quarta-feira, 28 de abril de 2010

HOMEM OBJETO OU AS MIL RAZÕES PARA QUE NÃO ME ACOMPANHES - POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Não, não me confundas a insensibilidade. Queres seguir ao meu lado, por esta estrada sinuosa, repleta de curvas labirínticas, onde a paisagem exala um odor existencialista e brotam rosas de afiados espinhos? Não podes estar a falar sério, a desejar um destino tão preso ao vão da razão.
Sim, dou-te mil razões para que sigas ao meu lado. Só não me peças a luz das verdades camufladas. É tão difícil fazer-se acompanhado. Ou acompanhar alguém numa caminhada a dois. Nossas estradas nem sempre convergem para um desejo plural, um querer simultâneo, um gostar que nos quebre os espelhos de Narciso. O amor nem sempre ouve uma melodia suave.
Tento fazer-te o meu currículo amoroso, tão perfeito quanto aqueles que encontramos nas páginas virtuais. Tão idôneo quanto o de Adão antes do sabor da fruta da árvore da vida.
Sentes-te feliz com o que te apresento? Já sou a tua alma gêmea? Então por que só te agradaste do homem objeto que te apresentei? Músculos exatos, gostos sofisticados, alma compreensiva e terna, homem culto e desbravador de terras. Acreditas mesmo que sou tudo isto? E se não for, ainda serei a tua alma gêmea?

“Então vem, vamos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo ver certas ruas semidesertas”
T. S. Eliot


Quero mostrar-te mais de mim. Mas não consigo ir além das exigências que me faz contemporâneo. Queria desferir atos mais próximos dos sentimentos, mas minha profundidade não se encaixaria no perfil que se emprega os teus desejos. Queres o homem nu dos outdoors que te incendeia a libido. O homem das estrelas que te salve dos vilões do dia. Queres o homem que te sussurra palavras desenhadas nos teclados que te acendem o MSN. Dou-te todos eles em ilusões virtuais. Até te faço atingir o ápice do prazer além dos cabos que atravessam as mensagens cifradas. Sou-te compulsivamente eletrônico, irremediavelmente contemporâneo, adaptado aos males do nosso tempo.
Desliga um pouco o prazer virtual. Deixa fluir o sangue somente pelas veias, além dos cabos que te conecta ao vazio da atualidade. Esqueça um pouco o outdoor vintage da tv a cabo que traz o homem nu deitado sobre o urso e que o néon se te ilumina pela fresta da janela. Leia as entrelinhas do meu currículo amoroso. Não te iludas com as experiências apresentadas, com os lugares pelos quais passei para servir como graduação dos meus sentimentos. A cada experiência, vi-me à deriva do saber da alma humana. Aprendi com os meus erros. Perdi-me com os meus acertos. Só não desisti do poeta que há em mim. Dos versos que não rimei idade e vontade, querer e saber, sonhar e amar.

“E posso encontrar sob os ramos do amor e do ódio
E nas mais simples coisas que vivem apenas um dia,
A eterna beleza errante, errando ainda.”
W. B. Yeats


Ainda insistes no homem objeto? Na fugacidade do meu coração? Não te fies neste perturbado coração. Já o anunciei nos classificados dos mais sórdidos jornais. Ou nas páginas caricatas que anunciam relacionamentos virtuais. Não acreditas? Não leste os anúncios? Abra as páginas dos jornais, acesse as da internet! Lá estou, manso e oferecido, com um coração nas mãos. É só ler:
Vende-se um coração!
Sim, fiz este engodo. Anunciei a venda do que não me pertence. Jamais fui dono do meu coração. Se tudo que nos pertence é um empréstimo de Deus, o tempo, o ar, a vida, também o coração o é. Não me pertence, ser-me-á tirado quando findar a eternidade de mim. Anunciei o que não é meu, magnífico estelionatário do amor.
Aluga-se um coração!
E por que não? Se me foi emprestado, não via problema em sublocá-lo, alugar é estabelecer um contrato. A paixão venérea também. Sustenta-se enquanto houver o desejo, enquanto acreditamos na perfeição do objeto de desejo, na ilusão que pulsa os nossos passos rumo às emoções de outrem. O coração alugado pensa mais na paixão do que no amor, no momento fugaz do que no marasmo dos dias. Ele tem hora e prazo para acabar.
Dá-se um coração!
Dar o que nos foi emprestado, é conseguir ser maior do que o nosso vil sentimento de posse. Oferecer o que nos foi emprestado pelo amor divino. Dar é sempre tão extenso, como se a vaidade de nós não precisasse de brilho. Dar um coração é tão ser somente sincero quando proferimos a mais tênue mentira. Oferecer o coração nos classificados de um jornal virtual é ludibriar a solidão, é querer ser mais um entre tantos, quando se nos preparam para sermos individuais.

