sábado, 22 de agosto de 2009

VICENTE SESSO - O INVENTOR DO ESTILO DAS NOVELAS DAS SETE

Vicente Sesso é um dos mais importantes nomes da teledramaturgia brasileira, sendo muitas vezes negligenciado por aqueles que contam a história da televisão. Assim como Janete Clair e Ivani Ribeiro, Vicente Sesso foi um dos responsáveis pela modernização das telenovelas, levando-as ao formato atual.
O autor foi o responsável pelo último grande sucesso da extinta TV Excelsior, “Sangue do Meu Sangue”, em 1969. Sua ida para a TV Globo, em 1970, deu-se com a novela “Pigmalião 70”, primeira produção da emissora carioca para o horário das 19h00 com linguagem coloquial, sem os resquícios dos dramalhões de época. Com esta novela, Vicente Sesso inaugurava o estilo comédia água-com-açúcar que prevalece no horário até os dias atuais.
As poucas novelas que o autor escreveu tornaram-se grande sucessos, marcando uma época. Seu texto é inteligente, delicado e sempre ladeado por um humor sofisticado. Um elenco estelar é outra característica imprescindível em sua obra, tendo sempre os maiores nomes do teatro e da televisão da época em suas tramas. Foi numa novela de Vicente Sesso, “Minha Doce Namorada” (1971), que Regina Duarte foi aclamada a “Namoradinha do Brasil”. Suas personagens primam pelo carisma, pela identificação com o grande público, visto que o que o autor escreve é uma transcrição do cotidiano, com cenas que ele criou a partir do que viu ao seu redor.
Infelizmente Vicente Sesso trocou a televisão brasileira pelas emissoras latinas, escrevendo grandes sucessos para o público da Argentina, Peru, Chile, Espanha e Colômbia, entre muitos. Cultuado por grandes damas da dramaturgia brasileira, como Fernanda Montenegro e Tônia Carrero, é um dos autores mais respeitado por esta geração. Em 2009 o SBT comprou os direitos autorais de três novelas de Vicente Sesso para uma readaptação, entre elas “Uma Rosa Com Amor” e “Minha Doce Namorada”. Redescobrir Vicente Sesso é penetrar nas raízes mais profundas do gênero da telenovela brasileira. Mesmo nos tempos atuais, a leveza singela dos seus textos não permitiu que envelhecessem, porque descreve de forma cômica a própria sociedade universal, motivo que o faz ser aceito com sucesso nas emissoras de outros países. Ator, diretor, dramaturgo, novelista, pai adotivo do ator e diretor Marcos Paulo, Vicente Sesso é um marco da televisão brasileira.

Vicente Sesso, Autêntico Paulistano

Vicente Sesso nasceu na cidade de São Paulo, em 17 de maio de 1933. Sua verve paulistana jamais deixou de aflorar na formação da personalidade. Seu pai, Francisco Sesso era militar, e a mãe, Filomena Rotela Sesso, uma sofisticada proprietária de casa de modas e de chapéus. A junção dos pais ajudou na construção do universo teledramático do autor. Vicente Sesso chegou a fazer os figurinos para alguns dos personagens das suas novelas. Suas heroínas traziam a coragem e a dinâmica que se emanavam da mãe. O trabalho intenso dos pais, obrigava que fosse criado e educado por uma governanta alemã. A educação rígida da governanta fez com que aos cinco anos, lesse o alemão.
A paixão pelo teatro foi herdada do pai, um militar voltado para as artes cênicas. Francisco Sesso costuma levar os filhos a quase todos os espetáculos que passavam pela paulicéia. O fascínio do patriarca Sesso pelo teatro, fez com que ele travasse amizade com vários atores. Uma das amizades por ele cultivada era com a italiana Franca Bonni. A atriz montava uma peça para atuar com uma companhia na Argentina. Na peça havia um papel de criança, e o ator-mirim que o viveria, esperado da Itália, não veio. O então adolescente Vicente Sesso foi escalado para viver a personagem. Foi a estréia como ator daquele que se iria tornar um grande dramaturgo da televisão, em palcos argentinos, numa peça italiana. Quando retornou da excursão, a paixão pelo teatro já lhe corria nas veias.
Ainda na adolescência, ganhou uma bolsa para estudar na Europa. Em Londres, na Inglaterra, observou os mecanismos do mais novo veículo de comunicação que aportara no Brasil, a televisão. Viu de perto como eram feitos os trabalhos televisivos na BBC de Londres. Quando retornou ao Brasil, trazia o aprendizado dos bastidores da televisão incipiente.

