domingo, 5 de julho de 2009

PALAVRAS DE AMOR - POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Palavras de amor quando ditas pelo mais primordial dos mortais tornam-se um momento de beleza; quando ditas pelos mais sensíveis tornam-se um poema de amor. Palavras de amor, quem não as proferiu? Quem não as escreveu? Quem não as roubou aos poetas para sentir a sua intensidade ou presentear o grande amor?
No baú das minhas memórias, hei que me deparo com as minhas palavras de amor juvenil, que na época as chamei de poemas. Mas como a poesia está no dilacerar da sensibilidade, mesmo quando rompida pela estética da métrica, chamo aos meus versos livres de palavras de amor.
Às vezes olho para aquele que os escreveu e que hoje se encontra perdido dentro do tempo da minha mente, e pergunto-me: quem eras tu que os escreveu? Que heterônimo foi desprendido dos espelhos do meu sentimento? Ainda seria capaz de escrevê-los assim, tão livres, comprometidos apenas com os sentimentos, sem a técnica estética das palavras? Mas o poeta não tem compromisso apenas com o sentimento do eu mais profundo? Não tem como obrigação tornar bonito a rima da dor com o amor?
Um dia cansei de escrever o amor e fui vivê-lo na sua essência bruta. Meus versos perderam-se em lençóis estranhos e manchados pelo prazer, distanciaram-se entre as pernas desconhecidas que aconcheguei aflito a minha insaciável vontade de ejacular o amor. Sofistiquei o amor nas teias do prazer, muitas vezes desencontrando-o do calor do coração.
Então onde encontrar o jovem que escreveu os poemas de amor? Que desconhecido no tornamos! Fecho os meus olhos e posso vê-lo romântico, a sonhar com a rosa azul de um jardim eternamente secreto. Relembro corpos nus e suados, a desenhar relevos de paixão com os seus pêlos artísticos à meia-luz do quarto. Ressuscito imagens imprecisas de ventres ao léu, que no ápice do meu prazer, colheram a pequena morte de mim. Então, eu, homem maduro, recolho as palavras de amor escritas pelo meu eu de juventude. Roubo-as para mim, afinal palavras de amor, canções de amor, poemas de amor, são de quem delas necessitam.


Pássaro no Asfalto Quente


Percorro um mundo aberto em palco,
Como um viajante em fuga,
Um pássaro do asfalto,
Procurando a semente do teu segredo,
Deixa eu dormir meu corpo no teu olhar,
Deixa eu fechar meus olhos e te sonhar,
Deixa eu queimar meu mundo a te perseguir,
E desfolhar meus gritos na tua voz,
Deixa eu correr teus medos na minha sorte,
Deixa eu tentar o risco de te amar,
Soltar o meu destino pelas estradas,
Pousar o meu vôo no teu calor,
Deixa eu sentir teu corpo nas minhas mãos,
Deixa eu gemer teu nome na noite plena,
Deixa eu morrer meus passos na tua liberdade,
E no dia apenas poder sorrir o teu amor.



Outros

Outras palavras me chegam,
Outros segredos embalam-me,
Outro silêncio me cala,
Já outro sol me aquece,
Outros sorrisos me pulsam,
Roubam a minha alma ao vento,
Outra vontade,
Outro sonho,
Outros desejos agitam-me,
Outras metades me escondem,
Novos medos me gritam,
Outros pássaros voam,
Perseguem a luz da manhã,
Outra magia a soprar-me,
Acaricia a força do presságio,
Outro destino me arrasta,
Socorre a minha agonia,
Outros amigos me chegam,
Como se fosse meio-dia,
Outras promessas de vida,
Outras tantas juras de amor,
Outro pecado da noite,
Outro pedaço que se me desprende,
Outra ternura que se expande,
Outro amor,
Outra mentira...


