quinta-feira, 29 de outubro de 2009

BACURI - UM GUERRILHEIRO BRASILEIRO

Quatro décadas se passaram da deflagração das guerrilhas urbanas, mas muitas sombras ainda pairam sobre aquele momento de turbulência da história do Brasil. A figura do guerrilheiro, transformada em terrorista pela propaganda do regime militar, ainda é um ponto nevrálgico e um caminho estreito para que se possa percorrer e identificá-lo. Heróis para uns, terroristas para outros, o guerrilheiro passou para a história como um enigma da violência ideológica, um instigante proclamador de uma revolução que nunca chegou, de uma ideologia que se esvaiu da atualidade do mundo.
No contesto da luta armada no Brasil, nomes controversos emergiram numa história nem sempre contada com imparcialidade, quer pela direita, quer pela esquerda. Nomes ecoaram pelo país, guerrilheiros para os companheiros, terroristas para o regime militar. Com o fim da ditadura militar, a imagem do guerrilheiro foi dividida nos “redimidos” pela história, tendo muitos deles chegado ao poder; nos esquecidos, desaparecidos nas valas dos desconhecidos ou no ostracismo que o tempo lhes designou; e, nos eternamente malditos. Eduardo Collen Leite, o Bacuri, faz parte dos que ainda hoje são tidos como malditos. Sua morte, efetuada sob torturas, é considerada a mais cruel e violenta de todas as vítimas do regime militar.
Eduardo Leite era conhecido pelo vigor da sua militância nas organizações de esquerda que resistiram ao governo militar. Enérgico, violento e objetivo, era o companheiro certo para a concretização dos planos logísticos de sobrevivência da esquerda, que incluíram assaltos a bancos, a quartéis e seqüestros de embaixadores. Bacuri, como era chamado pelos companheiros, foi o militante perfeito para a execução da parte sórdida da guerrilha. Destemido, enfrentou armas e fuzis, matou quando determinada operação o exigiu, tornou-se ao lado de Carlos Marighella e Carlos Lamarca, o mais temido e odiado dos guerrilheiros.
Eduardo Leite, o homem, revelou-se para os poucos que com ele conviveram, passou despercebido pela sua época. Bacuri, o guerrilheiro, ainda é uma incógnita. Temido, odiado, exaltado... É daquelas personagens controversas que ainda não foram revisadas pela história. Sobre ele paira o estigma da violência dos seus atos, da complexidade que é uma ideologia morta e o seu significado naquela época. Bacuri faz parte de um momento da história, seu suplício não o faz mártir, mas sim vítima do seu tempo, do sistema da guerra fria. Atirou-se de cabeça em um caminho que não tinha volta. Pegou em armas, assaltou bancos, matou, seqüestrou; garantindo assim, a sobrevivência das células dos aparelhos e, a de muitos companheiros. Herói ou terrorista, só o tempo poderá decifrar Bacuri, um homem que se tornou guerrilheiro, e em nome da militância, viveu e morreu de forma violenta.

