quinta-feira, 29 de abril de 2010

ESTREBUCHA BABY - ÁLBUM DE RUPTURA DE ZIZI POSSI

Zizi Possi é dona de uma das mais belas vozes femininas da MPB. De um timbre metálico que se derrama sobre uma interpretação emotiva cênica, quebrada por um lirismo melódico suave. Não se pode escrever sobre a Música Popular Brasileira nas últimas três décadas sem que se situe Zizi Possi no seu contexto, com pontuações marcantes em interpretações definitivas de “Nunca” (Lupicínio Rodrigues), “Meu Amigo, Meu Herói” (Gilberto Gil), “Asa Morena” (Zé Caradípia), ou nas presenças memoráveis nos antológicos álbuns de teatro de Chico Buarque, interpretando clássicos como “O Circo Místico” (Chico Buarque – Edu Lobo) e “Pedaço de Mim”, dueto de estréia ao lado do autor, em 1978.
A cantora consolidou a sua carreira nos atribulados anos 1980, quando as grandes intérpretes foram eleitas super estrelas, a MPB uma voz feminina, e as vendagens de álbuns tinham que alcançar milhares de cópias. O panorama fez com que muitas vezes, optasse por um repertório nem sempre coeso dentro de um mesmo álbum, deixando uma lacuna entre o que se esperava de uma voz de rara beleza e interpretação esplendorosa, e o que se era oferecido.
Em 1989 Zizi Possi lançou “Estrebucha Baby”, o seu melhor álbum da década, e um dos melhores da sua carreira. Apesar do título visceral, o disco é suave, um hino ao amor que se rompe, que está, partirá ou virá, sem que se deixe levar pela banalidade de faixas açucaradas.
Estrebucha Baby” é uma ruptura da cantora com a imagem imposta pelo estilo vincado de uma década de modismos impares. É o momento exato da transição, que levaria Zizi Possi à plenitude dos acústicos da década de 1990, escrevendo de vez o seu nome na constelação de grandes intérpretes da MPB.
Álbum com canções que não se repetiram mais em outros repertórios, traz uma atmosfera etérea, envolvente, a mostrar uma cantora que sem preocupações mercadológicas, entrega-se a mais pura e emoção e ao prazer de simplesmente cantar. “Estrebucha Baby” é isto, o prazer de ouvir uma das mais belas vozes da música brasileira em um sofisticado e sensível concerto, que se desdobra entre o experimental e lúdico, o latente e o suave, o transitório e o definitivo, sendo a apoteose final o canto límpido, na sua mais sublime essência.

A Mais Visceral das Canções e Suaves Versões

Estrebucha Baby”, lançado em 1989, chegava ao mercado em um momento confuso do cenário musical, que abria as suas portas para o fenômeno meteórico da lambada, das pseudoduplas sertanejas, e outros ritmos que romperam de vez com namoro entre o grande público e a MPB.
Produzido por Líber Gadelha, então marido da cantora, foi lançado em vinil, numa época que o formato já se ameaçava a ser extinto. A capa branca, estampava fotografias da cantora em preto e branco, um padrão obrigatório nos discos daquele ano, feitas no autódromo Nelson Piquet, por Flavio Colker. Traz dez faixas inéditas, que não se iria repetir, em sua maioria, em outros repertórios.
Estrebucha Baby” (Jean Garfunkel – Paulo Garfunkel), canção que dá título ao álbum, abre o disco de forma contundente, arrojada. Blues denso e desafiador, com uma letra repleta de ironia, quase a jorrar o sangue dos pulsos, a desenhar a repulsa do desejo, a arranhar o corpo em rasgos de emoção à flor da pele, onde o ciúme e o prazer mórbido, mas humano, através do sofrimento do objeto de desejo, quando já não nos pertence, vem de forma frenética, quase ultrajante, na voz potente de Zizi Possi, que já nos mostra a intenção de romper com o momento, ameaçando uma atmosfera que se nos mostra em princípio experimental, eclodindo com a segurança de uma grande intérprete. A canção é talvez, a mais visceral de todo o repertório da cantora.

