sábado, 29 de agosto de 2009

A MARCHA SOBRE ROMA

Após a Primeira Guerra Mundial, a Itália vivia um momento difícil sócio econômico, levando a população ao desalento com os governos tradicionais. Movimentos de esquerda, inspirados na Revolução Bolchevique, atraíam cada vez mais adeptos. Em direção oposta à esquerda, surgiam os movimentos de extrema direita, entre eles o movimento fascista, liderado por Benito Mussolini, jornalista e um antigo socialista. Transformado no Partido Fascista Italiano, em 1921, o movimento atraiu par si um grande número de italianos desencantados com a política.
Os fascistas pregavam a implantação de uma ditadura na Itália, que combatesse o perigo bolchevique e elevasse o país à glória de outrora. Em dois anos, as milícias fascistas moviam-se contra os seus adversários usando da violência, tomando de assalto às sedes dos partidos de esquerda, às dos sindicatos, iniciando governos paralelos através da intimidação e até mesmo do assassínio de adversários.
Com mensagens nacionalistas extremadas, os fascistas iniciaram, em outubro de 1922, uma ação decisiva que os levaria ao poder. No congresso do partido, em 24 de outubro, em Nápoles, Mussolini ameaçou abertamente os poderes constituídos, acusando-os de incapacitados de controlar a anarquia que se instaurara na Itália. Incitados por Mussolini, os fascistas iniciaram uma ação cautelosamente encenada, rompendo numa marcha que chamaram de grande cruzada dos camisas negras, deflagrada oficialmente no dia 28 de outubro. Três grandes colunas de camisas negras, formadas por paramilitares do partido, responderam à convocação de Mussolini, dirigindo-se para Roma. Postas estrategicamente em Tivoli, Monterotondo e Civitavecchia, as colunas fecharam o cerco sobre Roma. Cerca de 50 mil homens marcharam para a capital italiana.
Diante do impasse, movido pelo medo de um possível derramamento de sangue, o governo declarava estado de sítio. Mas o rei da Itália, Vittorio Emanuel III, recusou a medida de exceção do Parlamento, levando-o à demissão. O rei, em 30 de outubro, nomeou Benito Mussolini chefe do gabinete. Quando os camisas negras chegaram a Roma, em vez de desencadearem uma guerra civil, transformaram a cidade em um grande palco de festa para comemorar a ascensão do partido ao governo. Pacificamente, os fascistas desfilaram triunfantes sobre Roma. Iniciava-se um dos momentos mais controversos da história da Itália, instaurando uma das maiores ditaduras de direita do século XX, que iria durar duas décadas. Durante aquele tempo, o país envolver-se-ia na Segunda Guerra Mundial ao lado de Adolf Hitler, de quem o governo de Mussolini tornar-se-ia dependente e totalmente submisso.
A marcha sobre Roma representou, nos palcos da política, uma grande encenação e aparato, que levaram, de forma apoteótica, os fascistas ao poder.

