terça-feira, 28 de julho de 2009

LENDAS INDÍGENAS 3

A mitologia dos índios brasileiros é repleta de seres fantásticos, muitos deles trazendo as forças da natureza, benéficas ou malignas. Tupã é o deus supremo, senhor absoluto do olimpo tupiniquim. As lendas indígenas procuram, através de uma simplicidade lúdica, explicar a origem das tribos, das árvores da floresta, das plantas comestíveis, tudo sintetizado de forma que se possa, objetivamente, transmitir a beleza das tradições e dos ritos que elas geram.
Três lendas indígenas foram adaptadas para este artigo, “Aruanã e a Criação dos Carajás”, “O Guaraná” e “Mani”, sendo elas fundamentais na cultura dos índios da Amazônia e do Centro-Oeste brasileiro.
Aruanã e a Criação dos Carajás, é mais uma lenda da rica tradição folclórica dessa tribo que vive às margens do rio Araguaia, no Centro-Oeste do Brasil. Conta a origem dos índios Carajás, através da figura mítica de Aruanã, primeiro peixe, depois homem. A lenda deu origem à festa de Aruanã, uma das mais empolgantes tradições dos índios Carajás, realizada na Lua cheia, onde os índios dançam e cantam, renovando os ritos e os feitos heróicos daquele povo.
O Guaraná, conta a lenda do surgimento de uma das frutas mais exóticas do planeta e símbolo da Amazônia. Nascida da sabedoria e carisma de um menino índio e da inveja da serpente do mal, a fruta chama a atenção pelo formato de um olho humano. Uma das mais belas lendas dos índios do norte do Brasil, repleta de lições filosóficas subentendidas. É a reparação de Tupã a uma injustiça e dor através da felicidade que o fruto do guaraná causa quando ingerido.
Mani, mais uma lenda vinda das tribos da região amazônica, relata a origem misteriosa da mandioca, tubérculo essencial na alimentação das tribos primitivas e fonte básica do cauim, bebida dela extraída, utilizada na iniciação dos ritos. A lenda lembra a história cristã de Maria e da sua gravidez sem o ato sexual e a participação do homem. A mandioca, sagrada para algumas tribos, teria origem através de um ser vindo das profundezas do misticismo espiritual.

Aruanã e a Criação dos Carajás

Aruanã era um peixe que vivia nas profundezas do rio Araguaia. De vez em quando subia às margens do grande rio, e contemplava a vida humana. Seu ser aquático enchia-se de tristeza, pois pensava que a verdadeira felicidade estava no cheiro do ar, na beleza da terra. Sentia-se perdido e infeliz em viver nas águas e ser um peixe. Sonhava um dia tornar-se homem e correr pela terra seca.
Na festa do Boto, o senhor das águas, realizada nas profundezas do Araguaia, todos os seres aquáticos participavam felizes. Lá estavam a bela Iara e a sua irmã Jururá-Açú, deusa das chuvas, e todos os peixes e habitantes do grande rio, numa alegria radiante. Só Aruanã mostrava-se infeliz, a sentir-se estranho àquele mundo, a lamentar ter nascido no rio e jamais poder respirar o ar.
Ao sair da festa do Boto, Aruanã nadou, nadou, subindo sempre na direção da superfície das águas. Num ímpeto de coragem e determinação em sentir o aquecimento esplendido da força do Sol sobre a Terra, ele pôs a cabeça de fora das águas. Quase a sufocar com o ar, falou com todas as suas forças de peixe sonhador em busca da felicidade:
-Grande Tupã, senhor da vida e da natureza, na água nasci, mas nela não quero morrer. Se peixe é o meu corpo, meu coração é humano. Tira-me das águas que me faz infeliz e sem sentido, dá-me o ar como forma de pulsar e a condição de homem como realizador da vida.
As palavras de Aruanã saíram tão veementes, que Tupã percebeu o verdadeiro destino do valente peixe e a essência da sua alma. Compadecido, o senhor das matas desceu às profundezas do rio Araguaia, arrebatando de lá o infeliz peixe. Voou com Aruanã, que não podendo respirar, debatia-se no ar. Por fim, Tupã deixou-o no campo, sob os raios intensos do Sol e das brisas suaves dos ventos.
Aruanã debatia-se sobre a relva, pensando que iria sufocar. Não amaldiçoou Tupã, pelo contrário, mesmo sem conseguir respirar o ar da Terra, agradeceu por aquele momento final, iria morrer longe das águas, como sempre sonhara. Fez um louvor ao deus e cerrou os olhos, à espera da morte e da felicidade alcançada.
Comovido, Tupã iniciou a metamorfose do peixe. Em vez da morte, Aruanã viu as escamas transformadas em pele, revestida de pêlos suaves que a brisa contornava em desenhos; braços e pernas musculadas davam-lhe o aspecto viril. O ar finalmente chegou-lhe aos pulmões. Sentiu o cheiro da Terra. Olhou emocionado para o seu corpo e sorriu feliz, já não era um peixe, e sim um homem, forte e belo.
-Provaste que tens um coração grandioso e valente. – Disse-lhe Tupã. – Serás um grande guerreiro entre os homens; pai da mais sábia das tribos. Aruanã peixe foste, Aruanãs hás de te chamar como homem. Vá, cumpra o teu destino de homem guerreiro!
Para saldar o belo e jovem Aruanãs, as Parajás, entidades da justiça das matas, vieram e prestaram honras ao guerreiro. Deram a ele uma tribo e as mais belas mulheres. Unindo-se às mulheres, o jovem guerreiro gerou filhos e filhas, dando origem aos valentes Carajás, que formaram uma tribo de índios valentes a viver às margens do rio Araguaia. Todos os anos, por ocasião da Lua cheia, os Carajás realizam o Ritual do Aruanã, prestando, através da dança e do canto, a homenagem justa ao pai da nação Carajá.

