sábado, 31 de outubro de 2009

O PEQUENO PRÍNCIPE - ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY

Vindo de um micro planeta distante, o Pequeno Príncipe conquistou todas as gerações da Terra, desde que foi criado, em 1943. Saído da mente fértil de Antoine de Saint-Exupéry, o livro é o legado do seu autor ao mundo. Ele mesmo desapareceria entre as nuvens, naqueles fatídicos anos da maior guerra contemporânea do planeta.
Não se pode classificar o livro de infanto-juvenil, porque ele arrebata todas as idades, toca no coração de todos nós como uma doce intenção de redimirmos nossos conceitos diante dos erros da moral. O romance desenvolve-se a partir do encontro de um aviador com um menino sonhador e de cabelos dourados, vindo de outro planeta. Através de parábolas, a narrativa adquire um teor poético e filosófico, que encanta e nos faz pensar nos pequenos momentos da vida, nos sentimentos de amor e solidariedade que às vezes não percebemos, mas que se encontram em todos os quartos da nossa existência. Faz-nos reconhecer através dos detalhes do cotidiano, aquele algo que definimos como especial, apenas porque assim o fizemos. A parábola do amor à rosa, tão feminina e humana; da conquista do coração selvagem da raposa, tão amiga e símbolo da fraternidade universal, da morte do corpo para o vôo da alma.
O Pequeno Príncipe”, ou “O Principezinho” (Le Petit Prince), traz ilustrações originais do próprio autor. É o livro francês mais vendido no mundo, tendo sido traduzido em 160 idiomas ou dialetos. É um dos romances mais lido em todo o planeta. Escrito no auge da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa, em especial a França, estava mergulhada nas trevas, oprimida pela ambição nazista; revela um canto de esperança, um hino à fraternidade, como se Saint-Exupéry viajasse pelo sonho de voar, tão distante da insensatez bélica, ultrapassando o seu tempo, sem perder de vista a essência da vida. “O Pequeno Príncipe” é um convite à criança sonhadora e etérea que há dentro de cada um de nós, para que emirja sem medo de voar.

A Rosa Mais Perfumada do Mundo

Na paisagem árida do deserto do Saara, um aviador é obrigado a aterrissar, devido a uma avaria no motor. Será neste ambiente inóspito que encontrará àquele que lhe modificaria para sempre o modo de pensar, o menino de cabelos dourados, vindo de um planeta distante, em busca dos seus sonhos e conhecimentos do universo em que o cerca.
No meio do nada do deserto, o solitário aviador ouve uma suave voz de criança, que lhe pede para desenhar uma ovelha. Como numa miragem a contrastar com o ambiente selvagem, a figura doce e impetuosa daquele menino surpreende o errante piloto. Não sabendo desenhar ovelhas, o homem desenha uma jibóia que trazia no ventre um elefante. O príncipe protesta, dizendo que não quer aqueles dois animais. Para surpresa do aviador, ele foi o único que decifrara o desenho, que todos insistiam em dizer que era um chapéu. Aquele desenho outrora incompreendido, motivo da frustração do artista que havia dentro do aviador, encontrara finalmente quem lhe percebera a arte. Feliz, desenhou a ovelha que lhe pedira o menino. Inicia-se a amizade entre os dois.
Aos poucos, a criança encantadora, começa a narrar as suas aventuras pelo universo. Viera de um pequeno planeta, o Asteróide B612, tão distante que não se podia ver no horizonte. Tão pequeno, que tinha apenas dois vulcões ativos e um extinto, e uma rosa. De lá o pôr do sol poderia ser visto a qualquer momento.
Dos poucos atrativos do seu planeta, o principezinho tem como principal a rosa, que com amor e carinho, regava e cuidava todos os dias. Queria uma ovelha para que comesse os embondeiros ou baobás, árvores que quando pequenas não passavam de arbustos, mas que depois de grandes tornavam-se gigantescas, tomando todo o pequeno planeta e matando a sua rosa. O aviador revela-lhe que as ovelhas não comiam somente os arbustos, mas também as flores. O pequeno teme pela sorte da sua rosa.
Nos cuidados com a rosa, ela tornou-se exigente, muitas vezes presunçosa e voluntariosa. Sendo única, defendia-se com os seus espinhos, seduzia o pequeno com a sua beleza e a delícia do seu perfume. Na figura da rosa, Saint-Exupéry retrata a sedução das paixões, as exigências do amor e do afeto, que muitas vezes nos parece sem sentido, mas que são essenciais aos sentimentos. Na beleza da rosa, o principezinho encontra os espinhos da sua primeira decepção, ou talvez, incompreensão dos labirintos de quem se ama.
Assim, para fugir dos caprichos da rosa, o pequeno e sonhador, parte do seu planeta, levado por uma revoada de pássaros, perseguindo as aventuras do seu ser, numa ardente vontade de voar pelos mistérios do universo.

