terça-feira, 12 de maio de 2009

LISBOA: ALEXANDRE E EU - AL BERTO

Há exatos quinze anos, Lisboa era aclamada a Capital Européia da Cultura 1994, trazendo uma série de eventos culturais que eclodiram por toda a cidade. Os velhos prédios da cidade foram restaurados, ganhando cores vivas e diversas. O Bairro Alto foi chamado de “A Sétima Colina”, sendo o principal símbolo dos eventos culturais. Seus bares tornaram-se efervescentes, renovando a juventude que o freqüentava. Foi neste clima festivo que mais convivi com o poeta Al Berto e com o seu grande amigo, Alexandre Matos (ambos juntos na fotografia colorida).
O convívio foi fugaz, mas para sempre. Das noites no Frágil aos jantares no Targus, dos encontros constantes n’A Brasileira do Chiado, ao desfile de formatura em estilista do Alexandre, no Coliseu dos Recreios, serviu para que eu pudesse perceber o texto que me seria entregue mais tarde.
Em junho de 1997, um câncer fulminante decepou a vida do Al Berto. Em agosto reencontrei Alexandre Matos no bar do Miradouro de Santa Luzia. Estava de férias em Lisboa, pois há pouco mais de um ano fora morar em Turim, na Itália. Estava deprimido, abatido e inconsolável pela recente morte do Al Berto. A partir deste encontro, Alexandre trouxe-me várias cartas e textos do poeta, feitas a ele, perguntando-me se poderia ajudá-lo a publicá-las. As cartas, de teor intimamente pessoais, foram devolvidas. Um texto chamou-me a atenção, “Lisboa: Alexandre e Eu”, escrito em 1994, em laudas ainda datilografadas. O texto foi um presente do Al Berto ao Alexandre, que lhe tinha dito, fizesse o que bem entendesse com ele. A idéia era aproveitar o texto, verdadeira poesia em prosa, em um pequeno livro com fotografias feitas por Alexandre Matos. Mas quis a vida que eu seguisse um caminho diferente e retornasse ao Brasil, e os planos de publicar o texto do Al Berto, que continuou inédito, malograram.
Um texto de rara beleza, “Lisboa: Alexandre e Eu”, de Al Berto, traz a atmosfera das noites lisboetas, nas ruas do Bairro Alto. Cita lugares, os coletivos dos bairros, a noite, a bebida, a paixão e o amor. Traz uma melancolia madura, de alguém que já pressentia que a morte estava por perto e fazia, da sua poesia, o legado, o testamento para aqueles que amava. O texto é um jogo de metáforas e palavras diluídas numa beleza etérea, contínua, de paisagens urbanas, tendo o Tejo como centro e Lisboa como protagonista das vidas e das paixões. O sangue e o desejo transbordam as palavras, servidas pelos quartos dos amantes em cálices de bebidas quentes e dilacerantes.
Al Berto e Alexandre Matos, dois amigos situados na memória do meu coração. O texto que segue, provavelmente ainda inédito, é a minha homenagem aos dois, com as fotografias feitas por Alexandre Matos, do jeito que ele sonhara um dia. A autorização para que fizesse o que bem entendesse com o texto veio do próprio Alexandre. Aqui, fotografia e poesia unidas em uma beleza singular, a mostrar que o amor vence o tempo e a morte, imagens e palavras eternizam o que o vento soprou em um passado para sempre gravado nas ruas de Lisboa.

Lisboa: Alexandre e Eu, por Al Berto

Enquanto dormes constrói-me um rosto de luz, no limbo do teu sonho. Toca-o e acorda-me.
Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão.

Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia que a fuga era possível, pelas estradas de giestas em direcção ao mar.
Dorme, e consente que o meu coração escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita de pontes atravessadas, kms nocturnos e segundos de asfalto.

Para trás ficou a cidade.
E tu sabes que a cidade só existe no apanhar um táxi. E perdermo-nos até amanhã – sem sequer podermos dizer adeus, porque não se pode dizer adeus à paixão.

Amanhã, ou enquanto dormes – agora mesmo – vou pensar em ti. Intensamente: até que as horas me doam sobre a pele, e o movimento dos dias passe como aves que perdem o sentido do voo – até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo.
E em mim circules – quando estendo a mão por dentro da noite e te acordo, no fogo dos meus olhos.

No fim do sono existe um vulcão.
De repente, a manhã. A bruma. Um pássaro. As coisas que me rodeiam com seus segredos – mas as coisas, sabe-se lá, só existem porque as palavras dizem que existem. E os segredos das coisas, estão em mim – e não nas coisas.

Quando subo pela haste da manhã, encontro uma cidade de cristal. Trouxeste-ma tu, na dádiva do corpo.
E se conseguisse tocar-te com a respiração, ouvia-te dizer:
- É na desolação dos dias que o meu olhar segrega o mel com que te alimentas.

