sexta-feira, 27 de novembro de 2009

DYLAN THOMAS - O HOMEM COMO METÁFORA

Considerado um dos maiores poetas do século XX, Dylan Thomas retratou em sua obra a essência humana, a existência em sua mais entranhada manifestação. Poeta de obra isolada, quase solitária no tempo em que foi escrita, com versos que fugiam ao estilo dos seus contemporâneos, sem a preocupação intelectual ou a vertente social, Dylan Thomas não se atrelou aos movimentos literários do século em que viveu.
Como um bardo galês e poeta de sensibilidade extrema, soprou as suas palavras, de intensa sonoridade, através das colinas, das brisas, das árvores, da noite, do âmago do homem, romantizando a própria existência.
Freqüentemente encontramos em sua obra palavras enigmáticas, que nos conduz a um poeta apocalíptico, que mesmo ao esbarrar nas sombras da vida, faz com um profundo lirismo e densa emoção, tornando o homem a sua metáfora, e a existência o princípio e fim da procura de um eu. Assim como o homem, a mensagem é contraditória, mas indelével.
Dylan Thomas escreveu a maior parte da sua obra no auge da juventude. Homem de voz grave, que arrebatava as platéias quando declamava os seus poemas em teatros e auditórios universitários, teve uma existência marcada por amores furtivos e uma única musa, a esposa Caitlin Macnamara, com quem dividiu o caminho até uma morte precoce, aos 39 anos.
Boêmio inveterado, teve a biografia assinalada por suas bebedeiras homéricas. Em vida, alcançou grande popularidade na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, tornando-se um ídolo que transpôs os costumes, influenciando os poetas da beat generation. Cultuado por uma geração em ebulição, teve no cantor e compositor norte-americano Robert Allen Zimmerman, um dos maiores seguidores, que, em sua homenagem, adotou o nome de Bob Dylan.
Romântico, lírico, contraditório, Dylan Thomas deixou um legado poético que traduz a alma humana no seu ato de existir. Ler a sua poesia e descobrir um mundo que emociona e empolga a sensibilidade retraída em todos nós.

Os Primeiros Anos do Poeta

Dylan Marlais Thomas nasceu em Swansea, País de Gales, em 9 de novembro de 1914, quando explodia a Primeira Guerra Mundial. Seu pai, David John Thomas, era professor de inglês em Swansea. DJ Thomas costumava recitar William Shakespeare para o pequeno poeta, antes mesmo de ele aprender a ler. Apesar da família falar fluentemente o galês, Dylan e a irmã, Nancy Thomas Marles, jamais aprenderam a língua pátria. A obra do poeta é toda escrita em inglês.
Na escola, o estudante Dylan Thomas destacava-se em literatura e língua inglesa, matérias que abraçava com afinco, enquanto que ignorava as restantes, o que o fazia um péssimo aluno. Foi no tempo que freqüentava a escola em Swansea, aos dezesseis anos, que começou a escrever os seus primeiros poemas, iniciando os “Cadernos” de poesia, onde registraria a sua obra.
Aos dezessete anos, Dylan Thomas deixou a escola, indo trabalhar como repórter no “South Wales Daily Post”. No ano seguinte, juntar-se-ia a irmã Nancy Thomas, então atriz, à companhia de teatro de Swansea. Contando com dezoito anos, ele escreveria na época, a maior parte da sua obra poética.
Em 1933 , seria publicado o primeiro poema do autor fora do País de Gales, “E a Morte Perderá o Seu Domínio”, no “New English Weekly”. A seguir, visitou Londres pela primeira. No ano seguinte, ganharia o prêmio literário “Poet’s Corner”, e publicaria, em dezembro, o seu primeiro livro “18 Poemas”, coleção dos seus “Cadernos” de poesia, escritos quando ainda adolescente.
Aos vinte anos, um grande poeta era revelado para os leitores da Grã-Bretanha. A beleza da sua poesia alcançaria, aos poucos, admiradores assíduos no mundo inteiro.

