sexta-feira, 26 de março de 2010

AS CARTAS QUE NÃO TE ESCREVI - POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Abro o livro da minha vida. Folheio páginas da memória, e os capítulos saltam sem ordem cronológica. Encontro o nosso capítulo, tão extenso que me parece ter sido escrito ontem. Mas entre ele e o epílogo atual existem tantas páginas que não te encontro, que sequer uma vírgula te ressalta. O capítulo que dediquei a ti lá está, compulsivamente redigido, revisado, lido e relido. Tanto tempo passou, tantas páginas escritas sem ti. E então me indagas os anos, o falso esquecimento. As cartas que não te escrevi. Justo eu que me denomino escritor, pintor expressionista das palavras que o coração não ousa dizer.

"Sinto-me confortável em saber que faço parte da natureza, da sua renovação constante. Sinto-me menor como gênero humano ao ver-me apenas como um objetivo da natureza"
 
As cartas que não te escrevi. Para que as palavras surjam, ouço nossas velhas canções. Nossa trilha de vida, de paixão juvenil. Numa fuga tão frenética, ouço nossos velhos ídolos... Vem Simone, Bethânia, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ivan Lins e a sereia Gal Costa... Ouço músicas que não ouvimos juntos, mas que me remetem a ti, sem que te as tenha apresentado. Se já não te sopro um canto doce de Gal Costa, encravo-me na sensualidade de Etienne Daho, renovando o gosto e os sentidos, tendo-te como centro da memória, das palavras que não te prometi verbalmente escrever, mas que me exige o pacto de vida que nos fez um dia um sonho comum, um corpo exalado em dois. Quantos ídolos que não te apresentei. Quantos filmes que não assistimos juntos, quantas músicas que descobrimos separados e no entanto nos devolveu a saudade de cada um, a lembrança recôndita, escondida na essência de nós dois. Quantos poetas ou artistas mortos de quem me fiz confidente, sem nunca tê-los conhecido, e que me pergunto ansioso, se não seríamos grandes amigos se um dia nos tivéssemos encontrado enquanto a vida ainda pulsava nas veias de cada um, ou se mesmo não nos cruzamos em portais dos segredos de quem jamais temeu o amor.


“Destruíram paisagens! Ruíram impérios! Despetalaram as rosas que colhemos naquela primavera de ventos profanos. Mas o jardim secreto do meu ser continua intacto”

As cartas que não te escrevi. Que poderia dizer? Que foste uma loucura perene, mas presa no tempo da juventude? Escrever o tempo que não dividi contigo? Os amores que se mostraram mais fúteis, e até mais profundos do que o que nos uniu? Os corpos que me deu prazer ou apenas me fez derramar sêmen infértil? Escrever-te arranhões que me marcaram o corpo e a alma em cicatrizes de felicidade ou de dor? Sim, fui audaciosamente feliz sem ti. E também vulnerável ao vazio que me deixou a tua ausência. As cartas que não te escrevi. Foram adquirindo linhas em cada ilusão que abracei. Continuo a agarrar-me às fugacidades da existência. Se te fizeste magnificente em um porto seguro de um lago tranqüilo, fiz-me eternamente exposto às fragilidades da existência, sem ao menos querer aportar nas valias da existência. Continuo a ser o mais vulnerável dos homens. Escancaro-me aos vendavais existenciais, deixando a tempestade atingir a janela dos meus segredos. E tu? Fizeste o contraste de mim, tornando-se esta fortaleza familiar, esta beleza de vida iluminada. O mundo é a vulneração do meu ser, e eu sou o calcanhar de Aquiles do teu mundo perfeito. Que paradoxo! Às vezes tento a objetividade das morais de vida. Todas às vezes que me encontro concreto, diluo-me no abstrato. Poderia falar dos amigos que me enfeitaram a estrada. Tantas novas personagens que me ajudaram a compor o meu livro sem ti. Ler-te capítulos inteiros de total êxtase e conquistas, ou de noites sem fim, encerradas nos lençóis manchados de ilusões corporais. Mas sei que as memórias que te interessam são aquelas que delineei nos sonhos que nos fez cruzar nossas vidas.

 
“Os meus extremos nunca me permitiram ser uma paisagem renascentista, não, a minha alma é uma paisagem de Van Gogh, bela, trêmula e com sede de viver a dor”

