quarta-feira, 21 de abril de 2010

BRASÍLIA - A UTOPIA NO CENTRO DO BRASIL

Em 1999, quando o segundo milênio chegava ao fim, Brasília foi eleita a cidade símbolo do modernismo e maior expoente da arquitetura no século XX. Cinco décadas após a data oficial da sua fundação, continua a ser um dos maiores marcos arquitetônicos da humanidade, numa concepção que não se mostra datada, alcançando ainda uma atmosfera de total futurismo.
Feita para sediar a capital do Brasil, construída no seu centro geográfico, a cidade tornou possível a interligação entre todas as regiões de um país de dimensão continental. Trouxe progresso e integração entre o litoral e o interior brasileiros.
Considerada o epicentro convulsivo da política brasileira, a cidade é muitas vezes vista com desconfiança, numa atmosfera que irradia não só as decisões mais importantes do país, como a que concentra todas as conspirações urdidas nos bastidores do poder. Brasília é símbolo do poder, capital da política. Residência do presidente e dos seus ministros. Dos embaixadores e das suas embaixadas.
Brasília é também um dos maiores centros culturais do Brasil. Sua população fixa pulsa em torno da flutuante, tendo uma das maiores rendas per capita do país. Traz uma população oriunda de todos as regiões brasileiras, refletida em nativos arrebatados de todas as culturas e costumes.
Para comemorar os cinqüenta anos de fundação, a cidade abriu as portas a grandes festividades, onde mais de um milhão de pessoas desfilaram pela Esplanada dos Ministérios, centro pulsante brasiliense, numa apoteose que confirmou a utopia realizada de um lugar outrora sonhado por quase dois séculos. As festividades vieram em um momento de grandes cicatrizes para a cidade, que assistiu à queda do seu líder político maior, o governador do Distrito Federal, José Arruda, cassado por corrupção e violento atentado à dignidade pública.
Como capital federal, a cidade contemplou ao longo de cinco décadas, aos mais controversos jogos de poder. Da renúncia do então presidente Jânio Quadros, em 1961 ao forjado parlamentarismo instituído para que João Goulart pudesse assumir a presidência naquele ano; do golpe de estado instalado em 1964, à truculenta ditadura militar instalada a seguir. Presenciou o fechamento do Congresso em 1968, banindo de vez qualquer resquício de democracia por vários anos. Assistiu às frustradas votações de emendas que traziam a volta das eleições presidenciais, assim como o fim da ditadura e a volta da democracia. Brasília afirmou-se como capital em plena ditadura militar, tornando-se o palco definitivo dos ventos democráticos. Feita por homens de todo o Brasil, é uma cidade que, roubando costumes e tradições, adquiriu uma identidade impar e, ao mesmo tempo, uma pluralidade cultural visceral. Cinco décadas depois da sua fundação, Brasília continua a ser um ícone entre as cidades do planeta. Uma das mais belas concepções feitas pelo homem moderno.

Marquês de Pombal, Ecos de Uma Cidade no Interior do Brasil

Quando Dom João II assinou com os reis Isabel de Castela e Fernando de Aragão, em 1494, o Tratado de Tordesilhas, dividindo o mundo, ainda desconhecido, entre Portugal e Espanha, jamais pensou que o seu país colonizaria um gigante continental. Somente no reinado de Dom Manuel, em 1500, que a expedição portuguesa comandada por Pedro Álvares Cabral, chegaria às costas das terras já demarcadas pelo tratado assinado seis anos antes.
Por quase dois séculos o Tratado de Tordesilhas foi respeitado. O Brasil, colônia portuguesa, não ousou avançar além do meridiano 50.
Em 1578, o jovem rei português Dom Sebastião, desapareceu no meio de uma batalha nas mediações de Alcácer-Quibir, no norte da África. O monarca tinha apenas vinte e quatro anos e não deixou um herdeiro. Filipe II, rei da Espanha e neto de Dom Manuel, reclamou para si o trono português. Em 1580 tornou-se rei de Portugal e da Espanha, promovendo a união Ibérica, que só iria findar sessenta anos mais tarde. Durante a união Ibérica, a expansão da colônia do Brasil seguiu para o interior, ultrapassando o Meridiano de Tordesilhas, derrubando-o aos poucos. Em dezembro de 1640 foi restaurada a independência de Portugal, com a aclamação de Dom João IV como rei.
Com o fim da união Ibérica, a Espanha saiu enfraquecida, não conseguindo manter o Tratado de Tordesilhas como limite das fronteiras entre as suas colônias e as de Portugal na América do Sul. A expansão do Brasil para o interior foi feita sobre uma árdua luta, muito além do que estabelecera a linha imaginária de Tordesilhas, gerando um grande contraste civilizador entre o litoral e o interior da colônia. Desbravar o sertão era derrubar matas e civilizações indígenas, construir vilarejos em lugares inóspitos. A necessidade de unir o litoral e o interior de tão extensa área era vital para a concretização das fronteiras, tornando-se cada vez mais evidente. Já em 1761, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, então poderoso primeiro-ministro do rei Dom José I de Portugal, atento à necessidade de maior integração do interior com o litoral da colônia portuguesa da América do Sul, propôs a mudança da capital para o interior do Brasil. Em pleno século XVIII, foi a primeira vez que se esboçou a idéia da utopia que no século XX tornar-se-ia a cidade de Brasília.

