terça-feira, 30 de março de 2010

SÍMBOLOS PAGÃOS NAS FESTAS CRISTÃS

A expansão do cristianismo pelo mundo ocidental fez com que se lhe fosse imputado vários costumes da Europa pagã, modificando profundamente os princípios e tradições judaicas em cima dos quais foi criado. A conversão de Roma foi uma das responsáveis pela helenização cristã, abrindo portas para que se lhe fosse adaptadas velhas tradições das religiões primitivas do continente europeu.
As festas cristãs são retratos vivos de velhas encenações e iniciações de ritos pagãos. As comemorações de dias santos dedicados às nossas senhoras locais não passam de adaptações aos rituais às deusas primitivas, reverenciadas na época das plantações e cultivos dos alimentos.
A maior evidência da transformação dos ritos pagãos em liturgias e comemorações cristãs está nas suas principais celebrações, o Natal e a Páscoa. Criado para celebrar o nascimento de Cristo, o Natal nada mais é do que uma adaptação da primitiva Saturnália, festa romana para evidenciar o solstício de inverno na cidade mais poderosa do mundo antigo. A Páscoa talvez seja o evento mais puramente ligado ao cristianismo primitivo, visto que o próprio Jesus Cristo não deixou de festejá-la, cumprindo as velhas tradições judaicas nas quais estavam inseridas as suas afirmações messiânicas. Quando cristianizada, a Páscoa deixou de comemorar a saída dos judeus do Egito para celebrar a ressurreição de Cristo.
A cristianização expandiu-se, matando velhas religiões pagãs, mas não extinguido os seus costumes. Nas duas principais celebrações do cristianismo, Natal e Páscoa, vamos encontrar as raízes mais arraigadas dos cultos aos deuses extintos, através dos símbolos que se popularizaram e tornaram peculiares aos festejos contemporâneos destas datas. Da árvore natalina ao ovo pascoal, velhos símbolos de religiões pagãs afirmam a fé do homem, renovada através dos conceitos que se lhe impõem o tempo e a necessidade de adaptação da presença divina à evolução dos costumes.

A Árvore de Natal

A data exata do nascimento de Jesus Cristo jamais foi revelada nos evangelhos, livros que documentaram a sua passagem de vida e ensinamentos. Não há referências ao mês, nem mesmo à estação específica. A única pista é a dos pastores que visitaram o recém nascido, eles ainda estavam nos campos, o que nos faz eliminar o mês de dezembro, visto que o inverno rigoroso do hemisfério norte não possibilitava a ação.
Com a cristianização oficial de Roma no século IV, velhas tradições pagãs não conseguiram ser eliminadas pelos romanos, entre elas a sua mais importante festa, a Saturnália, homenagem ao deus Saturno. Com celebração que durava uma semana, era a festa mais sagrada da Roma antiga. A Saturnália culminava com a comemoração do nascimento do deus menino Mitra, no dia 25 de dezembro, data do solstício de inverno no antigo calendário romano, equivalendo ao dia 20 ou 21 do calendário atual. Na falta de uma data exata para comemorar o nascimento de Jesus Cristo, 25 de dezembro deixou de pertencer à data natalina do menino Mitra, dando lugar ao menino Jesus, e, ao Natal cristão. Já no almanaque romano, em 336 a.D., a Saturnália tinha deixado de ser pagã.
Com a evolução e expansão do cristianismo, o Natal passou a ter símbolos específicos, sendo acrescentados através dos séculos. Muitos costumes natalinos seguiam tradições dos lugares mais recônditos onde a data era celebrada. Com a evolução dos meios de comunicações, rompendo isolamentos culturais seculares, os símbolos natalinos passaram a ser uniformes em quase todo o mundo cristão.
A árvore de natal, um dos símbolos mais arraigados da data, tem a sua origem, segundo algumas versões históricas, bem antes do nascimento do próprio Cristo. Cultos de religiões primitivas tomavam as árvores como um reflexo divino, pulsação da energia da deusa mãe através da natureza, sendo muitas delas sagradas e merecedoras de culto. Povos indo-europeus costumavam, durante o inverno, enfeitar os carvalhos quando as folhas se lhes caíam por esta época, atraindo com o ritual o espírito da natureza, afastado pelo rigor das trevas das noites longas daquela estação.
Como símbolo natalino, não se sabe ao certo quando a primeira árvore foi enfeitada. Atribui-se ao monge e teólogo alemão, Martinho Lutero (1483-1546), reformista da igreja católica e pai das idéias da reforma protestante, o primeiro registro de ter enfeitado uma árvore de natal. Reza a tradição que em uma noite de 1525, ao passar por um bosque, Lutero inspirou-se nas estrelas que brilhavam no céu para enfeitar uma árvore com velas e mostrá-la às crianças, numa alusão de como seria o céu iluminado na noite do nascimento de Cristo. Lutero usou o pinheiro, árvore que representa a força da natureza, estando sempre verde mesmo debaixo do mais rigoroso inverno, assim como a fé cristã.
Em 1841, o príncipe Albert (1819-1861), marido da rainha britânica Vitória, teria montado uma árvore de natal no palácio real, sendo imitado pelos súditos da mulher por todo o então imenso império britânico, tornando-se um hábito. Em 1912, foi montada a primeira árvore natalina em local público, em Boston, nos Estados Unidos.

