terça-feira, 27 de outubro de 2009

A ABERTURA POLÍTICA E A MPB

Na conturbada década de 1960, a história da Música Popular Brasileira seria totalmente reescrita, revelando grandes músicos, cantores e compositores, que dariam um contorno definitivo a ela. Sob os ventos da Bossa Nova, uma nova mensagem estética e sonora iria gerar movimentos históricos como a Tropicália e a Jovem Guarda, essenciais para que se perceba os caminhos que a MPB seguiu na segunda metade do século XX.
Uma pulsante renovação explodia no cenário musical na década de 1960, sendo drasticamente afetada pela implantação do regime militar através de um golpe de estado, em 1964. Para manter o poder de um governo ilegítimo, a ditadura militar teve que reprimir e conter todos os seus opositores. A juventude estudantil foi a primeira a ser atingida, tendo os seus órgãos oficiais, como a União Nacional dos Estudantes (UNE), sendo lançados na clandestinidade. Silenciados os movimentos, a MPB passou a ser a voz rebelde daquela juventude. Os festivais de música explodiram nas emissoras de televisão da época, promovendo um grande alcance popular e revelando para o país talentos definitivos, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Gal Costa, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Milton Nascimento e tantos outros.
Com o endurecimento do regime militar, a partir de dezembro de 1968, a MPB que se fazia na época, considerada pelo governo como porta voz da juventude universitária comunista, passou a ser vigiada e censurada, sendo classificada como subversiva.
A censura aos meios de comunicação imperou rígida por mais de uma década. Atingiu à música, aos jornais, à televisão, ao teatro, à literatura, ao cinema, às artes plásticas, nenhum meio de expressão cultural foi poupado. Ao contrário do que se pensa, não era uma censura apenas política, mas essencialmente moralista, sustentando assim, o conceito de moralidade de uma classe conservadora da população brasileira, que sob os canhões militares, desenhava um Brasil estética e moralmente perfeito. Com o declínio do apoio da elite brasileira aos militares, a revelação das torturas nos calabouços e o desaparecimento de muitos dos filhos dessa elite; o regime militar começou a enfraquecer, sendo obrigado, a partir de 1975, a acenar com uma abertura lenta e gradual, que culminaria com o fim da censura e da própria ditadura.
Em 1978 a abertura chegou às artes e, conseqüentemente, à MPB. Canções outrora proibidas, como “Cálice” (Gilberto Gil – Chico Buarque), foram liberadas. Em 1979, a Lei da Anistia trazia de volta ao país os exilados políticos. A MPB passou a ser a voz daquele novo período da história. Voltou com fôlego, deixando de ser elite e alcançando as grandes massas. De 1978, data do início da abertura do regime militar, a1985, data do seu fim, a MPB alcançou um apogeu de vendas de discos e uma influência que jamais se repetiu. É o período que podemos chamar de “A MPB da Abertura”.

