sexta-feira, 30 de abril de 2010

ATENTADO DO RIOCENTRO - A MPB SOB BOMBAS


Pressionada pelas comunidades internacionais, pelas provas irrefutáveis de tortura e assassínio nos bastidores dos serviços de inteligência, a ditadura militar brasileira, desgastada e agonizante, viu-se obrigada a mudar os seus métodos de repressão, oferecendo uma abertura política lenta e gradual, iniciada no fim do governo do general Ernesto Geisel.
Em 1979, o general João Figueiredo assumiu a presidência, herdando o processo de abertura iniciado no governo anterior. Diante do inevitável colapso da ditadura, o principal objetivo do último governo Figueiredo era trazer as tropas que estavam no poder de volta às casernas, sem que se lhe fosse imputadas culpas e responsabilidades pelos danos durante os anos que se mantiveram no poder, salvaguardando que viessem a responder pelas mortes nos seus porões.
Extinto o Ato Institucional nº 5 (AI 5), o processo de abertura tornou-se irreversível. A partir de 1979 os sindicatos tomaram fôlego, as greves por melhores direitos voltaram; o movimento estudantil reconstruiu as suas organizações extintas; lideres políticos e sindicais voltaram aos palanques, ressuscitando as comemorações do 1 de Maio, Dia Internacional do Trabalho; jornais de esquerda voltaram a circular nas bancas de revistas.
Assustados com as manifestações, silenciadas por anos através de uma aguda repressão, inconformados com o fim do regime instaurado em 1964, partes conservadoras do velho sistema passaram a promover atos de sabotagem no processo de abertura, radicalizando suas ações através de atentados terroristas com bombas explodindo bancas de revistas, redação de jornais de esquerda, sede de entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ou locais onde ocorresse apresentação de espetáculos de protesto. O terrorismo promovido pela ala radical do regime militar tinha como objetivos a desestabilização do processo de abertura e evitar a entrega do poder aos civis.
As comemorações do 1 de Maio, proibidas desde 1968, eclodiram por todo o país a partir de 1979, sendo pontuadas com grandes espetáculos reunindo os maiores nomes da Música Popular Brasileira da época. Em 1981, na noite de 30 de abril, um desses grandes shows realizava-se nos palcos do Riocentro, no Rio de Janeiro, quando uma bomba explodiu no estacionamento de carros local. Meia hora depois, uma segunda bomba explodia na casa de força quando a cantora Elba Ramalho fazia a sua apresentação. Além de ícones da MPB, como Chico Buarque, Gal Costa, Gonzaguinha, Zizi Possi e muitos outros, uma platéia de vinte mil pessoas assistia ao espetáculo. A bomba, explodida antes da hora, matou o sargento Guilherme Pereira do Rosário e feriu gravemente o capitão Wilson Machado, portadores dos explosivos. A fatalidade que matou os próprios algozes, evitou que se fizesse mártires dentro da MPB, desmascarando os serviços de inteligência da ditadura militar, encerrando de vez a fase das bombas sobre a abertura. A empreitada terrorista entrou para a história como o Atentado do Riocentro, sem que os seus mentores e envolvidos jamais fossem punidos.