“Você tola, mergulhou de cabeça
E o teu gato mal comeu
Tchau e benção
E agora chora tua doença
E corta os pulsos, cai de bruços
Lambe o chão
E o ciúme não compensa
Estrebucha Baby
Me dá prazer te ver assim”

Reconheço (Te Conosco)” (Silvio Rodrigues – Versão Ronaldo Bastos), chega como uma canção solta ao vento, à velocidade suave de uma cavalgada romântica, com imagens que tocam na certeza dos sentimentos, no reconhecimento do amor que se pincela em uma tela com cores de sentimentos primaveris. Zizi Possi retira da canção o fantasma estático que assombram as versões e, às vezes, fazendo-as menores do que as originais, dando a ela um quê de inédito. É daquelas canções que se reflete o mais terno dos apaixonadas quando sente o pulsar do sentimento no rosto que se desvenda do nada, fazendo-se reconhecido, como se ali estivesse toda a eternidade das ilusões.

“Menino
Te conheci entre os meus sonhos queridos
Por isso quando te vi
Reconheci meu destino”

A terceira faixa aposta em uma outra versão, “Quem Diria (You’ve Changed)” (Bill Carey – Carl Fisher – Versão Nelson Motta), antiga canção de 1941, um clássico do jazz, gravada por Billie Holiday e outros nomes ressoantes. Sussurro melancólico quando dois destinos separam-se fisicamente, mas que se mantêm presos no íntimo de cada um. Confrontação do que se sabe do objeto de paixão perdido através das pessoas e lugares comuns, quando já não se há o cenário erguido em que se desfilou o sentimento. Mais um momento em que Zizi Possi entrega-se ao puro prazer de cantar, e o ouvinte, ao de escutar.

“Não precisa mudar de assunto
Se o acaso nos encontrar
No mesmo bar, à beira-mar
Que já não é, que já não há”

Baladas de Amor em Duas Línguas

Um dos momentos mais belos do disco acontece quando a voz de Zizi Possi e o acordeão de Dominguinhos fundem-se na faixa “Dedicado a Você” (Dominguinhos – Nando Cordel). Somos transportados por uma balada doce, solitária, diluída na melancolia do mar e do brilho de uma lua enganadora. Zizi Possi retira a verve do agreste do universo intrínseco de Dominguinhos, dando-lhe uma atmosfera lúdica de maresia e céu estrelado. De assimilação instantânea, a canção foi a mais tocada do disco, tornando-se tema da novela “Sexo dos Anjos”, de Ivani Ribeiro, em 1989. É daquelas canções em que não se tem vergonha de ser suave no amor, muito menos de vir a ser piegas diante dos sentimentos.

“Vem, se eu tiver você no meu prazer
Se pudesse ficar com você
Todo o momento, em qualquer lugar
Ah! Se no desejo você fosse o amor
Durante o frio fosse o calor
Na minha lua, você fosse o mar
Vem, meu coração se enfeitou de céu
Se embebedou na luz do teu olhar
Queria tanto ter você aqui!”

O lado A do vinil era encerrado com “That’s All Want I From You” (Fritz Rotter sob pseudônimo de M. Rotha). Ao cantar em inglês, Zizi Possi não quebra o ritmo e a atmosfera do disco, que começou o primeiro lado visceral, percorrendo um caminho suave, desaguando-se neste clima intimista. A canção, uma balada romântica feita por Fritz Rotter, usando o pseudônimo de M. Rotha, foi lançada em 1954, tornando-se um clássico da música norte-americana. Teve vários intérpretes como Dean Martin, Dinah Washington, Nina Simone e Aretha Franklin, mas foi na voz de Jaye P. Morgan que se imortalizada. Sabiamente, Zizi Possi não optou por uma versão em português, arriscando-se a cantar em inglês, emprestando com maestria a sua voz a este clássico.

“A little love
Slowly grows and grows
Not one to come and go
That’s all I want from you
A sunny day
With hope up to the skys
Not a day to come and die
That's all I want from you”

Lançando-se do Telhado

O lado B do vinil era iniciado de forma frenética, trazendo a música mais movimentada do disco “Não Minto Pra Mim” (Prata – Jean Garfunkel – Paulo Garfunkel), fazendo dos irmãos Garfunkel os compositores mais privilegiados do álbum. A voz da cantora é introduzida em off, explodindo em um tom que simula a sensação de queda no ar. Mais um momento visceral, no qual Zizi Possi vem contundente, revitalizada após os momentos de puro teor romântico, quase indomável, sem medo de experimentações, vivendo como uma gata a miar em noite de cio retumbante, pronta para atirar-se sem medo do alto do telhado, ou a andar nos trilhos onde um comboio veloz ameaça irromper a qualquer momento. Era o retrato exato do momento pelo qual a cantora passava, arriscando a ir contra o que o mercado radiofônico exigia e insistia em tocar, forçando-a a romper com a gravadora onde estava desde o primeiro disco lançado, em 1978. E indo a fundo nos sentimentos, no amor, na raiva e no talento, atirou-se com maestria do marasmo do telhado, caindo magnificamente em pé.