O Sonho de Dom Bosco

A idéia de transferir a capital do Brasil para o interior precede à independência e constituição do Brasil como nação. Hipólito José da Costa, jornalista perseguido pela Inquisição, acusado de tentar implantar a maçonaria no Brasil, responsável pelo primeiro jornal brasileiro, o “Correio Braziliense ou Armazém Literário”, editado entre 1808 e 1823 em Londres, durante o seu exílio, redigiu artigos defendendo a transferência da capital para uma região de interior, interligando os rios que se dirigiam para o norte, sul e nordeste.
No processo que culminou com a independência do Brasil, em 1822, vários movimentos separatistas assolaram a recém-nascida nação, numa tentativa de descentralização do poder concentrado no Rio de Janeiro. Atento ao problema, José Bonifácio, alcunhado de Patriarca da Independência, influente político do Primeiro Império, fez referência, em 1823, a uma futura capital do Brasil construída no interior, sendo o primeiro a chamá-la de Brasília.
Reza a tradição que, ainda no século XIX, o sacerdote italiano João Melchior Bosco (1815-1888), conhecido como Dom Bosco, teria visto em um sonho a construção de uma cidade entre os paralelos 15 e 20 do Hemisfério Sul. A cidade sonhada por Dom Bosco fora erigida próxima de um lago, trazendo muita riqueza e prosperidade, onde jorrava latente o leite e o mel. Muitos interpretaram o lugar descrito pelo sacerdote católico como sendo a cidade de Brasília, numa visão poética e mística da sua concepção utópica. Em 1934 o padre foi canonizado pelo Vaticano como São João Bosco. Por este motivo místico, ele foi aclamado o santo padroeiro de Brasília.

O Retângulo Cruls

Com o fim da Monarquia, em 1889, foi outorgada a primeira Constituição da República, em 1891. Uma das deliberações dos constituintes republicanos foi a instituição de um dispositivo que incluía o que foi chamado de “meta mudancista”, consistindo na mudança da capital federal do Rio de Janeiro para o interior do país. O objetivo era interligar o país, tendo o seu centro como ponto de partida. Dali regiões nunca dantes alcançadas, como o norte e o centro-oeste, poderiam finalmente, vir a ser exploradas e habitadas.
Para o cumprimento da Carta de 1891, o então presidente da República Floriano Peixoto, nomeou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, com o objetivo de promover uma expedição de reconhecimento e exploração do Planalto Central, numa área localizada em Goiás. O engenheiro e astrônomo belga Luís Cruls foi incumbido de comandar a expedição, constituída por uma equipe de cientistas que em 1892, partiu para estudar as condições climáticas, a natureza do terreno, a orologia, a qualidade da água, o clima, a geologia, a fauna, a flora e outros conhecimentos da área do Planalto Central.
A área demarcada pela expedição ficou conhecida como Retângulo ou Quadrilátero Cruls, sendo os estudos realizados apresentados em 1894 ao governo republicano. Seguindo a tradição de dar nomes com procedência religiosa às capitais do Brasil, como São Salvador e São Sebastião do Rio de Janeiro, a comissão de Luís Cruls chamava a imaginária capital de Vera Cruz.
Desde a implantação da República, a idéia de transferir a capital federal para o Planalto Central jamais foi abandonada, mas foi sempre vista como uma utopia distante e inalcançável. No decorrer do centenário da independência do Brasil, em 1922, foi apresentado na Câmara um projeto que inseria o lançamento da pedra fundamental da futura capital federal às comemorações da independência. O então presidente Epitácio Pessoa, chegou a baixar um decreto, o de nº 4.494 de 18 de janeiro de 1922, determinando a demarcação da pedra fundamental, sendo escolhido o engenheiro Balduíno Ernesto de Almeida para efetuar a missão. No dia 7 de setembro de 1922, ápice da comemoração do centenário da independência, Balduíno Ernesto, em uma caravana constituída por quarenta pessoas, lançou a pedra fundamental da futura capital do Brasil no Morro do Centenário, na Serra da Independência, localizada a nove quilômetros da cidade de Planaltina, no Planalto Central.
Apesar de constar na Constituição, a mudança da capital brasileira para o centro do país atravessou o século XIX e a maior parte do século XX, como uma utopia distante, vista pelos céticos como um sonho mirabolante.

