quarta-feira, 31 de março de 2010

MONÓLOGOS URBANOS - POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Quando o crepúsculo arrasta os últimos suspiros do sol, sinto a brisa cortante de uma noite suave. Ser poeta é ser um homem notívago, cúmplice da luz etérea que se nega iluminar os mortais. Gosto da noite, talvez por sentir que as suas horas sejam maiores do que a fugacidade do dia. Ou tão somente porque é quando me apanho absorto nos meus segredos, com tempo para contemplá-los e até mesmo indagá-los. Se na luminosidade do dia descubro a beleza das cores das flores, na treva noturna extraio-lhes o orvalho, a umidade fecundadora da Terra.
E porque a noite chegou, vou sair por aí, a exaltar-lhe as armadilhas. Abro as cortinas e se me abrem paisagens urbanas, confusas como uma pintura surrealista. Abro a porta de casa. Estou pronto para atirar-me à ventania! Sigo a sombra que me desenha os passos largos e decididos.
As luzes da cidade alinham-se em um hipnótico convite ao meu ser andarilho. Visto-me de sorrisos quentes e maliciosos. Olho a névoa que descortina as ruas e caminho sem pensar nos becos que se hão de deparar. A cidade parece tão indefesa diante dos meus sonhos. Tão imensa ante todos os meus anseios, tão demente nas armadilhas que me aprisiona aos medos.

“A procura do meu eu sincero torna-se sem cor diante da procura das verdades da cidade”

Sempre gostei das cidades que me fazem anônimo. Das cidades que em identidades múltiplas, tornam-se únicas por excesso ou falta de digitais. Trens urbanos, trilhos, carros, motos, buzinas, pessoas ambulantes, olhares esquivos cruzam-me o caminho. Por longos anos construí a cidade perfeita. Aquela que só existiu no meu furor de querer desvendar os segredos da existência. Tijolo por tijolo ergo casas, edifícios, castelos e muralhas.
Sorrio para os nômades do asfalto, para a promessa de felicidade ambulante que se me acenam nos seus olhares. Percebo que o homem ambiciona a felicidade, mas não sabe rimá-la com o existir. Que repetimos sempre: só queremos ser felizes, e mentimos quando pronunciamos tão audaciosa pretensão. Como a virgem que queria ser feliz, mas trocou a felicidade pelo prazer de descobrir o seu corpo, ou a mulher feliz que entristeceu por achar que só amar lhe bastaria, que a paixão era maior do que a felicidade. Percebo que amor, paixão e felicidade não se nos apresentam em uma unidade lógica, que uma sem a outra é só ilusão, confusão dos poetas e dos amantes da dor. Se primeiro for feliz, depois arremato o amor. Simples fórmula que não consigo saber a dose exata de cada ingrediente.
O trem apita! Segue na direção do horário predestinado. Leva vidas que não sabem a estação exata de descer. No meio dos trilhos vejo o meu anjo da guarda, sinto que sou eu que tenho que salvá-lo dos males do mundo, da ausência dos pecados que o faz mártir ante o sopro da existência.
Cruzo a longa avenida. Abro os braços no asfalto, como um deus pagão e extinto, sinto-me dono da cidade. Passo por portas que se me abrem e eu não vou entrar. Por medo, por segredos, por rimas imperfeitas. Sigo peregrino, rumo aos rituais da alma. Traço mapas que me levam aos mesmos explorados tesouros da cidade. Atiro-me aos bares que me iludem a sedução.

“Quanto mais penso nas memórias de uma vida, mais piegas parecem os historiadores”