A MPB e os Primeiros Anos da Ditadura

Em 1958, emergia a partir da zona sul carioca, um movimento musical que passou a ser conhecido como Bossa Nova. Incipientes e talentosos músicos e cantores como Tom Jobim e João Gilberto, lançavam um novo conceito de MPB, que influenciaria todos os movimentos vindouros. Paralelamente ao surgimento da Bossa Nova e à sua expansão para a década de 1960, a juventude brasileira alcançava um nível de conscientização e de organização políticas jamais vistas. A UNE, principal órgão estudantil, passou a ter grande influência nas decisões políticas do país. Tradicionalmente ligada aos partidos de esquerda clandestinos, a UNE concentrava uma pululante militância de jovens artistas e intelectuais. No início da década de 1960 criou o Centro Popular de Cultura (CPC), idealizado pelo dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. O recém-criado órgão cultural estudantil trazia Ferreira Gullar como diretor do setor de poesia e literatura; Leon Hirszman dirigia o setor de cinema; Vianinha o de teatro; e, Carlos Lyra o de música. Grandes espetáculos e eventos foram realizados, em sua maioria, na sede da própria UNE. Na parte musical, nascia o que se pode chamar de MPB universitária. Com a chegada da ditadura militar, a UNE foi posta na ilegalidade e o CPC deixou de existir.
Ainda no princípio da ditadura militar, a resistência da música ao regime instaurado trazia demarcada evidência. Nara Leão, musa da Bossa Nova, deixou o movimento e abraçou o tradicional samba dos morros cariocas. Literalmente, a cantora subiu o morro e trouxe o samba para o asfalto. No dia 11 de dezembro de 1964 estreava o “Show Opinião”, na sede do Teatro de Arena do Rio de Janeiro. Com textos concebidos por Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa, sob a direção de Augusto Boal, trazendo Nara Leão ao lado de legítimos sambistas das batucados dos morros, João do Vale e Zé Kéti. A produção coletiva reunia os integrantes do extinto CPC e do Arena. Teatro e música uniam-se naquele que significava o primeiro grito de protesto contra o regime militar. A canção “Carcará” (João do Vale), apresentada no show, ecoava como um grito latente de revolta da voz da MPB. Nara Leão tornava-se um símbolo da música de protesto, atraindo para si a vigilância e desconfiança do regime militar.
As limitações vocais de Nara Leão impediram que ela resistisse a uma longa temporada. Doente, a ex-musa da Bossa Nova mandou vir da Bahia uma jovem cantora desconhecida, de voz agreste e grave: Maria Bethânia.

Os Grandes Festivais de Música dos Anos 1960

A partir de 1965, a TV Excelsior, uma pioneira na renovação e definição dos programas da televisão brasileira, lançou os festivais de música, que seria o grande marco da história mais recente da MPB. Naquele ano, em abril, foi realizado o 1º Festival de Música Popular. Uma certa Elis Regina, jovem cantora gaúcha, movendo os braços no ar como se fosse um moinho atômico, encantou e empolgou o Brasil, interpretando “Arrastão” (Edu Lobo – Vinícius de Moraes). A canção venceu o festival e Elis Regina escreveu para sempre o seu nome na MPB.
Em setembro de 1965 a TV Record lançou o programa “Jovem Guarda”, apresentado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa. O nome designaria um movimento musical ameno, sem pretensões ou seguimentos ideológicos, mais próximo do grande público, o que agradou aos moralistas e aos vigilantes da ditadura militar.
Em 1966, o Festival Nacional da Música Popular, premiava a vencedora “Porta Estandarte” (Geraldo Vandré – Fernando Lona). A música de protesto, através da figura engajada de Vandré, dava os contornos da linha principal dos festivais. Ainda naquele ano, em outubro, dois festivais eram realizados: o 1º Festival Internacional da Canção (FIC) transmitido pela TV Rio, futura TV Globo; e, o 2º Festival de Música Popular Brasileira, a partir de então transmitido pela TV Record. “Saveiros” (Dori Caymmi – Nelson Motta), interpretada por Nana Caymmi, ganhou o primeiro FIC. “A Banda” (Chico Buarque), interpretada por Nara Leão, dividiu com “Disparada” (Geraldo Vandré – Theo de Barros), o prêmio de melhor canção.
Os festivais, aos poucos, revelavam para o Brasil novos cantores e compositores. A nova MPB que estava sendo feita tornava-se um forte canal de oposição ao regime militar. Os grandes festivais alcançariam o auge de 1967 a 1969. Com o decreto do Ato Institucional número 5 (AI-5), em dezembro de 1968, o endurecimento do regime militar perseguiu de forma implacável a chamada MPB universitária. Sem liberdade plena de expressão, os festivais foram cada vez mais cerceados e, aos poucos, descaracterizados, minguando definitivamente.O Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, chegaria à sua quinta edição, findando em 1969, com "Sinal de Alerta", de Paulinho da Viola, sendo a vencedora. O FIC, transmitido pela TV Globo, atravessaria a década de 1960, chegando à sétima edição, em 1972, quando “Fio Maravilha” (Jorge Ben), interpretada por Maria Alcina, vencia e encerrava, para alívio do regime militar, aquela página da história da MPB.

