a sua suposta admiração pelo ex-colega de faculdade. Hal é descrito para o pequeno lugar como um errante e ladrão.

Rumo ao Desfecho Final

Longe de todos, Hal confidencia as atribulações da sua vida a Madge. Conta-lhe que na adolescência foi posto em um reformatório por ter roubado uma motocicleta. Mostra-se vulnerável ao mundo e errante à vida. Declara-se a ela como um fracassado, assim como Allan o acusara. Mas Madge discorda, como resposta, beija-lhe com paixão. Os dois têm o destino selado. A partir dali, apenas algumas horas restavam para que ambos descobrissem aquele desejo ardente, que pulsou desde o primeiro instante que se viram.
Hal Carter sente que a vida tecia um presente suave e intenso que se lhe era entregue na pessoa de Madge, no seu amor, enfim revelado. Quando se separaram, marcam um novo encontro para o dia seguinte.
Disposto a deixar o estigma de homem errante, Hal Carter vai procurar Allan Benson, na intenção de se lhe devolver o carro. Ao chegar a casa do ex-colega, ele percebe o movimento da polícia. Não lhe resta outra alternativa a não ser fugir. Hal vai pedir refúgio na casa do simpático comerciante solteirão, Howard Bevans, o indeciso namorado de Rosemary. A interpretação de Arthur O’Connell é outro grande momento do filme, o que lhe valeu a indicação para o Oscar na categoria de melhor ator coadjuvante. Howard abriga o forasteiro em sua casa, possibilitando que ele fuja da cidade no dia seguinte.
Na manhã seguinte, Howard vai até a casa de Flo e das suas filhas. Depara-se com uma aflita Rosemary. Os dois têm um diálogo confuso, o que faz Rosemary pensar que está sendo pedida em casamento. Feliz, ela grita a novidade para todos que se irá casar! Confuso, o pobre Howard não sabe o que dizer. A solteirona arruma as malas, pronta para ser levada pelo comerciante rumo ao altar. Antes de partir, Howard diz a Madge que Hal está escondido no seu carro, e que a espera nos fundos da casa.
O encontro entre o casal é intenso, marcado por uma promessa de continuidade e, ao mesmo tempo, pela ruptura definitiva. Hal reafirma o seu amor por Madge, diz que apanhará o trem para Tulsa, e que estará a sua espera. Não lhe promete muito, a não ser o seu amor, a vontade de findar o seu destino errante, de construir uma vida em comum. Diz que vai procurar trabalho em Tulsa, e a espera em um hotel da cidade.
Madge mostra-se apaixonada, mas insegura, sem saber o que decidir. A tensão aumenta quando surge Flo. A mãe da jovem grita com Hal, impede que a filha tome uma decisão drástica. Vocifera que vai chamar a polícia. O trem surge no horizonte. Hal corre para apanhá-lo. Sempre a olhar para Madge, ele sentencia-lhe: “Você me ama! Você me ama!”. Num impulso, ele atira-se para cima do trem, que se encontra em pleno movimento, sumindo, assim como surgira.
Ao retornar para casa, Madge sobe para o seu quarto. Millie pede à irmã que faça alguma coisa de inteligente na vida, que vá de encontro a Hal. Contrariando os conselhos da filha mais nova, Flo pede à filha que não parta. Que não faça como ela, que não dê de presente a sua beleza e juventude para um aventureiro, assim como ela o fizera um dia. Apesar do pedido dramático da mãe, Madge está decidida. Não quer para si o casamento que lhe assegure o futuro, mas o amor que lhe dê forma à existência. Quer presentear a sua beleza para um grande amor, não como barganha de um bom matrimônio. Incentivada pela senhora Potts e pela irmã, Madge apanha um ônibus, partindo para Tulsa.
A cena final, realça o Cimascope, numa tomada aérea sobre o trem onde parte Hal Carter. Paralelo ao trem, na estrada, vê-se o ônibus no qual viaja Madge Owens. Acompanhando a viagem do trem e do ônibus, o espectador deduz que, em algum momento, os transportes que se fazem paralelos, convergirão para um local comum, juntando o homem errante e a mais bela mulher de uma pacata cidade do interior do mundo. Poderia ser qualquer cidade!
O filme arrebataria dois prêmios Oscar, nas categorias de melhor edição e de melhor direção de arte, além de ser indicado para melhor filme, melhor diretor, melhor ator coadjuvante (Arthur O’Connell) e melhor trilha sonora. Joshua Logan receberia pelo filme o Globo de Ouro como melhor diretor de 1956. A história ganharia duas versões para a televisão, em 1986 e em 2000. Nenhuma alcançou a beleza e o carisma da versão de 1955.

Ficha Técnica:

