segunda-feira, 29 de março de 2010

OPERAÇÃO BROTHER SAM - OS AMERICANOS NO GOLPE MILITAR DE 1964

No início do século XX, quando a Europa mergulhou em guerra, surgiu uma nova potência mundial, os Estados Unidos da América. Aperfeiçoando a indústria bélica, vendendo armas e financiando os países envolvidos nos conflitos da Primeira Guerra Mundial, os EUA firmavam-se como uma nação rica, criando um conceito de vida, sustentado por uma economia expansionista, uma democracia interna eficaz e uma ideologia a ser aplicada para o resto do mundo.
Enquanto a Europa enterrava os seus governos totalitários, deixando cicatrizes indeléveis em povos que tiveram que sobreviver aos danos do nazismo, fascismo, stalinismo, franquismo ou salazarismo; os americanos mostravam para o mundo o exemplo sólido da sua democracia. O que não ficava explícito para os demais países é que a democracia estadunidense só servia para aquele país e, para mantê-la, os seus governantes atados a um bipartidarismo secular, financiaram as mais sangrentas ditaduras pelo mundo, com intervenções logísticas e militares que muitas vezes não se furtaram em se impor pelas armas e por guerras longas e sangrentas.
No contesto da Guerra Fria, a democracia interna dos EUA foi assegurada por uma política de apoio a ditaduras militares expandidas pelo continente americano. Quando Cuba, em 1959, rendeu-se à revolução socialista, afrontou à hegemonia norte-americana nas Américas, fazendo com que os EUA patrocinassem golpes de direita, geralmente vindos das casernas, onde os seus padrões militares eram ensinados nas academias.
Em 1964, uma operação fantasma, que passou para a história como “Brother Sam” (Operação Irmão Sam), quase culminou com a intervenção militar direta dos EUA no Brasil. A Operação Brother Sam consistia em uma invasão rápida das forças armadas norte-americanas ao Brasil, com o objetivo de apoiar os deflagradores do golpe de Estado que derrubou o presidente João Goulart. Sua missão era reprimir qualquer tentativa de apoio de militares que fossem fiéis ao governo deposto. Para efetuar a missão, foi desencadeada a força militar da Frota do Caribe, tendo à frente um porta-aviões da classe Forrestal da marinha dos EUA e outro de menor porte, trazendo todos os artefatos bélicos prontos para o confronto direto.
Ao ser informado da Operação Brother Sam, João Goulart, então no Rio Grande do Sul, optou por partir para o exílio, evitando uma possível guerra civil. A ida do presidente deposto para o Uruguai, a adesão vertical dos militares ao golpe, fez com que os americanos abortassem a operação. Já às costas do litoral brasileiro, as forças militares estadunidenses recuaram, evitando aquela que seria a sua maior intervenção em territórios da América Latina.
A Operação Brother Sam, assim como se ergueu, esvaiu-se nas intenções. Por décadas a Casa Branca tentou negá-la, até que documentos secretos das manobras foram publicados no “Jornal do Brasil”, em dezembro de 1976. Mesmo sem ser executada, ficou como um fantasma pairado na costa brasileira, a deixar claro que qualquer regime alternativo ao de Washington na América Latina sofreria represálias da nação mais poderosa do mundo. O espectro permaneceu até o fim da Guerra Fria e das ditaduras militares no continente americano.