O Planalto Central Torna-se Um Imenso Canteiro de Obras

Na primeira metade do século XX o Brasil extinguiu a República Velha, em 1930, conhecida por privilegiar as oligarquias agrícolas do país; atravessou a ditadura de Getúlio Vargas, com a instituição do Estado Novo, em 1937. Com o fim do Estado Novo, em 1945, o país viveu um novo momento democrático, culminando com a promulgação de uma nova Constituição, em 1946. Nesta nova Carta, não se deixou de fazer referência à mudança da capital.
Em 1954, Café Filho, em sua curta passagem pela presidência da República, convidou o marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque para presidir a Comissão de Planejamento e Localização da Nova Capital Federal. O marechal e sua equipe situaram e delimitaram geograficamente a área do futuro Distrito Federal, sendo homologado por Café Filho o local exato de onde se ergueu Brasília. A comissão ainda insistia em denominar Vera Cruz à nova capital.
Em 1955, um acontecimento durante a campanha eleitoral de Juscelino Kubitschek selaria de vez o projeto de mudança da capital federal. Em um comício na cidade de Jataí, no estado de Goiás, o candidato à presidência foi indagado pelo eleitor Antonio Soares, se eleito fosse iria cumprir o que determinava a Constituição e transferir a capital federal para o Planalto Central. Juscelino Kubitschek refletiu por alguns segundos, em seguida respondeu afirmativamente, fazendo daquela promessa o seu objetivo de campanha.
Já como presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek desentendeu-se com o marechal José Pessoa, fazendo com que abandonasse a Comissão de Planejamento e Localização da Nova Capital Federal, sendo substituído pelo coronel Ernesto Silva. JK enviou um projeto de lei ao Congresso Nacional, criando em 1956, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), responsável pela edificação da cidade. No projeto, argumentava-se que o empreendimento seria autofinanciável através das receitas obtidas com a venda de lotes na nova capital, estendendo-se a construção por quinze anos. Após a aprovação da Novacap, Juscelino Kubitschek anunciava que entregaria a nova capital até o fim do seu mandato, surpreendendo aos céticos, que esperavam ver a cidade erguida lenta e gradualmente.
Em 30 de setembro de 1956, o Diário Oficial da União publicava o edital do Concurso do Plano Piloto. O projeto vencedor do concurso público foi o do arquiteto Lúcio Costa, que trazia um ousado desenho com o traçado de ruas obedecendo ao plano piloto. Outro arquiteto, Oscar Niemeyer, foi contratado pela Novacap para chefiar a divisão de arquitetura da companhia, projetando os principais prédios públicos da nova cidade. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, dois ícones da arquitetura brasileira, lançaram-se na maior aventura arquitetônica modernista do Brasil e do planeta, erguendo dos seus traçados uma das cidades mais bonitas já feitas pelo homem.
Confiante em concluir a sua audaciosa obra antes do fim do mandato, Juscelino Kubitschek, para espanto de todos, transformou o Planalto Central em um imenso canteiro de obras, suscitando a curiosidade e admiração de toda a nação, apreensiva e extasiada com o resultado que surgiria no meio daquele inóspito lugar no coração do Brasil.