Eduardo Leite e a Sua Época

Eduardo Collen Leite, nasceu em 28 de agosto de 1945, em Campo Belo, Minas Gerais. Nascera no ano em que as nações encerraram a Segunda Guerra Mundial, e que uma paz aparente pairava sobre o planeta. No Brasil, a ditadura do Estado Novo chegava ao fim. Por um curto espaço de tempo, o país viveria uma democracia a engatinhar. Com a promulgação da Constituinte de 1946, couberam na nova história da nação até os que eram considerados velhos inimigos da elite, os comunistas, que obtiveram a legalização do PCB. Eduardo Leite cresceria nesse prelúdio democrático, que aos poucos foi minguando, ameaçado por golpes sucessivos.
Se a tragédia da grande guerra passara, as nações desenhavam uma outra, a Guerra Fria, que dividiu o mundo entre duas ideologias: a capitalista, liderada pelos Estados Unidos e pela Europa Ocidental, e a socialista, liderada pela extinta União Soviética e a Europa do leste. As novas tendências no quadro político mundial obrigaram que as nações escolhessem o lado que iriam ficar. O Brasil ficou do lado dos norte-americanos, e em 1947, o PCB teve a legenda cassada, passando a vigorar na clandestinidade. Era o primeiro golpe à democracia instituída em 1946.
Eduardo Leite mudou com a família para São Paulo ainda criança. Viveu na adolescência o efervescer das ideologias. Nunca no Brasil a mobilização política voltou a ser tão organizada, como naquele período que antecedeu ao golpe de 1964. As ligas camponesas, os sindicatos, as entidades estudantis, todos, sob a benção das ideologias de esquerda, ocupavam espaço na política do país, incomodando e assustando as elites do poder.
No cenário internacional, a Revolução Cubana de 1959 dava um basta às oligarquias corruptas do seu país, acenando para o resto da América Latina, inspirando aos que sonhavam com a revolução proletária. O medo de que o Brasil viesse a ser uma nova Cuba, deixou a elite direitista em alerta. As reformas agrárias e sociais propostas pelo governo João Goulart foram determinantes para que a direita temesse a implantação de um governo sindicalista e de esquerda. O velho fantasma do comunismo foi usado como propaganda contra a esquerda, e serviu para aliciar o apoio da classe média e setores da população ao golpe militar. A década de 1960 foi a década da quebra dos tabus, das revoluções sociais a explodirem pelo mundo. Das ideologias de esquerda a se fragmentarem em várias linhas intelectuais e dogmáticas. O maoísmo chinês; o castrismo; a visão romântica da revolução de Che Guevara, de fazer da América Latina uma só voz socialista; os trotskistas; os stalinistas; os reformistas liderados pelos soviéticos. Um cenário em princípio caótico para a atualidade contemporânea, mas que influenciaria uma geração pensante e preste a quebrar todos os tabus moralistas até então impostos à cultura ocidental
A juventude à qual Eduardo Leite pertenceu, assistiu a todas as tendências citadas. Vivera uma ínfima democracia, única até então na história da República, a ser encerrada pelos tanques e fuzis militares, naquele negro 1 de abril de 1964. Era tarde demais para aqueles jovens, acostumados ao debate político, à liberdade que em quinze anos marcara, ainda que de forma imperceptível, uma concepção diferente do Brasil e do mundo.
Muito cedo, Eduardo Leite ingressou na militância política. Tinha dezoito anos quando o golpe militar foi instaurado. Como a maior parte da juventude do seu tempo, acreditava que a esquerda traria a solução para os problemas do mundo, e que o mundo velho e de velhos, teria que ruir em nome de uma revolução socialista. Repudiava a ditadura das elites, economicamente voltada para poucos, acreditava na ditadura do proletariado, extensiva para todos. Assim, integrou-se à Polop (Política Operária), entidade de esquerda.

Codinome Bacuri

Como bom cidadão do regime militar, em 1967 foi incorporado ao exército, servindo na 7ª Companhia de Guarda, e, no Hospital do Exército, no bairro do Cambuci, região central de São Paulo. Na época em que freqüentou o exército, a grande ala da esquerda dos oficiais de menores patentes, tradicionalmente históricas no Brasil, tinha sido completamente expurgada.
O erro de avaliação do Partido Comunista Brasileiro quanto ao perigo de um golpe militar e, a falta de mobilização quando da sua concretização; a posição reformista e conciliatória com a burguesia; a luta pelo poder interno do comitê central, tudo contribuiu para que se fragmentasse em várias organizações.
Em 1968, Eduardo Leite passou a integrar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), uma organização política armada de extrema esquerda. Mostrou-se um militante arrojado e destemido, que se iria notabilizar pela eficiência em executar as mais difíceis tarefas das guerrilhas urbanas.
Para não ser identificado pelos serviços repressivos do regime, Eduardo Leite passou a usar o codinome de Bacuri, apagando de vez o antigo técnico de telefonia, tornando-se um ávido militante da esquerda opositora à ditadura. O codinome virou alcunha, grudou-se de forma indelével à pele e à alma de Eduardo Leite, que se despiu totalmente do pacato cidadão para dar passagem ao vigoroso guerrilheiro. Bacuri, descrito pelos companheiros de luta como simples, afável e bem-humorado, tornar-se-ia para o regime militar um terrorista sanguinolento e temível. Bacuri passou a ser uma lenda na história das guerrilhas da esquerda. A alcunha se lhe perseguiria até a sua morte.