Tantos anos... Tantas páginas... No entanto, quando retomo o nosso diálogo, parece que nada aconteceu. Ou que a vida é um vão. Um sopro na esquina onde me perdi de Deus. Não me tornei ateu. Mas duvidei das promessas da eternidade da alma, dos pactos divinos que acalentam a dor da humanidade. Um dia talvez, mergulharei bem dentro de mim e tentarei descobrir onde escondi Deus. No momento entro sem bater na casa dos homens, não sabendo como me anunciar na casa de Deus, tão longínqua, distante dos dogmas das igrejas, do ódio que as religiões geraram através dos séculos, fazendo perder-me do Divino, não sabendo onde encontrá-Lo ou mesmo se devo procurá-Lo.
Noutros tempos enviar-te-ia uma fotografia para mostrar as certezas do tempo. Mas digitas o meu nome, abrem-se imagens virtuais da minha existência, a desnudar-me diante do teu computador. Virtualmente reabres a memória.
Sim, sou aquele que te roubou os segredos mais inconfessáveis, o beijo mais longo a oprimir-te o fôlego, o que deitou em teu colo e prometeu-te os sonhos mais lúdicos, mais audazes e sinceros. Sou aquele que te desenhou os afetos, iludiu os teus medos e nas noites de solidão, como um fantasma impiedoso, arrancou-te da lembrança a mais salgada saudade, arrebentada em lágrimas silenciosas.
As cartas não foram escritas. Mas as palavras foram ditas ao vento, sopradas na poeira do tempo. E se as palavras convidam a
relembrar, então viajemos por cidades que nos serviram de cenário, por paisagens coloridas pela primavera dos sonhos. Reveja as fotos, as muralhas, os castelos, os rios que atravessamos, em busca da desembocadura e encontro com o mar. Eu trazia no semblante o calor da Bahia, a garoa de São Paulo, o cheiro do cerrado, o gosto dos bares de Santos. Tu vieste milenar, inserindo-se pelos becos de Lisboa, navegante do Tejo, guardando o segredo do castelo dos Templários, resplandecendo as águas do Nabão. Eu sorria Paris, iludia a imponência de Roma, tu apenas dizias os mistérios dos girassóis do Alentejo, o gosto dos pastéis de Belém, o sabor da saudade lusitana. Nossas ruas, aldeias, cidades, oceanos e nações, convergiram em um doce segredo, revelado na geografia dos sentimentos, no aquecer do coração, na descoberta inadvertida dos prazeres do corpo, na quebra da inocência cega.


“A juventude é uma amiga que o tempo nos tira, é como se a nossa alma assumisse vários corpos, até que nos percebemos estranhos no que somos e no que fomos”

 Escrever-te me faz saltar no tempo, em um regresso insano, quase que inevitável, quando já não se pode seguir sem olhar para trás. Faz-me outra vez juvenil, quase adolescente, longe do homem maduro, quase intocável à paixão em sua essência mais pura, sem a lapidação das experiências, das alegrias e das dores, da malícia da sedução, das marcas do tempo no corpo, do corte dos anos no rosto. Prometemos um ao outro a eternidade de nós mesmos. Não mentimos no todo, demos um ao outro a inocência dos sonhos, o ponto mais alto da nossa juventude, o sentimento para que nos bastasse as lembranças de uma vida. A coragem de querer repetir o amor em rostos e corpos diversos. O repetir dos sentimentos em doses de sutis maturidades do ser.
Perdi-me de ti pelas estradas da vida? O mundo não parou um só segundo desde que decidimos seguir caminhos diferentes. O tempo soprou implacável. Minhas ambições mudaram. Meu corpo, meus sortilégios. Registrar as mudanças em cartas seria anunciar um estranho aos teus olhos. Perdi-te em cidades que já não ando, em lugares que já não freqüento, em sonhos que já não alento. Perdi-te nos anos, no entanto aí estás, a vestir a saudade que há em mim, a despir as mentiras que me camuflam o passado que até pensei já ter esquecido.


“A grande loucura do homem é amar a sua solidão e não ser devidamente correspondido por ela”

 Se eu voltar amanhã. Se eu ressuscitar-te no querer reviver o gosto do sentimento que já se fez extinto nos gestos e nos atos. Seu lembrar-te amanhã. Prender-te outra vez um segundo no meu leito. Se eu enlouquecer, se voltar a desejar-te o aroma impregnado na minha memória olfativa. Se eu morrer amanhã, deixando-te para sempre o vulto da eternidade da memória...
Tanto “se”, quando apenas quero dizer que jamais te arranquei da lembrança, e que tu, que tanto fez para me esquecer, não o conseguiste um só dia.
Chego ao final da carta. Encerro as palavras. Escrevi no ferver do sangue da memória, no latejar de cada veia que pulsa, nos líquidos corporais que exalaram todos os meus sentimentos. No bater compassado de um coração alienado pela sutileza do tempo e arrebatado pelas batidas da paixão e dos sonhos.
Assino-a com o pacto do nosso segredo de vida. Só tu irás decifrá-la nos mais labirínticos sinais.
Selo virtualmente esta carta. Cubro-a de fotografias que me extraíram a imagem através dos anos. Rostos parados no tempo, no momento da prisão da objetiva. Rostos que dizem, sou eu... Mas que bem o sabes, são retratos daquele que não mandou as cartas que jamais te escreveu.


Texto e Pensamentos: Jeocaz Lee-Meddi
Fotografias: Arquivo pessoal Jeocaz Lee-Meddi

Um comentário:

Leonardo Valesi Valente disse...

Olá!
Estou há alguns vários minutos compenetrado, lendo entusiasta o seu blog. Todas as imagens, repletas de me fazer imergir. O texto, este salto para além de ver.
Obrigado por compartilhar letras tão repletas de sentidos.
Gosttei muitíssimo do seu espaço.
Abraços, parabéns enfim!!!
Leonardo Valente (MG)
www.lioh.arteblog.com.br/