Surge o Processo de Abertura

Na segunda metade da década de 1970 o panorama internacional começava a mudar dentro do contexto da Guerra Fria. O governo do então presidente norte-americano Jimmy Carter (1976-1980), passou a questionar a tortura empreendida pelas ditaduras sul americanas, historicamente apoiadas e financiadas pelos Estados Unidos. No Brasil, as mortes do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, vítimas de tortura nas instalações dos órgãos de segurança do governo, em 1975, chegavam ao conhecimento público, obrigando o regime militar a reconhecer, pela primeira vez, o uso da tortura como método de combate e repressão aos seus opositores. O fim da tática de guerrilhas como luta contra a ditadura pela esquerda, fazia com que esses órgãos fossem ultrapassados, e os seus agentes torturadores passassem a ser um incômodo para o regime militar.
Sofrendo um desgaste profundo pela pressão internacional; pela oposição de importantes seguimentos da população que apoiara a instauração do regime, em 1964, e que sofria na pele a prisão e desaparecimento dos seus filhos; pelo fim do período econômico chamado de Milagre Brasileiro, em 1973, mergulhando o país em uma profunda crise financeira; a ditadura militar viu-se obrigada a abrandar os seus métodos repressivos, a ensaiar a volta dos militares aos quartéis, e a trazer uma abertura política ao país.
O processo de abertura foi iniciado na segunda metade do mandato do presidente Ernesto Geisel, sendo feita de maneira estrategicamente meticulosa, lenta e gradual, para que se garantisse a saída do poder aos militares, sem que se lhe trouxesse traumas e retaliações futuras. A abertura punha fim ao que os militares chamaram de processo revolucionário, iniciado em abril de 1964.
A instalação do processo de abertura não foi fácil, encontrando grande oposição dentro das Forças Armadas, por parte de uma linha radical que se negava a entregar o poder para os civis e a considerar a distensão proposta pelo governo Geisel como uma traição aos princípios instaurados em 1964. Para evitar a abertura, a ala mais radical do exército ensaiou um contra golpe, em 1977, promovida pelo general Sylvio Frota, então ministro do Exército e um dos mais veementes candidatos à sucessão de Geisel na presidência. A contenda foi solucionada com a demissão de Sylvio Frota do ministério, em 12 de outubro de 1977, afastando-o do governo e da sucessão presidencial.
Com a linha dura e conservadora das Forças Armadas momentaneamente neutralizada, o processo de abertura germinava. Em 1978, o infame Ato Institucional nº 5 (AI 5), maior arma de repressão do regime militar, foi finalmente extinto, passando a não mais vigorar, a partir de 1 de janeiro de 1979.

Órgãos Repressivos Temem à Abertura

Com o fim do AI 5, o processo de abertura fez-se sentir em todos os setores da sociedade brasileira. Os sindicatos voltaram a se organizar, criando uma nova força no cenário político, particularmente o sindicato dos metalúrgicos dos arredores da grande São Paulo.
Também o movimento estudantil, setor mais perseguido e com maior número de lideranças torturadas, mortas e desaparecidas, ressurgiu pelo Brasil. Em 1979, a extinta União Nacional dos Estudantes (UNE), foi reconstruída, apesar de não ser reconhecida legalmente pelo regime militar.
Nos órgãos de comunicação, jornais, televisão, teatro e música, tiveram maior espaço para oferecerem produções engajadas. Jornais de entidades clandestinas, como “Hora do Povo”, do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR 8) e “Voz Operária”, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), voltaram a circular pelas bancas de revistas.
Antigas canções proibidas pela ditadura, como “Cálice” (Chico Buarque – Gilberto Gil), “Apesar de Você” (Chico Buarque) e “Para Não Dizer Que Não Falei das Flores – Caminhando” (Geraldo Vandré), voltaram a ser tocadas nas rádios, tornando-se símbolos da abertura e da luta contra a ditadura.
Foi neste clima de euforia que o general João Batista Figueiredo, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), assumiu a presidência da República, em 1979, herdando o processo de abertura do antigo governo. Diante da eclosão de vários movimentos a favor da abertura política e da volta da democracia, só restou ao último presidente militar tentar garantir o processo.
O desencadear dos acontecimentos irritou e atemorizou as alas mais conservadoras do regime militar. Os que mais temiam a mudança dos ventos no cenário político eram os órgãos de inteligência e de repressão, criados para combater às organizações de esquerda e à guerrilha urbana. Os dirigentes desses órgãos, outrora de relevante importância dentro do sistema, tornavam-se indesejáveis ao próprio regime, que na derrocada final, só queria voltar aos quartéis livres de qualquer trauma, varrendo a sujeira para debaixo do tapete. Com a extinção da luta armada pela esquerda, não se justificavam mais os órgãos voltados para a tortura e a importância que eles alcançaram,  e criara uma elite que se dizia salvadora do Brasil ante a ameaça vermelha e, com o processo de abertura, em vez das medalhas de honra, tinha que ser apagada dos registros dos que se diziam revolucionários de 1964. Cientes do fim iminente desses órgãos, existentes em todos os setores das Forças Armadas e nas polícias civil e federal, gerou-se uma linha dura e radicalmente opositora a que se extinguisse o regime militar. O medo desses dirigentes era que, uma vez no poder, antigos desafetos pudessem exigir as suas cabeças e fazer com que respondessem pelos atos de atrocidades outrora incitados pelo regime. Para evitar a possível punição dos torturadores, o regime agonizante criou atos institucionais que os iria proteger na transição do poder e, a própria Lei da Anistia (1979), que ao conceder perdão aos crimes políticos da esquerda, estendia-o aos torturadores e criminosos da direita, livrando-os de quaisquer represálias legais que se viessem a ser instituídas futuramente.

