domingo, 22 de novembro de 2009

VIDA - ÁLBUM EXISTENCIALISTA DE CHICO BUARQUE

Com a abertura política do regime militar, deflagrada gradualmente a partir de 1978, Chico Buarque deixou de ser o autor proibido pelo regime, o compositor perseguido e de obra amputada pela censura. A obra discográfica, a teatral e a feita para o cinema, passaram a ter maior liberdade de expressão, deixando as metáforas implícitas, para a poesia da palavra mais visceral.
Após a abertura, “Calabar”, peça proibida na primeira metade da década de 1970, foi liberada e encenada, em 1980. No contexto da amenização da censura, “A Ópera do Malandro” chegou aos palcos e aos discos na íntegra, sem pressões ou cortes. Chico Buarque vivia no fim daquela década, uma fase criativa inspirada por personagens retratadas nos palcos e nas telas de cinema. Criou trilhas sonoras inesquecíveis e definitivas, percorrendo através da poesia e da melodia, o universo feminino, existencialista e sexual, atingido a alma humana como poucos autores de MPB conseguiram.
Vida”, álbum de 1980, traz as personagens de Chico Buarque direto dos palcos de teatro, das telas de cinema, para o universo da Música Popular Brasileira. A proposta iniciada com o disco “Meus Caros Amigos”, em 1976, adquire maior teor existencialista neste álbum, onde a imagem e a melodia travam uma instigante cumplicidade, revelando a maturidade de um compositor em busca da sua perfeição interior e do perfeccionismo estético. Cada faixa descortina um mundo contemporâneo, em que a tragédia das crônicas jornalísticas e o delírio do amor vivido ao extremo da paixão, caminham paralelamente em “Mar e Lua” e “Eu Te Amo”; a paisagem pitoresca de uma Angola incipiente e de um Brasil desnudado muito além dos centros urbanos, alinhavam uma estética poética humana em “Morena de Angola” e “Bye Bye Brasil”.
Personagens humanas, dramáticas, femininas e masculinas, intimistas e de extremos, são diluídas em melodias perfeitas e canções definitivas, que faz de “Vida” um dos álbuns mais belos e existencialistas de Chico Buarque. Com ele era enterrada para sempre a fase do autor proibido e censurado, agora livre para exalar as emoções poéticas, em uma nova forma de protesto, o do eu e do existir.

Duas Canções Vindas dos Palcos

Produzido por Sérgio de Carvalho, “Vida” foi lançado no fim de 1980. O disco revela um momento de transição entre a abertura política e o fim gradual da censura política e moral. Como se ainda tateasse nos novos tempos, a mensagem das canções faz a ruptura com as limitações moralistas, passando levemente pelo protesto político, expondo o íntimo dos sentimentos, levados à exaustão das paixões, das incertezas dos atos de amor. A capa branca, trazia no centro o retrato de Chico Buarque, desenhado por Elifas Andreato, dando-lhe um ar penetrante, quase a saltar. Feito nos moldes do vinil, trazia doze faixas distribuídas em dois lados. Trazia arranjos luxuosos de Francis Hime em dez faixas; de Tom Jobim e Roberto Menescal em duas faixas.
Vida” (Chico Buarque), canção que dava título ao álbum, abria o repertório. A música “Geni e o Zepelim”, tema do travesti Genivaldo, de “A Ópera do Malandro”, inesperadamente tornou-se um grande sucesso nas rádios da época, gerando polêmicas e a certeza de que a censura moralista havia chegado ao fim. A canção acabou por inspirar o espetáculo “Geni”, em 1980, de Marilena Ansaldi e José Possi Neto. “Vida” foi feita para a peça, como se fosse a apoteose final de “Geni e o Zepelim”. É o encontro do homem com o epílogo da sua consciência, uma retrospectiva instigante, profunda, sofrida, ao âmago da existência e das escolhas de uma vida, que, quando parece asfixiar, retorna de forma positiva. O encontro entre o limiar dos palcos da vida e o além das cortinas do desconhecido. O questionamento de todos ante os limites da alma e da sua essência. A canção começa com a voz intimista de Chico Buarque, explodindo em um final veloz, quase que de apoteose. “Vida” foi gravada por diversos intérpretes da MPB, como Simone e Maria Bethânia, mas a interpretação de Chico Buarque continua a ser a mais contundente, verdadeira e definitiva.

“Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida
Nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens
De olhos sombrios
Mas, vida, ali
Eu sei que fui feliz
Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis”

A segunda faixa, “Mar e Lua” (Chico Buarque), também veio dos palcos, do espetáculo “Geni”. Inspirada numa crônica de jornal, que contava o suicídio de duas mulheres que se amavam e, discriminadas pela moral do lugar onde viviam, atiraram-se às águas de um rio. De uma forma poética, quase doce, Chico Buarque descreve o momento final desse amor clandestino, amenizando a morte com metáforas. É o amor que dilata a moral, perdendo-se no desespero das barreiras. A sexualidade é acentuada entre desejos impulsionados pela paixão proibida, pela sensação da natureza, sob o deslumbramento da luz da lua e a imensidão do mar dos preconceitos. A canção tornou-se um hino do amor lésbico, sendo gravada por vários intérpretes.

“Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar”

Canções do Amor Desesperado

O samba modesto de Chico Buarque alegra o disco com a faixa “Deixe a Menina” (Chico Buarque). Os jogos de sedução e ciúme das rodas de samba; a beleza da morena e a ginga do seu samba a ofuscar o ciúme do marido, amuado pelos cantos, enquanto ela deslumbra os sambistas e os seus desejos. Irônico, divertido, o autor lembra que “por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz”, máxima que serve para todos aqueles que arriscam o amor de uma mulher deslumbrante.
E se o amor quando perde o esplendor dói, a sua perda corrói o sorriso, a superação do seu fim é o próprio renascimento dos sentimentos. “Já Passou” (Chico Buarque), descreve esse momento de alívio, em que a dor é substituída por uma alegria com cicatrizes, que nos faz respirar e ter a certeza de que sobrevivemos ao fim de uma paixão. Intimista, mas de palavras fortes, a canção é o universo de Chico Buarque na sua mais pura essência.
Bastidores” (Chico Buarque), é quase um hino ao desespero diante do amor perdido. A canção foi feita para Cristina Buarque, irmã do autor, sendo também gravada por Cauby Peixoto. Foi na voz de um passional e eloqüente Cauby que a música alcançou a sua verdadeira face, sendo um sucesso que se colou à pele do cantor. A interpretação de Chico Buarque é intimista, mas de um brilho ímpar, que só o seu autor pode dar. É um universo feminino, que se adapta ao universo dos amores conturbados das paixões entre iguais. A estrela, imponente no palco, desejada por todos, não passa de um eco do seu canto nos bastidores, com os sentimentos em carne viva, sofrendo pelo abandono. É no palco que ela dilui a dor da perda, encantando e seduzindo a platéia. É no seu desespero pulsante que a arte encontra a veia do carisma, a luz do canto e do palco.

“Cantei, cantei
Jamais cantei tão lindo assim
E os homens lá pedindo bis
Bêbados e febris
A se rasgar por mim
Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim”

Qualquer Canção de Amor” (Chico Buarque), é uma daquelas canções menores dentro de um disco de grande esplendor. Intimista, é um jogo de versos e palavras que, sutilmente selam o valor da paixão dentro das melodias, os sentimentos cantados, jamais calados, não importando o autor, mas a mensagem.
E para amenizar todas as questões existencialistas levantadas nas faixas anteriores, “Fantasia” (Chico Buarque), chega como um carrossel que nos conduz a cantar pelo céu da poesia do autor. Palavras antes proibidas pela censura, como “gozo” no sentido de orgasmo, já não sofriam represálias. Um convite à distração da dor que nos aflige através do ato de cantar, de ouvir a melodia e percorrer sem medo a fantasia proposta, abraçar sem restrições, um álbum de rara beleza.

As Marcas do Amor na Pele

O lado B do álbum era aberto com “Eu Te Amo” (Chico Buarque – Tom Jobim). Sob a regência e o piano de Tom Jobim, Chico Buarque fazia um dueto com Telma Costa. A canção foi feita para o filme homônimo de Arnaldo Jabor, protagonizado por Sonia Braga. Mais uma vez a paixão é mesclada por uma estética sonora e visual, evidenciada por um erotismo latente em cada verso, cada gesto que se pode visualizar e quase que sentir o odor dos corpos. Dentro de um quarto, os amantes perdem a individualidade, dilacerando os caminhos nos desenhos dos corpos, rompendo as saídas nas malhas da paixão. Se o amor é vivido de forma tensa, o fantasma da perda dispara suas garras diante do medo da separação dos corpos, da vida além do leito. É a paixão sem saída, vivida na plenitude do seu erotismo, no encaixe da sensualidade, na linguagem dos corpos e das metáforas, envoltas pelos objetos; sapatos, vestidos, paletós, revelam a paisagem dos amantes. “Eu Te Amo” é uma das mais belas canções do amor erótico feitas na MPB.

“Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu (...)
(...) Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair”

De Todas as Maneiras” (Chico Buarque) é o retrato cruel do desgaste da paixão, do vazio dos sentimentos, vividos em uma intensidade que gerou a sua ruptura. No avesso dos sentimentos, palavras e agressões servem para o afago do que se rompeu, do momento de paz em que o amor é uma guerra. Gravada por Maria Bethânia, em 1978, no álbum “Álibi”, a canção não encontra a dramaticidade cênica da cantora baiana, mas não perde a intensidade diante do intimismo de Chico Buarque. Consegue um dos melhores momentos do disco, quase que inesperadamente.

Paisagens Humanas de Angola e do Brasil

Morena de Angola” (Chico Buarque), gravada quase que em simultâneo com Clara Nunes, alcançou grande sucesso na voz da cantora. Era o primeiro contacto cultural registrado em música entre Brasil e Angola, países de língua portuguesa, colonizados por Portugal. Recém independente, Angola era uma jovem nação que seria devastada pela guerra civil. Com um som a lembrar os ecos africanos, a canção trazia uma alegre paisagem da alma da mulher angolana. A canção foi composta após uma viagem do autor e de vários cantores a Angola, em 1980. O último verso faz uma homenagem ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), considerado subversivo pelo regime militar, por ser de esquerda e apoiado logisticamente por Cuba. Assim como “Tanto Mar”, a canção é uma homenagem às nações irmãs.

“Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na
canela
Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que
mexe com ela
Será que ela tá caprichando no peixe que eu trouxe
de Benguela
Será que tá no remelexo e abandonou meu peixe na
tigela”

Bye Bye, Brasil” (Chico Buarque – Roberto Menescal), foi feita sob encomenda, para o filme homônimo de Carlos Diegues. Conta-se nos bastidores, que Chico Buarque demorou a pôr letra na canção de Roberto Menescal; só entregando a composição já quando se encontrava em estúdio, pronta para ser gravada. Conta-se ainda, que trazia uma letra enorme, e que Carlos Diegues cortou a metade. “Bye Bye Brasil” mostra uma aquarela realista de um país plural. Através da visão de uma personagem ao telefone, o Brasil interior ou litoral, é descrito em suas várias faces. De beleza quase que épica dentro da MPB, traz uma melodia de diferenças sutis, difícil de ser interpretada, pois não tem um final, a letra é um convite à improvisação, quase que a terminar como começou, ou seja, com um belíssimo meio, e um final sem ponto. É o momento em que a ideologia transita no disco, com sutis referências a um Brasil poucas vezes retratado, ou mesmo cantado. “Bye Bye, Brasil”, já refletia como um moinho, os ventos da abertura pela qual passava o país.

“Bye Bye, Brasil
A última ficha caiu
Eu penso em vocês night and day
Explica que tá tudo okay
Eu só ando dentro da lei
Eu quero voltar, podes crer
Eu vi um Brasil na tevê
Peguei uma doença em Belém
Agora já tá tudo bem
Mas a ligação ta no fim
Tem um japonês trás de mim (...)”

O álbum era encerrado com a visceral "Não Sonho Mais" (Chico Buarque). É a terceira música do disco com uma vertente de inspiração homossexual. Feita para o filme “A República dos Assassinos”, em 1979, de Miguel Faria Jr, a canção relata o sonho de um travesti, no cinema vivido pelo ator Anselmo Vasconcelos, com o seu amado, um policial corrupto, pertencente ao esquadrão da morte. Odiado por todos, o amante é perseguido no sonho do amado, num dos mais violentos momentos da canção brasileira. Assim como em “Geni e Zepelim”, o autor utiliza metáforas escatológicas, muito em moda na época. Apesar do ritmo alegre e frenético da canção, a ironia da letra é servida crua, em carne viva, em uma violência explícita. No verso “Comemos os ovo”, propositalmente escrito fugindo da combinação do plural, mostra a castração feita sem piedade, sendo os testículos devorados, submetendo o amado a mais perversa das humilhações contra a virilidade. No fim, há o momento de conciliação, em que após um sonho tão cruel e libertador, o travesti volta à submissão do amado, e pede que não o castigue, pois não terá outro sonho tão devastador. “Não Sonho Mais” foi sucesso na voz de Elba Ramalho. Encerra convulsivamente o álbum “Vida”, sendo chancelada pela abertura política, longe da censura de outrora.
Vida” é o álbum do existencialismo humano, das questões psicológicas que se nos intercalam. Das conseqüências das escolhas, da liberdade da sexualidade de uma geração que estava preste a sair de uma longa ditadura que duraria duas décadas. Era a MPB a ser porta voz daqueles novos tempos, e Chico Buarque o poeta maior do encontro sublime da palavra com a melodia.