E a Morte Perderá o Seu Domínio (tradução)

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
Com o homem no vento e na lua do poente;
Quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
Hão de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
Mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão de ressurgir;
Mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
E a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
Não morrerão com a chegada do vento;
Ainda que, na roda da tortura, comecem
Os tendões a ceder, jamais se partirão;
Entre as suas mãos será destruída a fé
E, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
Embora sejam divididos eles manterão a sua unidade,
E a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
Nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
Onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
Erguer a sua corola em direção à força das chuvas;
Ainda que estejam mortas e loucas, hão de descer
Como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
É no sol que irrompem até que o sol se extinga,
E a morte perderá o seu domínio.

Tradução: Fernando Guimarães

And Death Shall Have No Dominion (original)

And death shall have no dominion.
Dead mean naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to whell, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan’t crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift is head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down;
And death shall have no dominion.

Dylan Thomas e Caitlin Macnamara

Na segunda metade da década de 1930, Dylan Thomas estabelecer-se-ia em Londres, onde conheceria Caitlin Macnamara, com quem iniciaria um tórrido romance. O encontro dos dois aconteceu em 1936, em um pub londrino. Conta-se que tão logo se conheceram, passaram alguns dias juntos no Torre Eiffel Hotel, sendo a conta paga por Augustus John, amante da jovem.
O triângulo estabelecido entre Caitlin, Dylan e John Augustus, resultaria em um embate corporal entre os dois apaixonados, em que o poeta sairia perdedor. Após o episódio da luta, Caitlin decidiu-se por Dylan.
Em 11 de julho de 1937, Dylan Thomas e Caitlin Macnamara casaram-se, contra a vontade dos pais do poeta. O amigo Wyn Henderson emprestou três libras para a licença de casamento, e cedeu a sua casa de hóspedes para o jovem casal.
Apesar das turbulências que sofreu com as aventuras amorosas de Dylan Thomas, Caitlin permaneceu ao lado do marido até a sua morte, dando-lhe os filhos e herdeiros. Crises conjugais constantes levaram à separação do casal, seguida de uma reconciliação. Mesmo volúvel em pequenas paixões, o poeta foi homem de um só casamento, fato inédito à maioria dos seus contemporâneos.

A Mão Ao Assinar Este Papel (tradução)

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
Cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
Duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
Estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído,
E as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
Uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
Que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
E cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
Maior se torna a mão que estende o seu domínio
Sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
A ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
Há mãos que governam a piedade como outras o céu;
Mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

Tradução: Fernando Guimarães

The Hand That Signed The Paper (original)

The hand that signed paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.

The might hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose’s quill has put an end to murder
That put an end to talk.

The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand that holds dominion over
Man by a scribbled name.

The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor pat the brow;
A hand rules pity as hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.

Cultuado nos Estados Unidos

Na década de cinqüenta, Thomas Dylan alcançou grande sucesso nos Estados Unidos. Em 20 de fevereiro de 1950, fez a sua primeira viagem àquele país, numa excursão organizada por John Malcolm Kauffmann. Em Nova York, atrairia para si a admiração dos leitores e jovens norte-americanos, que iam ao delírio com as leituras do poeta em seus auditórios.
O sucesso nos Estados Unidos fez com que a obra de Dylan Thomas fosse conhecida no mundo inteiro. Ele passaria a ser uma figura lendária no circulo intelectual estadunidense. Ganharia fama de grande boêmio e de beberrão inveterado. Uma vida mundana passou a caracterizar o universo em que transitava. Seus poemas existencialistas e voltados para o eu humano, de forma revestida de emoção profunda e lirismo latente, inspirou toda uma geração de poetas que ficaram conhecidos como a “Geração Beat”.
Cultuado nos Estados Unidos, Dylan Thomas, em suas perambulações noturnas e de embriaguez física e poética, tomou como amante a norte-americana Pearl Kazin, ocasionando uma crise em seu casamento com Caitlin Macnamara, que levaria o casal a uma breve separação.
No outono de 1951, Dylan Thomas escreveu um dos mais belos de todos os seus poemas, “Do Not Go Gentle Into That Good Night”, feito para o pai, que se encontrava profundamente doente, vindo a falecer em dezembro de 1952.
Em outubro de 1953, Dylan Thomas partiu para Nova York, iniciando aquela que seria a última das suas excursões pelo mundo e pela vida. No dia 29 de outubro, faz a sua última apresentação em público. O alcoolismo tomara conta do seu organismo, levando-o à degradação física. No dia 5 de novembro, segundo alguns biógrafos do poeta, após ingerir dezoito copos de uísque, passaria mal no hotel Chelsea, em Nova York. No dia 9 de novembro de 1953, o poeta sucumbiria ao álcool, vindo a morrer em um hospital, longe da sua terra natal. Seu corpo seria levado pela esposa, Caitlin Macnamara, para Laugharme, onde foi sepultado em 25 de novembro. O bardo galês calava-se em corpo, eternizando-se através das palavras secas da sua obra lírica.