Os Engajados e os Tropicalistas

Se os festivais definiram uma nova linha engajada àquela MPB, em 1967, uma nova vertente mudaria todo o cenário, a instigante Tropicália, movimento liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. “Domingo no Parque” (Gilberto Gil), não abandonava a linha de protesto engajado, mas reformulava toda a estética musical de então. “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso, mudava por completo o conceito de melodia e letra, a estética entre a poesia e a música. Considerados alienados e alienantes pelos engajados, os tropicalistas sofriam com o preconceito da MPB universitária e, ao mesmo tempo, eram repudiados pelo regime militar.
Para que se perceba o paradoxo entre a música engajada e a contestação tropicalista, é necessário que se conheça as diferenças, hoje aparentemente sutis, mas que na época geravam um grande abismo entre ambas. A primeira, encabeçada por Geraldo Vandré, consistia no engajamento político da militância da esquerda, direta ou indiretamente. Era feita por jovens talentos intelectuais, dentro ou em volta do então clandestino Partido Comunista Brasileiro. Cantos de protestos tinham um objetivo claro, derrubar a ditadura militar. A segunda, liderada pelos tropicalistas, trazia uma canção de protesto social, mais próxima da ideologia do “Maio de 1968” de Paris. Para os tropicalistas, mais importante do que derrubar o regime militar, era derrubar os seus costumes morais falidos. A censura do governo era política e moralista, afinal os militares, sem a legitimidade do povo, sustentava-se através da repressão e do apoio de uma moralista classe média, que em uma visão ambígua, zelava pela moral e pelos bons costumes da família e dos brasileiros. Assim, tanto o engajamento de Geraldo Vandré quanto à subversão social dos tropicalistas, eram postos no mesmo saco e perseguidos pelo regime.
A promulgação do AI-5 permitiu que se sufocasse o que restara do movimento estudantil, perseguindo, prendendo, torturando e matando os seus líderes. A música de protesto foi aos poucos, abafada e silenciada. “Caminhando (Para Não Dizer Que Não Falei das Flores)”, de Geraldo Vandré, tornou-se um hino de resistência contra a ditadura, fazendo do seu autor o inimigo número um do regime militar, dentro da MPB. Lançada em setembro de1968, no 3º FIC, ficou em segundo lugar, provocando protestos e vaias sobre a vencedora, “Sabiá” (Chico Buarque – Tom Jobim). Às vésperas do fechamento do Congresso Nacional, a canção de Vandré foi o último grande grito de protesto da MPB dentro dos festivais. As edições posteriores foram mornas, sem a evidência de uma resistência ao regime, trazendo canções com insinuações sutis, jamais diretas. A canção de Vandré foi censurada e proibida de ser cantada ou tocada durante o tempo que durou o AI-5.
Com o endurecimento da ditadura militar, seguido de várias prisões e perseguições, muitos dos novos nomes da MPB, revelados pelos festivais, foram obrigados a seguir para o exílio, entre eles Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré e Taiguara. Aos artistas que ficaram, restou um imposto silêncio, o cerceamento ideológico e a submissão das suas obras à censura.