O Guaraná

Os Maués eram índios que habitavam em uma aldeia entre os rios Tapajós e Madeira. Na tribo, em tempos remotos, vivia um jovem casal de índios que era amado por todos. Os dois eram felizes, sempre à espera de um filho para que se pudesse completar aquele êxtase matrimonial.
Mas o tempo passou, e o filho não vinha. O casal dirigiu-se ao pajé, em busca de uma erva que fizesse o ventre da mulher crescer e gerar um curumim. O pajé disse que deveriam invocar a Tupã a dádiva. Foi o que fizeram. Humildemente, prostraram-se no chão e pediram ao grande deus das tribos e das matas, que lhes concebesse um filho. Nove meses depois, Tupã presenteou-os com um menino forte e saudável.
O tempo passou, e a criança cresceu forte e bonita. Tornara-se o mais belo de todos os curumins. Onde passava, atraía para si a benevolência de todos, visto que irradiava uma luz que transmitia paz e sabedoria. Sua curiosidade diante dos segredos da vida, fazia-o cada vez mais sábio. As andanças com o pai pela mata a caçar animais, ou a pescar peixes, fazia com que descobrisse todos os segredos da natureza, que amasse os bichos e deles se tornasse amigo. Com a sua alegria sábia, visitava os velhos doentes, levava alegria aos outros índios vizinhos, sempre com um sorriso no seu rosto de criança iluminada, com um coração repleto das garras da bondade.
Os pais do curumim sentiam-se honrados, não havia em tribo alguma criança tão sábia, bela e amada como o filho. A fama da bondade do menino correu pelas matas, desceu pelas águas dos rios, atingindo todas as tribos da Amazônia. Índios vinham das mais remotas aldeias para ouvir as palavras doces e sábias do curumim.
A sabedoria, bondade e beleza do menino maué atingiram Jurupari, a serpente do mal e das trevas do mundo. Jurupari interessou-se por aquele ser iluminado. Invisível, passou a seguir o curumim por todos os lados. Quanto mais assistia aos seus feitos e como era amado por todos, uma inveja implacável tomava conta de Jurupari. Não suportava tanta bondade e inteligência em um único ser humano. Era quase a perfeição ambicionada pelos pajés e índios da floresta.
Um dia, o curumim encontrava-se no meio da mata, entre os passarinhos e os papagaios, falando com todos eles. De repente a sombra de Jurupari foi sentida pelas aves, que debandaram aos céus, em um vôo súbito. Sozinho, o curumim nada suspeitou. Passou a cultivar frutas silvestres para comer. Ao ver o ato do menino, Jurupari engendrou um plano para acabar de vez com tão perfeita criatura. A maldosa entidade transformou-se em uma cobra que trazia um grande veneno, gerado por todos os males do mundo e pela inveja ardente.
Metamorfoseado em cobra, Jurupari aproximou-se do menino. Ingênuo, ele viu no olhar doce e dissimulado do animal, mais um amigo. Mas não se aproximou, continuou a colher frutos, sem se aperceber que em uma das árvores, a cobra estava enrolada ao seu tronco. Ao tocar no fruto, sentiu a picada fatal de Jurupari. Uma sombra desceu sobre o menino, durante a sua curta existência, ele aprendera os conhecimentos doces da sabedoria da vida, agora, sentia pela primeira vez o amargo das maldades do mundo. Tarde demais para conciliá-los no seu ser iluminado.
Mais tarde, o curumim foi encontrado pelo pai e pelos índios da aldeia, caído no chão, sem vida. Todos lamentaram e choraram a morte do menino. O pai lançou um grito de dor que ecoou pelas matas e rios. A mãe perdia-se em um tortuoso lamento.
As lamúrias e prantos de todos estremeceram as nuvens e comoveram Tupã. Um grande trovão desceu do céu, calando e assustando a todos. Era a voz estrondosa de Tupã, anunciando que iria compensar a dor de todos, reparando o mal e a tristeza que Jurupari infringira quando envenenara e decepara uma vida inocente. Tupã ordenou que fossem plantados os olhos da criança. Deles haveria de brotar uma planta milagrosa, cujos frutos trariam alegria e felicidade a quem os consumisse.
Assim foi feito, os índios maués plantaram os olhos do curumim na mata. Deles nasceram o guaraná, uma fruta em forma de olho. Eram os olhos do menino sábio. Quando ingeridos, os frutos traziam felicidade e bem-estar aos índios, fazendo com que a tristeza pela morte do curumim fosse apaziguada, transformada em um grande prazer.

