quarta-feira, 28 de outubro de 2009

HERMES, O MENSAGEIRO DOS DEUSES

A mais esperta e eloqüente das divindades gregas, Hermes, identificado como Mercúrio na mitologia romana, é o mensageiro dos deuses olímpicos. Sua capacidade de dominar a palavra, demonstrar astúcia e diplomacia, fez dele o deus do comércio e dos ladrões.
Hermes representa a jovialidade divina. Seu vigor faz com que viaje por todos os lugares do mundo, o que o torna o deus dos viajantes e protetor das estradas. Para percorrer os céus, traz um chapéu de abas com duas asas e sandálias aladas, que lhe permite voar com eximia ligeireza. Numa das mãos porta o caduceu, varinha mágica que recebeu de Apolo.
Símbolo da juventude fálica, Hermes tinha suas imagens itifálicas erguidas nos templos. Era, assim como Apolo, tido como o ideal de beleza, possuidor de uma agilidade viril. É na figura de Hermes que a androgenia da perfeição da beleza idealizada pelos gregos toma forma, através de Hermafrodito, fruto do seu amor com a bela Afrodite (Vênus), ser que nascera com os dois sexos.
Nascido da aventura amorosa entre Zeus (Júpiter) e Maia, Hermes foi o único filho tido pelo senhor do Olimpo fora do casamento, que não despertou a ira da ciumenta Hera (Juno). Seu carisma conquistara a deusa, que chegou a alimentá-lo no peito quando ainda criança. Hermes é sedutor, atraente com as palavras, senhor absoluto da astúcia.
Deus dos lucros das transações, é ambíguo como o é o próprio comércio. Se protege a lábia dos ladrões, também os condena por atos espúrios. Odeia a guerra e a discórdia, prezando a diplomacia como solução às querelas divinas e humanas.
Sem nunca parar, Hermes percorre todos os caminhos entre a Terra e o Olimpo. Incansável, leva nos lábios as mensagens dos deuses, propagando-as para os mortais. Seu poder de persuadir embriaga a humanidade, fazendo dele o mais sedutor de todos os olímpicos.

Os Epítetos e Atributos de Hermes

Não se sabe ao certo a origem desta divindade mitológica, sendo a Trácia o local mais provável. Os pelasgos, primitivos habitantes da Grécia, difundiram o culto ao deus. A lenda mais recorrente conta que Maia, sua mãe, era uma ninfa que vivia no cume do monte Cilene, na Arcádia. Ali, entregara-se a Zeus e dera à luz ao deus.
É nas terras geladas da Arcádia que se registra a veneração mais primitiva de Hermes, essencialmente pelos pastores, que lhe deram os epítetos de Hermes Epimélio e Hermes Nômio, sendo invocado como o protetor das cabanas, dos cavalos, dos cães, dos rebanhos, dos leões e dos javalis. Certas características primitivas seriam perdidas para Apolo Nômio, após o domínio dos dóricos.
Em épocas ainda remotas, recebeu na Samotrácia o epíteto de Hermes Casmilo, com características de um deus ctônico, protetor do subsolo e da vegetação. Era nesta época, representado com um falo desenvolvido, evidenciando o vigor viril, sendo cultuado ao lado das deusas da fecundidade.
Com a evolução do mito, a divindade sofreu transformações significantes, desenvolvendo novas características e recebendo outros atributos. Com o epíteto de Hermes Logio, era venerado como o deus da eloqüência e da persuasão, com o poder de praticar boas transações, favorecendo o comércio, proporcionando bons lucros aos helenos.
Hermes Krysorrais (munido de vara de ouro), mostrava o deus com o famoso caduceu, uma vara mágica que transformava em ouro tudo o que tocava, além de distribuir abundância aos homens. Portador das mensagens de Zeus, através do caduceu, transmitia aos mortais a benção dos olímpicos.
Com os epítetos de Hermes Empolaios (que preside o comércio) e Hermes Agoraios (que dirige as tarefas da praça pública), era venerado nas terras do Mediterrâneo visitadas pelos gregos. Trazia uma bolsa cheia como atributo, representando os lucros nas transações comerciais.
Hermes Agonios (que preside os certames), cultuava a juventude e a virilidade do deus, sendo venerado nos ginásios e estádios atléticos da Beócia. Com este epíteto, recebia homenagens periódicas através de lutas de jovens, efetuadas em Atenas, Creta, Acaia e cidades da Arcádia. Recebia culto como sendo o patrono dos desportistas, o criador do pugilato e das práticas atléticas.
Hermes Trismegisto (três vezes santo), era cultuado pelos poetas e cantores, como o protetor da música e inventor da lira; como criador das ciências, da matemática e da astronomia. Hermes Trismegisto era venerado juntamente com Apolo, as funções que se lhe eram atribuídas confundiam-se com as do deus solar. Várias lendas eram comuns aos dois, como a invenção da lira.
Quanto mais se aceitava um mito, maiores e mais complexas eram as atribuições dadas a ele. A figura mitológica de Hermes foi adquirindo diversas funções conforme evoluía a civilização grega. Com o epíteto de Hermes Psicopompo (condutor de almas), passou a ser venerado nas festas dos mortos e próximo às tumbas, como aquele que conduzia as almas dos mortos ao Hades.

