segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

LENDAS DO FOLCLORE BRASILEIRO

O folclore brasileiro traz a riqueza das raízes de uma nação plural, composta por uma diversidade de raças e etnias, que na miscigenação da população, englobou um pouco de todas as tradições.
As lendas de seres fantásticos e místicos revestem a magia do nosso folclore. Oriundas dos índios nativos; dos negros africanos; e, dos brancos europeus; entes fantasmagóricos, com poderes especiais povoam as nossas lendas, fugindo da tradicional moralidade das fábulas. Contam a essência dos costumes, a luta entre o bem e o mal, o sacro e o profano, sem que se lhe imponham a moral final.
Três lendas compõem este artigo: “O Negrinho do Pastoreio”, “Saci Pererê” e “A Mula Sem Cabeça”. Seres fantásticos, meio humano ou meio fantasma, meio anjo ou meio diabo; adaptados para um Brasil em construção, que passou pela triste experiência da escravatura, pelo desafio ao celibato latente da igreja, ou simplesmente pela crença entre o bem e o mal. São lendas de mundos diferentes, algumas vindas do continente europeu, fundidas com a cultura africana e a indígena, tomando o aspecto de total nacionalidade tupiniquim.
O Negrinho do Pastoreio”, é a mais famosa lenda dos pampas gaúchos. Com o fim da escravidão no Brasil, o Rio Grande do Sul foi um dos primeiros a sofrer o branqueamento proposto dentro do contexto do programa de imigração. Ter o sofrimento de um negro como protagonista da sua maior lenda é contrastar com o que se lhe foi imposto e mostrar a verdadeira raiz daquelas terras. É uma das lendas mais belas e comoventes do folclore brasileiro.
Saci Pererê”, é o mais conhecido personagem do folclore brasileiro. Sua lenda tem origem em Portugal, sendo transportada para Minas Gerais e São Paulo, propagando-se pelo país, assimilando-se com uma velha lenda indígena. Foi difundida pelo imaginário infantil através das velhas escravas, que para assustar as crianças, contavam as peripécias do menino de uma perna só, um ser às vezes brincalhão, outras vezes maligno. Perdeu o aspecto do duende europeu, tornando-se o retrato dos escravos fugitivos que quando recapturados, eram muitas vezes esquartejados. Existem várias versões da lenda do Saci Pererê, sendo a de Monteiro Lobato uma das mais famosas e difundidas, apagando-lhe o aspecto de entidade demoníaca.
A Mula Sem Cabeça” é uma antiga lenda da península Ibérica, que retratava o relacionamento socialmente condenado entre uma mulher e um padre das aldeias. A mulher era sempre a tentação, o motivo do pecado, por isto era ela a castigada, transformando-se em uma terrível fera ao amar um padre. A lenda foi trazida para as colônias espanholas e portuguesas do continente americano. No Brasil assumiu aspectos peculiares, perdendo a conotação de moral religiosa, transformando-se em uma personagem popular, a assustar a população dos vilarejos do interior do país.