Viagem aos Pequenos Planetas

Viajando pelo espaço, o principezinho visita seis pequenos planetas. Em cada um deles, descobre diferentes pessoas, vivendo no universo egocêntrico das suas personalidades e limitações.
No primeiro planeta, encontrou um rei sem súditos, que a tudo queria governar, permitir ou mandar. Talvez uma visão rebuscada do totalitarismo nazista que dominava a França ocupada. Sem a preocupação do dogma dialético, o rei é mais trágico e louco do que absolutista. Decepcionado com o universo dos adultos, o príncipe deixou o mundo do rei solitário.
No segundo planeta, encontrou um homem vaidoso e presunçoso, a ansiar pelas palmas dos admiradores que não tinha. Para satisfazer tão incontrolável vaidade, o principezinho bateu palmas, em retribuição, o homem tirava o chapéu. Cansado de alimentar a futilidade das palmas, o pequeno partiu novamente.
No terceiro planeta, deparou-se com um bêbedo, que se embriagava para esquecer a vergonha do ato. Diante de tanta melancolia, a visita do pequeno foi breve, sem maiores lições.
No quarto planeta, conheceu o homem de negócios, que contava as estrelas do céu, julgando-se dono delas. Quanto mais estrelas contava, mais rico se sentia. Apoderara-se das estrelas que jamais tinham sido reivindicadas. Sua fortuna brilhava no céu, impalpável, como a ilusão de todas as riquezas do mundo. Desiludido com a ganância do homem, o principezinho seguiu a sua jornada.
O quinto planeta era o menor de todos eles, com espaço apenas para um acendedor de lampiões. Por causa do seu tamanho, o planeta dava a volta a si mesmo em apenas um minuto, gerando um dia fugaz, o que obrigava o acendedor a ter uma tarefa sem fim, já que tinha que acender o candeeiro à noite e apagá-lo ao amanhecer, tudo em segundos. Mesmo sabendo da inutilidade do seu trabalho, o homem não deixava de executá-lo, pois assim estava estabelecido, cumpria cabalmente as funções designadas. Foi o único que o principezinho não considerou ridículo, pois acreditava que as obrigações eram maiores do que os prazeres, como um determinante senhor da deontologia.
No sexto planeta, o maior de todos eles, o principezinho encontrou um homem idoso, que sabiamente escrevia livros enormes. Era um geógrafo que desenhava todos os lugares do mundo. Lugares que nunca visitara, pois baseava os conhecimentos através dos relatos dos exploradores. Como não tinha exploradores, desconhecia por completo o aspecto físico do seu planeta. Entusiasmado com a visita, o geógrafo confunde o pequeno com um explorador. Pede a ele que descreva o planeta de onde veio. O principezinho o faz com modéstia, quando descreve a sua rosa, é interrompido pelo geógrafo, que lhe diz somente os mares e as montanhas, por sua eternidade, eram postos nas cartas geográficas, e que a rosa, por sua existência efêmera, não poderia constar na sua lista. Com tristeza, o principezinho descobre que a sua rosa tão querida, um dia iria morrer. Desolado, decide deixar aquele planeta. Antes de ir, o geógrafo aconselhou-a a visitar a Terra, por considerá-la um planeta de boa reputação.
O principezinho partiu em direção a Terra. Viajou melancólico e triste, por descobrir que a sua rosa era efêmera, e que a tinha deixado sozinha, com apenas quatro espinhos para se defender dos perigos do mundo.

O Principezinho e a Raposa

O sétimo planeta visitado pelo principezinho foi a Terra. Percebeu que era um lugar gigantesco, com uma paisagem que se perdia no horizonte. Sem saber que estava em pleno deserto do Saara, no norte da África, o pequeno pensou que chegara em um planeta desabitado.
Como numa alusão ao Gênesis, a primeira criatura viva que encontrou na Terra foi uma astuciosa serpente, que, através dos seus enigmas, descreveu-se mais poderosa do que o próprio homem:

“Quando toco em alguém, devolvo-o imediatamente à terra de onde veio. Mas tu és puro e vieste de uma estrela...”