A Estréia Como Teledramaturgo

No Brasil, Vicente Sesso, um jovem de 18 anos, passou a trabalhar com um grupo de teatro amador. Embora muito jovem, candidatou-se a um concurso para o cargo de diretor teatral, tendo como função inaugurar vários teatros de bairro na cidade de São Paulo, sendo um dos vencedores. No cargo, passou a escolher e a dirigir peças, destacando-se precocemente na profissão.
A vida artística de Vicente Sesso confunde-se com a própria história da televisão brasileira. Logo que retornou de Londres, foi trabalhar na TV Tupi, a convite de Cassiano Gabus Mendes. Permaneceu naquela emissora até a saída de Graça Melo, que o levou para a TV Paulista, em 1952.
Na TV Paulista, passou a participar de “Grandes Teatros”, com grupos que faziam peças transmitidas às segundas-feiras. Sua genialidade logo despontou nos trabalhos. Passou a opinar nos textos, que considerava ruins. Diante das críticas, Graça Melo desafiou-o a escrever um texto melhor. Aceitando o desafio, escreveu uma peça de natal, “Meninos dos Ramos”. Ao entregar o texto, viu o rosto incrédulo de Graça Melo, que duvidava ser ele o autor. O resultado foi imediato, Vicente Sesso ganhou com o texto, o prêmio de melhor autor do ano. Nascia um novo teledramaturgo que escreveria o seu nome na história da televisão brasileira.

Passagens Pelas Maiores Emissoras Primordiais

Ainda na TV Paulista, Vicente Sesso passou a escrever os monólogos de um programa dirigido por Graça Mello. Passou a ser responsável pelos teatros exibidos no canal. Foi criando e adaptando com primor várias peças. O perfeccionismo do seu teatro envolvia muito trabalho. Cuidava de tudo minuciosamente, da maquiagem à iluminação. Passou a desenhar as roupas para as personagens que criava ou dirigia, uma característica que se seguiria em suas futuras novelas de época. O jovem Vicente Sesso era visto como genial, e dono de um gênio forte e exigente. Em um ano, adaptou e encenou dez textos de William Shakespeare. Na época, ele começou a questionar-se se queria seguir a carreira de ator ou a de escritor.
Vicente Sesso passaria pelas principais emissoras da televisão brasileira da década de 1960, sempre responsável pelo gênero do teleteatro, onde ganhou prêmio também como melhor diretor. Voltou para TV Tupi, onde passou a escrever seriados infanto-juvenis, como o “Teatro da Fantasia”, “As Aventuras de Marco Pólo”, que ficou no ar por quatro anos, e, “Jardim Encantado”.
Sempre a acompanhar Graça Melo, o autor foi parar na TV Record, onde aprendeu as mais avançadas técnicas de televisão, importadas dos Estados Unidos por engenheiros norte-americanos. Mais tarde, ele declararia que foi na TV Record que aprendeu, de fato, a trabalhar em televisão.
Vicente Sesso tornar-se-ia por certo tempo, um produtor independente, pois era conhecido por ser genioso e querer fazer tudo ao seu jeito. Passou ainda pelo departamento de televisão da McCann Erickson, contratado como diretor.
A sua estréia como autor de telenovelas iria acontecer quando foi contratado pela mítica e então poderosa, TV Excelsior de São Paulo.