O Negrinho do Pastoreio

Em uma fazenda dos pampas gaúchos, vivia um menino franzino, tão negro como o carvão. Seu corpo era magro e desnutrido, trazendo marcas cicatrizadas das chibatadas que se lhe eram dadas como prêmios às suas falhas. Nascera escravo, sendo tirado da sua mãe tão logo desmamara e enviado para servir o mais cruel de todos os amos.
Crescera a trabalhar de sol a sol, sem que se lhe fosse dado qualquer importância. Era tão menosprezado como ser, que jamais lhe deram um nome. Era simplesmente chamado pela alcunha de “Negrinho”.
Não bastasse a crueldade do amo, o infeliz Negrinho sofria todas as humilhações vindas do seu filho. O sinhozinho tinha a idade do escravo. Crescera vendo a forma cruel do pai em lidar com os escravos, assimilando-lhe as atitudes e revigorando-as na maldade explícita.
Negrinho tinha grande habilidade em pastorear, tornando-se o melhor peão de toda a região. Ninguém montava um cavalo baio como ele. Assim, o amo o usava em competições com os vizinhos. A habilidade de cavaleiro não comovia o amo, e, incomodava o sinhozinho, que lhe sentia inveja. Por este motivo, o sinhozinho era mais cruel do que o pai, infringindo ao pobre escravos os mais severos castigos.
Numa disputa com um vizinho, o amo usou Negrinho como cavaleiro. O escravo montou com magnificência o baio do amo. Corria lado a lado ao adversário. Já quase no fim, conseguiu ultrapassá-lo. Próximo da linha de chegada, uma serpente surgiu no seu caminho, fazendo com que o animal se assustasse, quase o derrubando. Foi o suficiente para perder a disputa.
A derrota enfureceu o amo, que se viu humilhado diante do vizinho. Quando retornou para a estância, deu como castigo ao infeliz perdedor trinta chibatadas, o tamanho que tinha a pista de corrida. Negrinho tinha o corpo em carne viva. Adormeceu sem verter uma lágrima, apenas pedindo ao céu que lhe acabasse com o sofrimento.
No dia seguinte, sem tempo para aliviar as feridas, já estava a trabalhar sem descanso. Ainda como castigo, o amo lhe impusera cuidar de trinta cavalos. A pouca ração que recebia como alimento foi cortada pela metade. O menino trabalhava quase que sem forças, devido à fome e aos ferimentos.
Numa noite, quando dormia, uma coruja pairou sobre os cavalos. Assustados, os animais dispararam, fugindo. Ao acordar, Negrinho deu pela tragédia. Nada podia fazer senão chorar. O sinhozinho, que assistira ao infortúnio, denunciou o que se passara ao pai. O pobre escravo foi amarrado ao tronco, sofrendo com o chicote a lanhar-lhe as costas. Depois do castigo, foi libertado para que encontrasse os animais. Era já tarde da noite. O amo ameaçou-o, se não voltasse com todos os baios, seria espancado até a morte.
Na escuridão da noite, Negrinho voltou ao local do pastoreio, trazendo uma vela na mão. Uma brisa suave fazia o lume tremer. Quanto mais soprava o minuano, mais a vela era consumida. Cada pingo de cera quente que se derramava sobre o chão formava uma luz brilhante. Foram tantos os pingos convertidos em tochas, que a noite ficou clara como o dia. Negrinho achou os cavalos. Gemendo de dor, conduziu os animais de volta. Ao chegar ao estábulo, cansado, deixou-se cair no feno, ali adormecendo, podia finalmente descansar o corpo surrado.
Mas o sinhozinho, ao ver que o escravo cumprira a missão, encheu-se de raiva. Odiava a habilidade do escravo pastoreio. Era incapaz de se manter por muito tempo em cima de um baio. Aproveitou que Negrinho dormia, e soltou os animais por ele capturado. Sorriu vitorioso.
No dia seguinte, Negrinho foi acordado pela fúria do amo. Ao ver que os seus animais não se lhe foram recuperados, passou a espancar com grande violência o escravo. Foram tantas as chibatadas, que o menino perdeu os sentidos. O amo pensou-o morto, e, sem piedade, decidiu atirar-lhe o corpo a um formigueiro, para que as formigas o devorasse, poupando-lhe o trabalho de enterrá-lo.
Após atirar o corpo do escravo no formigueiro, o fazendeiro recolheu-se na sua casa. No dia seguinte teve a curiosidade de ir ver o menino. Ao chegar ao local, encontrou o escravo vivo, forte e sorridente, sem nenhum arranhão no corpo. Montava o baio mais valoroso. Ao seu lado os outros cavalos fugitivos. Sorriu para o amo e partiu a galope, seguido pelos cavalos. Saiu tão veloz, desaparecendo entre uma nuvem dourada. O cruel fazendeiro caiu de joelhos, pela primeira vez arrependido das atrocidades que cometera.
Pelos pampas, muitos ainda vêem, em noites de luar, o Negrinho montado em seu baio. Tão veloz quanto surge, desaparece entre as nuvens. Os homens dos pampas, quando têm um animal perdido, acendem uma vela para o Negrinho, na esperança de recuperar a besta fugitiva.

Saci Pererê

O vento começa a soprar na mata. Invade a copa das árvores, continua a desbravar as silvas, formando um redemoinho, que bate contra as canas silvestres, secas e sem o néctar do açúcar ou o caldo da cachaça. Ali, o imenso sopro diluí-se dentro do bambu, rompendo o seu centro oco. Do meio do redemoinho surge um menino de olhar matreiro. Mantém-se em pé apenas por uma perna. Sua pele é preta como a noite. Na cabeça porta uma carapuça vermelha, que lhe dá todos os poderes mágicos da mata. O pequeno ser sorri maliciosamente, aspira o fumo de um cachimbo e começa a pular por entre as árvores. É Saci Pererê.
Nascido de uma tragédia antiga, assassinado por um tio perverso, ele segue a sua sina. Não se intimida pela dor. Ao contrário da irmã, Matinta Perera, também morta pela maldade, que transporta a sua dor metamorfoseada em uma ave de canto triste e agourento, o Saci apenas se diverte com o medo dos homens.
Segue saltitante, a invadir as casas das fazendas, a assustar o homem, tentar suas mulheres e fustigar os filhos desobedientes.
O Saci continua a sua peregrinação. Não ousa a invadir as cidades. Sua habitação é feita nas matas, entre os bambus, também a sua força é dali tirada. Invade as chácaras e as fazendas. Esconde os brinquedos das crianças. Não satisfeito, invade os currais, abre as portas dos galinheiros. Na cozinha, procura pelo sal. Derramo-o para salgar a terra e evitar que se lhe adocem a força mágica. Pelo caminho, olha para a bela sinhazinha. Infeliz daquela que se deixar levar por sua sedução e por ele se apaixonar. Estará perdida para a vida.
Terminada as travessuras na casa, chega a hora de adentrar o estábulo. É o seu local predileto. Atira-se sobre o mais indomável dos cavalos. Segura-lhe pela crina, assustando-o, fazendo-o galopar em fuga. Sente o vento no seu corpo quando caminha sobre o cavalo assustado. Enquanto cavalga, faz belas tranças na crina do animal. De repente um córrego. É hora de abandonar o animal. O Saci não pode atravessar nem córregos, nem rios, pois o redemoinho que o protege diluirá nas águas.
O Saci continua a sua empreitada, quando de repente, jogam dentro do seu redemoinho um rosário. Um caçador audacioso atira-lhe ainda, uma corda com nós. Não resiste, pára e tenta desatá-los. Naquele momento, o homem prende-o em uma peneira, único objeto que o detém. Capturado, o travesso Saci vê a sua carapuça a ser-lhe tirada da cabeça. Vencido pela esperteza daquele caçador, é obrigado a conceder-lhe um desejo. Realizado o desejo, consegue a liberdade de volta.
Assim, o Saci desaparece pela mata. No dia seguinte, voltará às fazendas, às cozinhas, aos estábulos, e sorrirá vitorioso diante das suas travessuras. Ser bom não lhe traz felicidade, ser mal não lhe proporciona prazer, ser imprevisivelmente astuto e de ardis frenéticos, é a sua essência vital.

