quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

POEMAS LUSITANOS

Portugal, último pedaço de terra da Europa ocidental. Ao longe... o mar! Pátria dos destemidos navegantes, que rasgando os oceanos, levou a língua e o sentimento lusitano para terras desconhecidas.
Portugal do fado. Da poesia. Da saudade. Tão estranha e solitária palavra, só existente em língua portuguesa, porque a saudade é genuinamente lusitana.
Das vinhas do Douro às cortiças do Alentejo, das ruas de Alfama aos labirintos noturnos do Bairro Alto. Em cada canto um poeta, utilizando da velha língua extraída da extinção do latim, do paganismo eclético, do cristianismo asséptico.
Portugal e sua gente eternamente saudosista, do ontem que se foi, do hoje que se esvai e do amanhã que se esgotará. Porque a saudade portuguesa é lei, é identidade, é a essência de um povo que sorri com as lágrimas.
Terra de grandes poetas, que destilam nas suas palavras a emoção à flor da pele, as dúvidas da existência, a constatação da vida.
Neste artigo faremos uma visita breve aos poemas lusitanos, aos poetas que ecoaram as suas palavras pelos quatro cantos do solo português. Da coragem épica de Luís de Camões, navegaremos pelo oceano do pai de todos os poetas de língua portuguesa. Da ribeira secular da cidade do Porto, atravessaremos o mar lírico de Sophia de Mello Breyner Andresen. Das montanhas geladas transmontanas, escalaremos as palavras de Miguel Torga. Da Lisboa eterna, cruzaremos as ruas estreitas do existencialismo de Fernando Pessoa e de David Mourão-Ferreira. Da beleza agreste do Alentejo, arrebataremos a poesia passional de Florbela Espanca. Do coração da Coimbra histórica, beberemos a mais doce melancolia de Al Berto.
Poetas lusitanos. As suas palavras dispensam qualquer análise, qualquer apresentação formal. Foram escritas para que sejam sentidas, na mais pura essência da emoção, do encontro do leitor com a alma do poeta.

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades – Luís de Camões




Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


Mais Triste do Que o Que Acontece – Fernando Pessoa




Mais triste do que o que acontece
É o que nunca aconteceu.
Meu coração, que o entristece?
Quem o faz meu?

Na nuvem vem o que escurece
O grande campo sob o céu.
Memórias? Tudo é o que esquece.
A vida é quanto se perdeu.
E há gente que não enlouquece!
Ai do que em mim me chamo eu!



Saudades – Florbela Espanca



Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem me dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!





Réquiem Por Mim – Miguel Torga




Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.



Há-de Flutuar Uma Cidade... – Al Berto


há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
á beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade



Paira à Tona de Água – Fernando Pessoa


Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.

Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,

Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.

É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...





Escada em Caracol – David Mourão-Ferreira



É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Corre-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.



Tarde Demais – Florbela Espanca





Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...




Súplica – Miguel Torga


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto,
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.





Quando – Sophia de Mello Breyner Andresen




Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.



Na Véspera de Nada – Fernando Pessoa


Na véspera de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.

Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.



Fotos: José Luís Mendes (1 Odisseia), Helena Margarida Pires de Sousa (2 Andei Léguas de Sombra), CrisSant (3 Vergonha), Daniel Pedrogam (4 In My Dreams, I Found Someone Like You), Marvimm (5 Única Saída), Thiago Phelipe (6 - , 7 A Carta), Paulo César (8 Faz-me Voar, 10 O Sabor da Tua Pele no Céu da Minha Boca), Gonzales (9 Untiled), Ugly (11 Apple Tree), DDiArte (12 Brainstorming)


Veja também:

FLORBELA ESPANCA UMA MULHER ALÉM DO SEU TEMPO
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2007/12/florbela-espanca-uma-mulher-alm-do-seu.html
LUÍS DE CAMÕES – POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2009/04/luis-de-camoes-por-mares-nunca-dantes.html
CONTOS EXEMPLARES & HISTÓRIAS DA TERRA E DO MAR – SOPHIA DE MELLO BREYNER
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/06/contos-exemplares-histrias-da-terra-e.html
CONTOS DA MONTANHA – MIGUEL TORGA
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/01/contos-da-montanha-miguel-torga.html
OS AMANTES E OUTROS CONTOS – DAVID MOURÃO-FERREIRA
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/10/os-amantes-e-outros-contos-david-mouro.html
FERNANDO PESSOA – OS MÚLTIPLOS EUS DE UM POETA
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2009/06/fernando-pessoa-os-multiplos-eus-de-um.html
AL BERTO
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/02/al-berto.html


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