O Último Sucesso da TV Excelsior

A TV Excelsior era conhecida pelo esmero que utilizava nas grandes produções. Suas novelas de época diferenciavam das da TV Globo pela qualidade dos textos, muitas vezes com inspiração em clássicos da literatura brasileiro. Seguindo a lógica, quando contratado pela emissora paulista, Vicente Sesso optou pela adaptação de obras de autores brasileiros, desenvolvendo trabalhos de fôlego, já no estilo da telenovela, como “O Guarani”, “As Minas de Prata” e “Senhora”, todas inspiradas em obras de José de Alencar.
Em 1966, escreveu e dirigiu o seriado semanal “As Aventuras de Eduardinho”, voltado para o público infanto-juvenil. Os episódios, apresentados aos sábados, mesclavam folclore nacional e internacional, com personagens históricas e atuais. Contava com um elenco fixo, recebendo vários atores convidados. O seriado tem como curiosidade ter lançado as carreiras dos atores Denis Carvalho e Marcos Paulo, este último filho adotivo de Vicente Sesso. Os atuais atores e diretores eram na época crianças. O seriado ficaria no ar até 1968. Inicialmente foi exibido e produzido pela TV Excelsior, depois pela TV Paulista/Globo, mas já sem o grande sucesso do começo.
Trabalhos intensos fizeram que o autor tivesse um princípio de enfarte, aos 35 anos. Com a saúde abalada, Vicente Sesso foi obrigado a parar com as atividades, afastando-se da televisão por um bom tempo.
Já recuperado, voltaria em 1969, para escrever a trama de “Sangue do Meu Sangue”, novela que se tornaria um clássico da história da televisão e o último grande sucesso da TV Excelsior, que viria a falir pouco tempo depois do seu término.
Sangue do Meu Sangue”, foi nos moldes das telenovelas atuais, a primeira a ser escrita por Vicente Sesso. Dramalhão de época, diferenciava-se das novelas contemporâneas de Glória Magadan na TV Globo por trazer um texto envolvente e fascinante, inspirado não em sheiks ou imperadores europeus, mas na história brasileira, com a temática abolicionista que incomodou a censura da ditadura militar, obrigando a emissora a mudar o horário de transmissão, das 19h00 para as 20h00. Além de escrever a trama, Vicente Sesso criou as roupas usadas pelos atores.
Uma das características das novelas do autor é o uso de um elenco luxuoso. “Sangue do Meu Sangue” trazia grandes estrelas do teatro e da televisão, que na época estavam no auge das suas carreiras. Francisco Cuoco, no papel de Lúcio Rezende, protagonista da trama, firmava-se definitivamente como grande galã das telenovelas, sendo logo a seguir, arrebatado pela TV Globo. Fernanda Montenegro fazia a sofrida Júlia, emocionando o Brasil. Tonia Carrero, outra grande dama do teatro, fazia a sua estréia nas novelas, no papel de Pola Renon, a atriz tornar-se-ia uma das preferidas do autor. Ainda faziam parte da constelação de estrelas Henrique Martins, Nicette Bruno, Rosamaria Murtinho, Armando Bógus, Mauro Mendonça, Sadi Cabral, Rodolfo Mayer, Nívea Maria, Edmundo Lopes, Rita Cléos, Sérgio Britto, Aldo de Maio, Nathália Timberg, Cláudio Corrêa e Castro, Enio Carvalho, Carminha Brandão, Nestor de Montemar, Edmundo Lopes, Antonio Pitanga, Rachel Martins, Gilmara Sanches, Eduardo Abbas, Gladys Maria, Eudóxia Acuña, Geny Prado, Silvio de Abreu, entre outros.
Em 1995, o SBT fez uma segunda versão de “Sangue do Meu Sangue”, trazendo Tarcísio Filho, Lucélia Santos e Bia Seidl nos papéis de Lúcio Rezende, Júlia e Pola Renon, respectivamente. Apesar de uma produção minuciosa da emissora, a versão não teve o grande sucesso da primeira, e Vicente Sesso mostrou-se insatisfeito com ela, chegando a declarar que o seu texto tinha sido descaracterizado. Completava o elenco da segunda versão, entre muitos, Rubens de Falco, Osmar Prado, Lucinha Lins, Othon Bastos, Denise Fraga, Suzy Rego, Guilherme Leme, Ewerton de Castro, Bete Coelho, Paulo Figueiredo, Marcos Caruso, Jussara Freire, Jandira Martini, Yara Lins, Edgard Franco, Jayme Periard, Delano Avelar, Vera Zimmermann, Flávia Monteiro, Jandir Ferrari, Luís Guilherme, Elisa Lucinda, Rogério Márcico, Marcos Plonka, Cacá Rosset, Walter Forster e Irene Ravache. Tônia Carrero, que brilhou na versão original, voltou em participação especial.