Assaltos e Mortes

1968 foi o ano das grandes manifestações estudantis francesas e européias, da Primavera de Praga, das grandes passeatas pelo Brasil. Desde 1964, que não se ousara tanto a enfrentar a ditadura militar. A resposta do regime não tardou, veio com o Ato Institucional número 5 (AI-5), que aboliu o hábeas corpus, permitindo que o governo dissolvesse partidos e cassasse parlamentares, prendesse supostos inimigos à segurança nacional, sem que lhe fossem dados os direitos legais. O regime recrudescera, fechando-se por completo a qualquer esperança de democracia e de liberdade civil.
Sem as esperanças que haviam florescido em 1968 e encerradas com o AI-5, a esquerda decidira que a única solução era a luta armada, só ela atrairia as grandes massas, derrubaria a ditadura e consolidaria a revolução proletária. As diferenças de opinião quanto à estratégia da guerrilha; a dificuldade de reunir os militantes em grandes aparelhos, devido à vigilância intensa dos órgãos repressores; a carência de verba para manter os companheiros; fez com que surgissem várias organizações da extrema esquerda.
O ano de 1969 despontou como uma ressaca do AI-5. Seria um dos anos mais violentos tanto para a ditadura, quanto para as organizações de esquerda. Em abril, Bacuri deixou a VPR para fundar a Resistência Democrática (REDE). Destacou-se rapidamente nas empreitadas da guerrilha urbana. Praticou dezenas de assaltos a bancos, supermercados e carros fortes, sem nunca se deixar apanhar. Sua reputação de perigoso subversivo logo se espalhou. Ainda naquele fatídico 1969, seu rosto aparecia estampado, ao lado de Carlos Marighella, nos cartazes de “Procurados” espalhados pelo país. Bacuri tornara-se uma lenda, um nome que incomodava os agentes da repressão.
As operações de assaltos a bancos e supermercados envolviam grandes riscos, podendo vitimar tanto os assaltados quanto os assaltantes. Não era objetivo dos guerrilheiros matar inocentes, mas a pressão, a violência do ato, jamais poderia garantir quaisquer seguranças. Os assaltos tinham como finalidade levantar dinheiro para as operações de luta armada, além de poder manter a sobrevivência dos que viviam na clandestinidade, impedidos de trabalhar e ter o seu próprio sustento. Muitas vezes, dentro dos aparelhos, a fome falou mais alto do que a ideologia. Bacuri tornou-se o militante mais eficiente para executar essas operações, o que lhe acarretou uma vida de extrema violência e de mortes nas costas, aumentando-lhe a fama de “terrorista” perigoso.
Entre os mortos nas operações de assalto, foram imputados direta ou indiretamente a Bacuri, as mortes de:
Abelardo Rosa Lima, soldado da policia militar de São Paulo, metralhado numa tentativa de assalto ao Mercado Peg-Pag, em 6 de outubro de 1969. Além de Bacuri, participaram do assalto Walter Olivieri, Devanir José de Carvalho, Ismael Andrade dos Santos e Mocide Bucherone. A operação foi realizada em conjunto, pela REDE e pelo Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT).
Orlando Girolo, bancário de uma agência do Bradesco em São Paulo, morto numa operação executada por Bacuri e Devanir José de Carvalho, representando a REDE e o MRT, respectivamente.
João Batista de Souza, guarda de segurança da Companhia de Cigarros Souza Cruz, no Cambuci, em São Paulo. Bacuri foi identificado como o autor do assassínio, aumentando-lhe substancialmente a fama de guerrilheiro. A operação foi novamente executada pela REDE e pelo MRT, reunindo outros militantes das duas organizações.

Participação em Dois Seqüestros

O seqüestro do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, realizado pela Aliança Libertadora Nacional (ALN) e pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), resultou na libertação de vários presos políticos, servindo de inspiração para novos seqüestros.
Além dos assaltos a bancos, os seqüestros passaram a ser engendrados como meio de libertar a grande militância que se encontrava nos calabouços, sendo torturada e pondo em risco à segurança dos companheiros, caso não resistissem ao suplício e entregasse os nomes, além de chamar a atenção internacional para as atrocidades do regime.
A competência de Bacuri nas operações de guerrilha, fez dele o militante ideal para novos seqüestros. Ao lado da mulher Denise Crispim, participou ativamente no seqüestro do cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okushi. VPR, REDE e MRT, realizaram a operação, em 11 de março de 1970. As negociações com o governo resultaram na libertação de cinco prisioneiros políticos.
No dia 11 de junho de 1970, em plena Copa Mundial de Futebol, realizada no México, mais uma vez Bacuri fazia parte de outro seqüestro, o do embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben. Durante a operação de seqüestro, Bacuri disparou três tiros contra o agente da polícia federal Irlando de Souza Régis, matando-o com um tiro na cabeça. A morte do agente, que fazia a segurança do embaixador, gerou um recrudescimento dos órgãos de repressão do governo, que se lançaram implacáveis na perseguição aos guerrilheiros, em especial, na captura de Bacuri. Alfredo Sirkis, um dos seqüestradores, relataria mais tarde, que Bacuri aparecera sem capuz diante do embaixador, o que lhe causou constrangimento e irritação, pedindo que ninguém se apresentasse a ele com o rosto descoberto. A operação rendeu a libertação de quarenta presos, entre eles Fernando Gabeira e Vera Sílvia Magalhães, envolvidos no seqüestro de Charles Elbrick.