A Questão Ideológica

A oposição dos Estados Unidos ao governo João Goulart não se deve tão somente à questão ideológica que definia a Guerra Fria. Em um estudo mais amplo, podemos afirmar que os interesses econômicos foram decisivos para esta animosidade que levou o governo de Washington a financiar abertamente os movimentos de oposição a Jango. Após a consolidação do golpe militar implantado em 1964, deixou-se acreditar que os “irmãos” do norte apoiaram bravamente àqueles que evitaram o perigo do comunismo no Brasil. Uma mentira cultivada, que os serviços de espionagem americanos muito bem informados, sabiam perfeitamente, passava longe da verdadeira intenção de João Goulart.
Se analisarmos o antijanguismo estadunidense pelo prisma ideológico, devemos retroceder a 1947, quando os princípios da Guerra Fria foram estabelecidos e espalhados pelo mundo. Naquele ano, o Brasil aderia à gestação da Guerra Fria, optando por estar do lado dos EUA, a partir da Conferência Interamericana de Manutenção da Paz e Segurança, realizada em Petrópolis. Na conferência foi assinado o Tratado de Assistência Recíproca, que permitia uma intervenção militar norte-americana onde quer que a paz e a segurança estivessem ameaçadas.
As conseqüências imediatas ao acordo vieram de forma contundente. Em outubro de 1947 o Brasil rompia relações diplomáticas com a União Soviética. No começo de 1948, dava-se a cassação de senadores, deputados e vereadores eleitos pela legenda do PCB, pondo aquele partido definitivamente na clandestinidade. As decisões foram tomadas a partir do texto da Constituição que vedava qualquer partido que contrariasse em seu programa o regime democrático, que tinha como referência a democracia e ideologia norte-americanas.
Para veicular os princípios de Washington, foi fundada em 1949, pelo general Oswaldo Cordeiro de Farias, a poderosa Escola Superior de Guerra (ESG). Localizada na praia do Leme, no Rio de Janeiro, a escola tomou como modelo o War College, colégio de guerra dos EUA, formando desde então milhares de estagiários civis e militares, especialistas em estudos políticos e estratégicos, tendo como norma principal o anticomunismo, estreitando qualquer visão de democracia que não fosse a propagada pela sociedade norte-americana.
Após a renúncia do presidente Jânio Quadros, em agosto de 1961, João Goulart, então vice, após uma conturbada crise estabelecida pelos ministros militares desfavoráveis a que ele assumisse o poder, tornou-se presidente mediante o golpe do parlamentarismo, que lhe tirou os poderes. Na formação do gabinete parlamentarista do governo João Goulart, coube ao seu partido, o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), apenas o Ministério das Relações Exteriores, a cargo do petebista San Thiago Dantas.
As ações de San Thiago Dantas seguiram uma linha de continuidade externa independente dos EUA, fomentada anteriormente pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek, em 1955, e por Jânio Quadros, que na sua curta passagem pela presidência, condecorara Che Guevara, herói da Revolução Cubana.
Uma das medidas que desagradou profundamente os EUA, foi quando San Thiago Dantas restabeleceu as relações diplomáticas entre o Brasil e a União Soviética, interrompidas desde 1947. Seguindo o princípio de que um Estado não deveria intervir nos assuntos internos de outros, contrariando o acordo retificado pelo Tratado de Assistência Recíproca, o ministro de João Goulart, ao participar da Conferência da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Punta Del Este, Uruguai, em janeiro de 1962, reprovou as sanções contra Cuba, sugeridas pelo governo de Washington. A ilha de Fidel Castro definara-se como um governo socialista, fazendo daquele país um inimigo a ser enfrentado pelos Estados Unidos a poucos quilômetros da sua costa. A posição do Brasil na conferência mostrou-se desfavorável aos interesses estadunidenses e à posição aliada na Guerra Fria. As medidas em relação à política externa do governo brasileiro contrariaram profundamente o presidente John Kennedy e os políticos norte-americanos. O governo de João Goulart passou a ser visto com desconfiança pela Casa Branca, que se sentiu ameaçada pelo florescimento dos movimentos de esquerda na América Latina.