Inaugurado o Estilo das Novelas das 19h00 na TV Globo

O sucesso de “Sangue do Meu Sangue” levou a TV Globo a contratar, em 1970, Vicente Sesso como novelista. O autor tinha grandes desafios, como o de escrever uma novela para o mítico Sérgio Cardoso e, criar uma história atual, que encerrasse a era dos dramalhões de época no horário das 19h00. Surgia “Pigmalião 70”, inspirada na peça de Bernard Shaw, com inversão das personagens. Nando (Sérgio Cardoso), é um humilde feirante que trabalha ao lado da mãe, a Baronesa (Wanda Kosmo) e é noivo de Candinha (Suzana Vieira). Um dia um pequeno acidente automobilístico faz com que o seu destino cruze o da milionária Cristina (Tonia Carrero). Instigada pela situação, Cristina faz uma aposta com o pai (Álvaro Aguiar), de que transformaria aquele homem rude em um sofisticado cavalheiro para apresentar à alta sociedade. Cristina vence a aposta, mas se apaixona profundamente por Nando.
Pigmalião 70” foi um grande sucesso de audiência, marcando o estilo da linguagem de comédia do horário das 19h00 na TV Globo, que persiste até os tempos atuais. A partir de então, todas as novelas do horário foram escritas sobre os moldes da estrutura delineada por Vicente Sesso. A química entre Sérgio Cardoso e Tônia Carrero atingiu o grande público, que se deliciava com dois gigantes dos palcos brasileiros, mostrando-se então, fascinantes na televisão.
A beleza magnética de Tonia Carrero fez com que todas as mulheres brasileiras imitassem o seu corte de cabelo, chamando-o de pigmalião. Suzana Vieira marcava a sua estréia na TV Globo, onde construiria uma brilhante carreira.
Os grandes vilões sempre fizeram parte das tramas de Vicente Sesso, sem que se mostrassem caricatos; na novela, Carlito, magnificamente interpretado pelo ator Edney Giovenazzi, era o antagonista e vilão. No elenco, escolhido com rigor e primor, estavam ainda, Felipe Carone, Célia Biar, Eloísa Mafalda, Marcos Paulo, que seria uma presença constante nas tramas do pai, Maria Luiza Castelli, Betty Faria, Rachel Martins, Norah Fontes, Renato Máster, Jacyra Silva, Jardel Mello, Carmem Silva, Ruth de Souza, Ida Gomes, Elizabeth Gasper, Adriano Reys, Herval Rossano, Íris Bruzzi, Eleonor Bruno. Entre o elenco, havia a insólita presença da jornalista Marisa Raja Gabaglia, que era muito popular no telejornalismo da década de 1970.
A novela firmou o estilo do horário; alcançou o grande público; ao lado de “Irmãos Coragem”, de Janete Clair, transmitida em época simultânea, no horário das 20h00, transformou a TV Globo, pela primeira vez, em líder de audiência sobre todas as outras emissoras; lançou moda e, fez grande sucesso com a sua trilha sonora. Vicente Sesso tornar-se-ia um ícone daquele horário.