Ficha Técnica:

Vida
Philips
1980

Produção e Direção: Sérgio de Carvalho
Arranjos e Regências: Francis Hime, Tom Jobim e Roberto Menescal
Técnicos de Gravação: Ary Carvalhaes, Paulo Sérgio “Choco”, Jairo Gualberto, Luís Cláudio Coutinho e João Moreira
Auxiliares de Gravação: Julinho, Alberto, Rui Paulo e Charles
Arregimentação e Cópias: Clovis C. Mello
Mixagem: Sérgio de Carvalho e Luigi Hoffer
Montagem: Ricardo Pereira
Estúdio: Polygram, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
Capa: Elifas Andreato
Arte Final: Alexandre Huzak
Coordenação Gráfica: Al. Do Luís

Músicos Participantes:

Piano: Francis Hime, Tom Jobim e José Roberto Bertrami
Oberheim: José Roberto Bertrami
Violão: Roberto Menescal, Artur Verocai, Octavio Burnier e Chico Buarque
Ovation: Octavio Burnier
Baixo: Luizão, Novelli e Luiz Alves
Bateria: Paulinho Braga e Elber Bedaque
Guitarra: Vitor
Percussão: Chico Batera, Sérgio, Chacal, Novelli, Cidinho, Paulinho Proença, Armando, Geraldo, Canegal e Nei
Trompete: Maurílio, Marcio Montarroyos e Waldir
Trombone: Maciel, Silvio e Manoel
Tuba: Zênio
Flautas: Danilo Caymmi, Paulo Jobim, Paulo Guimarães, Celso e Lenir
Clarinete: Netinho e Botelho
Cavaquinho: Alceu
Violinos: Alzik, Vidal, Vetere Guetta, Faini, José Alves, Lana, Pompeu, Perrota, Arnaud, Arraes, Teodoro, Walter Hack, Carlos Hack, Francisco, Assis e Abreu
Spalla: Pareschi
Violas: Geraldo Azevedo, Hindenburgo, Macedo, Fideles, Penteado e Stephany
Cellos: Marcio Mallard, Alceu, Jaquinho Morenbaum, Katz, Ranevsky, Andréa, Georgio e Iberê
Ritmo: Nei, Canegal, Trambique, Cuscus, Cláudio e Jorginho
Vocal, Assobios e Palmas: Chico, Sérgio, Novelli, Bardotti, Antonio Pedro, Bebel, Bee, Cacá, Cristina, Danilo, Telma, Miúcha e Marku

Faixas:

1 Vida (Chico Buarque), 2 Mar e Lua (Chico Buarque), 3 Deixe a Menina (Chico Buarque), 4 Já Passou (Chico Buarque), 5 Bastidores (Chico Buarque), 6 Qualquer Canção (Chico Buarque), 7 Fantasia (Chico Buarque), 8 Eu Te Amo (Chico Buarque – Tom Jobim) Participação de Telma Costa, 9 De Todas as Maneiras (Chico Buarque), 10 Morena de Angola (Chico Buarque), 11 Bye, Bye, Brasil (Chico Buarque – Roberto Menescal), 12 Não Sonho Mais (Chico Buarque)

Veja também:

CONSTRUÇÃO – O GRITO SUSSURRADO DE UMA ÉPOCA
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2007/11/construo-o-grito-sussurrado-de-uma-poca.html

2 comentários:

Ocean Soul disse...

Adoro esse álbum do Chico! Ah, e meus parabéns pelo excelente blog!!

Anônimo disse...

A canção "Vida" foi mesmo feita para a peça "Ópera do Malandro"?
É que estou realizando uma análise desta música.