Hermes, o Deus dos Ladrões

Tido como um deus natural da Arcádia, onde era primitivamente venerado como divindade agrícola e pastoril, Hermes foi aos poucos, adquirindo atribuições ligadas ao comércio, passando as funções primitivas a Apolo.
A astúcia do deus é descrita desde que era um recém nascido na Arcádia. Após amamentá-lo, Maia deixou-o no berço. Na calada da noite, o bebê libertou-se das faixas com as quais a mãe lhe envolvera o corpo. Silenciosamente, para que não acordasse Maia, deixou o berço. Era um bebê precoce e diferente de todos os imortais.
Hermes caminhou pela noite, direcionando-se para a Tessália. Na mente, o deus planejava roubar o rebanho do rei Admeto, de Feras, cidade daquela região; guardado por Himeneu e Apolo. Afinal, quem poderia desconfiar de um bebê?
Ao chegar aos campos onde estava o gado real, Hermes aproveitou-se de um descuido de Apolo, que caminhava enternecido ao lado do amado Himeneu, roubando-lhes o rebanho.
Apagando as pegadas do gado e às suas próprias, o travesso bebê atravessou a Tessália e a Beócia, chegando a Pilo. Ali encontrou Bato, um velho andarilho. Para que o homem não lhe denunciasse, Hermes ofereceu-lhe um bezerro em troca do silêncio. O velho aceitou a proposta. Mas o pequeno deus não se convenceu da fidelidade do homem. Deixou o gado em uma caverna, tomou a forma de um pastor e voltou para junto de Bato. Diante do velho, simulou desespero, dizendo que se lhe tinham roubado o rebanho, oferecendo uma recompensa a quem lhe desse uma pista do ladrão. Sem desconfiar da verdadeira identidade do pastor, Bato aceitou de imediato o suborno, denunciando o roubo. Após testar a falsa fidelidade do homem, o astuto deus transformou-o em uma rocha.
Antes que a noite terminasse, Hermes chegou com o gado ao cume do gélido monte Cileno, morada da sua mãe na Arcádia. Deparou-se com uma tartaruga, tomando-a como um sinal de sorte. Pegou o animal e o matou, esvaziando-lhe a carcaça, prendendo a ela pedaços de cana de tamanhos diferentes. Do intestino do animal, distendeu sete cordas. Tocou o instrumento, que produziu o mais belo de todos os sons, tinha inventado a lira.
Cansado da longa jornada, o pequeno voltou ao berço e adormeceu, certo de que a sua esperteza enganaria os guardadores dos animais.
Na Tessália, Himeneu deparou-se com a falta do rebanho. Sentindo-se culpado, recorreu a Apolo para que o ajudasse. Os dons divinos do deus fizeram com que descobrisse que Hermes era o autor do roubo, e que o rebanho real estava no monte Cileno. Furioso, Apolo dirigiu-se para a Arcádia, onde encontrou Hermes, um bebê recém nascido, a fingir dormir inocentemente, a dissimular sua precoce astúcia. Mas o deus da luz não se deixou intimidar pelos protestos de Maia, que se sentia ofendida com as acusações, muito menos pela imagem inocente do bebê. Interrogou Hermes, que negou o roubo. Mostrou-se um hábil orador diante das acusaçãoes do irmão. Exasperado, Apolo recorreu a Zeus, senhor do Olimpo, que não se deixou enganar, fazendo o filho confessar e devolver o rebanho.
Vencido, Hermes pegou a lira nas mãos. Quando se preparava para partir, Apolo ouviu uma canção que saía do instrumento que o pequeno tocava. O deus da luz comoveu-se, jamais tinha ouvido tão límpido e perfeito som. Sorriu para Hermes. Não conseguiu nutrir rancor por tão amável ser. Admirou-se com aquela esperteza. Diante da astúcia do pequeno, Apolo o consagrou como o deus dos ladrões, tornando-se desde então, o seu maior amigo e companheiro.