“Vira e mexe me complico
Reciclo, tô farta, tô forte, tô viva
E só morro no fim
Lá do alto do telhado pula quem quiser
Só o gato que é gaiato
Cai de pé”

Você É” (Djavan), ensaia um blues, ilustrando a cor do jazz, várias vezes riscada pelo repertório, com um delicioso dueto entre o sax soprano de Zé Nogueira e os floreados da cantora. As melodias de Djavan são sempre maiores do que a poesia das suas letras, mas quando encontram vozes que descortinam este desequilíbrio sutil, as palavras atingem um ápice da alma humana que rasga a mais entranhada das sensibilidades. Gal Costa e Zizi Possi têm esse poder sobre o universo de Djavan. No início de carreira, em 1980, Zizi Possi tinha dado cor a este universo, ao gravar “Meu Bem Querer”, numa interpretação quase que épica. “Você É” mostra a sofisticação da cantora, entoando uma canção que não se torna mais uma, deixando a emoção fluir, numa sensação contida da melancolia da saudade, num clima que transcreve a imensidão da cidade diante do amor que partiu, esvaziou os sonhos em comum de vidas que se interligaram e que se perderam na poeira da distância.

“O mundo acabou
Pra recomeçar, em outro lugar
Na língua do amor isso quer dizer
Que sei lá, só se você voltar”

Subterfúgios da Paixão

Não me Deixe Mal” (Dalto – Cláudio Rabello), mais uma canção romântica, afirmando o amor como característica e proposta sincera de todo o disco. Momento de ruptura pessoal na vida da cantora, ela canta o amor sem disfarces e receio da exposição dos sentimentos. Evitar um sentimento no seu começo, quando ainda é irresistível, quando o salto é cego em quem não o viveu outras vezes, ou reticente naqueles que já se arranharam em seus espinhos. Evitar o sentimento que se inicia, algo impossível quando ele é ditador de verdades da alma, mais impossível tentar esquecê-lo quando ele já é real, quando subterfúgios de defesa nos fazem querer ver o igual de outrem.

“É difícil demais, é difícil
Evitar um amor no início
Dizer não antes de começar o prazer
Coração, mordido mais de uma vez
Tem razão mas não viu o que você fez
É difícil demais, é difícil
Evitar um amor no início
Esquecer o que a gente não quer esquecer
Não me deixe mal
Eu te quero mais
Mas não seja igual
Isso não se faz”

A Vida Corre (Anema a Core)” (D’Exposito – Tito Manlio – Versão Nelson Motta), terceira versão do disco, traz a presença luxuosa do arranjo e do violão de Roberto Menescal. O som mostra-se suave, dando uma expansão à melodia e à voz da cantora, já carente dos instrumentos acústicos, numa época em que se impunham os instrumentos eletrônicos como registro de modernidade musical. Naquele longínquo 1989, Nelson Motta assinara várias versões em discos da MPB, entre elas “Bem Que Se Quis”, de Pino Danielle, primeiro grande sucesso do disco da então estreante Marisa Monte. Nesta canção, a bela voz de Zizi Possi pede para que o amor não parta, não encerre a felicidade, não traga a dor.

“Amor, o belo é breve
E ador não morre
Se não estás
E se não há
Como te ver
Amor não haverá um outro dia
Que possa me trazer tanta alegria
A vida me sorri nesse teu riso
É tudo que eu preciso
Não vá embora”

Ápice Final

Quando o disco já parecia não trazer surpresas, ele era encerrado com “Meu Erro” (Herbert Vianna), numa magnífica e definitiva interpretação da cantora. É dada, aqui, uma roupagem totalmente diferente da original, transformando um rock agradável em uma grande canção da MPB, descobrindo um potencial que a letra exalava, mas que se afogava na fugaz jovialidade do rock. Zizi Possi mais uma vez, mostra-se visceral, criando uma atmosfera que se dilui ardente, passional, ampliando a canção numa dimensão que beira às rupturas de todo o intimismo da alma e dos sentimentos. A partir de então, “Meu Erro” deixou de se ser um sucesso temporão, para ser transformada em música madura e definitiva. A canção encerra o repertório com o ápice que se esperou por todo o disco.