Bombas Explodem Pelo Brasil

Entre as organizações de inteligência e repressão que mais se opunham à abertura e à entrega do poder aos civis estavam: os DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), o SNI e o Centro de Informações do Exército (CIE). Juntos, eles tentavam convencer os setores mais moderados do regime a frear o processo de abertura, que inevitavelmente levaria ao fim do próprio regime militar.
Para desestabilizar o processo chamado pelo ex-presidente Geisel de distensão, a ala radical que insistia na continuidade da ditadura, passou a promover atos de terrorismo, com o intuito de assustar a população, atrair a conservadora e moralista classe média e, principalmente, atribuir os atos de violência à esquerda, forjando provas e evidências.
Os atos de terrorismos dos órgãos de repressão contavam com a certeza da impunidade, uma vez que existia uma tênue cumplicidade entre os serviços secretos das três Forças Armadas. O próprio presidente, João Figueiredo, tinha toda a sua carreira ligada àqueles serviços, tendo sido chefe do SNI, o que o fazia não querer se indispor com antigos companheiros de informação.
Os atos de terrorismo dos radicais do regime militar promoveram vários atentados à bomba, que eclodiram intensivamente por dois anos. O primeiro aconteceu no dia 4 de outubro de 1979, quando uma bomba incendiou o carro do jornalista Hélio Fernandes, no Rio de Janeiro.
O ano de 1980 foi marcado pela detonação constante de bombas em vários lugares, causando vítimas fatais. No dia 18 de janeiro daquele ano, uma bomba foi desativada em um hotel onde se hospedara Leonel Brizola. No dia 27, bombas explodiram durante os ensaios da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, destruindo o palanque onde se iria dar um ato de apoio à fundação do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), antigo MDB. Em 2 de fevereiro e 13 de março, bombas eram, respectivamente, desativadas no aeroporto de Brasília e no escritório do advogado Sobral Pinto, no Rio de Janeiro. Em 30 de maio, duas bombas explodiram em São Paulo, na sede do jornal “Hora do Povo”, órgão oficial do MR 8. De abril a setembro de 1980, várias bombas explodiram em bancas de revistas que vendiam jornais de esquerda, levando ao fechamento de várias delas. Em 17 de julho, uma bomba explodiu numa escola onde Leonel Brizola discursava.
Em 27 de agosto de 1980, aconteceria um ato de terrorismo da direita radical que iria abalar e emocionar o Brasil. Na tarde daquele dia, a sede nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, no Rio de Janeiro, tornar-se-ia palco de uma grande tragédia. Lyda Monteiro, funcionária da OAB há mais de quarenta anos, ao abrir uma carta endereçada ao presidente da ordem, posto que não tinha restrição de confidencial, foi surpreendida pela explosão de uma bomba. Sua sala foi totalmente destruída, trazendo uma triste imagem que lembrava um cenário de guerra. Lyda Monteiro teve uma parte do antebraço e a mão lançados na marquise do andar de baixo. Inconsciente, ela foi levada ao hospital, onde faleceu.
A repercussão do caso, fez com que as bombas cessassem por um bom tempo. O governo simulou uma tentativa de apuração dos fatos. Apesar de nunca esclarecido, o atentado fatal à sede da OAB, teve como suspeito principal o oficial da Aeronáutica, brigadeiro João Paulo Burnier, implicado em outros atos terroristas ao longo da ditadura.
No dia 30 de abril de 1981, a explosão de bombas aconteceria no estacionamento do Riocentro, no Rio de Janeiro, tendo como alvos principais, ídolos da Música Popular Brasileira, que se apresentavam em um show comemorativo ao 1 de Maio. O atentado voltaria a matar e a ferir, mas desta vez, os próprios algozes seriam as vítimas, desmascarando os terroristas para todo o Brasil.