Consolidação do Movimento Fascista Como Partido

Em março de 1919, Benito Mussolini fundou, em Milão, o movimento fascista. Vindo dos movimentos de esquerda, Mussolini fora militante do Partido Socialista Italiano, chegando a dirigir o jornal “Avanti”. Após fundar o jornal “Il Popolo d’Italia”, foi expulso do partido, em 1914.
Em 1921, o movimento fascista foi transformado em partido, regido por uma exacerbada ideologia de direita, que pregava entre outras coisas, o nacionalismo, a abolição do direito de greve dos funcionários públicos e a implantação da ditadura na Itália, como solução para os seus problemas econômicos e sociais.
Os camisas negras, nome derivado do uniforme oficial dos militantes fascistas, transformaram-se rapidamente, em uma poderosa organização paramilitar, usava da intimidação e da violência para acossar os seus opositores. Italo Balbo, o mais poderoso comandante dos camisas negras no norte da Itália, realizou, em 1922, entre maio e agosto, uma seqüência de façanhas que desmoralizou o governo vigente, ocupando com a sua esquadra importantes cidades, como Ferrara, Ravena e Parma, substituindo as autoridades locais pelos seus homens, instalando um governo ilegítimo e paralelo.
A ascensão dos fascistas, em apenas três anos da criação do movimento e pouco menos de um ano da sua consolidação como partido, foi vertiginosa. Estrategicamente Mussolini acenou para o exército, evitando que os seus homens entrassem em combate direto com ele, conseguindo assim, a simpatia de vários comandantes dentro das forças armadas italianas. Também fez parte da estratégia a igreja, que em janeiro de 1922, com a morte de Bento XV, elegia Pio XI como novo papa, e que Mussolini saudou com veemência e respeito. Exército e igreja deixaram de temer os fascistas, restava conquistar o apoio da monarquia.
Em simultâneo com a ascensão do fascismo, veio a decadência dos socialistas, que minavam aos poucos, muitas vezes eliminados fisicamente em emboscadas preparadas por seus inimigos.

Os Fascistas Tranqüilizam a Monarquia

Nos primeiros meses de 1922, após fracassar na tentativa para a formação de um gabinete de esquerda, que contivesse a ascensão dos fascistas, o governo de Bonomi pediu demissão. Para substituí-lo, foi designado o liberal e inexpressivo Luigi Facta.
Em julho, os fascistas promoveram uma invasão à cidade de Cremona, saqueando a sede do Partido Socialista, ocupando prédios municipais e incendiando a casa do deputado do Partido Popolare, Guido Miglioli. Em resposta às atrocidades sofridas, membros dos dois partidos moveram uma moção de desconfiança contra o governo de Facta, enfraquecendo-o e levando-o à queda ainda naquele mês. Após doze dias de negociações, Facta foi novamente empossado no governo.
Paralelamente, os fascistas demonstravam a sua força diante dos opositores. Na Emilia-Romanha, foi promovida uma greve geral pelos socialistas, em protesto contra as ações dos fascistas. Como o governo não conseguiu conter a greve, os fascistas tomaram conta dos serviços públicos essenciais, garantido que fossem mantidos durante a greve. A ação resultou numa humilhante derrota aos socialistas.
Com ações cada vez mais contundentes, os fascistas continuaram a ter êxito em ataques às cidades e sedes dos partidos inimigos, formando governos paralelos. Maturava a idéia de uma revolução fascista que tomasse o poder. Mussolini mostrava-se indeciso entre deflagrar uma revolução ou tentar a conquista pacífica do poder.
Diplomaticamente, Mussolini havia tranqüilizado o exército e a igreja, de que não seriam atingidos com a ascensão fascista ao poder. Faltava tranqüilizar a monarquia. Em 20 de setembro, o líder dos fascistas discursou em uma manifestação do partido em Udine. Afirmava que mudanças radicais poderiam ser promovidas sem que afetassem à monarquia. Assim, o exército, a igreja e a monarquia, deixaram de inquietarem-se diante de uma possível revolução fascista. Habilmente, Mussolini conquistava a simpatia de vários membros daqueles poderosos setores da política e da sociedade italiana.