Nasce a Namoradinha do Brasil

Após a bem sucedida “Pigmalião 70”, Vicente Sesso tomou fôlego por alguns meses, voltando em 1971, com “Minha Doce Namorada”, novela que se iria tornar um dos maiores sucessos do horário na TV Globo, considerada um ícone do gênero.
A trama foi inspirada em vários textos que o autor já havia apresentado anteriormente em outros canais de televisão, tendo como núcleo central, uma história que tinha sido apresentada no “Teatro de Fantasia”, na década de 1950.
A novela trazia como protagonistas Regina Duarte e Cláudio Marzo, nos papéis de Patrícia e Renato, respectivamente. Era a terceira produção da TV Globo que utilizava os atores como um casal romântico, parceria bem aceita pelo público, iniciada em “Véu de Noiva” (1969). Os atores vinham do elenco da novela “Irmãos Coragem”, onde os seus personagens Duda Coragem e Ritinha, foram retirados da trama para as gravações da novela de Vicente Sesso. Regina Duarte, que engravidara durante o decorrer de “Irmãos Coragem”, vinha recuperada do seu primeiro parto, irradiando uma luz e doçura no papel da órfã criada por artistas mambembes, que lhe valeu, de imediato, ser conclamada a “Namoradinha do Brasil”, título carinhoso que perseguiu a atriz por quase uma década, influenciando na designação dos papéis que lhe seriam dados na TV Globo nos anos de 1970.
Minha Doce Namorada” trazia os mais singelos e fascinantes ingredientes do chamado estilo comédia “água-com-açúcar”. Iniciou-se na cidade histórica de Ouro Preto, mostrada através das repúblicas tradicionais de estudantes, onde vivia Renato, e de um parque de diversões, que abrigava a doce e decidida Patrícia. O encontro do casal dar-se-ia sobre a magia da cidade. Os altos custos da produção em Ouro Preto, fizeram com que as personagens mudassem para a cidade do Rio de Janeiro.
Além de Patrícia, personagens carismáticos conquistaram o Brasil, como a misteriosa e bondosa Tia Miquita, uma vendedora de maçãs do amor, magistralmente vivida por Célia Biar. Para interpretar a personagem, a atriz utilizou-se de uma maquiagem que a deixava bem mais velha. Também o veterano Sadi Cabral explodiu no gosto do público, vivendo a personagem do poderoso Hipólito Peçanha, que confundido por Patrícia como um faxineiro da fábrica que era dono, faz-se passar por Seu Pepê, iniciando com ela uma amizade carismática e cumplicidade que conquistou a simpatia dos telespectadores. Seu Pepê e Patrícia viraram tema de uma marchinha de carnaval no ano de 1972. A antagonista da vez era a grande vilã Madame Sarita, interpretada por Vanda Lacerda. A personagem despertou a ira do público, e a atriz sofreu com a perseguição dos mais exaltados.
Minha Doce Namorada” contava com um elenco coeso, que lhe permitiu uma ampla galeria de personagens carismáticos. Entre eles estavam a bela Maria Cláudia, Mário Lago, Suzana Vieira, Marcos Paulo, Heloisa Helena, Renata Fronzi, Roberto Pirillo, Paulo Padilha, Juan Daniel, Yara Cortes, Daniel Filho, Reynaldo Gonzaga, Dorinha Duval, Íris Bruzzi, Elza Gomes, Jardel Mello, Carmen Silva, Rachel Martins, Urbano Lóes, Carminha Brandão e Enio Carvalho, ator ícone do universo de Vicente Sesso, presença constante em suas novelas. Outra curiosidade foi a presença de Suzana Gonçalves, irmã de Suzana Vieira; a atriz transformar-se-ia em um grande sucesso da TV Globo, fazendo personagens marcantes. Ela abandonaria a carreira no auge, em 1976, partindo com o marido para desbravar o futuro estado de Rondônia.