A MPB e a Opressão do Regime Militar

A primeira metade da década de 1970 foi sufocante para a MPB. A censura prévia à música, fez com que grandes canções fossem proibidas, indo parar nas gavetas dos seus autores. Quando o general Emílio Garrastazu Médici subiu ao poder, a guerra entre o governo e a resistência comunista foi intensa, gerando seqüestros e guerrilhas urbanas. Para combater os guerrilheiros, a tortura foi institucionalizada, a delação incentivada, e os atos culturais vigiados e silenciados, censurados com rigidez quando ofereciam qualquer tipo de contestação ao regime.
Vivendo sob vigilância constante do Estado repressivo, os autores da MPB passaram a usar metáforas de bastidores dentro das suas composições. Sob pressão e reféns do medo, as canções de protestos tornaram-se cada vez mais escassas. A censura tornou-se moralista, defendia a ideologia política do governo e a moral que lhe ladeava. O nu artístico era limitado, filmes pornográficos e políticos eram proibidos em um só pacote. Músicas com teor sensual eram consideradas tão subversivas quanto às de protesto. A lógica dos censores perdeu-se nos seus preconceitos, tornando-se absurdas, burocráticas e desprovidas de qualquer inteligência ideológica.
Em 1973, a morte sob tortura do estudante Alexandre Vanucchi Leme, o Minhoca, estudante de geologia da USP, comoveu os seus colegas. Em protesto, eles chamaram Gilberto Gil para um concerto em homenagem ao estudante morto, realizado na Politécnica. Gilberto Gil, desafiando à censura e ao regime, cantou a proibida “Cálice”. Foi a primeira manifestação estudantil desde o massacre dos seus líderes, promovida após a instituição do AI-5. Mais uma vez MPB e movimento estudantil davam as mãos, numa clara demonstração de que a resistência às atrocidades do regime não tinha sido extinta.
Na direção oposta da censura, a produção de qualidade da MPB adquiriu uma grande sofisticação, juntando com esplendor poesia e melodia. Raramente esse conteúdo chegava às grandes massas. A música de língua inglesa era soberana de vendas e de sucesso nos meios de comunicação. Cantores brasileiros, como Christian e Michael Sullivan, usavam nomes estrangeiros, compunham e cantavam sucessos instantâneos. Os sucessos nacionais não aliciavam a compra dos “long plays” de vinil, para vendê-los no mercado, as gravadoras lançavam os discos compactos, que mantinham o vigor das carreiras dos cantores de MPB. O brasileiro não tinha o hábito de ouvir um álbum inteiro do mesmo intérprete.
A censura colaborava com a falta de interesse do público, pois mantinha os shows sob severa vigilância, e os discos, muitas vezes eram mutilados pelo corte de certas canções, que apareciam sem letras, lançadas apenas instrumentalmente. Chico Buarque, o mais perseguido pela censura na década de setenta, usou de subterfúgios, como usar o pseudônimo de Julinho da Adelaide, para que tivesse as suas canções aprovadas. A MPB prosseguia como um vulcão silencioso, preste a derramar as suas larvas sobre a opressão que se lhe era imposta.