O Deus dos Viajantes e do Comércio

Desde bebê, que Hermes se mostra um andarilho veloz. Sua primeira grande viagem, da Arcádia à Tessália, foi marcada pela astúcia e pela malícia. A negociação com Bato representou o quanto a esperteza é necessária para que se realize uma empreitada bem sucedida, ainda que ilícita. As lendas de Hermes e de suas viagens com propósitos ambíguos, repletos de engodos e de vitórias diplomáticas, fizeram com que os gregos antigos o venerasse como o deus viajante, que se encontrava em todas as estradas do mundo. A certeza da presença de um deus, fazia com que os viajantes gregos se sentissem protegidos diante dos perigos. Assim, Hermes passou a ser cultuado como o deus dos andarilhos e dos viajantes, o condutor de uma viagem tranqüila, protetor de todas as artimanhas que se pudessem deslumbrar nas estradas.
Para invocar a proteção de Hermes aos viajantes, os marcos de pedra que indicavam o rumo, passaram a ser chamados de hermas, transformando-se no símbolo do deus, fazendo-o definitivamente o protetor das longas e perigosas caminhadas pelas terras desconhecidas. No decorrer do tempo, os marcos passaram a ser esculpidos com as características do deus. Estátuas de Hermes eram erguidas nas encruzilhadas ao longo das estradas. Por muitos séculos, as hermas e o falo foram os principais símbolos do mito de Hermes e das representações feitas pelos artistas.
Com a expansão da civilização grega, as suas viagens passaram a ter maiores objetivos comerciais. Hermes deixou de proteger apenas o viajante, estendendo o seu poder às transações dos comerciantes que viajavam em busca de bons negócios. Sua astúcia era essencial para que se realizasse boas empreitadas. A ambigüidade que envolvia o comércio, calcada na lábia e na habilidade, muitas vezes regida pela falta de escrúpulos dos helenos, a esperteza como fonte de sobrevivência, tudo volvia à lenda do deus ladrão. Hermes passou a ser cultuado como o deus do comércio e das transações bem sucedidas, além de eterno protetor dos ladrões, inspirador das suas lábias.
Hermes era o deus dos mercadores, seu caduceu quando estendido aos comerciantes, proporcionava bons lucros, quando estendido à Grécia, trazia as bênçãos dos olímpicos. Hermes propiciava as fortunas. Ao mesmo tempo em que propiciava os lucros, dispensava-os, sendo visto como doador de bens.
Outra ambigüidade do mito era a sua proteção aos ladrões. Ao mesmo tempo em que os protegia, poderia voltar-se contra eles, repudiando-os. Inventou a balança, instrumento que garantia aos compradores e aos vendedores o mesmo peso. Evitando que uma das partes fosse enganada.

A Representação da Imagem de Hermes

As viagens constantes pelo mundo, a ligeireza em que atravessava os céus do Olimpo, fazia de Hermes um deus vigoroso e atlético, ágil e viril. Assim, era imaginado pelos gregos como belo e jovem. As mais antigas representações do deus ressaltavam-lhe o falo. Suas estátuas viris eram espalhadas pelas encruzilhadas das estradas, à porta das casas, à entrada dos ginásios e estádios.
A imagem do Hermes arcaico era a de um jovem barbado e de cabelos longos, caídos sobre a nuca e o tórax; a cabeça era protegida por um chapéu pontudo ou de abas largas, portando pequenas asas; vestia uma túnica curta; trazia um manto preso ao ombro; um par de sandálias com asas, que o ajudava a voar como o vento; e, o caduceu, às vezes um simples bastão, outras vezes possuidor de três hastes que se encontravam na ponta, fazendo um nó. No decorrer dos tempos, as hastes foram substituídas por duas serpentes.
No século V a.C., a imagem do deus foi reformulada, provavelmente por Fídias (500?-432? a.C.), sendo esculpido nu, sem barba, com uma túnica sobre o braço esquerdo, e, com o braço direito erguido.
Seja qual fosse a representação, a imagem era sempre jovial, viril, repleta de beleza física. Ao lado de Apolo, Hermes era tido como o símbolo da beleza masculina idealizada pela civilização grega.