O Apogeu Com Uma Rosa Com Amor

Com “Minha Doce Namorada”, Vicente Sesso escreveu de vez o seu nome como grande escritor de novelas de sucesso. Alcançaria o apogeu com a próxima trama, “Uma Rosa Com Amor”, que iria ao ar entre 1972 e 1973. Àquela altura, o autor sabia todas as técnicas do gênero de novelas que se tornara um mestre, para atrair grandes públicos.
A trama fugia dos casais românticos tradicionais, mostrando a história da solteirona Serafina Rosa Petrone (Marília Pêra), secretária romântica e atrapalhada, que vivia em um cortiço com os pais, Giovanni (Felipe Carone) e Amália (Lélia Abramo), e a irmã Terezinha (Nívea Maria), numa típica família de imigrantes italianos. O sonho de Serafina era um dia vir a casar; no escritório onde trabalhava como secretária, enviava todos os dias uma rosa para si mesma, para que os colegas pensassem que tinha um admirador secreto.
O patrão de Serafina, Claude Geraldi (Paulo Goulart), por quem ela suspirava, era noivo da sedutora Nara (Yoná Magalhães), e estava envolvido em negócios escusos, além de estar ilegal no país. Para regularizar a sua situação, teria que se casar, mas como Nara era desquitada e as leis da época não lhe permitia um segundo matrimônio, Claude não viu outra saída a não ser propor um casamento a Serafina, com data e hora para acabar. Após muitos desencontros e situações cômicas, Claude finalmente se deixará apaixonar pela secretária.
Marília Pêra consolidava-se como uma grande humorista através de Serafina, conquistando de vez o grande público brasileiro. Foi um dos papéis mais carismáticos que já viveu na televisão. O amor de Serafina e Claude era embalado pela música “Ben”, cantada pelo menino Michael Jackson, que desde então, passou a ser conhecido em todo o Brasil. O casal protagonista era uma novidade no horário. Paulo Goulart estava no seu auge de galã de telenovelas. Depois desta novela, o ator deixaria a TV Globo, sendo contratado pela TV Tupi. Só voltaria à emissora em 1980.
Yoná Magalhães, que na década de 1960 foi a grande estrela global, voltava à emissora carioca após dois anos na TV Tupi, para viver sua primeira vilã, abandonando o estereótipo das heroínas das novelas de Glória Magadan. A atriz usava durante toda a novela, uma peruca loira, uma moda na época. A atriz Lélia Abramo, ao viver Amália, uma autêntica e popular mãe italiana, ganhou rótulo na televisão como intérprete de grandes matriarcas imigrantes.
Tônia Carrero, presença quase que obrigatória nas telenovelas de Vicente Sesso, mostrou todo o seu glamour na pele da sofisticada atriz Roberta Vermont, que se envolvia com Sérgio (Marcos Paulo). Pela primeira vez, em uma novela das 19h00, foi desenvolvido o tema de uma mulher mais velha apaixonar-se por um homem mais jovem. Tônia Carrero e Marcos Paulo viveram com delicadeza este romance, sob os protestos de Joana (Vanda Lacerda), mãe do rapaz. Seria a última personagem de Tônia Carrero em uma novela, na década de 1970. Cansada da televisão, a atriz deixaria o veículo, só retornando em 1980.
Grande destaque para a participação de Grande Otelo, presença rara nas telenovelas. O ator viveu o velho Pimpinoni, artista criador de marionetes, que com os seus bonecos, contavam histórias da vida. Pimpinoni é uma das personagens típicas do universo de Vicente Sesso, carismático, desprovido de vaidades e no crepúsculo da idade, com palavras sábias para aconselhar e proteger com amor quem circula a sua volta.
O elenco de primeira grandeza, contava ainda com as presenças de Leonardo Villar, José Augusto Branco, Ênio Santos, Ary Fontoura, Rosita Thomaz Lopes, Aurimar Rocha, Roberto Pirillo, Henriqueta Brieba, Heloísa Helena, Monah Delacy, Jacyra Silva, Eleonor Bruno, Mirian Muller, Cléa Simões, Dinorah Marzullo, Gilberto Martinho e Nelson Caruso.
Apesar do grande sucesso de público, “Uma Rosa Com Amor” marcava a despedida de Vicente Sesso como novelista da TV Globo. O autor não aceitava muito bem o esquema de ter que esticar uma trama mediante os índices de audiência alcançados. Ainda naquele ano de 1973, assinaria contrato com a TV Tupi de São Paulo. Longe da emissora carioca, jamais voltou a obter o sucesso alcançado por suas novelas.