Delineados os Planos para a Marcha

No decorrer do segundo semestre de 1922, o espectro de uma marcha sobre Roma que resultasse na tomada de poder pelos fascistas, fazia eco no cenário político. Um avanço sobre a capital do país parecia iminente. Em 11 de outubro, a intenção da marcha ficou clara publicamente, quando em Cremona, a multidão aclamou o líder Mussolini aos gritos de “Para Roma, para Roma...
Em outubro de 1922, finalmente Mussolini decidira por desencadear o processo revolucionário. Reuniu-se em sigilo na Vila São Marcos, em Milão, em 16 de outubro, com os companheiros Italo Balbo, Michele Bianchi, Cesare Maria De Vecchi e o marechal Emilio De Bono, entre outros. Decidiu-se que as milícias seriam unificadas sob um comando, a cargo de Balbo, De Bono e De Vecchi. A marcha sobre Roma seria realizada; a data da sua deflagração viria a ser marcada no Congresso Fascista, que se iria realizar a partir de 24 de outubro, em Nápoles.
A princípio, De Vecchi, um ex-monarquista que não tinha simpatia pelo método revolucionário; e, De Bono, não achavam que o momento da grande marcha sobre Roma seria aquele, mas retrocederam diante do grande entusiasmo revolucionário de Italo Balbo e do próprio Mussolini.
Inicialmente, o plano estratégico sugerido por Mussolini era de que três grandes colunas das milícias fascistas ficassem concentradas nas províncias da Emilia-Romanha, Toscana e nos Lagos, de onde convergiriam para Roma. Os generais da ativa Fara e Cecherini, que não pertenciam oficialmente ao partido, mas que estavam na reunião em Milão como convidados de Mussolini; alertaram para a imprudência de percorrer um caminho tão longo, praticamente a metade do território italiano. Diante das ressalvas, Italo Balbo deu a sugestão que seria a executada, a concentração dar-se-ia em três pontos próximos de Roma: no Tivoli, Civitavecchia e Monterotondo, instalando-se o quartel general na Perugia. Os planos para a grande marcha sobre Roma estavam, finalmente, estabelecidos.

Durante o Congresso em Nápoles

Passaram-se cerca de oito dias entre a reunião secreta de Milão e o congresso do partido fascista em Nápoles. Tempo suficiente para que se eliminassem todos os obstáculos e aperfeiçoassem o grande plano revolucionário.
No dia 23 de outubro Mussolini, vindo de Milão, a caminho de Nápoles, passou por Roma, onde teve um encontro com Salandra, que tencionava, junto com os fascistas, formar um governo de direita. No dia seguinte, em Nápoles, quarenta mil fascistas desfilaram à tarde, pela praça do Plebiscito. Diante deles, Mussolini fez um inflamado discurso, que abalaria a nação. Eloqüentemente declarava:
Garanto-vos solenemente, porém, que a nossa hora soou. Ou nos concedem o governo ou nós iremos a Roma conquistá-lo. É uma questão de dias ou horas.
Os preparativos finais para a marcha foram estabelecidos naquela noite, no Hotel Vesúvio, em Nápoles, antes de Mussolini deixar a cidade, secretamente, rumo a Milão. Os poderes da operação militar, quando fosse desencadeada, seriam dados plenamente ao quadrunvirato constituído por Italo Balbo, De Bono, Da Vecchi e Bianchi, e a eles deveriam ser transmitidos à meia-noite do dia 26 de outubro. Uma mobilização secreta começaria a ser feita em 27 de outubro, e, finalmente, no dia 28 de outubro começariam os ataques revolucionários às prefeituras, jornais, sedes de entidades opositoras aos fascistas, postos policiais, sindicatos, estações de correios e diversos outros pontos estratégicos. A seguir aos ataques, ainda no dia 28 de outubro, uma concentração dos camisas negras em três pontos distintos, iniciaria a marcha sobre Roma.
Em frente ao Hotel Vesúvio, as milícias fascistas desfilavam, a cantar e a gritar eloqüentemente: “Para Roma! Para Roma!