Erigida a Nova Capital do Brasil

Durante a construção da nova capital, várias foram as críticas contra o empreendimento. A direita conservadora, liderada pela União Democrática Nacional (UDN), apostava na ruína política de Juscelino Kubitschek, achando-o demagogo e sem condições de avançar em tão ousada empreitada. Para surpresa dos seus opositores, o presidente mostrou-se arrojado, prometendo um crescimento econômico de cinqüenta anos em cinco.
Para a esquerda, principalmente os líderes políticos do proscrito Partido Comunista Brasileiro (PCB), eleitos sob a sigla do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), a construção da nova capital era uma forma do presidente Juscelino Kubitschek fugir do objetivo da reforma agrária. Na concepção da esquerda, construir a cidade em um lugar tradicionalmente comandado por oligarquias agrícolas, só faria mais poderosa à elite local, pois valorizaria o cerrado para empreendimentos restritos àquelas oligarquias, gastando uma fortuna dos cofres públicos que poderiam ser investidos na reforma agrária local, beneficiando milhares de brasileiros, e não somente à elite.
Contrariando àqueles que se lhe opunham, ou que não acreditavam que um dia o sonho de transferência da capital federal para o centro do Brasil tornar-se-ia realidade, Juscelino Kubitschek prosseguia com aquela que era considerada a sua maior obra. Paralelamente à construção de Brasília, uma eficiente e desbravadora linha rodoviária era traçada, composta pelas rodovias Belém-Brasília, com dois mil quilômetros de extensão; Fortaleza-Brasília, com mil e quinhentos quilômetros; Belo Horizonte-Brasília, com setecentos quilômetros; e, Goiânia-Brasília, com duzentos quilômetros. Era a interligação de todas as regiões do Brasil, numa indelével alteração na evolução da comunicação e incentivo ao desenvolvimento econômico além litoral.
No dia 21 de abril de 1960, às 9h00 da manhã, o presidente Juscelino Kubitschek fechava com solenidade os portões do Palácio do Catete, então sede do governo federal no Rio de Janeiro. Sob os aplausos do povo, o gesto encerrava de vez o papel da cidade maravilhosa como capital da República. Naquele mesmo dia, no Planalto Central, era fundada oficialmente a cidade de Brasília, nova sede da presidência da República e capital do Brasil.

Brasília, Cinco Décadas de Uma Jovem Cidade

Brasília é uma utopia que, em 21 de abril de 1960, tornou-se realidade. Nos primeiros anos após a sua fundação teve importância irrelevante. A cidade só se iria afirmar como importante centro político e urbano já na época da ditadura militar (1964-1985). No início, a localização de difícil acesso, intimidava a migração. Para incentivar as pessoas, o governo oferecia salários mais altos em comparação ao resto da União, com isto deu origem a um nível de vida superior às outras capitais estaduais, o que persiste até os tempos atuais.
A mudança das sedes dos órgãos federais para Brasília deu-se aos poucos. Hoje abriga as sedes dos três poderes federais: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.
Migrantes de todo o Brasil foram os habitantes pioneiros da nova capital. Somente a partir da década de 1980 que se formou a primeira geração adulta genuinamente brasiliense. Aos poucos a cidade, com hábitos herdados de todo o país, adquiriu uma personalidade própria e demasiadamente jovem para um país que já passou dos quinhentos anos de história.
Projetada há mais de cinco décadas, a capital federal reuniu ao seu redor diversas cidades satélites, abrigando uma população convulsiva de mais de dois milhões e seiscentas mil pessoas, confrontando o que se fora originalmente planejado, para abrigar seiscentas mil pessoas no ano 2000. Tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, Brasília não pode ser tocada em sua arquitetura urbana, o que faz com que se torne uma bomba ambulante diante de uma pequena população em seu núcleo central, e uma densidade demográfica exorbitante ao seu redor. Esta situação convulsiva gera, muitas vezes, sérios problemas de violência urbana, um grande mal que assola a cidade no século XXI.
Amada por seus habitantes, muitas vezes odiada pelo jogo de poder que se concentra nos labirintos dos seus prédios, Brasília é um símbolo de beleza arquitetônica em que o homem é o único e principal criador. Contrastando com a sua beleza artificial, o céu da cidade produz as mais radiantes cores que a natureza já proporcionou aos centros urbanos do planeta. Pequena em extensão, gigante em dimensão de importância política, a localização estratégica da cidade, no meio exato do Brasil, promove a sua ligação com todas as regiões do país, dando relevante importância ao interior de uma nação continental.
Importante centro cultural, Brasília é uma cidade que se firma como identidade nacional, produzindo grandes movimentos culturais que extrapolam as suas fronteiras, atingido o país através da música, arte e literatura. Erigida às margens do lago Paranoá, a cidade mostra-se sedutora e misteriosa, não perdendo o seu cerne modernista e digital de cunho futurista, refletidos em monumentos impares como o edifício do Congresso Nacional, o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto, a Catedral, a Praça dos Três Poderes e o Palácio do Itamaraty.

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