Bacuri Negocia a Libertação da Mulher Grávida

O caminho da guerrilha era sem volta. Ao ingressar nas organizações de luta armada, o guerrilheiro era tido como terrorista. Sob as garras do AI-5, não tinha direito a hábeas corpus, julgamento por júri popular, além de estar sujeito à pena de morte, prevista para os que praticavam atos que pusessem em perigo a segurança nacional, ou seja, que ameaçassem o regime ilegítimo dos militares.
Com o desmembramento da REDE, Bacuri e a mulher, Denise Crispim, passaram a militar na ALN. Ele já tinha realizado operações sob o comando de Carlos Marighella, assassinado pelos militares em novembro de 1969.
No dia 15 de julho de 1970, a militante Ana Bursztyn aguardava a hora para dirigir-se ao ponto combinado com os companheiros. Como estava adiantada, passou pela loja de departamentos do Mappin, pegando alguns cosméticos. Seu nervosismo atraiu as desconfianças de um fiscal; quando se dirigia ao caixa para pagar, o fiscal pediu para que abrisse a bolsa. Levada à sala do chefe de segurança, Ana Bursztyn apavorou-se quando pediram para revistá-la, sabia que na bolsa estava uma arma, o suficiente para incriminá-la. Ao ser descoberta, tentou fugir, puxou da arma, uma taurus 32, atingindo o chefe de segurança na perna. Ferimento suficiente para causar uma hemorragia e matá-lo. Ana Bursztyn foi presa, no dia seguinte os jornais anunciavam que se havia prendido a guerrilheira ladra. Submetida a intensas e ininterruptas torturas durante oito dias, Ana Bursztyn deixou escapar o endereço do aparelho de Bacuri.
Como conseqüência, Denise, grávida de poucos meses, foi presa. Silenciosamente, à distância, Bacuri, ao lado dos companheiros Carlos Eugênio Paz e Ana Maria Nacinovic, assistiu à prisão da mulher. Mais tarde, tentando evitar que Denise fosse torturada, telefonou para o comandante do II Exército, identificando-se como Bacuri, guerrilheiro da ALN. Avisou ao militar que Denise tinha sido presa pelo DOI-CODI, e que se alguma coisa acontecesse a ela e à criança, iria matar o general-comandante do II Exército. Os militares só deram importância à ameaça, quando Carlos Eugênio voltou a telefonar, dando detalhes da rotina do general, ameaçando ceifar-lhe a vida. Acossados, os militares negociaram com Bacuri a libertação da mulher e do filho. Denise Crispim foi libertada mediante acordo para que se preservasse a vida do general. Foi a última vitória do guerrilheiro Bacuri sobre a ditadura. A partir de então, seria procurado e, se apanhado, sua vida não teria mais valor.