Breve Passagem Pela TV Tupi

Após o sucesso de “Uma Rosa Com Amor”, Vicente Sesso voltaria a TV em novembro de 1973, quando estreava outra novela de sua autoria, “As Divinas... e Maravilhosas”, escrita para a TV Tupi. O autor deixava os cenários cariocas para escrever sobre a tradicional família paulistana, retrato que ele, nascido em um casarão na Rua Conselheiro Crispiniano, centro de São Paulo, conhecia muito bem.
A história girava em torno de três mulheres de idade distintas: a velha Haydée (Nathália Timberg), a jovem e bela Catarina (Beth Mendes) e a madura Helena (Nicette Bruno). Um testamento milionário, que deixava um típico palacete paulistano da época de ouro dos barões do café e, uma grande fortuna, modificaria para sempre a vida daquelas três mulheres.
Para interpretar Haydée, uma velhinha, Nathália Timberg teve que se submeter a uma pesada maquiagem, envelhecendo o seu rosto e gestos. Ao lado de Nicette Bruno, Maria Aparecida Baxter e Yolanda Cardoso, a atriz foi responsável pelo sucesso da trama, todas volvidas pelo tom carismático das personagens de Vicente Sesso.
Mas a novela não alcançou o mesmo sucesso que as antecessoras escritas pelo autor para a TV Globo. Teve vários fatores que contribuíram para um desenlace morno, sem o fascínio de “Uma Rosa Com Amor” ou “Minha Doce Namorada”. Na luta pela audiência, a TV Globo contratou o diretor da novela, Oswaldo Loureiro, que iria atuar como ator em “Corrida do Ouro”. Deixando a direção, Oswaldo Loureiro foi substituído por Egberto Luiz.
Outra mudança que afetou o curso da trama foi em relação à personagem Catarina, uma das protagonistas. Bete Mendes, a atriz que a interpretava, sofreu um grande acidente automobilístico, sendo submetida a um longo período de convalescença, obrigando Vicente Sesso a desaparecer com a personagem. Durante o período que se restabelecia, Bete Mendes foi contratada pela TV Globo para viver a protagonista de “O Rebu”, de Bráulio Pedroso. A atriz já tinha protagonizado “Beto Rockfeller”, grande sucesso do mesmo autor. Diante do impasse, a personagem só voltaria à trama no último capítulo da novela, em que a direção aproveitou a edição de imagens de capítulos já gravados, em que ela aparecia em cenas românticas com o ator Ênio Carvalho.
Apesar de todos os problemas, a novela manteve uma envolvente e carismática trama, com destaques para as interpretações sublimes de Nathália Timberg, Nicette Bruno e John Herbert, e as engraçadas tiragens de Ana Maria Baxter e Yolanda Cardoso.
No elenco constava como sempre, a presença de grandes nomes como o grande ator do teatro brasileiro Procópio Ferreira, Geórgia Gomide, Arlete Montenegro, Geraldo Del Rey, José Lewgoy, Sadi Cabral, Elaine Cristina, Célia Coutinho, Flávio Galvão, Pepita Rodrigues, Íris Bruzzi, Glauce Graieb, Elizabeth Hartman, Elizabeth Gasper, Nelson Caruso, Leonor Navarro, Eleonor Bruno, Graça Melo, Leonor Lambertini, Cazarré, Benjamin Cattan, Jacyra Sampaio, Marcelo Picchi, Walter Prado e Geny Prado.
Após concluir “As Divinas... e Maravilhosas”, em 1974, Vicente Sesso aceitou um convite da televisão Argentina para escrever uma novela inspirada em “Deus Lhe Pague”, de Juracyr Camargo. No país vizinho, ele ficaria por quatro anos, escrevendo e traduzindo os seus trabalhos para o mercado internacional latino.