O Florescer da Abertura

Em 1975, já sob o governo do presidente Ernesto Geisel, as atrocidades do governo começaram a vir à tona. A morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog obrigou o governo, pela primeira vez, a admitir que existiam prisioneiros torturados no país, e aquela realidade já não podia ser ignorada. Sob pressão da comunidade internacional, o governo foi obrigado a acenar com uma possível abertura política do regime.
Curiosamente, a TV Globo decidiu ressuscitar os velhos festivais, lançando, em 1975, uma edição sem grande repercussão, que trazia o ambíguo e sugestivo nome de Festival Abertura. Carlinhos Vergueiro vencia com a música de sua autoria, “Como Um Ladrão”.
A abertura viria de forma lenta, quase a exasperar. Em 1978 foi decretado o fim do AI-5, que deixaria de vigorar a partir do dia 1 de janeiro de 1979. Novos ventos soprariam sobre a MPB, modificando a sua trajetória. Ainda em 1978, canções proibidas há anos foram finalmente liberadas. Chico Buarque, em seu álbum de 1978, pôde gravar três ícones da sua música engajada: “Cálice”, com participação vocal de Milton Nascimento; “Tanto Mar”, música em homenagem à Revolução dos Cravos, deflagrada em Portugal, vetada em 1975; e, “Apesar de Você”, tirada com truculência das lojas quando lançada em compacto, em 1970.
Não só a censura política foi liberada, como também a censura moralista. Se dantes a simples menção da palavra pêlo em “Atrás da Porta” (Chico Buarque – Francis Hime) era considerada obscena, a sensualidade e o erotismo explodiram na voz das cantoras de MPB. “O Meu Amor” (Chico Buarque), revelava um dueto sensual e provocativo entre duas mulheres, a canção foi registrada no disco de Chico Buarque de 1978, num dueto de Marieta Severo e Elba Ramalho, e, por Maria Bethânia e Alcione, no álbum “Álibi”, também daquele ano. “Condenados” (Fátima Guedes), gravado por Simone, declarava que a mulher estava mais “safada” e a tirar maior proveito do prazer. Gal Costa, era daquelas mulheres que só diziam sim, na memorável interpretação de “Folhetim” (Chico Buarque). As senhoras que se diziam representantes da moral e dos bons costumes da família, que com os seus rosários nas mãos marcharam pelas ruas das grandes cidades, abraçando o golpe militar, tremeram e protestaram diante de tanta ousadia. Mas o regime e a moral que elas defendiam estavam corroídos pela hipocrisia e prontos para ruírem. A MPB e as suas cantoras, a exalar talento e sensualidade, já não podiam ser caladas. A abertura chegara, ainda que lenta, mas definitiva.

A Ascensão da MPB

Com maior possibilidade de expressão, a MPB passou a chegar ao grande público. “Álibi”, álbum lançado por Maria Bethânia no fim de 1978, tornou-se no ano seguinte um fenômeno de vendas. Jamais uma cantora tinha ido tão longe em vendagem de discos no Brasil. Com “Álibi” o brasileiro passou a ouvir um disco inteiro de MPB, fazendo com que os discos compactos fossem, aos poucos, perdendo mercado. A MPB deixava de ser elite, atingindo grandes massas, mostrando que qualidade também podia ser vendável e agradar a todos.
A abertura política proporcionou a Lei da Anistia, promulgada em agosto de 1979, possibilitando o retorno dos exilados políticos. A MPB tornou-se porta voz do movimento, através das canções “Tô Voltando” (Maurício Tapajós – Paulo César Pinheiro), cantada por Simone, e, “O Bêbedo e a Equilibrista” (João Bosco – Aldir Blanc), numa interpretação antológica de Elis Regina, transformada no hino da Anistia.
Em 1979 a UNE era reconstruída, apesar de não ser reconhecida legalmente. Movimento estudantil e MPB começavam a pulsar arrebatadoramente dentro da já moribunda ditadura militar. Atenta ao fato, a TV Tupi voltou a promover um festival de música, o Festival 79 da Música Popular. Apesar de não ter obtido a repercussão esperada, o festival destacou a presença de Fagner, com “Quem Me Levará Sou Eu” (Dominguinhos – Manduka), e do então desconhecido Oswaldo Montenegro, com “Bandolins”. No ano seguinte seria a vez da TV Globo voltar a investir nos festivais. Lançou o Festival da Nova Música Popular Brasileira – MPB 80, alcançando um grande sucesso. O festival, rebatizado como “MPB Shell”, teve mais duas edições, em 1981 e 1982. Em 1985, o Festival dos Festivais seria a última grande produção do gênero feita no Brasil.
A partir de 1979, a MPB foi tomando o espaço da música de língua inglesa, ultrapassando as vendas dos discos estrangeiros no país. Novos nomes eram revelados, alcançando relativo sucesso: Zizi Possi, Diana Pequeno, Ângela Ro Ro, Joanna, Marina, Fátima Guedes, Oswaldo Montenegro, Elba Ramalho, Zé Ramalho. Muitos que há anos estavam no mercado, mas que não tinham reconhecimento, projetaram-se com solidez: Gonzaguinha, Fagner, Simone, Ney Matogrosso, Djavan, Belchior. E os grandes reprimidos pela censura, ascenderam vertiginosamente: Gal Costa, Chico Buarque, Elis Regina, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Caetano Veloso. Todos encontravam espaço, e, principalmente, um público ávido para consumir o que eles produziam.

