sábado, 27 de fevereiro de 2010

VIADUTO DO CHÁ - SÍMBOLO DA MODERNIDADE PAULISTANA

Uma ponte fria de concreto armado é um dos maiores ícones da cidade de São Paulo, o Viaduto do Chá. O que lhe falta de beleza estética sobra-lhe de tradição e força histórica. O viaduto do Chá é o símbolo vivo da transformação da cidade, de simples entroncamento entre o litoral e o interior, em grande metrópole do planeta.
Construído no Morro do Chá, local de cultivo de hortaliças e chá no fim do século XIX, o viaduto era inicialmente, uma estrutura metálica que atravessava o Vale do Anhangabaú, ligando a Rua Direita a Rua Barão de Itapetininga, numa travessia que se faria ao longo da convulsão de progresso que gerou a imensa cidade de São Paulo. Por aquela estrutura passavam pedestres, bondes elétricos, carroças, e, à medida do tempo, os automóveis.
Do alto do viaduto, assistiu-se à transformação do vale do Anhangabaú, a chegada dos arranha-céus, dos automóveis mais potentes e sofisticados, do aumento demográfico; até que a velha estrutura metálica tornou-se obsoleta, ultrapassada pelo próprio progresso que ajudara a desencadear algumas décadas antes.
Em 1938, o velho viaduto foi demolido. No seu lugar surgiu uma gigantesca estrutura de concreto armado. Sem a harmonia estética do primeiro, o novo Viaduto do Chá enquadrou-se na paisagem de edifícios e concretos que cobriram o céu paulistano, fazendo parte do seu frio, mas instigante cartão postal.
Mais de um século depois da sua construção original, o Viaduto do Chá faz parte do coração pulsante do centro velho da cidade de São Paulo. Milhares de pessoas atravessam-no todos os dias, olhando de cima, ainda que sem tempo de parar, a própria história urbana da imensa metrópole da garoa.

A Cidade Nova

Na segunda metade do século XIX, a cidade de São Paulo passou por um processo de crescimento que iria transformar a sua paisagem urbana, fazendo-lhe uma importante capital do Brasil Império. O progresso veio com o ciclo do café, produto que por décadas garantiria a economia do país.
A emergente cidade tinha no seu coração ruas de terra batida, quintais baldios e grandes chácaras, contrastando a paisagem urbana com o bucolismo rural. No meio daquele cenário bucólico estendia-se um vale de chácaras, local preferido para as crianças da época praticarem a caça aos passarinhos, onde eram cultivados hortaliças e o chá, ali introduzido por José Arouche de Toledo. Por este motivo o local passou a ser denominado Morro do Chá.
O aspecto bucólico do Morro do Chá foi aos poucos, sofrendo alterações com o progresso iminente, sendo abertas ali vielas e novas ruas como a Barão de Itapetininga, Formosa, 7 de Abril e Xavier de Toledo, transformando-se assim, em um novo bairro, que ficou conhecido como Cidade Nova.
Opondo-se à Cidade Nova, ficava do outro lado do Vale do Anhangabaú o núcleo tradicional do centro paulistano, a Cidade Velha, no qual se encontravam as principais ruas de comércio da cidade, desembocando no famoso Triângulo, delimitação das ruas 15 de Novembro, São Bento e Direita.
Constituído de ruas estreitas e irregulares, ladeado por pequenos largos e acentuadas ladeiras, o centro urbano velho da cidade passou a ser delimitado pelo excesso de atividade comercial que desenvolveu, ficando asfixiado pela falta de saída e interligação com o núcleo novo. Aos poucos, a idéia de uma ponte que pudesse unir a Cidade Nova à Cidade Velha passou a ser cogitada, fazendo-se cada vez mais necessária em face da grande cidade que ameaçava emergir a qualquer momento.