No fim da noite, já exausto dos meus sortilégios, refaço o caminho sob as luzes da cidade, ou da embriaguez de uma lua que às vezes desponta de um céu ofuscado pela poluição, sem estrelas que brilhem mais do que as luzes artificiais. Penso se a quem amo ainda me espera, ou se amo quem está a aguardar-me da longa caminhada pela noite. Se ainda se interessa pela minha busca insana pelos segredos da vida. Penso que buscar é melhor do que encontrar respostas. Por isto nunca que me canso da procura das razões e das ilusões.
Enfio-me pelos becos, labirintos de jardins, embocando em quartos escuros, sem frestas nas janelas. Tranco-me entre quatro paredes feitas de todos os elementos vitais. Preciso estar sozinho com os meus enigmas e mistérios, como uma esfinge em busca de novos adágios. Converso com meus pensamentos, exalto os meus fantasmas e atiro-me à busca do que não posso ver nos meus espelhos. Dispo-me das roupas e das máscaras, como um ator despe-se da maquiagem e da última personagem. Começo um monólogo com a platéia dos meus segredos.
Falo para os amantes clandestinos, que em desafio aos conceitos morais, amam-se com fervor em leitos improvisados até o galo cantar e por fim, negarem-se mutuamente, antes do sol iluminar as verdades da cidade. Escrevo na minha pele o mais belo poema de amor, com as estrofes das verdades que desenham os desejos em corpos que contemplam a mais sublime beleza dos sentimentos, da emoção que se revela no sexo dos que se amam.
No silêncio da cidade, na luz tênue do palco do meu quarto, continuo o meu monólogo. Falo com Deus, sem lhe perceber a proposta que me tem. E por mais que me atenha ateu, mais me vejo na vontade de querer sentir o Criador. De não me saber tão só em um universo tão plural.
Falo com os planetas, com os astros de um céu que não se me ilumina. Indago aos filósofos todos os jogos crus das palavras. Rabisco nos cadernos virtuais todas as frases de beleza labiríntica, todos os provérbios enganadores.

“O sexo pelo sexo só é bom para o homem até ele ejacular, torna-se a seguir, um constrangimento sem fim”

No meio do monólogo não me esqueço de falar com o meu sexo. Vejo-me em confronto direto. Sim, eu e ele, ele e eu, meu sexo! Às vezes sinto que somos dois, um independente do outro. Se me mostro romântico, erótico, ele derruba-me as ilusões, fazendo-se pujante e pornográfico. Se caminho em busca do sentimento na sua mais latente essência, ele apenas procura o prazer na mais intensa plenitude fisiológica, ejaculando as fantasias do amor. Eu sou poeta, ele é caçador. Eu sou amor, ele é desejo. Eu sou paixão, ele é tesão.
E nos murmúrios da noite, tantas vezes sigo caminhando por estradas luxuriantes, conduzido não pelo meu cérebro, mas pelo meu sexo. Minha cabeça deixa a extremidade do pescoço, movendo-se instigada pelos desejos ao sul do meu corpo. Sigo tão obsessivamente errante quando deixo que “ele” se faça independente. E no monólogo silencioso com o meu sexo, descubro-o um perfeito estranho acoplado ao meu corpo. A parte desconhecida e íntima do meu eu mais profundo, a verdade que me faz valente e sonhador, herói e vilão, terno e canalha, tudo em um rodopiar que se me prende aos almanaques da humanidade.

“Não tenho filosofia própria ou alheia, apenas afronto o mundo! Se não afrontarmos o que nos foi legado, seremos sempre prisioneiros do tempo e das suas limitações”

Depois de travar todos os monólogos dentro do quarto pequeno do meu existencialismo, esmurro as paredes, escancaro uma fresta na janela. Lá fora a minha cidade continua a erguer edifícios, a derrubar campos e ilusões, invadindo de concreto os meus sonhos. A minha cidade ergue-se próxima da Lua, longe do cheiro do mar. Resta-me o rio. Minha esperança de nele navegar e desaguar em mares turbulentos. Mais forte do que a cidade que ergui em cada canto, está o mar solitário que me fascina e me esconde todos os segredos.
Não, não escrevo estas palavras para as cidades que fundei nos meus alicerces histriônicos. Não escrevo para as luzes que me ofuscam as mentiras da noite. Não escrevo para que me redima diante do meu falo errante, do meu ser itinerante, da minha fé sem a definição merecida de Deus. Ou para as verdades e mentiras do amor que se me desenhou nas entranhas do coração. Escrevo para os que pulsam com os ciclos lunares, que sentem no ar o contraste dos dias presos entre os solstícios e os equinócios. Que gritam nus no meio do asfalto quente. Escrevo para aqueles que precisam da magia das palavras, e que, assim como eu, não se cansam de procurar pelas verdades do mundo. Verdades que jamais se irão revelar. Escrevo para os que um dia virão, sem que me encontrem além da confusão de viver a sedução da palavra.

Texto e Pensamentos: Jeocaz Lee-Meddi
Fotografias: Nuno Ferro (1 Num Sonho Meu), Tchiga (2 Eu Salvo Te, 3 Quem Olha Por Mim????), Daniel Pedrogam (4 Aonde É Que Eu Tenho a Cabeça?), Davide Poggi (5 Way-014), Arquivo Jeocaz Lee-Meddi (6 Filme)

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