No Estacionamento do Pavilhão do Riocentro

As comemorações do Dia do Trabalho, consideradas subversivas, proibidas e duramente reprimidas pela ditadura militar, voltaram com força em 1979. Desde então, o evento reunia líderes sindicais, políticos oposicionistas e artistas favoráveis à volta da democracia. As comemorações passaram a ser permeadas com shows dos maiores nomes da Música Popular Brasileira.
Reunindo cada vez mais simpatizantes do meio artístico, os espetáculos do 1 de Maio tornaram-se um grande ato de protesto à ditadura, atraindo a juventude de então, conclamando-a a lutar contra o regime militar. Dentro do vazio que se fizera com a aniquilação do movimento estudantil, a MPB passou a ser a maior voz ativa da luta pela liberdade nos anos da abertura política.
Em 1981, seria realizado o maior show da MPB em prol do 1 de Maio. Chico Buarque, Gal Costa, Gonzaguinha, Elba Ramalho, Zizi Possi, Ângela Ro Ro, Alceu Valença, Cauby Peixoto, Céu da Boca, estavam entre a constelação de estrelas da MPB que se iria apresentar. Promovido pelo Centro Brasil Democrático (Cebrade), entidade ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), então na clandestinidade, foi escolhido o Pavilhão do Riocentro, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, como local para a sua realização.
A promoção do evento irritou profundamente a ala radical da direita do regime militar, responsável pelos atos de sabotagem e terrorismo acontecidos nos últimos dois anos. A retaliação começou no dia 26 de abril de 1981, quando uma bomba explodiu na loja que vendia os bilhetes para o show. Uma hora antes, um telefonema anônimo alertava a administração do Riocentro, vociferando que o local “iria para os ares”. Apesar da atmosfera de tensão e medo, o show não foi cancelado, começando no horário previsto.
Antes do início, várias medidas suspeitas foram tomadas, indicando que o atentado teria sido minuciosamente preparado, envolvendo setores civis e militares. Poucas horas antes do início, o tenente César Wachulec, responsável pela segurança do Pavilhão, recebeu ordem de controlar exclusivamente as bilheterias, deixando vulnerável e precário o esquema de segurança, algo inédito quando ali havia grandes eventos. Ainda naquele dia, o coronel Newton Cerqueira, comandante da Policia Militar, suspendeu o patrulhamento ao local, alegando que era um evento particular, cabendo aos seus organizadores a responsabilidade da segurança.
Paralelamente, várias placas de trânsito no trajeto que conduzia ao Pavilhão foram pichadas com a sigla VPR, numa alusão à Vanguarda Popular Revolucionária, grupo de guerrilha que fora totalmente desmantelado em 1973. Era uma tentativa de forjar provas do atentado, incriminando a esquerda brasileira.
No estacionamento do Riocentro, um automóvel Puma cinza metálico, placa OT-0297, chegava ao local, conduzido pelo capitão Wilson Luís Chaves Machado, tendo ao seu lado, o sargento Guilherme Pereira do Rosário. O sargento carregava no colo um objeto macabro: uma bomba. No dia anterior, o Puma fora visto estacionado, ao lado de outros seis carros, no restaurante Cabana da Serra, localizado em um ponto isolado da estrada Grajaú-Jacarepaguá. Um funcionário do restaurante estranhou ao perceber que vários homens traziam armas na cintura, enquanto usavam uma das mesas do local para estudo de um mapa; desconfiado, ele telefonou para a polícia. Uma viatura chegou a ir ao local, ao ver a quantidade de carros, limitou-se a anotar as placas dos veículos, chamando reforços. Os carros, inclusive o Puma, deixaram o local antes da chegada das outras viaturas.

