quinta-feira, 20 de maio de 2010

A CANÇÃO QUE DIVIDIREI CONTIGO - POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Esta manhã, quando o sol desceu imperativo, rompendo o meu sono, quase a violar o meu ser notívago, acusando os ponteiros do relógio, abri os olhos e sorri: bom dia!
No celular o som acusava uma mensagem. Tão poucas palavras, tão extenso significado, tão doces promessas, tão eloqüentes convites à retirada da solidão. Não era uma simples mensagem, era a tua! A que arrematava a minha e se fazia nossa! Bebi cada palavra, quase como uma criança bebe a fugacidade da inocência! Quem se lembrava da opressão do despertador? Bom dia!
No chuveiro a água tépida levava os últimos resquícios do sono, molhava-me o corpo, escorrendo por ele pensamentos obscenos, mas sinceros, que me remeteram ao sopro de imaginar-te ali, na nudez dos sentimentos. E a água a cair, escorria entre os desenhos dos meus pêlos, entre a solidão que se atirava ao desejo mais sublime.
Ainda pensava em ti! Penso obcecadamente na pergunta que me fizeste na mensagem. Ela era escrita na espuma que caía do meu corpo:
“Fica comigo?”
A água levou a frase. Enxuguei o meu corpo. Lá fora o dia será tenso, com o gosto das marcas do tempo. Terei uma longa jornada, rumo aos protocolos para diagnosticar os anos. Rumo aos extenuantes fantasmas que nos fazem mortais. Abro a janela. Ainda tento sorver um poema ao vento. E o eco se me repete:
“Fica comigo?... Fica comigo?... Fica comigo?... Fica comigo?...”

“Um dia um novo amor e tenho pena de
quem acha que o amor perde em não mudar de feições”
André Breton


Entro no carro do meu irmão. Bom dia! Acho que hoje estou mais sorridente do que ele. Trago-lhe as trezentas e tantas músicas que se lhe gravei em mp3, em um pen drive que ele jamais conseguirá ter tempo de chegar à metade. Gal Costa, graceja ele. Até aposta, só pela certeza de que vai ganhar. Que venha a musa das musas! A voz sagrada de uma mulher profana!
Enquanto o som não entra, falamos da minha eterna recusa em dirigir automóveis, do meu desprezo por eles... O som salta de repente. Surpreende-me! Leio o título no monitor do cd-player: “Bachianas nº 5”. Gal? Zizi? Marisa? Onde estão os agudos fulminantes, que se me desfaçam o constrangimento do engano? Não existem. Enganei-me de arquivo! A voz cresce repousante. Meu irmão está curioso! De quem é? Um sorriso largo escorre pelo meu rosto. Repondo-lhe apenas, um anjo!
A voz cresce, suavizando o trajeto do automóvel! Meus anjos sem sexo, meus anjos soberanos, tortos ou caídos, meus anjos. Absolutamente despidos dos céus, mas obsessivamente determinados a romper os portões que nos fecha o Éden. Em cada asa um sonho, um vôo ao infinito da essência de nós, mortais errantes, retratos da obra mais bela e perfeita de Deus.
A voz cresce. Quebra o silêncio dentro do carro, numa melodia que se emerge entre sussurros de vidas espargidas no ar. Meu anjo! Divinamente humano, humanamente anjo! Compulsivamente errante. A voz eleva-se! Perfeito zoom vocal! Agarra-me a emoção! Sim, és tu!
“Fica comigo?... Fica comigo?... Fica comigo?... Fica comigo?...”

“Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento”
Dylan Thomas


Entro na clínica mais conformado do que assustado. Luzes opacas invadem-me o rosto. O cheiro de éter confunde-se com o do detergente de limpeza, arrancando-me a sensibilidade do olfato. Tudo aqui sabe à promessa. De cura, de vida, de esperança. Na porta escondida do outro lado, macas encerram tais esperanças.
De repente se me explodem todos os aparatos da ciência clínica. Todos os aparelhos parecem dispostos a espionar o meu corpo nos mais íntimos segredos. Dispo-me melancolicamente, nunca senti tanto a falta da folha de parreira no meio daquela sala fria, longe do Paraíso perdido. Bons tempos em que a juventude poupava-me de tão desconfortante vexame.
Surge o médico, surgem os paramédicos, surgem as máquinas, surgem os exames! Tomografia, ecografia, e tantas outras grafias espiãs do meu íntimo, que nos garantem a prevenção de todos os males. O médico diz para que eu relaxe, como se fosse possível diante da minha nudez intimidada. Justo eu, que sempre fui mais sincero quando despido das roupas. Enquanto passam o gel gelado e viscoso pelo meu abdome, colando-se aos meus pêlos, uma tela mostra o interior dos meus órgãos.
Como uma cobaia voluntária, tento seguir a sugestão do médico. Relaxo o constrangimento. Solto os pensamentos, distanciando-me dali. Penso na perecividade da vida. Penso em ti. Mais uma vez. Afinal o que tenho melhor para pensar no momento do que o sorriso que me presenteias quando te me olhas daquele jeito? Como não pensar no brilho que me arrancas do olhar quando te me enlaças em teus sortilégios românticos!
Penso em nós! Unidos pelo único e ambicioso desejo de querer arriscar a felicidade. Tu, que de repente, como um furacão atlântico, tornaste-te o meu mais doce segredo! Se eu partisse agora, levaria comigo este segredo infinito. Tão recente, que não o dividi com ninguém. Além de mim, ninguém ao meu redor sabe de ti, no entanto, nos últimos dias és a razão de todos os meus sorrisos. Se morresse agora, só tu saberias da minha emoção à flor da pele. Levaria comigo a nossa clandestinidade poética, o nosso desejo escondido, sem tempo de se romper para o mundo. Não teria quem se te dissesse que parti. Mas tu saberias que tinhas escrito uma página na minha turbulenta existência. E se fosse o contrário, quem me avisaria de ti?
Que pensamentos mórbidos esta clinica me traz. Não, estou por demais feliz para pensar no perecível, quero apenas a eternidade dos sentimentos!