O Presépio Vivo de Francisco de Assis

A encenação nas festas bacantes deu, na Grécia antiga, origem ao teatro. Várias manifestações religiosas pagãs simulavam cenas dos mitos ou divindades adoradas. O presépio, na sua origem, foi uma representação ao vivo com pessoas a simularem o nascimento de Cristo. A sua origem remete à Idade Média, em 1223, quando São Francisco de Assis (1181-1226) montou uma cena da natividade, usando pessoas e animais em um cenário feito de palha, numa gruta perto da cidade de Greccio, na Itália central. O presépio vivo, com um boi, um asno , alguns camponeses e pastores pobres da região, retratavam o local humilde onde nascera Jesus Cristo. Também a tradição da Missa do Galo é atribuída a Francisco de Assis, quando ele permitia que a população visitasse o seu presépio vivo à meia-noite do dia 24 de dezembro, hora que simbolizava o nascimento de Cristo, seguindo com a celebração de uma missa.
Antes de Francisco de Assis, há relatos de que um presépio teria sido montado no século VIII, na igreja Santa Maria Maggiore, em Roma.
O presépio vivo de São Francisco de Assis tornou-se uma tradição nas igrejas católicas, sendo copiado em diversos lugares. No decorrer do tempo, a igreja permitiu que as personagens vivas dos presépios fossem trocadas por figuras estáticas. A partir do século XVIII, os presépios tornaram-se comuns por toda a Europa, sendo expandido pelo novo continente americano. Aos poucos, foi adquirindo as formas atuais.

O Mítico Papai Noel

O maior mito contemporâneo símbolo do Natal é o simpático e bondoso Papai Noel, ou Pai Natal. A inspiração do personagem vem de Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mira, atual Turquia, que viveu no século IV. Nicolau costumava ajudar quem estava em grandes dificuldades financeiras, com moedas de ouro que punha anonimamente em um saco, deixando-o na calada da noite na casa dos necessitados. Depois de morto, foi canonizado como São Nicolau, sendo-lhe atribuídos diversos milagres.
A partir da figura de São Nicolau, a concepção do Papai Noel tomou forma através do americano Clement Clarke Moore (1779-1863), professor de literatura oriental e grega do Columbia College, no século XIX. Em 1822, ele teria escrito para os filhos o poema “Uma Visita de São Nicolau” (A Visit From St. Nicholas, ou Twas the Night Before Christmas) , lançado anonimamente em 23 de dezembro de 1823, em Nova York. No poema, São Nicolau visitava as crianças na noite de Natal, viajando em um trenó puxado por renas, trazendo brinquedos para elas, entrando pelas chaminés das casas. O poema só foi incluído na obra de Clement Clarke Moore em uma antologia lançada em 1844. Alguns estudiosos duvidam que tenha sido escrito por ele, atribuindo-o ao nova-iorquino Henry Livingston Jr.
A imagem de um velho alegre, gordo e de barba branca, trajando casaco vermelho de gola e punhos brancos, calças vermelhas com bainha branca, cinto e botas de couro preto, que se tornou universal, surgiu em 1886, na revista Harper’s Weeklys, numa edição especial de Natal, ilustrada pelo caricaturista e cartunista Thomas H. Nast (1840-1902). O desenho de Thomas Nast definiu a imagem sugerida no poema de Clement Clarke Moore, sendo difundida primeiro nos Estados Unidos e Canadá, espalhando-se pelo resto do mundo, perpetuando-se até os tempos atuais.
Papai Noel é o símbolo natalino que não sofreu influência das religiões pagãs, sendo uma composição da mitologia contemporânea ocidental. Em alguns lugares da Europa ele é às vezes representando como bispo, trazendo uma mitra episcopal, num resgate à imagem de São Nicolau.