Uma Morte Anunciada

Quando a esquerda engendrava um triplo seqüestro de diplomatas, que tinha como objetivo libertar duzentos prisioneiros de uma só vez, Bacuri caiu nas mãos da repressão durante os levantamentos preliminares. Foi preso no Rio de Janeiro, em 21 de agosto de 1970, pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, tido como o carniceiro dos calabouços da ditadura.
Durante 109 dias, consecutivamente, Bacuri foi brutalmente torturado, recebendo sobre o corpo, toda a ira que se projetara sobre ele. A tortura a que foi submetido talvez tenha sido a mais cruel de todos os supliciados pelo regime militar. Bacuri resistiu bravamente ao seu calvário, sem nunca entregar qualquer companheiro.
Inicialmente, passou pelo Cenimar e pelo DOI-CODI do Rio de Janeiro, onde foi visto pela então presa política, Cecília Coimbra. Estava completamente mutilado e, já quase a não poder se locomover.
Mais tarde, foi removido da prisão para uma casa particular. Os gritos que emitia durante as ininterruptas sessões de tortura chamaram a atenção da vizinhança, que assustada, chegou a chamar a polícia. Ao chegar à residência, os policiais depararam-se com a equipe do delegado Fleury, calmamente, pediram para que mudassem o local de torturas. O guerrilheiro foi levado de volta para o Cenimar. Algum tempo depois, foi transferido para o 41º Distrito Policial de São Paulo, covil do delegado Sérgio Fleury.
O suplício de Bacuri continuou, foi diversas vezes transferido de lugar. Voltou ao Cenimar carioca, sendo ali torturado até setembro, quando retornou aos cárceres de São Paulo, sendo levado para a sede do DOI-CODI.
Em outubro, Bacuri foi levado para o Dops de São, onde viveria os últimos dias do seu calvário, sendo encarcerado na cela 4 do chamado “fundão”, que consistia em celas isoladas, reservadas aos presos mais perigosos. A prisão de Bacuri estava sendo ocultada, a sua morte começava a ser engendrada.
No dia 23 de outubro, o então comandante da ALN, Joaquim Câmara Ferreira, foi morto sob tortura. Só no dia 25 de outubro, o Dops de São Paulo divulgou oficialmente sua morte para a imprensa. Na mesma nota, foi inserida a informação de que o temido Bacuri, mantido em prisão sigilosa por motivos de segurança, tinha conseguido fugir. Com aquela falsa notícia, a morte de Bacuri tinha sido anunciada. Mesmo vivo, Bacuri já era considerado morto.

Os 109 Dias de Tortura

No dia 25 de outubro de 1970, o comandante da equipe de choque do Dops, tenente Chiari, em um momento de crueldade sádica, mostrou ao guerrilheiro a nota divulgada na imprensa, anunciando a sua fuga. Das grades da carceragem, Bacuri, aos gritos, revelou aos presos o que acabara de saber. Lúcido, bradou: “Eu vou ser morto, tenho certeza”.
Ao serem informados do que se sucedia, os demais prisioneiros do Dops, montaram um esquema de vigilância à porta da cela de Bacuri, na vã tentativa de impedirem que o companheiro fosse assassinado.
Para facilitar a retirada de Bacuri da sua cela, sem que os demais prisioneiros percebessem, o delegado responsável pela carceragem do Dops, Luiz Gonzaga dos Santos Barbosa, fez com que os presos fossem remanejados e o guerrilheiro transferido para a cela 1, que ficava em frente à sala dos carcereiros, longe da visão dos outros presos. As dobradiças da porta da cela foram lubrificadas, para que não rangessem quando da remoção do encarcerado. Àquela altura, Bacuri já era considerado oficialmente morto, tendo o seu nome retirado da relação de presos.
Às 0h50 da madrugada de 27 de outubro de 1970, Bacuri foi retirado da cela, sendo carregado, pois já não conseguia andar devido às torturas que sofrera. Ao perceberem o que acontecia, cerca de cinqüenta presos que se encontravam no Dops, começaram a gritar e bater nas portas de metal com pratos e canecos. Bacuri jamais foi visto outra vez por qualquer preso político. Sua vida estava nas mãos dos torturadores. Um policial do esquadrão da morte, Carlinhos Metralha, disse que Bacuri tinha sido levado para o sítio particular de Fleury, usado para torturar os presos especiais e os que deveriam ser executados.
No dia 7 de dezembro de 1970, o seqüestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher selou de vez o fim de Bacuri. Era certo que os guerrilheiros seqüestradores iriam acrescentar o nome do guerrilheiro à lista dos presos que deveriam ser trocados pelo embaixador. Não havia como apresentá-lo em público devido ao estado de mutilação que se encontrava.
Elio Gaspari, no livro “As Ilusões Armadas”, relata que Bacuri viveu o último dia da sua vida no forte dos Andradas, no Guarujá. Chegara ao local dentro de um saco de lona, sendo encarcerado em uma solitária erguida na praia do Bueno. Dali teria sido levado para um túnel do depósito de munições. No dia 8 de dezembro, segundo narrativa do soldado Rinaldo Campos de Carvalho, uma veraneio parou em frente à entrada do depósito, de onde saltaram um major e dois tenentes. Foram ao local onde Bacuri estava trancado, anunciando que iriam levá-lo para o hospital militar. Segundo o soldado, que ajudava o prisioneiro a encostar-se na pia para que se pudesse lavar, o major ordenou que saísse. Ele só ouviu uma pancada, que ambiguamente não sabe tratar-se de um tiro ou de uma cabeça a bater contra a parede. Testemunhou que, logo a seguir, o corpo foi retirado do banheiro no mesmo saco de lona em que fora para ali trazido. Acabaram-se os 109 dias da sua agonia.
Oficialmente, as autoridades anunciaram para a imprensa que Carlos Collen Leite, o Bacuri, morrera em tiroteio em Boracéia, estrada que liga Bertioga a São Sebastião, litoral paulista, após oferecer selvagem resistência. Para confirmar a farsa, o laudo da sua morte, assinado pelos médicos legistas Aloysio Fernandes e Décio Brandão Camargo, responde “não” à pergunta se houve tortura.
O corpo de Eduardo Leite foi entregue à família coberto de hematomas, cortes profundos, escoriações, queimaduras generalizadas por toda a parte, dentes arrancados ou quebrados, orelhas decepadas e olhos vazados, dois tiros no peito e outros dois na cabeça.
No dia 13 de janeiro de 1971, após uma longa negociação, setenta presos políticos trocados pelo embaixador suíço, embarcaram em um avião da Varig para o exílio. Faltara o 71º, Bacuri, o arrojado e temido guerrilheiro.