A Identificação com Mercúrio

Se Atena (Minerva), era a deusa da sabedoria, promovendo tanto a guerra, como a sua estratégia expansionista; e, Ares (Marte), promovia o horror sanguinário da guerra, as suas calamidades; Hermes era o deus da astúcia das palavras, da diplomacia e da conciliação. Ao contrário de Ares e Atena, ele não é um deus guerreiro, é o menos colérico dos olímpicos. Odeia a guerra e castiga severamente quem a desencadeia. Sua esperteza é usada como embaixadora das soluções pacíficas, é o deus da diplomacia.
Ao mesmo tempo em que propicia os lucros, Hermes condena as guerras que são travadas por causa deles. Seu maior amigo é Apolo, deus da luz e das artes. Num paradoxo anacrônico, a arte e o lucro caminham juntos
A característica de deus do comércio, levou Hermes a ser identificado com a entidade romana de Mercúrio. A partir do século V a.C., Mercúrio foi aos poucos, sendo helenizado, adquirindo todas as características de Hermes. Tornou-se na Roma antiga, o mensageiro de Júpiter, sendo nas lendas romanas, fiel servidor e cúmplice dos amores extraconjugais do senhor dos deuses.
Ao contrário de Hermes, que primitivamente foi cultuado como deus pastoril, Mercúrio sempre foi o protetor do comércio. Teve o seu primeiro templo erguido em Roma, em 496 a.C., no vale do Circo Máximo, próximo ao porto do rio Tibre, centro comercial fluvial da cidade. Assim como Hermes, o caduceu, o chapéu e as sandálias alados, são os principais símbolos de Mercúrio. A ele é acrescentando uma bolsa, simbolizando os lucros das transações comerciais.
Hermes e Mercúrio possuem uma prole com vários filhos em comum. Como a identificação do deus grego com o romano só aconteceu no século V a.C., as lendas dos filhos dos deuses, umas mais antigas do que as outras, fizeram a diferença da prole.
São filhos de Mercúrio: Evandro, fruto do amor do deus com a ninfa Carmena, tido como quem ensinou a escrita e a música aos latinos. Com a ninfa Lara, gerou os gêmeos Lares, entidades protetoras das casas e das encruzilhadas.
A prole de Hermes, mais tarde adotada por Mercúrio, é extensa. Com Afrodite teve Hermafrodito, ser de dupla natureza, metade homem, metade mulher. Com Antianira teve Equíon, o arauto dos Argonautas, e Êurito, famoso arqueiro. Com Quíone engendrou o famoso ladrão Autólico, avô de Odisseu. Com a ninfa Acacális teve Cidão, fundador da Cidônia, cidade da ilha de Creta. Com a princesa Herse teve Céfalo, por quem Eos, a Aurora, viria a nutrir uma grande paixão. A ninfa Driopéia foi quem o fez pai do mito mais famoso da sua prole, Pã, divindade dos pastores e dos rebanhos. Com Daíra teve Elêusis, herói da Ática. Com a princesa Polimela gerou Eudoro, um dos companheiros de Pátroclo na guerra de Tróia. Com Faetusa concebeu Mírtilo, que teve um infeliz destino como cocheiro do rei Enômao. Com a princesa Aglauro teve Cérix, grande sacerdote de Deméter.

2 comentários:

Rafaell Lotério Flomhaff disse...

Olá,
Gostei imensamente do seu blog, seu texto é muito gostoso de se ler, apesar de ser denso.
Muitas felicitações e continue assim.
R.L.F.

Anônimo disse...

eu queria saber se alguem sabe quais sao as cidades protegidas por esse deus