A Questão Econômica

Sob o prisma econômico, a oposição norte-americana ao governo de João Goulart arraigou-se a cada medida que desfavorecia as suas multinacionais em território brasileiro. Na época, 31 das 55 maiores empresas existentes no Brasil eram americanas. A remessa de lucros dessas multinacionais não obedecia a quaisquer critérios, sendo maiores do que os investimentos feitos no país.
Apesar de ser composto em sua maioria por partidos conservadores, o Partido Social Democrático (PSD) e a União Democrática Nacional (UDN), o primeiro gabinete parlamentarista do governo João Goulart adotou medidas nacionalistas que agradaram grande parte dos brasileiros, entre elas o cancelamento de autorizações ao truste americano Hanna Corparation para explorar as jazidas de minério de ferro em Minas Gerais.
As ações iam à contramão do programa de ajuda econômica e social ao Brasil, a Aliança para o Progresso, lançado em 1961 pelos EUA. O plano seria sustentado até 1970, já em pleno regime militar estabelecido no Brasil desde 1964. Ao lançar o programa, John Kennedy pretendia aplicar recursos na América Latina, numa clara resposta à Revolução Cubana, afastando assim, ameaças da eclosão de movimentos de esquerda nos países vizinhos.
Em fevereiro de 1962, Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, cunhado e principal aliado político de João Goulart, desapropriou naquele estado os bens da Companhia Telefônica Nacional, subsidiária da norte-americana International Telephone Telegraph (ITT), transformando-a na Companhia Rio-Grandense de Telecomunicações (CRT).
A estatização da ITT por Brizola desagradou à Casa Branca. Como retaliação, os norte-americanos criaram a Emenda Hinckenlooper, que previa a suspensão de ajuda econômica aos países que desapropriassem bens estadunidenses sem indenização adequada e efetiva. Em sua visita aos EUA, em abril de 1962, o presidente João Goulart defendeu diante de John Kennedy, o princípio da justa compensação no caso de desapropriação de empresas estrangeiras.
A pressão na concessão de empréstimos dos EUA ao Brasil foi refletida nas negociações de compra das doze empresas do grupo American and Foreign Power Company (Amforp), responsáveis pelos serviços públicos de energia no Brasil. Para efetuar a compra, o governo de João Goulart encarregou a Conesp (Comissão de Nacionalização das Empresas Concessionárias de Serviços Públicos), de realizar estudos e análises do valor das empresas. Técnicos brasileiros avaliaram os bens da Amforp em 57 milhões de dólares. Mas os EUA, na tentativa de recuperar o prejuízo causado pela estatização da ITT, pressionaram para que se pagasse 188 milhões de dólares. Na tentativa de normalizar as relações desgastadas com os EUA, a Conesp chegou a acertar o preço de 135 milhões de dólares para a aquisição da Amforp. Mas a reação dos nacionalistas, tendo à frente Leonel Brizola, cancelou as negociações. O valor era considerado exorbitante para empresas que já estavam obsoletas. As negociações só seriam retomadas pelo governo militar de Castelo Branco, sendo realizada a compra em novembro de 1964, com os golpistas militares pagando o valor mais adequado aos norte-americanos. O impasse para a aquisição da Amforp desgastou profundamente o presidente João Goulart.
Em 3 de setembro de 1962, o Congresso Nacional aprovou a Lei 4.131, que regularizava a remessa de lucros de empresas estrangeiras instaladas no Brasil. A Lei de Remessa de Lucros causou bilhões de dólares de prejuízo aos EUA. As empresas americanas ameaçaram fechar suas filiais no Brasil, decisão que poderia desencadear uma catastrófica crise econômica no país.
Irritado com as medidas econômicas adotadas contra as multinacionais, o presidente John Kennedy enviou ao Brasil o irmão, Robert Kennedy, para pressionar o governo brasileiro, reclamando explicitamente das políticas econômicas consideradas ofensivas aos norte-americanos. Sem conseguir resultados, o governo de Washington tomou a decisão de financiar as conspirações dos opositores ao governo João Goulart no Brasil. O objetivo era a deposição do presidente em exercício, que nunca fora aceito pela parte mais conservadora das forças armadas brasileiras e da elite temerosa de reformas de base por ele propostas.

O Desencadear da Operação Brother Sam

Dois anos antes do golpe militar, documentos registram, em junho de 1962, o alinhamento do governo norte-americano às conspirações contra o governo de João Goulart. Uma conversa entre o presidente John Kennedy, o assessor Richard Goodwin e Lincoln Gordon, membro do Partido Democrata ligado à Central Intelligence Agency (CIA), embaixador no Brasil desde 1961; deixa clara a intenção da Casa Branca em intervir nas eleições brasileiras de outubro de 1962, apoiando quem fosse contra a esquerda e à ameaça comunista. É revelado que o governo americano está disposto a doar 8 milhões de dólares às campanhas de candidatos pró-estadunidenses.
No Brasil, o maior movimento de sabotagem contra o governo de João Goulart vem do centro de propaganda do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). O instituto realizava campanhas acirradas antijanguistas, veiculadas principalmente na imprensa, que não se limitava à imparcialidade ética jornalística. Através da CIA, o Ibad teria recebido entre 12 e 20 milhões de dólares para movimentar a operação de desmoralização do governo de Jango. Era o prelúdio da Operação Brother Sam, desencadeada dois anos depois.
Em novembro de 1963, John Kennedy era assassinado no Texas. Com a ascensão de Lyndon Johnson à presidência, as relações entre os governos brasileiro e norte-americano são cada vez mais tensas.
A Operação Brother Sam, veementemente negada por seus protagonistas, entre eles Lincoln Gordon, está registrada em detalhes na documentação histórica do Congresso estadunidense. Muitos desses documentos sigilosos foram publicados pela primeira vez no Brasil por Marcos Sá Corrêa, no “Jornal do Brasil”, em dezembro de 1976. Através desses documentos, pode-se desenhar com pormenores os meandros da Operação Brother Sam.
Em 1964, o coronel Vernon Walters era o adido militar da embaixada norte-americana no Brasil. Walters era um velho amigo de Castelo Branco desde a Segunda Guerra Mundial, onde trabalharam juntos na Itália. Na tarde de 30 de junho, dois dias antes da vitória do golpe militar de 1964, Walters informava o secretário de Estado Dean Rusk, em Washington, da sua conversa com o general Ulhoa Cintra, sobre o desencadear de um movimento militar que iria acontecer muito breve, para depor João Goulart do poder. Informava ainda, que o amigo Castelo Branco, após renunciar à chefia do Estado-Maior, seguiria para São Paulo, ao lado de Gaspar Dutra e Cordeiro de Farias, de onde deveria comandar as operações golpistas.
Dean Rusk afirma que o movimento golpista contará com o apoio econômico e militar do seu país. Traça uma logística para uma intervenção norte-americana, disponibilizando transporte aéreo que poderá aportar em um aeroporto brasileiro, sugerindo a cidade de Recife para o local de pouso. Para isto, pede mais notícias da operação militar no Brasil.
O embaixador Lincoln Gordon responderá às indagações de Dean Rusk às 13h00 do dia 31 de março, quando o movimento golpista militar já está em plena ação, com a sublevação desencadeada pelo general Olympio Mourão Filho. Gordon alerta o seu governo a uma possível necessidade de armas e munição para guarnecer os golpistas.
Em resposta, a marinha americana ordena o envio de uma frota rumo a Santos, litoral paulista, desencadeando a operação que receberia o codinome de Brother Sam. Os militares norte-americanos estavam prontos para uma intervenção, invadindo o Brasil e assegurando a vitória aos golpistas.