Mani

Numa aldeia no meio da Amazônia, vivia uma tribo de índios que se dedicavam à caça e à pesca. A vida era tranqüila e pacífica, longe das disputas e das guerras entre tribos vizinhas.
Um dia a paz da aldeia foi abalada por uma novidade, a bela filha do cacique apareceu grávida. O chefe da aldeia soltou um grande grito diante da sua desonra. Era preciso saber quem era o autor do ultraje e puni-lo com a rigidez que exigia a honra. Furioso, ele interrogou a filha, tentando saber a identidade do infame. Passivamente, ela respondeu que não tinha tido relação alguma com os índios da aldeia e da vizinhança. Quanto mais a jovem negava revelar com quem se deitara, mais enfurecido ficava o chefe da aldeia. Enlouquecido, espancou a filha, confinou-a em uma caverna escura, deixou-a sem comer por dias... Nenhum castigo ou ameaça surtia efeito, a jovem continuava a afiançar a sua inocência de que jamais conhecera um homem na intimidade do amor.
Amargurado, o cacique chegou ao fim do dia com uma certeza, era preciso punir a sua desonra. Se a filha continuava a recusar a delatar o índio que lhe engravidara, então era preciso matá-la. Ao recolher-se na oca, deitou-se sobre a rede, com a decisão de no dia seguinte lavar a honra com o sangue da filha. Ao adormecer, o chefe teve o sono invadido por Tupã, que tomando a forma de um homem branco, revelou-lhe a verdade, a filha era inocente, jamais se deitara com índio algum. Quando despertou, o cacique tinha o coração aliviado, toda a amargura e ódio tinham sido dissipados pelo sonho.
Assim, o ventre da jovem cresceu, como se dele fosse sair mais de uma vida. Ao fim do nono mês, após todos os sofrimentos sofridos, a bela índia deu à luz a uma menina de uma beleza rara, trazia uma tez branca que jamais fora vista naquela aldeia ou em qualquer lugar da Amazônia.
Ao saber do nascimento de tão diferente criança, todos os índios da aldeia vieram vê-la e admirá-la. A notícia espalhou-se por todas as nações indígenas da floresta amazônica, motivando uma peregrinação sem fim à aldeia. Todos queriam ver a bela criança de raça desconhecida e nova à humanidade.
A menina foi chamada de Mani. Mostrou-se uma criança com estranhos poderes, pois falou e andou precocemente. Quando completou um ano, parecia ter cinco. Um ano depois, quando a Lua completou todos os ciclos, Mani deitou-se sobre a rede, cerrou os olhos e calou-se para sempre. Faleceu sem apresentar qualquer doença ou sentir dor. Simplesmente adormeceu no manto da morte.
Com grande tristeza, os índios enterraram Mani dentro da oca onde vivia com a mãe. Seguindo os costumes da aldeia, todos os dias a sepultura de Mani era descoberta e regada pelos índios. Passados alguns dias, começou a brotar da cova uma estranha planta, desconhecida de todas as nações indígenas das ribeiras amazônicas. Diante de planta tão rara, os índios decidiram não arrancá-la da sepultura de Mani.
O tempo passou, a planta cresceu, floresceu e deu frutos. Os pássaros foram os primeiros a comer os frutos da planta desconhecida. As aves mostraram-se tontas e embriagadas, o que despertou a atenção dos índios, aumentando o suspense e mistério que ladeavam a planta. Um dia a terra em redor da planta fendeu-se. Os índios cavaram o local e debateram-se com uma raiz branca, como era a bela Mani. A misteriosa criança índia tinha se transformado na raiz. Ao comê-la, o povo descobriu aquela que se tornaria a sua principal alimentação. Aprenderam a extrair da planta o cauim, bebida que servia para as iniciações místicas e religiosas. Do tubérculo, um saboroso alimento nutria todos os índios. Passaram a chamar a planta de mandioca, que significava Mani-Óca, oca de Mani.

Ilustrações: José Lanzellotti
Adaptação livre de: Jeocaz Lee-Meddi

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