Explosão das Bombas no Riocentro

Por volta das 21h15, quando o capitão Wilson manobrava o Puma, provavelmente a dirigir-se para algum lugar onde o artefato seria implantado, a bomba explodiu no colo do sargento Rosário, matando-o instantaneamente. O capitão, apesar de ferido gravemente, sobreviveria à fatalidade.
O capitão Wilson Machado, na época com 33 anos, especialista em informações; e, o sargento Guilherme do Rosário, 35 anos, especialista em explosivos e pai de dois filhos, eram integrantes do DOI, braço direito do CODI do I Exército. Após a explosão, o capitão Wilson saiu pela porta esquerda do carro, com as mãos no abdome, segurando as vísceras expostas. Foi levado em estado critico para o Hospital Miguel Couto, apresentando ruptura do abdome, vísceras expostas, cortes profundos nas costas, mutilação no braço direito, perfuração nos intestinos, lesões nos olhos e ruptura dos tímpanos.
Dentro do Pavilhão, o show continuava normalmente, sem que se tivesse ouvido a explosão da bomba. Na platéia, mais de vinte mil pessoas vibravam com a apresentação dos seus ídolos. A explosão aconteceu no momento em que a cantora Elba Ramalho gritava “vote”, sendo acompanhada pelos gritos eufóricos da platéia, impedindo que se ouvisse o barulho macabro. Uma segunda bomba de maior potência explodiria minutos depois, às 21h45, na casa de força das instalações elétricas do Riocentro, errando o alvo, não fazendo vítimas. O barulho foi ouvido na platéia, soando como um estranho estampido. À medida que terminavam as suas apresentações no palco, os artistas eram, um a um, informados sobre os acontecimentos no exterior do Pavilhão. No fim do espetáculo, o cantor e compositor Gonzaguinha, dirigiu-se à platéia, informando-a que bombas foram atiradas no exterior, pelos que eram contra a democracia.
Do lado de fora, jazia um cadáver, um homem encontrava-se gravemente ferido, militares à paisana desfilvam aflitos. Às 22h30, após duas explosões, a polícia chegou ao local. Uma terceira bomba foi encontrada dentro do Puma, sendo desativada pelos peritos da polícia.
O show comemorativo do 1 de Maio de 1981, quase que se transformou em uma grande tragédia, podendo matar artistas populares e pessoas da platéia. Se a estratégia do atentado fosse consumada, causaria uma das maiores chacinas da história recente do Brasil. Para infelicidade dos que planejaram o atentado, em vez de fazer mártires, o ato terrorista justiçou de forma estranha, todas as bombas que explodiram pelo país, atingindo os seus algozes, causando mais repulsa às vitimas do que compaixão da opinião pública.
A resposta da MPB ao atentado viria menos de um ano depois, quando foi realizado outro grande evento de repúdio à ditadura, o “Canta Brasil”. O show reuniu mais de cem mil pessoas no estádio do Morumbi, em São Paulo, em 7 de fevereiro de 1982. Desta vez, a conservadora TV Globo transmitiu o grande espetáculo ao vivo para todo o Brasil. Um dos momentos mais emocionantes foi quando a cantora Simone surgiu cantando pela primeira vez em rede nacional, com lágrimas nos olhos, “Para Não Dizer Que Não Falei das Flores – Caminhando”, canção de Geraldo Vandré, proibida pela ditadura de ser tocada em cantada em público. Simone, que havia interpretado a música no seu show de fim de ano, no Canecão, em 1979, desta vez cantava para todo o país. Cem mil pessoas fizeram coro, transformando em uma única voz o canto que estava preso na garganta de todo o Brasil desde 1968.