O Retorno em 1979

Vicente Sesso só voltaria a escrever uma novela para o público brasileiro em 1979. Desta vez com a missão de inaugurar o núcleo de novelas da TV Bandeirantes, extinto desde o ano de 1970. Na ocasião, a TV Tupi entrava em franca decadência, rumando para a falência que decretaria a sua extinção em 1980. Sem concorrência, a TV Globo tornara-se a única a explorar as telenovelas. A TV Bandeirantes decidiu investir fortemente no gênero, convidando Vicente Sesso, um autor que atraía sempre grandes atores que gostavam dos seus textos.
Para este importante momento da história da televisão brasileira, Vicente Sesso escreveu “Cara a Cara”. A trama girava em torno de Ingrid von Herbert (Fernanda Montenegro), uma mulher sofrida, que teve um filho quando se encontrava prisioneira em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Tendo o filho arrancado dos braços, Ingrid, agora uma milionária, vem ao Brasil para encontrar o seu herdeiro. No Brasil, envolve-se com as outras personagens da trama, como a rica e decadente Regina (Débora Duarte), que lutava para salvar a família da miséria, casando-se com o rústico fazendeiro Tonho (David Cardoso).
Vicente Sesso conseguiu uma grande vitória com “Cara a Cara”, trazer Fernanda Montenegro de volta às telenovelas. Há mais de uma década que a grande dama do teatro não atuava em uma produção do gênero. Tê-la no elenco significava grande prestígio. A TV Globo tentara contratá-la, sem sucesso, por muitos anos.
Além de Fernanda Montenegro, a novela contava com uma produção esmerada, indo buscar grandes estrelas da TV Globo e da TV Tupi. Entre elas estava Débora Duarte, que se indispusera com a TV Tupi, deixando o elenco da segunda versão da mítica “O Direito de Nascer”, onde iria fazer a personagem Isabel Cristina. Na época a atriz era casada com o cantor e compositor Antonio Marcos, que atuou como ator na trama, vivendo a personagem Nando. Antonio Marcos era quem cantava o tema de abertura da novela.
Outra novidade era o protagonista da história, David Cardoso, galã do cinema nacional, considerado o rei das pornochanchadas. O ator era tido como um símbolo sexual do país. Contava com grande prestígio, mesmo jamais fazendo uma interpretação que se pudesse considerar satisfatória.
Apesar do grande esforço da produção da TV Bandeirantes, de fazer renascer o apogeu da época de ouro de Vicente Sesso na TV Globo, a novela alcançou um sucesso relativo, sem grandes índices de audiência. Serviu como semente para o núcleo de teledramaturgia da TV Bandeirantes. A maior característica de “Cara a Cara” foi sem dúvida, o seu elenco: Luís Gustavo, Nathália Timberg, Irene Ravache, Fúlvio Stefanini, Rolando Boldrin, Edson França, Maria Isabel de Lizandra, Wanda Kosmo, Célia Coutinho, Márcia de Windsor, David José, Carmem Silva, Roberto Pirillo, Fausto Rocha, Arlindo Barreto, Ruthnéia de Moraes e Raymundo de Souza.
Cara a Cara” foi a última novela de Vicente Sesso feita para o Brasil. Voltaria, em 1992, a TV Globo, escrevendo a minissérie “Tereza Batista”, adaptação da obra de Jorge Amado. Mas a sua prioridade continua a ser o mercado internacional, onde escreve com sucesso, tramas exibidas na Argentina, Peru, Estados Unidos, Chile, Espanha, Colômbia, Turquia, Eslovênia, Japão e Itália.
Em 1995, a segunda versão de “Sangue do Meu Sangue”, feita pelo SBT, desagradou-o profundamente, que se negou a ver o seu texto a perder as características originais. Em 2009, concordou em vender à mesma emissora, os direitos autorais de “Minha Doce Namorada” e “Uma Rosa Com Amor”, para novas versões e para a redescoberta do seu trabalho. Vicente Sesso, assim como Janete Clair, é um daqueles autores que trabalha com o impacto de cada capítulo, jamais com o todo da obra. Seu estilo é inconfundível desde a montagem do capítulo, onde deixa a cena de impacto para o final, prendendo o telespectador. Sua obra é imprescindível para a história da televisão brasileira, essencial para que se perceba o desenvolvimento das telenovelas, o maior veículo de comunicação do país.

OBRAS

Novelas

1969/1970 – Sangue do Meu Sangue (TV Excelsior)
1970 – Pigmalião 70 (TV Globo)
1971/1972 – Minha Doce Namorada (TV Globo)
1972/1973 – Uma Rosa Com Amor (TV Globo)
1973/1974 – As Divinas... e Maravilhosas (TV Tupi)
1979 – Cara a Cara (TV Bandeirantes)
1982 – Verônica: El Rostro Del Amor (Mercado Internacional)
1995 – Sangue do Meu Sangue (SBT)

Minisséries

1959 – Jardim Encantando (TV Tupi)
1959 – O Guarani (TV Excelsior)
1959 – Senhora (TV Excelsior)
1992 – Tereza Batista (TV Globo)

Seriados

1958/1962 – As Aventuras de Marco Pólo (TV Tupi)
1966/1968 – As Aventuras de Eduardinho (TV Excelsior e TV Globo)

Um comentário:

José Valdir Sesso. disse...

Vicente Sesso foi um ícone na Globo. Um nome que deveria ser mais lembrado. A origem dos sucessos noveleiros da TV.