A Marcha da Vitória Fascista

No dia 26 de outubro, os comandantes fascistas assumiram os seus postos nas concentrações das milícias. Em Civitavecchia, o comando foi entregue a Perrone Compagni, auxiliado pelo general Cecherini; a coluna de Monterotondo seria comandada por Ulisses Igliorie; e, a de Tivoli, por Giuseppe Botai. O quadrunvirato constituído por Italo Balbo, De Bono, Da Vecchi e Bianchi, assinou o manifesto redigido por Mussolini, que seria divulgado no auge da deflagração da marcha.
Em Roma espalhou-se o pânico diante de uma marcha revolucionária fascista com conseqüências imprevisíveis. Facta é aconselhado a demitir-se. Após relutar, diante das notícias da marcha das três colunas de camisas negras, que chegavam alarmantes à capital, Facta, decidiu finalmente, demitir-se.
Ante à notícia da demissão de Facta, uma das exigências para que os fascistas não atacassem Roma, De Bono, Balbo e Bianchi decidiram suspender a ação por 24 horas, à espera de novas orientações. Mas o movimento já estava em curso, sendo impossível de retroceder ou controlar. Debaixo de chuva e frio, a marcha sobre Roma prosseguiu.
Na madruga de 28 de outubro, Luigi Facta, já demissionário e a aguardar a designação do seu substituto, recebeu um telefonema de Michele Bianchi, acusando-o de vir a ser o responsável por um possível derramamento de sangue. Às cinco horas da manhã, Facta convocou uma reunião de emergência do gabinete do governo. Simultaneamente, o jornal “O Popolo d’Italia”, foi posto em circulação, trazendo o manifesto redigido por Mussolini e assinado pelo quadrunvirato revolucionário. Publicado na íntegra, o manifesto conclamava:
Fascistas italianos. Soou a hora da batalha decisiva. (...)
(...) Fascistas de toda a Itália, apelai para o vosso espírito e para a vossa força. Temos de vencer. Venceremos.
Viva a Itália, viva o fascismo.

Enquanto a proclamação do manifesto fascista circulava pelas ruas, Luigi Facta e o seu gabinete decidiram decretar estado de sítio. Dirigiu-se a Vittorio Emanuel III para que assinasse o decreto, mas o rei afirma que se deve evitar o conflito, e recusa-se a assinar o documento. Sem saída, Facta comunicava aos políticos e às autoridades militares de que o estado de sítio não tinha mais valor.
No dia 29 de outubro, Mussolini publicava no jornal “O Popolo d’Italia”, aquele que viria a ser o seu último artigo como jornalista. Enfaticamente, o líder fascista concluía: “O fascismo quer o poder e há de obtê-lo”.
As palavras são cumpridas. Em Roma, De Vecchio é chamado ao palácio, recebendo a missão de convocar Mussolini a Roma para ser nomeado primeiro ministro da Itália.
Em Milão, Mussolini recebe o telegrama com a notícia da sua designação para primeiro ministro. Aceita-o imediatamente. Passa a direção do jornal “O Popolo d’Italia” para o irmão Arnaldo, deixando instruções para que se destrua completamente os jornais socialistas “Avanti” e “Giustizia”. Segue à noite, de trem, para Roma.
No dia 30 de outubro, o trem que trazia Mussolini chega, às 9h30, a Civitavecchia. Ali, usando a camisa negra, passa em revista as milícias fascistas que estavam preparadas para marchar sobre Roma. Uma hora depois, ele chega triunfante à capital italiana. Ainda a trajar a camisa negra, é recebido cordialmente pelo rei, no Palácio Quirinal. Minutos depois, Vittorio Emanuel e Benito Mussolini aparecem na sacada do Quirinal, sendo aclamados e aplaudidos pela multidão.
Na noite de 30 de outubro, às 19h00, Benito Mussolini, já despido da camisa negra, a trajar uma casaca, levou ao rei da Itália uma lista com os nomes dos ministros que iriam formar o seu gabinete. Aos 39 anos, era o mais jovem italiano a exercer o cargo nos últimos sessenta anos. Os fascistas chegavam ao poder. A ditadura era instaurada na Itália.
Nas ruas de Roma, as milícias dos camisas negras, que se haviam preparado para uma intensa luta armada, realizavam, na presença do rei, uma alegre e triunfante passeata, a conclamar a vitória. Após o ato público, Mussolini, já primeiro ministro da Itália, ordenou que se dispersassem as colunas, e que todos retornassem para casa. Na noite de 31 de outubro, os trens levavam de Roma os últimos camisas negras, agora no poder, que se iria estender por duas décadas. As mais conturbadas da história recente da Itália e do mundo.

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