Conclusão dos Inquéritos do Atentado ao Riocentro

A repercussão do atentado causou a indignação de todo o Brasil. Telefonemas anônimos foram dados para as redações dos jornais, atribuindo a responsabilidade do ato terrorista a um certo Comando Delta.
O fracasso do atentado levou o SNI a tentar encobrir o caso. Notas do DOI-CODI divulgavam que os agentes foram designados para o local, para a investigação de dados sobre uma possível ação subversiva, sendo vítimas da bomba, implantada no carro quando o capitão saíra para urinar e o sargento para esticar as pernas.
Mas as evidências de que os agentes do carro eram autores do atentado tornavam-se irrefutáveis. O coronel Luís Antonio do Prado Ribeiro, indicado para presidir o inquérito policial militar instaurado para averiguar o caso, foi afastado tão logo chegou à conclusão do óbvio. Seu substituto, o coronel Job Lorena de Sant’Anna, havia discursado no enterro do sargento Guilherme do Rosário, declarando que ele fora vítima de um ato terrorista.
Durante o andamento do inquérito, vários fatos foram ignorados, ou omitidos, entre eles a destruição da genitália do sargento, confirmando que ele transportava a bomba no colo e, o pedido do capitão Wilson, ao ser transportado para o hospital, que se telefonasse para um certo número e relatasse o sucedido a Aloísio Reis, codinome do coronel Freddie Perdigão Pereira, integrante do SNI, que já fora membro do Grupo Secreto, organização de direita que realizara vários atentados a bomba. O inquérito foi concluído, declarando os dois agentes como vítimas de um atentado terrorista.
Mesmo diante da manipulação do inquérito, o atentado causou uma crise profunda no governo de João Figueiredo levando o poderoso general Golbery do Couto e Silva, a pedir demissão da chefia da Casa Civil. Em outubro de 1981, o inquérito foi arquivado.
Em abril de 1991, dez anos depois do ocorrido, o ex-presidente João Figueiredo, que deixara o poder em 1985, declarava, contradizendo o que falara na época, estar convencido de que o atentado fora obra dos militares vitimados pela bomba. Em março de 1999, após dezoito anos do atentado, considerado o maior ato terrorista urbano da história do país, o inquérito foi reaberto, a partir da declaração do general Octávio de Aguiar Medeiros, ex-chefe do SNI, afirmando que soubera do atentado uma hora antes dele ser deflagrado, através do general Newton Cruz, que já saberia do plano um mês antes. Na época, houve uma grande tentativa de evitar que o caso fosse proscrito, ao completar vinte anos, em 30 de abril de 2001.
Após três meses de investigações, o encarregado do inquérito policial militar, general Sergio Conforto, encerrou o trabalho, responsabilizando quatro militares pelo atentado: o já promovido coronel Wilson Machado, ocupante do Puma, indiciado por homicídio qualificado; o general da reserva Newton Cruz, ex-chefe da Agência Central do SNI, indiciado por falso testemunho, prevaricação e condescendência criminosa; o sargento Guilherme do Rosário, morto no atentado; e, o coronel Freddie Perdigão Pereira, chefe da agência do SNI do Rio de Janeiro, na época, falecido em 1997, sendo apontado como mentor do atentado.
Em 4 de maio de 2000, o Caso Riocentro foi definitivamente arquivado pelo ministro civil do Supremo Tribunal Militar (STM), Carlos Alberto Marques Soares, alegando que o poder de punição do Estado teria cessado, já que uma decisão anterior do STM enquadrou o caso na Lei da Anistia, apesar da Lei da Anistia ser aplicada somente aos crimes cometidos entre 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979.
Apesar da impunidade, o atentado do Riocentro mudou o rumo estratégico da gestão de João Figueiredo, com a renúncia do general Golbery do Couto e Silva, considerado o cérebro do governo. Os atentados com bombas foram finalmente desmascarados, mostrando a face de quem os promovia. Acelerou a extinção dos órgãos de repressão do governo militar.
Apesar de intimidados, os reacionários remanescentes, em 14 de novembro de 1983, explodiriam a última bomba do regime militar. Naquele dia, um carro-bomba foi pelos ares no estacionamento do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Um comentário:

Aguinaldo Ramos disse...

Aproveito esta postagem, em que colaboro (sou autor da foto da sala de D. Lyda, na OAB, pelo JB), para lhe parabenizar pelo fôlego e pela qualidade do blog!
Mas, só dei uma olhada, vou retornar...
Abs,
Aguinaldo Ramos