“Os teus beijos são um filtro e uma ânfora, a boca,
Tornando o herói covarde e a criança arrojada”
Charles Baudelaire


As máquinas continuam a investigação do meu corpo. Meus pensamentos continuam distantes. Vejo em ti o germinar da roseira. Preciso aprender os segredos que te me faças desabrochar a mais bela rosa, com o aroma mais embriagante. Preciso regar-te com todos os carinhos, todas as ilusões do começo, onde só existe a doce vontade de construir. Preciso proteger-te do vento, para que os nossos medos não matem a fragilidade de tão bela planta, tão recente, pequenina, mas já com raízes a rasgar as profundezas do coração.
Penso em ti com a ousadia dos amantes! Penso nos contornos que se mostraram na tela do teu corpo. Imagino a minha mão a tocar a tua essência, o torpor que se exala da promessa da pele, construindo poemas com rimas de encaixes perfeitos. Penso na tua voz, cantando aos meus ouvidos, seduzindo-me, derrubando-me as defesas, reduzindo-me a mente ao sentimento. Este beijo que me engasga. Preso na garganta, como numa velha canção tropicalista, impetuosamente a pedir que se lhe me arranque!
Imagino o teu suor a misturar-se ao meu, o teu cheiro a perder a identidade diante de nós dois! Penso no gosto da boca, na descoberta da língua, na mordidela no queixo, na ponta da orelha. E quando as nossas mãos, mais decididas a desbravar nossos segredos, percorrerem sinais secretos, desnudarem a culpa do Adão caído, deixando-nos nus diante das verdades, penso no momento em que nossos olhos se hão de perder no infinito, quando no ápice da composição do poema da pele, velarmos a pequena morte de nós!
De repente sou tragado de volta do teu céu! E na Terra, deitado sobre um divã, com as mãos do médico a realizar diagnósticos, percebo o constrangimento que se me arremessou os meus pensamentos. Ruborizo! Como negar onde andaram os meus pensamentos, se na minha nudez de cobaia mostrei-me virilmente hirto!
“Fica comigo?... Fica comigo?... Fica comigo?... Fica comigo?...”

“Oh! como é bom
Ser essas coisas todas
Já não ser eu”
D. H. Lawrence


Anjo, o que tu fizeste de mim! Um adolescente, quase principiante, um amador nas paixões! Só me resta sair por aí. Pensar na vida, na individualidade que se já faz plural. A culpa não é minha, nem tua. É de Gal Costa! Da sua voz fatal de sereia, que nos arrebata em uma trilha sonora de vida, e nos arremessa aos rochedos dos sentimentos! Quem nos mandou ouvir as mesmas canções?
Ontem estava eu, tão seguro dos meus sentimentos. Tão perfeitamente apaixonado e bem correspondido pela minha solidão. Tão senhor da minha maturidade existencial. Dominador supremo das paixões. Que doce engano! Nem Narciso se fez maior do que a imagem refletida na fonte. Ontem, quando a lua não me prendia na plenitude do seu brilho, mostrando-se quase que indiferente no céu. Como se um poeta pudesse viver sem a embriaguez lunar.
Almoço tranqüilo. Sorrio sozinho, para o vão, para dentro de mim. Boa tarde! Abro o meu computador, escrevo um artigo. Ouço uma música, tão doce e suave, que até parece a nossa música. Olha o pronome “nossa”, aí de novo.
Digito palavras, que tomam formas obliquas. Passam as horas! A tarde está quente, seca, rascante no coração do Brasil. Hora do café! A bebida vem forte, encorpada, com o aroma perfumado! O café e a pele, dois sabores que se nos alimentam os prazeres da existência.
A verve do poeta já se ascende em mim. A lira de Apolo traz-me o cortejo de todas as musas inspiradoras. Preciso regar a pequena roseira de nós, que me venha todas as inspirações da emoção mais profunda, que me ponha mais próximo dos sentimentos, da luz etérea da felicidade.
A tarde está indo embora. O crepúsculo anuncia os últimos raios do dia. Paro o que estava fazendo. O momento da hora azul está chegando! Inspiro o ar. Expiro todos os medos que acumulava no peito. Sinto-me irremediavelmente feliz! Voltei a ser o adolescente passional, abraçando o ridículo dos homens insensatos, ou o esplendor dos apaixonados! Pego o celular. Releio a mensagem! Penso em uma frase. Quatro palavras, tão pequenas, mas infinitas nas entrelinhas. Quatro palavras e o adolescente insensato explodiria em mim. Sorrio feliz! O crepúsculo rouba a tarde. Quatro palavras e já me sinto infantil, quase ridículo. Sorrio. Estou de volta ao gênero humano! Digito as palavras! Envio a mensagem:
“Sim, anjo! Eu fico”

Texto de: Jeocaz Lee-Meddi
Fotografias: Tchiga (1 Petit Cadeau!!!, 3 Quebro-me, 4 Bed Time!!!!, 7 Publicidade), Paulo César (2 Pelos Céus, 5 Ridding To The Sky), Ricardo Machado (6 Espelhos Plurais), Stanislás Kalimerov (8 Jeocaz Pôr do Sol na Fonte da Telha), Milton Montenegro (9 Capa Gal Plural)

Um comentário:

Vitor disse...

Uma descrição eloquente de um simples dia intenso. Sei que é bem particular, mas tive que tomar pra mim parte de suas palavras. Perdoe ter invadido seu intimismo. Muito bom o jeito que escreve!