O Cartão Natalino

Aparentemente, o cartão de Natal é um símbolo e costume mais recente nas comemorações da tradição. Mas as mensagens de felicitações escritas remontam, segundo historiadores, a tempos antes da era cristã. Os romanos costumavam enviar congratulações na travessia dos anos, gravadas em tábuas de argila. O costume sobreviveria à cristianização daquela civilização antiga.
Outros povos utilizavam o barro cozido, a seda, o pergaminho, placas de madeira e cobre, para gravar dedicatórias que expressavam os seus sentimentos em forma registrada.
O primeiro cartão natalino teria surgido oficialmente em Londres, na Grã-Bretanha, em 1843, quando Sir Henry Cole (1808-1882), chegou à conclusão de que escrever manualmente cartas de felicitações aos amigos requeria tempo que às vezes ele não tinha, pedindo ao artista plástico John Callcott Horsley (1817-1903) que lhe elaborasse um cartão de boas festas para poder enviar aos familiares e amigos mais próximos.
O cartão enviado por Henry Cole, elaborado por John Callcott Horsley, trazia no centro o desenho de uma família reunida à mesa, bebendo à saúde de um amigo. A idéia tornou-se moda em Londres, espalhando-se rapidamente pelo mundo, tornando-se um símbolo natalino.
No mundo contemporâneo, o cartão de Natal adquiriu a forma virtual, sendo largamente enviado através de e-mails, mantendo assim, a tradição surgida no longínquo século XIX.

Símbolos da Páscoa

A comemoração da Páscoa é a mais genuína festa do cristianismo, a sua celebração foi feita pelo próprio Jesus Cristo. Sua origem remota dos primórdios da civilização hebraica, sendo celebrada para lembrar a libertação daquele povo da escravidão no Egito dos faraós.
Jesus Cristo foi morto durante as comemorações da Pessach. Ele viera à cidade de Jerusalém para a celebração do evento, um costume do seu povo. Durante os festejos foi preso, julgado e crucificado. Na tradição cristã, ele ressuscitou no domingo de Páscoa. Os acontecimentos mudaram o sentido da festividade para os cristãos, deixando a tradição judaica de celebrar à libertação daquele povo, para demarcar a nova aliança entre Cristo e os seus seguidores, refletida na ressurreição que perpetuou e consolidou o cristianismo messiânico.
Com a cristianização dos povos indo-europeus, a Páscoa cristã assimilaria costumes pagãos que se lhe impregnaram de forma indelével. O ovo e o coelho, símbolos absolutos da Páscoa cristã contemporânea, derivam de rituais antigos de uma Europa pagã e dos seus deuses extintos.
Na mitologia nórdica, germânica e anglo-saxã, havia o culto à deusa Eostre (Ostera), símbolo da fertilidade e do renascimento. O festival de Eostre era comemorado pelos antigos povos do norte da Europa no fim do mês de março, quando se dava o equinócio da primavera no hemisfério norte. A primavera era tida como o momento da renovação da vida, adormecida durante a aspereza do inverno. Os rituais que celebravam cultos à deusa, tinham como símbolos a própria primavera, a lebre e ovos pintados com runas. Para esses povos, o ovo era o próprio símbolo da renovação da vida, seu renascimento. A lebre, animal conhecido pela facilidade de reprodução, de uma gestação que tem a duração do ciclo lunar, era o expoente máximo da fertilização.
Durante os cultos em homenagem a Eostre, as sacerdotisas da deusa eram tidas como capazes de prever o futuro, observando as entranhas de uma lebre sacrificada. O ritual acontecia durante a Lua cheia, o que associava Eostre ao satélite e às deusas lunares da fertilização.
A cristianização daqueles povos europeus não se lhe arrancaram os costumes pagãos. A solução foi transformar as festividades em homenagem a Eostre na Páscoa cristã, celebrada na mesma época do equinócio de primavera. Na versão cristã, os nomes da festividade foram preservados nas línguas do norte europeu, sendo Easter em inglês e Ostern em alemão. Os ovos continuaram como símbolos da celebração, e a lebre foi substituída pelo coelho.
Os dois símbolos, os ovos e o coelho, propagaram-se para outros povos cristãos durante a celebração da Páscoa. Em alguns países cristãos, os ovos cozidos são decorados com desenhos e formas abstratas, a lembrar as antigas runas. Alguns países utilizam as amêndoas revestidas por glacê, dando um aspecto de pequenos ovos. Em outros, os ovos foram substituídos por chocolate, sendo moldados naquele formato.
Por ser um costume considerado demasiadamente pagão, que honra uma deusa extinta e não à ressurreição de Cristo, igrejas cristãs protestantes aboliram tais símbolos, comemorando a Páscoa com vinho e pão, como era feito no cristianismo primitivo, ligado profundamente aos costumes judaicos.
Páscoa e Natal, principais festejos do cristianismo, traduzem nos seus símbolos o universo das tradições populares que não se vergaram à doutrinação da religião que abraçaram. Com o passar dos tempos, o verdadeiro significado de cada símbolo foi perdido, sendo vistos como genuinamente cristãos, a milhares de anos luz de distância da tradição secular, perdida na extinção do paganismo ocidental.

Veja também:

ORIGEM DO NATAL
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/12/origem-do-natal.html

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