Os Americanos Estão Chegando

Às 13h50 do dia 31 de março de 1964, um informe iniciava a Operação Brother Sam. A poderosa Frota do Caribe vislumbrava na costa brasileira, estando entre cinqüenta e doze milhas náuticas ao sul do Estado do Espírito Santo, pronta para intervir tão logo obtivesse um sinal do embaixador Lincoln Gordon.
A Frota do Caribe trazia no seu aparato bélico: Um porta-aviões da classe Forrestal; um navio de transporte de helicópteros, com uma carga de cinqüenta helicópteros portando tripulação e armamento completo; seis destróieres; cento e dez toneladas de armas leves e munições; vinte aviões C-135 para transporte de material bélico; quatro petroleiros armazenando cento e trinta mil barris com gasolina comum e de aviação, óleo diesel e querosene.
No dia 1 de abril de 1964 os militares instauravam o golpe de Estado. Na noite de 2 para 3 de abril, o senador Auro de Moura Andrade, anunciava no Congresso, em Brasília, que a presidência da República estava vaga. Às 3h45 da madrugada, o presidente da Câmera, deputado Ranieri Mazzilli, foi empossado como presidente provisório da República. Naquele momento, o subsecretário de Estado George Ball reconheceu o novo governo, antes mesmo de avisar o presidente Lyndon Johnson, que ainda dormia em Washington.
Afastado do poder, João Goulart buscava apoio na sua terra natal, o Rio Grande do Sul, numa última tentativa de resistir ao golpe. Naquele dia, em Porto Alegre, Jango foi informado de que os EUA reconheceram o novo governo, e que uma operação militar norte-americana de apoio aos golpistas tinha sido deflagrada. Para evitar uma guerra civil e derramamento de sangue, o presidente deposto partiu para o exílio no Uruguai. O golpe militar estava consolidado.
Tão logo acordou, Lyndon Johnson pôde comemorar em Washington, a queda de João Goulart. A ameaça vermelha tinha sido eliminada no maior país da América Latina. O subsecretário de Estado dos EUA, Thomas Mann, comentaria com Johnson que aquele tinha sido o movimento mais importante acontecido no hemisfério sul nos últimos três anos. Às 17h50 do dia 3 de abril, um informe ordenava que a Operação Brother Sam fosse abortada:

Ultra-secreto. Assunto: Força-Tarefa com porta-aviões (...) A situação atual no Brasil não exigirá a presença da Força-Tarefa com porta-aviões em águas oceânicas ao Sul do país conforme ordenado na referência A. Por conseguinte, as instruções contidas na referência A ficam (...) canceladas. As forças envolvidas serão reenviadas [as outras] áreas”.

Todas as provas da operação que se tornara fantasma teriam que ser encobertas. Oficialmente, o governo da Casa Branca declararia que acionara a operação para resgatar civis se houvesse uma guerra civil no Brasil. Restava explicar ao Congresso norte-americano o gasto exorbitante com uma operação que não servira para nada, tornando-se um espectro da história da Guerra Fria.

Um comentário:

Thiago Oliveira disse...

Parabéns...muito bem escrito