Embora o diálogo com a serpente passe despercebido diante de outras parábolas do livro, esta frase é a codificação para que se perceba o desfecho final da aventura do principezinho na Terra.
Desvencilhando-se dos sortilégios da serpente, o pequeno príncipe prosseguiu a sua jornada pelo deserto da Terra. Passou por uma flor de três pétalas, simples e sem a beleza da sua rosa... Subiu montanhas, atravessou rochas e vales, até que se deparou com um jardim coberto por cinco mil rosas iguais à sua. Descobriu que a rosa que tanto amava não era única no universo. Ao sentir-se príncipe de uma única rosa comum, deitou na relva e chorou as lágrimas da decepção.
Foi quando lhe apareceu a raposa. Travou com o animal a sinceridade dos sentimentos e a genuinidade das palavras. O diálogo com a raposa é um dos momentos mais bonitos do livro, em que se desenha a essência da narrativa. Numa sabedoria filosófica, o animal revela ao menino que todos somos iguais na paisagem humana, assim como os animais e as rosas, e que só passamos a ser diferenciados para alguém, quando somos por ele conquistado. Revela-lhe que a sua rosa era única, porque ela o cativara, tornando-se fundamental em sua vida. Por fim, a raposa ensina ao príncipe que ele era responsável por aqueles que cativara.

“Adeus – disse a raposa. - Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos..”

“Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...”

Com as palavras da raposa, o principezinho prosseguiu o seu caminho, com a certeza que jamais as esqueceria. Seguiu feliz, com a certeza de que a sua rosa era única, a mais bela de todas aquelas cinco mil que avistara no jardim terrestre. Porque era a rosa que ele cuidara. Sentia-se culpado por deixá-la tão solitária.

O Pequeno Príncipe e a Serpente

Após passar por algumas aventuras, o principezinho encontra-se com o aviador. A ele irá transmitir tudo o que aprendeu em suas aventuras. De indagador, passa e indagar, tornando-se a luz nas dúvidas do amigo solitário.
A amizade feita no deserto acontece em oito dias, tempo que duraria a sua provisão de água. Quando ela acaba, no meio da sede e do desespero, surge a esperança dos sonhos. Juntos, eles encontram um poço no meio do deserto. É a fonte límpida da melhor água do mundo, a da natureza da fraternidade e do amor.
O aviador conserta a avaria do seu avião. É hora de partir. Também o principezinho quer voltar para o seu planeta. Sente-se culpado por ter abandonado a rosa amada à deriva. Quer voltar a cuidar dela. Mas sabe que o corpo lhe pesa e impede a viagem de regresso. Precisa libertar a alma e deixá-la voar, regressando ao seu mundo e ao amor da rosa.
Contrariando o aviador, o principezinho decide aceitar a ajuda da serpente. Sabe que o seu veneno é mortal. Através dele, libertará o corpo, ao qual considera apenas uma “casca”, que quando levada pelo vento, nada significa. Fugindo do amigo, ele parte na calada da noite, em busca da serpente. Ao se deparar com a fuga, o aviador vai ao seu encontro. Não consegue demovê-lo daquele objetivo enigmático. Assim, atado à vontade do príncipe, ele assiste ao momento em que a serpente pica mortalmente o amigo. O pequeno príncipe cai na areia, sem vida. Iniciara a viagem de volta à rosa e ao seu pequeno planeta. No outro dia, quando voltou ao local onde o corpo tombara, já não o encontra. Assim como surgira, desaparecera para sempre.
Seis anos depois, o aviador olha para o seu, na esperança que o lume das estrelas sorria para ele, pois sabe que em alguma delas, está o planeta do pequeno príncipe, e de lá ele o observa.

“Fixem bem esta paisagem para a poderem reconhecer se um dia fizerem uma viagem a África e forem ao deserto. Se passarem por este local, suplico-vos; não tenham pressa, fiquem um bocadinho à espera mesmo por baixo da estrela! Se vier um menino ter convosco, um menino que se está sempre a rir, com cabelos cor de ouro e que nunca responde quando se lhe faz uma pergunta, já sabem quem ele é. E então, por favor, sejam simpáticos! Não me deixem assim triste: escrevam-me depressa a dizer que ele voltou...”