A Inauguração do Viaduto

Para atender às necessidades de crescimento do centro paulistano, foi apresentado, em setembro de 1877, um projeto do engenheiro francês Jules Martin, para a construção de um viaduto de 180 metros de extensão sobre o Vale do Anhangabaú, unindo os dois núcleos, ou seja, a Cidade Velha à Cidade Nova.
O projeto de Jules Martin consistia em estabelecer a ligação entre a Rua Direita e a Rua Barão de Itapetininga, atravessando os terrenos de cultivo de chá da Baronesa de Itapetininga, sendo executado mediante a cobrança de pedágio pela passagem, através da Companhia Paulista Viaduto do Chá.
O processo de loteamento da chácara da Baronesa de Itapetininga e arredores foi demorado, atrasando o projeto de Jules Martin. As obras só se iriam iniciar em 30 de abril de 1888, já no fim da monarquia, sendo interrompidas um mês depois, devido à resistência de alguns moradores dos arredores. Foram retomadas em 1889, após um longo e arrastado processo de desapropriação do sobrado do Barão de Tatuí, localizado em uma das cabeceiras do vale. Conta-se que o Barão recusava-se a sair da sua casa, só o fazendo quando a população paulistana, favorável à construção do viaduto, lançara às mãos picaretas e começou a atacar as paredes do sobrado. Diante da pressão popular, o Barão de Tatuí decidiu abandonar a casa, pondo fim ao último empecilho para a construção do viaduto.
As obras só seriam concluídas já na época da República. Em 6 de novembro de 1892, os paulistanos assistiram à inauguração daquele que se tornaria um dos símbolos míticos da cidade, o Viaduto do Chá. Era originalmente, uma estrutura metálica de 180 metros, importada da Alemanha, sendo a balaustrada decorada aristocraticamente em ferro forjado, numa largura de 14 metros.
No dia da inauguração, o viaduto foi enfeitado com flores e bandeiras. A cerimônia que o inaugurou foi festiva, com direito aos discursos solenes, tendo até quem sugerisse que o nome fosse alterado para “Viaduto do Café”, visto que era o poder cafeeiro que sustentava o crescimento da cidade, proporcionando aquela obra que simbolizava o progresso latente. Desfiles oficiais marcharam por arcos do triunfo, inaugurando a passagem, seguida por inseguros populares, que tinham medo de atravessar aquela gigantesca estrutura metálica, erguida em tão frondosa altura. A festa só foi interrompida por uma inesperada chuva que serviu de batismo.

O Novo Viaduto de Concreto Armado

O Viaduto do Chá original trazia portões e guaritas de madeira em suas extremidades, sendo vigiadas por guardas. Para atravessá-lo, eram cobrados três vinténs por pessoa, obrigando-a a passar por uma catraca. Quem não tinha como pagar, atravessava o percurso pelo matagal ali existente. Sobre a estrutura metálica atravessavam vigas de madeira, cruzadas longitudinalmente pelos trilhos dos bondes de tração animal. Nas laterais traziam passeios com pisos de tábuas de madeira, com vãos de um a dois centímetros, fazendo com que os transeuntes sentissem medo e vertigens. Era vetado o trânsito de carros com eixo fixo. No centro do viaduto tinha ainda, um grande portão, em que as carruagens passavam após pagamento. Este portão era fechado durante a noite. Era permitido aos pedestres admirarem de cima do viaduto, a paisagem das chácaras e dos pomares ainda abundantes nos arredores, tendo para isto bancos para descanso à disposição. O pagamento de pedágio fez com que os populares chamassem o local de “Viaduto dos Três Vinténs”.
Por quatro anos o Viaduto do Chá foi utilizado apenas pela elite paulistana. Um abaixo assinado correu pela cidade, sendo enviado à Câmara Municipal, protestando contra o pagamento do pedágio. Em 1896, a prefeitura adquiriu o viaduto, encerrando de vez com o pedágio, abrindo às portas do viaduto à população e ao progresso de uma cidade que já não podia parar de crescer.
Quando os bondes de tração animal foram substituídos pelos de tração elétrica, foi necessário um estudo sobre a resistência do material utilizado no viaduto. Para poder receber os novos transportes, foi feita no leito central uma laje de concreto. Os passeios laterais, então de tábuas de madeiras, foram substituídos por lajes postas sobre a estrutura metálica, que conforme fossem pisadas, oscilavam, fazendo com que os transeuntes não se sentissem seguros. Conta-se que quando os bondes elétricos passavam, todo o viaduto trepidava.
Com o crescimento desenfreado de São Paulo, pouco a pouco, o viaduto de estrutura metálica ficou obsoleto. No final da década de 1930, diante da nova realidade urbana e exigências do progresso, o então prefeito Fábio Prado decidiu construir um novo viaduto, abrindo um concurso para a escolha de um projeto. Elisiário Bahiana foi o vencedor, sendo o criador do novo Viaduto do Chá.
Em 18 de abril de 1938, os paulistanos assistiram ao início da demolição do velho Viaduto do Chá. No mesmo ano, um enorme viaduto feito de concreto, com uma largura duplicada, surgiu no lugar da velha ponte metálica. Era o novo e definitivo Viaduto do Chá, feito para resistir ao progresso e atravessar o novo milênio.
Desde 1938, poucas alterações foram feitas no Viaduto do Chá. Em 1977 foi alargada a calçada que liga a Rua Xavier de Toledo com a Rua Falcão Filho; e, proibido o tráfego de veículos particulares. Para a comemoração do centenário do viaduto, em 1992, o piso foi totalmente reformado.
Das chácaras de plantação de chá aos arranha-céus modernos, o Viaduto do Chá é o testemunho mais perene da evolução física e econômica de São Paulo, uma das maiores cidades do planeta.

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