“A roda onde o nosso silêncio se quebra primeiro
O sexo que destrói em nós o que temos de íntegro
Inviolável, o nosso íntimo silêncio
E nos arranca um grito”
D. H. Lawrence

Basta de anúncios nos jornais, na internet. Basta de anúncios do coração! Definitivamente não sei o que faço com o meu coração. Mais fácil falar nos contornos do meu corpo, nos órgãos que se elevam mais contundentemente. Mais fácil e insuportavelmente menos definitivo.
Rasga o currículo amoroso! Rasga a roupa! Oferece-te na plenitude dos teus caprichos sensuais! Ensina-me o caminho das tuas malícias. Quero mostrar-me harto! Audaciosamente valente! Possessivamente viril. Infinitamente pessoal.
Eu sei, eu sei, disse-te que queria mais do que sexo, queria alcançar-te mais a alma do que o corpo, que estou cansado de momentos furtivos. Fui sincero. Mas se não tiver tempo ou sensibilidade de ver o inatingível em ti? E se o teu eu complexo não se adaptar ao meu egoísmo crônico? O que farei do homem objeto com o qual me apresentei e que tanto te fascinou? O que farei com o meu desejo se não transformá-lo em nosso?
Por mais paradoxal que possa ser, as verdades são maiores em mim quando dispo as roupas com as quais fantasio o meu ser. Por isto repito, rasga a roupa! Há mais sentimento entre a pele e a poesia do que sonha o nosso vão tesão.

“Haverá por certo um tempo
Para o fumo amarelo que desliza pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá um tempo, tempo
De compor um rosto para olhares os rostos que te olharem”
T. S. Eliot

Definitivamente não me sigas. Menti-te ingenuamente quando me propus ser sincero. E fui o mais sincero dos homens, quando pensava que nada te oferecia. Prometi-te a lua e dei-te um deserto. Neguei-te o meu eu, e revelei-te um céu estrelado. Melhor não fazer promessas, nada é eterno, nada. Os amores são vividos nos limiar de um tempo devorador, eles vêm e vão embora como uma primavera fugaz, deixando-nos fisicamente solitários, aprisionados atrás de uma porta fincada no coração, trancada para sempre pelo amor que partiu fisicamente, levando a chave que o encarcera eternamente dentro da nossa mente.
Vês como me mostro mais autêntico quando despido? Minha ironia começa a dar passagem para o meu eu sincero. Só não sei se suportarás a minha essência sem as máscaras, logo tu, que ao ler meu currículo amoroso de homem objeto, escreveu-me todos os e-mails apaixonantes e apaixonados. E agora, que acendes a lamparina de azeite, e vês o rosto riscado do teu Eros enganador, o que dizes? Decepcionastes com a revelação da luz? Ainda queres me seguir?
Um pouco mais de sinceridade e tornar-me-ei piegas. Mas gosto de ser piegas quando me apanho sentimental. Não faço parte do seleto grupo dos homens que se tornam bons maridos, ou dos que arrancam os suspiros quando se expõem em músculos viris, ou dos adoráveis marinheiros que abandonam seus amores nos portos da vida. Não sou o gladiador do mundo, o admirador dos heróis que não se deixam curvar pela fraqueza. Não, meus heróis são fracos, sensíveis, que apanham quando brigam, choram no escuro da saudade, e incompatibilizam-se com o mundo que se lhe abrem as existências, mostrando-se inadaptáveis.
Sou Van Gogh com a orelha decepada! Sou Montgomery Clift com o rosto desfigurado! Sou Federico Garcia Lorca sem a lua no céu andaluz! Sou Alexandre, o Grande, a acender a pira fúnebre de Heféstion! Sou a beleza etérea da angústia de cada um deles.

“É tempo de ir, do adeus
ao próprio eu, de encontrar uma saída
do eu caído”
D. H. Lawrence


Como vês, tens mil razões para me seguir, e outras mil para atravessares a rua, distanciando-te do meu caminho. Minha ironia, minha pressa, meus sortilégios, não te deixaram ver a sensibilidade que há em mim. O meu desejo não te deu tempo de ir além do sul do meu corpo.
Não te culpes. A culpa é da rosa, que oferece primeiro a beleza das pétalas sobrepondo-se ao aroma que exala. Sem nos avisar que quando caírem as pétalas, o seu perfume é o que ficará impregnado na nossa lembrança.
Sim, mostrei-te o meu corpo sob luzes de néon, exalei-te o meu cheiro na penumbra do quarto, e sei o quão doce permanecerá aquela gota de suor, que desceu sobre o teu corpo, desvendando-te alguns mistérios, numa infusão do aroma de nós dois. Ali eu fui o mais sincero dos amantes, deite-te a gota da minha essência, sem promessas, sem sonhos ofuscados pelas ilusões, sem que me apercebesse do sublime que havia em nós.

Texto de: Jeocaz Lee-Meddi

Fotografias: Davide Poggi (1 0094), Francesco Scavullo (2 Burt Reynolds DirctTv, Burt Reynolds Cosmopolitan Poster Central 1972), Claudio Poblete (3 [img_5354]), Damon Mclay (4 IMG_2371), Tchiga (5 Qual Meto Hoje??), Arquivo Pessoal Jeocaz Lee-Meddi (6 Jeocaz Lee-Meddi & Montgomey Clift), Andrey Dias (7 Numa Tarde em Casa), Nuno Manuel Baptista (8 S/T)

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