Antoine de Saint-Exupéry

Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry, foi uma das personalidades mais interessante da história da literatura francesa. Viveu entre as aventuras de uma aviador e a filosofia poética da sua escrita. Saint-Exupéry nasceu em 29 de junho de 1900, em Lyon, na França. Nascido de uma família aristocrática, era o terceiro filho do conde Jean-Marie Saint-Exupéry e da condessa Marie Boyer Foscolombe.
Com a morte do pai, quando tinha apenas quatro anos, e o empobrecimento da família, Saint-Exupéry, sob a guarda da mãe, passou muito tempo da sua infância entre o Castelo da Molê, propriedade da avó materna, e o castelo de Saint-Maurice-de-Remens, perto de Ambérieu, propriedade de uma tia.
A educação do pequeno Antoine foi rígida, efetuada no colégio jesuíta Notre Dame de Saint-Croix. Na adolescência descobriu a poesia, lendo vários autores e escrevendo alguns versos.
Na juventude, Saint-Exupéry tinha como ambição fazer parte da Armada Francesa, mas foi reprovado, aos dezenove anos, nos exames de acesso à Escola Naval. Tinha fascínio pelos aviões e pela mecânica. Quando convocado para o serviço militar, em abril de 1921, alistou-se no 2º regimento de Aviação de Caças em Neuhof, próximo de Estrasburgo. O sonho de voar só foi concretizado após nove meses de instrução, quando se transformou em piloto civil. No exército, conseguiu o diploma de piloto de guerra e segundo-tenente.
O mundo da aviação jamais o abandonaria, influenciando toda a sua obra. Aos vinte e seis anos, tornou-se piloto de aviação da empresa aérea Latécoère, assegurando o transporte do correio entre Toulouse, na França, e Dacar, no norte da África. A paixão pelos desertos africanos faria parte da sua vida.
Viajando pela África, América do Norte e do Sul, Saint-Exupéry parecia estar onde sempre o fascinou, no céu. Nas pausas da sua vida atribulada de aviador, escrevia a sua obra. Em 1939, o livro “Terre des Hommes” (Terra dos Homens), alcançaria um relativo sucesso.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o escritor-aviador pôs-se à disposição da força aérea francesa, sendo nomeado capitão. Com o armistício assinado entre a França e a Alemanha, que possibilitou o domínio nazista sobre o seu país, Saint-Exupéry exilou-se nos Estados Unidos. Foi no exílio que, em 1943, escreveria aquela que se tornaria a sua maior obra, “O Pequeno Príncipe”.
Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, alistou-se ao comando americano, disposto a pilotar os Lightning P-38, mas encontrou, a princípio, dificuldades em obter permissão para fazê-lo, devido já ter uma idade acima do limite. Vencidos os obstáculos, realizaria oito missões. A última seria a de reconhecimento sobre Grenoble e Annecy, a 31 de julho de 1944. Às 8h45 daquela manhã, levantou vôo de Borgo, na Córsega. Jamais voltou. Em 3 de novembro, recebeu, em homenagem póstuma, as maiores honras do exército.
Recentemente, o alemão Horst Rippert, declarou-se o autor dos disparos que abateram o avião do escritor. Em 2004, foram encontrados no Mediterrâneo, próximo a Marselha, os destroços do avião. O corpo, assim como do “Pequeno Príncipe”, desapareceu no horizonte.

Cronologia

1900 – Nasce, em Lyon, França, em 29 de junho, Antoine de Saint-Exupéry.
1904 – Morre o pai, o conde Jean-Marie de Saint-Exupéry.
1919 – Reprovado nos testes para a Escola Naval.
1921 – Cumpre serviço militar em Estrasburgo, no 2º regimento de Aviação de Caças em Neuhof.
1923 – Deixa o exército, passando por vários empregos.
1925 – Começa a escrever o seu primeiro livro, “L’Aviateur” (O Aviador), publicando-o no ano seguinte.
1926 – Passa a trabalhar como piloto para a companhia de aviação Latécoère.
1929 – Escreve “Courrier Sud” (Correio do Sul).
1931 – Publica “Vol de Nuit” (Vôo Noturno), alcançando relativo sucesso.
1935 – Com a falência da Latécoère, tenta em vão, ao serviço da Air France, bater o recorde aéreo Paris-Saigon.
1938 – Tenta fazer a ligação aérea de Nova York à Terra do Fogo, sofrendo um acidente que quase lhe custa a vida.
1939 – Publica “Terre des Hommes”.
1940 – Com a ocupação da França pelos nazistas, exila-se nos Estados Unidos.
1942 – Publica “Pilote de Guerre”.
1943 – Publica “Lettre à un Otage”. Publica aquela que seria a sua obra-prima, “O Pequeno Príncipe”.
1944 – Numa missão de reconhecimento sobre Grenoble e Annecy, tem o avião abatido em 31 de julho. Seu corpo jamais foi encontrado.

OBRAS:

1926 – L’Aviateur (O Aviador)
1929 – Courrier Sud (Correio do Sul)
1931 – Vol de Nuit (Vôo Noturno)
1939 – Terre des Hommes (Terra dos Homens)
1942 – Pilote de Guerre (Piloto de Guerra)
1943 – Le Petit Prince (O Pequeno Príncipe)
1943 – Lettre à Un Otage (Carta a Um Refém)

Publicações Póstumas

1948 – Citadelle
1953 – Lettres de Jeunesse
1953 – Camets
1955 – Lettres à sa Mère
1982 – Écrits de Guerre
2007 – Manon, Danseuse

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