A Mula Sem Cabeça

Longe, bem longe, em um vilarejo situado no interior do nada, vivia a bela Maria. Corriam os anos, e ela exalava pelos campos o seu ardor juvenil, a sua insinuante delicadeza virginal. Maria era desejada pelo mais robustos rapazes, sonhada pelo mais casadoiro dos homens. Mas a nenhum deles ela se rendia. Tanto menosprezou os pretendentes, que um dia foi por um deles amaldiçoada.
A paz da bela Maria fugiu quando, num certo domingo, surgiu na missa um padre a substituir o que morrera semanas antes. Ao contrário do seu antecessor, era jovem, belo e de sorriso sedutor. Tão logo os olhos de Maria cruzaram os do padre, a sua maldição começou. A donzela encheu-se de paixão pelo padre. Dentro dela ascendeu-se todas as luzes do desejo proibido.
Maria tornou-se a mais fiel participante de todas as missas do lugar. Cada hóstia que ingeria, diluía-lhe a sensatez da alma, aflorando-lhe o desejo. Tantas vezes voltou às missas, que não passou despercebida aos olhos e aos sentimentos do padre. No calor de Maria, o padre revelou o homem ardente que escondia debaixo da batina. Muitas foram as noites de entrega, langor e prazer, que ambos perderam a clareza dos sentimentos, ficando cegos diante do povo do lugarejo, que a tudo assistia.
Numa noite de lua cheia, a população concentrou-se em frente à igreja. Quando Maria surgiu, foi cercada por todos. Ao seu redor foi feito um círculo de fogo. Um ovo enrolado com o seu nome foi atirado às chamas. Uma oração foi invocada. Maria ouvia os murmúrios que lhe chamavam de mulher do padre.
A noite de quinta-feira estava no fim, já chamando pela sexta-feira. No meio do círculo de fogo, quando a lua iluminou o rosto de Maria, uma terrível metamorfose debateu-se sobre ela. Sua pele foi ficando grossa, assumindo uma cor castanha. O corpo foi perdendo a forma ereta, curvando-se como uma besta. Mãos e pés transformaram-se em cascos, trazendo ferraduras de prata. A cabeça desapareceu, em seu lugar surgiu o fogo. Completada a metamorfose, a bela Maria já não existia, era apenas uma mula sem cabeça, era a burrinha do padre.
No meio da praça, o povo assustado ouviu um relincho tão alto, que ecoou por todo o vilarejo. A mula sem cabeça soltou um soluço medonho, a lembrar a sua antiga forma humana.
Numa velocidade sem fim, a mula sem cabeça saiu em disparada. Corria desenfreadamente, despedaçando com as suas patas homens ou animais que se lhe ficassem no caminho. Somente os que se deitavam de bruços, escondendo unhas e dentes, é que não eram atacados pela besta. O trajeto da mula sem cabeça só encerrava ao terceiro cantar do galo. Exaurida, ela voltava a ter a forma da bela Maria.
Assim, toda noite de quinta para sexta-feira, quando a lua cheia despontava no céu, Maria cumpria a sua maldição. Transformava-se na mula sem cabeça. Seu trajeto só poderia ser interrompido se alguém conseguisse furar-lhe a pele, fazendo-a sangrar, voltando assim, à forma humana. Ou se o padre com quem dividira o calor do seu desejo, a amaldiçoasse sete vezes durante a missa. O padre, envergonhado pela paixão que se deixara levar, fugira para sempre. Jamais se soube do seu paradeiro. Certamente não conseguiu amaldiçoar a bela Maria, que em noite de lua cheia, voltava a ser sempre a burrinha do padre.

Texto: Adaptação livre de Jeocaz Lee-Meddi
Ilustrações: José Lanzellotti (Imagens 1, 2, 3, 4 e 6 - parcialmente)

2 comentários:

PROGRAMA DESAFIO disse...

Parabéns pela linda postagem sobre o folclore e também pelas outras, não tive tempo para ver todas mais o pouco que vi adorei.

ADEMAR AMANCIO disse...

O Folclore diz muito do sentimento e da alma de um povo,assim como a mitologia.