Férias de Amor

Direção: Joshua Logan
Ano: 1955
País: Estados Unidos
Gênero: Drama, Romance
Duração: 115 minutos / Cor
Título Original: Picnic
Roteiro: Daniel Taradah, baseado em peça teatral de William Inge
Produção: Fred Kohlmar
Música Original: George Duning
Coreografia: Miriam Nelson
Direção de Fotografia: James Wong Howe
Direção de Arte: William Flannery
Edição: Charles Nelson e William A. Lyon
Decoração de Set: Robert Priestley
Designe de Produção: Jo Mielziner
Figurino: Jean Louis
Maquiagem: Clay Campbell e Helen Hunt
Som: George Cooper e John P. Livadary
Estúdio: Columbia Pictures Corporation
Distribuição: Columbia Pictures
Elenco: William Holden, Kim Novak, Rosalind Russell, Betty Field, Cliff Robertson, Susan Strasberg, Arthur O’Connell, Elizabeth Wilson, Verna Felton, Reta Shaw, Raymond Bailey, George E. Bemis, Steve Benton, Phyllis Newman, Henry Pagueo, Harold A. Beyer, Paul R. Cochran, Adlai Zeph Fisher, Harry Sherman Schall, Nick Adams, Floyd Steinbeck, Don C. Harvey, Flomanita Jackson, Shirley Knight, Wayne R. Sullivan, Henry P. Watson, Abraham Weinlood
Sinopse: O aventureiro e errante Hal Carter (William Holden), após tentar uma fracassada carreira em Hollywood, chega a uma pequena cidade do Kansas, para visitar um ex-colega da faculdade, Allan Benson (Cliff Robertson), jovem de família abastada, no intuito de lhe pedir um emprego. Hal chega no “Dia do Trabalho”, quando a cidade reúne os seus habitantes para um piquenique comemorativo. O andarilho conhece Madge Owens (Kim Novak), namorada de Allan, e a mais linda mulher da cidade. A paixão entre os dois é inevitável, levando Flo Owens (Betty Field), mãe de Madge, ao desespero, pois ela sonha que a filha faça um bom casamento. A história desenvolve-se em um ritmo que prende e envolve o espectador até o fim.

Joshua Logan

Joshua Logan nasceu em 5 de outubro de 1908, em Texarcana, no Texas, Estados Unidos. Órfão de pai, aos três anos, foi criado pela mãe e pelo padrasto em Mansfield, na Louisiana.
Famoso diretor de cinema e de teatro, foi com este segundo elemento da arte que mais se identificou, dedicando a maior parte dos seus trabalhos. Sua ligação com o teatro aflorou muito cedo, ainda quando freqüentava a Universidade de Princeton, onde foi um dos fundadores do grupo teatral University Players, na década de 1920. Ali atuou como ator ao lado de James Stewart e Henry Fonda, além de acumular a função de diretor. A paixão pelo teatro levou-o a pleitear uma bolsa de estudos na extinta União Soviética, para estudar com Constantin Stanislavski. Logan partiu para Moscou antes de terminar e receber o diploma da Universidade de Princeton.
Em 1932, estreou como ator na Brodway, em “Carry Nation”. No decorrer daquela década, trabalhou uns tempos em Londres, e, por um curto período em Hollywood. O seu grande sucesso só viria em 1938, quando dirigiu a peça “I Married an Angel”. Desde então, acumulou grandes sucessos nos palcos da Brodway.
Ainda em 1938, dirigiu o seu primeiro filme em Hollywood, “I Met My Love Again” (Tinha Que Ser Tua). Em 1939, casou-se com a atriz Barbara O’Neil, antiga colega da Universidade de Princeton. A união durou apenas um ano.
Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, Joshua Logan ingressou na Air Force Combat Inteligence, onde atuou como relações públicas e oficial de inteligência. No fim da guerra, foi liberado, trazendo a patente de capitão. Retornou à Brodway. Casou-se, em 1945, pela segunda vez, com a atriz Nedda Harrigan, que permaneceria ao seu lado até a sua morte, em 1988.
Na década de 1950 Logan dirigiu grandes produções na Brodway, entre elas “Annie Get Your Gun”, “John Loves Mary”, “Mister Roberts”, “South Pacific” e “Fanny”. Com “South Pacific”, ganhou o prêmio Pulitzer de melhor drama, em 1950, compartilhado com Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, também co-autores da peça. Vários destes sucessos de palcos seriam levados por Logan às telas de cinema, assinalando grandes produções.
Em 1955 o diretor cinematográfico John Ford ficou seriamente doente, não podendo concluir as filmagens da adaptação de “Mister Roberts”. Joshua Logan foi chamado para substituí-lo. Apesar de relutante, aceitou o convite, concluindo o trabalho de John Ford, mas o seu nome não foi creditado ao filme.
Sua volta definitiva a Hollywood deu-se ainda em 1955, quando dirigiu a adaptação para o cinema da peça “Picnic”. O filme tornou-se um grande sucesso, valendo-lhe a indicação ao Oscar de melhor diretor, e o prêmio Globo de Ouro na mesma categoria.
Joshua Logan dirigiu, ao longo da sua carreira, poucos filmes, mas todos com sucesso e qualidade garantidas, vindas da sua grande carreira nos palcos da Brodway. Além de “Picnic”, teve outra indicação para o Oscar de melhor diretor com o filme “Sayonara”, de 1957. Logan permaneceria em Hollywood até 1969, onde dirigiria o seu último filme, “Paint Your Wagon” (Os Aventureiros do Ouro).
Na década de 1970, recolheu-se definitivamente em Nova York, dedicando-se a dirigir e interpretar encenações teatrais. Em 1976 publicou a autobiografia: “Josh: My Up and Down, In-and-Out Life”. Em 1978 publicou “Movie Stars, Real People, and Me”.
No fim da vida, Joshua Logan passou a sofrer de psicose maníaco-depressiva. Morreria em Nova York, em 12 de julho de 1988, poucos meses antes de completar oitenta anos, vítima de problemas neurológicos.

Filmografia de Joshua Logan

1938 – I Met My Love Again (Tinha Que Ser Tua)
1955 – Mister Roberts (não creditado)
1955 – Picnic (Férias de Amor)
1956 – Bus Stop (Nunca Fui Santa)
1957 – Sayonara
1958 – South Pacific (Ao Sul do Pacífico)
1960 – Tall Story (Até os Fortes Vacilam)
1961 – Fanny
1964 – Ensign Pulver (O Barco do Desespero)
1967 – Camelot
1969 – Paint Your Wagon (Os Aventureiros do Ouro)

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