Bacuri, o Guerrilheiro

Ao vestir a roupa do guerrilheiro Bacuri, Eduardo Leite escolheu para si uma vida mergulhada na violência. Em momento algum duvidou da ideologia pela qual ele e grande parte da sua geração lutaram, renunciando a si mesmo. Os que sobreviveram àqueles tempos, assistiram ao fim da ideologia. Bacuri congelou a sua vida no tempo, não desmoronou com o ruir dos ideais, não sentiu que perder a vida em nome de uma causa não lhe foi inútil.
Dos nomes que a guerrilha urbana consagrou, Bacuri foi o retrato fiel do guerrilheiro brasileiro. Enquanto Carlos Marighella é o mentor, idealizador e intelectual da guerrilha; e, Carlos Lamarca o comandante que atraiu para si a admiração romântica da guerrilha; Bacuri é o guerrilheiro, o executor da guerrilha. Seu vigor, sua coragem e obstinação, fizeram com que ele matasse sem remorsos quando preciso. Assim como Marighella e Lamarca, estava condenado a não sobreviver ao seu tempo. A violência dos assaltos por ele praticado privou vários companheiros da fome e da miséria estabelecidas pela clandestinidade; com os seqüestros salvou a vida de muitos companheiros. Para Bacuri não houve tempo de analisar ou combater o ideal revolucionário, não houve tempo para avaliação ou uma autocrítica histórica do mundo ao qual se lançara. A autocrítica ficou para os que sobreviveram às torturas e à queda da guerra fria.
Descritos como terroristas pela ditadura militar, os guerrilheiros ainda hoje causam polêmicas e controversas. No decorrer das décadas, muitos ex-guerrilheiros tiveram a sua imagem transformada e redimida diante da nação, que muitas vezes os temia, sem perceber a essência da causa. Muitos chegaram ao poder, como José Genuíno, Franklin Martins e Fernando Gabeira. Outros entraram para a história como o guerrilheiro romântico, caso do capitão Lamarca. Carlos Marighella, até pouco tempo considerado maldito, vem sendo revisado pela história. Falta Eduardo Leite, o Bacuri, perder o estigma de maldito. Ceifou vidas quando em combate corporal, mas jamais torturou e supliciou os que se lhe puseram na frente. Quem foi mais selvagem, ele que matou à queima roupa, ou os homens que o torturam brutalmente até matá-lo 109 dias depois? Lampião, um assassino da caatinga, aclamado o rei do cangaço, herói do sertão, matou sem piedade ou ideologia. Os mortos de Bacuri é um quase nada diante dos de Lampião. Cangaceiro e guerrilheiro, porque se redime um e execra-se o outro?
Eduardo Collen Leite foi morto aos 25 anos, no esplendor da sua juventude. A mulher, Denise Crispim, exilou-se logo após a sua morte. Deixou uma filha, Eduarda, nascida no exílio, jamais a conheceu. Não se tornou um mártir da história nacional, mas um mártir da guerrilha, do seu tempo e dos seus ideais.

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