“Mesmo querendo
Eu não vou me enganar
Eu conheço os seus passos
E eu vejo os seus erros
Não há nada de novo
Ainda somos iguais”

Estrebucha Baby” foi lançado em um momento que a MPB travava uma luta entre preservar a qualidade e agradar o mercado. Em um momento de saturação do filão que se estendera por uma década. Para compensar o mercado ávido de vendas, apostou-se em ritmos mais populares, dando ao público lambada, brega romântico travestido de sertanejo, fazendo com que se desacostumasse o grande público da MPB, voltando a torná-la elitista.
Zizi Possi foi, com este álbum, na contramão do exigido pelo mercado, tendo como resultado o seu fracasso comercial e uma receptividade fria, levando-a a romper com a gravadora Polygram, onde estivera desde 1978, quando lançou “Flor do Mal”, seu primeiro álbum de carreira.
Estrebucha Baby” foi feito para a posteridade, trazendo nos tempos atuais, uma beleza estética que não se deixou atingir pelo tempo. É um dos mais belos álbuns da carreira da cantora. A partir dele, uma fase mais ampla e sem compromissos mercadológicos, sensivelmente mais voltada para a qualidade, afirmou a cantora como uma das maiores da MPB.

Ficha Técnica:

Estrebucha Baby
Polygram
1989

Produção: Líber Gadelha
Co-Produção: Luís Farah
Coordenação da Produção: Maria Helena
Técnicos de Gravação: João Moreira, Márcio Gama, Jairo Gualberto e Chambinho
Assistentes: João Carlos, Sergio Rocha e Julio
Técnicos de Mixagem Digital: Luís D’Orey – Garrafa
Montagem Digital: Barroso
Corte Digital: José Antonio
Criação da Capa: Flavio Colker
Fotografia: Flavio Colker
Projeto Gráfico: Flavio Colker
Colaboração: Luís Stein
Arte Final: Ana Paula Guinle
Coordenação Gráfica: Arthur Fróes
Produção: Daniela Gueiros
Make Up: Pietro Ricci
Assistente de Fotografia: Robson Maurício
Gravado nos Estúdios Polygram e Som Livre
Mixado em Digital nos Estúdios Som Livre
Agradecimentos: Autódromo Nelson Piquet, Matias Marcier, Pilar Rossi, Marco Sabino e Mariazinha

Músicos Participantes:

Arranjos: Guto Graça Mello, Roberto Menescal, Eduardo Souto Netto, Zizi Possi e Líber Gadelha
Arranjos de Base: Banda* e Dominguinhos
Arranjos de Cordas: Chiquinho de Moraes e Jaques Morelenbaum
Violão: Roberto Menescal, Hildon e Rick Ferreira
Piano: Luís Farah e Zé Américo
Piano Acústico: Luís Farah
Teclados: Eduardo Souto Netto, Luís Farah e Julinho Pereira
Órgão: Luís Farah
Contrabaixo: João Batista, Piupiu e Tavinho Fialho
Bateria: Darcy Osório e Marcelo Costa
Acordeão: Dominguinhos
Violino: Paul de Castro, Michel Bessler, José Alves da Silva e Góes Penteado
Violino Spala: Giancarlo Pareschi
Viola: Arlindo Penteado e Frederick Stephany
Violoncelo: Alceu e Marcio Eymard Malard
Cello: Jaques Morelenbaum
Percussão Joe Vasconcellos, Barney e Marcelo Costa
Sax Soprano: Zé Nogueira
Guitarra: Líber Gadelha
Conga: Joe Vasconcelos
Coro: Ana Zingone e Patrícia Barbeitas

*A “Banda” que concebeu e executou alguns arranjos deste disco é formada por:
Bateria: Darcy Osório
Contrabaixo: Tavinho Fialho
Violão de Aço e Guitarras: Líber Gadelha
Piano Acústico e Teclados: Luís Farah

Faixas:

1 Estrebucha Baby (Jean Garfunkel – Paulo Garfunkel), 2 Reconheço (Te Conosco) (Silvio Rodrigues – Versão Ronaldo Bastos), 3 Quem Diria (You’ve Changed) (Bill Carey – Carl Fisher – Versão Nelson Motta), 4 Dedicado a Você (Dominguinhos – Nando Cordel), 5 That’s All I Want From You (Fritz Rotter sob pseudônimo de M. Rotha), 6 Não Minto Pra Mim (Prata – Jean Garfunkel – Paulo Garfunkel), 7 Você É (Djavan), 8 Não Me Deixe Mal (Dalto – Cláudio Rabello), 9 A Vida Corre (Anema a Core) (D’Exposito – Tito Manlio – Versão Nelson Motta), 10 Meu Erro (Herbert Vianna)

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