Não Entres Docilmente Nessa Noite Escura (tradução)

Não entreis docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Tradução: Fernando Guimarães

Do Not Go Gentle Into That Good Night (original)

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sigth
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Cronologia

1914 – Nasce em Swansea, no País de Gales, em 27 de outubro, Dylan Marlais Thomas.
1925 – Entra para a Swansea Grammar Scholl.
1930 – Inicia, em abril, o primeiro dos “Notebooks”, onde escreveu os seus primeiros poemas.
1931 – Dylan Thomas deixa a Swansea Grammar Scholl. Torna-se repórter do “South Wales Daily Post”.
1932 – Ao lado da irmã, Nancy Thomas, junta-se a Swansea Little Theatre Company. Escreve, na época, dois terços da sua produção poética.
1933 – Publicado, em maio, no “New English Weekly”, o primeiro poema de Dylan fora de Gales. Em agosto, visita Londres.
1934 – Segunda visita a Londres. Em abril, ganha o prêmio literário “Poet’s Corner”. Publica, em dezembro, “18 Poems”.
1936 – Encontro de Dylan e Caitlin Macnamara, no pub Whetsheaf, em Londres. Publicado, em setembro, “Twenty-Five Poems”.
1937 – Casa-se em julho, contra a vontade dos pais, com Caitlin.
1939 – Nasce, em janeiro, Llewelyn Edouard Thomas, primeiro filho do poeta. Publicado, em agosto, “The Map of Love”.
1943 – Publicado, nos Estados Unidos, “New Poems”. Nasce, em março, Aeronwy Bryn Thomas, em Londres.
1946 – Publica “Deaths and Entrances”.
1949 – Visita, em março, Praga, como convidado da União dos Escritores da Tchecoslováquia. Nasce, em julho, Colm Garan Thomas Hart.
1950 – Parte, em fevereiro, para Nova York, na sua primeira excursão aos Estados Unidos. Retorna à Grã-Bretanha em junho.
1951 – Após uma crise conjugal, Dylan e Caitlin reconciliam-se.
1952 – Dylan e Caitlin partem, em janeiro, para os Estados Unidos. Publicado “Collected Poems”. Morre, em dezembro, em Laugharme, David John Thomas, pai de Dylan Thomas.
1953 – Em outubro, parte para a sua quarta e última turnê aos Estados Unidos. Faz sua última aparição pública, em 29 de outubro, em Nova York. No dia 5 de novembro, cai no Chelsea Hotel. Em 9 de novembro, morre, em Nova York, Dylan Thomas.

OBRAS:

Poesia

1934 – Eighteen Poems
1936 – Twenty-Five Poems
1939 – The Map of Love
1943 – New Poems
1946 – Deaths and Entrances
1952 – Collected Poems
1971 – Poems

Prosa

1934 – Notebooks
1940 – The Portrait of the Artists as a Young Dog
1953 – The Doctor and the Devils
1954 – Under Milkwood
1954 – A Child’s Christmas in Wales
1954 – Quite Early One Morning
1955 – Adventures in the Skin Trade, and Other Stories
1957 – Letters to Vernon Watkins
1964 – The Beach of Falesá
1969 – Collected Prose
1971 – Early Prose Writings

Teatro

1953 – The Doctor and the Devils and Other Scripts
1954 – Under Milk Wood

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