A Concretização da Abertura e a MPB

A militância da MPB no cenário nacional foi escancarada ao país depois do fim do AI-5. Já nada podia deter as vozes do Brasil. No fim de 1979, Simone deu um espetáculo no Canecão. No meio do show, cantou a música há tantos anos proibida pela ditadura, “Caminhando (Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores)”. Emocionado, o público acompanhou a cantora, sem medo, após dez anos de silêncio, de entoar o refrão do hino da luta contra a ditadura. A canção de Vandré voltou a fazer parte das manifestações contra o regime militar, sendo cantada nos comícios e eventos políticos.
Incontestavelmente, a MPB tornara-se porta voz da luta pela volta da democracia e pelo fim do regime militar. Grandes concertos de MPB foram feitos em apoio e junto com as manifestações sindicais. O show-comício das comemorações do 1 de Maio de 1980, alcançou grande número de público. Concertos de protesto eclodiram por todo o país. Setores radicais do regime militar, contrários à abertura, passaram a olhar os cantores como inimigos e perigosos subversivos. Na noite de 30 de abril de 1981, a ala radical promoveria o maior atentado público da ditadura militar. No Pavilhão Riocentro era realizado um grande show comemorativo do Dia do Trabalhador. Na decorrência do espetáculo, os militares, sargento Guilherme Pereira e o então capitão Wilson Dias Machado, punham em prático um ardil mortal, a plantação de bombas que daria fim à apresentação, e eliminaria vários nomes oponentes ao regime que ali se encontravam, entre eles Chico Buarque, Gonzaguinha, Gal Costa e Elba Ramalho. No estacionamento do pavilhão, uma das bombas explodiu dentro do carro onde estavam os dois militares, matando o sargento e ferindo gravemente o capitão. O atentado foi frustrado, e a MPB não foi calada.
Na campanha pelas “Diretas Já”, em 1984, novamente cantores da MPB vestiram as camisas amarelas e subiram aos comícios. A canção “O Menestrel das Alagoas” (Milton Nascimento – Fernando Brant), feita em homenagem ao líder político Teotônio Vilela, foi aclamada hino do movimento, sendo cantada em todos os comícios por Fafá de Belém. Com a frustração do movimento, Chico Buarque criou e cantou “Pelas Tabelas”.
Da abertura política iniciada em 1978 e concretizada em 1985, com o fim da ditadura militar, a MPB teve uma ascensão vertiginosa. Pela primeira vez ela deixava de ser elite. Cumpriu o sentido histórico interrompido pela promulgação do AI-5, tornou-se uma voz essencialmente feminina, de grandes cantoras, e, uma voz de luta em favor da queda da opressão política e moralista no Brasil pós-1964. Nunca se consumiu tanta música de MPB como naquele período. Nunca o povo e a qualidade musical caminharam tão juntos. O apogeu declinou após o fim da ditadura, a MPB voltou a ser elitizada, à espera que novos ventos ideológicos façam com que lance as suas larvas incandescentes sobre a cultura brasileira.

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A MÚSICA E A CENSURA DA DITADURA MILITAR
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/07/msica-e-censura-da-ditadura-militar.html

2 comentários:

Larissa Freitas disse...

muito interessante a parte sobre a "abertura política" do governo após o incidente com Wladimir Herzog :)

ADEMAR AMANCIO disse...

Eu passei a me interessar por política e lê sobre o assunto,pra entender certas letras de música.muito bom seu texto.