Estado de Afeição


Tanto tempo de espera,
De luzes presas no escuro,
Caminhando ilimitado,
Sem futuro filosófico,
Sem passado amordaçado,
De repente hoje estou resumido,
Nesse fascínio que me atingiu,
Numa busca incomparável,
Vou brincando de menino,
Dos teus olhos fazendo brilho,
Como pássaro que não pousa,
No teu peito fazendo chama,
Vou negando o meu destino,
De ti tento fugir,
Mas não consigo ir com a lua,
Com a mesma bebedeira,
Tua nuvem que me flutua,
Vai devassando os meus segredos,
E o meu medo a te ferir,
A torturar a nossa poesia,
Como tristes navegantes,
Não fugimos do naufrágio,
Não queimei as tuas lembranças,
Não esqueci a tua voz,
Não rasguei teu endereço,
Não discuto o começo,
Ou a culpa que mereço,
No meu medo vou derrubando o teu poema,
Por favor não vá fugir,
Dos meus olhos desaparecer,
Eu acredito e confesso,
Quero hoje os teus versos.


O Menino

Ele é quase um menino,
Empolgou o meu destino,
Ele anda apressado,
Traz o peito carregado,
É um poema divino,
Quase repete um hino,
Ele é mais que criança,
Traz em si a lembrança,
Divaga nas madrugadas,
Persegue noites apagadas,
Ele vive drogado,
De amor não terminado,
Ele anda perdido,
Com um olhar perseguido,
Em alguns momentos conversa,
N’outros apenas versa,
Leva embora a sua alma,
Sem querer pede calma,
Ele é mais que um passado,
Que um canto sufocado,
Ele é tudo o que diz,
Quando nada quis,
Mas ele é desatino,
Pois é quase um menino.

Pensamentos de Amor e de Existência – Jeocaz Lee-Meddi

“O amor quando impossível mutila mais do que a pior das guerras.”

“Não nos podemos perder de nós mesmos quando amamos alguém. É como perdermos a direção da vida e haurirmos um ar letífero.”

“Não prometas nada que vá além da próxima primavera. Nenhuma fidelidade resiste à insatisfação humana, se assim o fosse, Adão estaria até hoje no Éden, fiel às promessas de Deus.”

“Sinto-me confortável em saber que faço parte da natureza, da sua renovação constante. Sinto-me menor como gênero humano ao ver-me apenas como um objetivo da natureza.”

“Após a tempestade há um momento sublime de encontro entre o ódio e o amor.”

“Se não guardamos a data de aniversário de quem nos é importante na memória do coração, não vale a pena escrevê-la na agenda.”

“Os calendários foram criados para inserirmos a nossa existência em um breve momento de Deus.”

“Não tenho filosofia própria ou alheia, apenas afronto o mundo! Se não afrontarmos o que nos foi legado, seremos sempre prisioneiros do tempo e das suas limitações.”

“Ser egoísta faz parte dos filhos do Adão degenerado. Ser magnânimo também.”

“Todas às vezes que me descobri feliz, tornei-me indolente para procurar a felicidade.”

“Muitas vezes aquele que faz feliz a todos à sua volta, não consegue propiciar esta felicidade a si mesmo.”

“Os meus extremos nunca me permitiu ser uma paisagem renascentista, não, a minha alma é uma paisagem de Van Gogh, bela, trêmula e com sede de viver a dor.”

“A procura do meu eu sincero torna-se sem cor diante da procura das verdades da cidade.”

Texto, poemas e pensamentos de: Jeocaz Lee-Meddi
Fotografias: Paulo César (1 Amor É..., 4 Entre Nós o Amor), Guilherme Santos (2 O Céu de Opacas Sombras Abafadas), Luís Antonio (3 Jeocaz Lee-Meddi, Ode a Luz, 5 Jeocaz Plural, 6 Retrato Jeocaz Lee-Meddi)

Um comentário:

Anônimo disse...

Jeocaz, vc é um gostoso! :)