Penso no que te vou deixar: nomes de flores e de estrelas para refazeres os jardins e as constelações, e o peso etéreo da minha morte – para continuares a celebrar a vida.

Insónia. Noite fria, repleta de medos. Noite sem fim. Nada.
Levanto-me e abro a janela. Respiro fundo. Um fio de sol embate na garrafa de gin abandonada ao lado da cama.
Ponho os óculos, e o dia torna-se nítido, focado, limpo, e cheira a violetas...

Às vezes, tenho a impressão de ter perdido a exactidão dos gestos e das palavras.
Estive tempo a mais sozinho – reaprendo, com dificuldade, a ser cúmplice, amigo, amante.

Não me desagrada a ideia de viver num farol abandonado. Não me desagrada que a luz se apague. Não me desagrada pensar que posso perder a lucidez.
Por isso bebo.
Beber, ajuda a cicatrizar o olhar ferido da noite. Isola-nos do mundo, acende-nos os gestos, antes de no perdermos de bar em bar.

Amantes e embriagados. Destinados à chuva das ruas, às cidades que ardem junto ao mar, ao silêncio azul das manhãs.
- Aí vem o 28 dos Prazeres... e um táxi.
- Não me abandones, fica...
E o vinte e oito passa, e passa o táxi, enquanto olhamos “A Dança” de Matisse na capa dum livro.

Vamos pela manhã que se ergue, suja, enevoada – onde as palavras que digo se confundem com o teu sorriso. E os semáforos mudam de cor, inutilmente.
Rua da Rosa, Travessa da Espera, Calçada do Combro. Silêncio sobre silêncio. A vida suspensa no estremecer de um abraço.
- Até logo. Se te lembrares de mim, telefona.

Fecho, por fim, as pálpebras. O teu rosto sobrepõe-se à imagem do meu rosto. A tua mão esconde-se na imagem da minha mão. E no espelho já não há imagens, nem corpos, nem mar...

Logo à noite, outra vez o olhar, os corpos, a chuva, o sono, a fuga, a alma, o dia, os dias... o regresso. O telefone, e Lisboa a sussurrar no vento a tua ausência.

A vida é sacana. Sobretudo não é aquilo que nos disseram que era.
Por vezes, quando nos sentimos morrer vemos como é disparatado saber que tudo vai acabar. Precisamente quando tínhamos descoberto alguém com quem podíamos falar.
Passamos a vida numa espécie de silêncio, numa nudez terrível que se quebra, ainda que raramente, diante de certas coisas que nos contaram e nos deslumbraram.
Mas é tarde. As coisas que nos deslumbraram eram efémeras, breves. E não se pode voltar atrás.

Tenho um amigo que disse:
- Sabes, a verdade nunca acaba.
Mas o que será a verdade quando estivermos mortos?

Penso no lugar secreto do Caos e da Ordem que se erguem, subitamente, diante daquele que ama, e escreve.

Um dia disseste:
- A paixão serve para te mostrar os fogos da noite.
Acreditei no que me dizias, mas já não consigo dormir, só morrer. O teu sorriso colou-se-me à boca.
Passo os dias a espiar as paisagens diluídas na memória que tenho de ti. Atravesso continentes que se transformam em minúsculas dores, pequenos territórios que cabem no fundo duma algibeira, ou em meia-dúzia de palavras.

Lembro-me que numa viagem de comboio podemos encontrar gente cúmplice do silêncio – mas dificilmente um amigo de olhos cor-de-amêndoa que te diga:
- O teu olhar é belo.
Espantado, respondes:
- O meu olhar só é belo porque se deixou aprisionar pelo teu. Nesse lugar profundo onde nos cruzamos e o mundo faz sentido. E quando a distância nos separar, e Lisboa for apenas uma impressão vaga de mal-estar, uma parte de mim pertencer-te-á.

Mentir é necessário. É a melhor maneira de esconder o que há de doloroso na verdade.
Repara, através dos meus olhos descobrirás como é grande a tristeza do mundo. Apenas isso. E quando aqui não estiveres, espetarei todas as facas que encontrar nas paredes febris da noite.
Talvez sangre dos pulsos. Talvez te escreva. Talvez...

Olho atentamente as fissuras do tecto. Desloco-me através delas, alcanço a noite.
O teu rosto, de quando em quando, pousa na minha solidão.
Há vinte anos que a vida se apagou nas linhas da mão, e os jardins da cidade permaneceram, todo esse tempo, envoltos na bruma. O Tejo não deixou o tempo correr.
Mas um dia, talvez agora, abrirei as mãos nos escuro do quarto, e o teu rosto incendiar-se-á.
As mãos queimadas, memória da tua passagem.

Por isso te escrevo, com esta luz encostada à boca. E espalho a cinza destas palavras pelo escuro da noite.
Perder-te, levar-me-ia ao zumbido ensangüentado duma bala. A paixão, a nossa, foi construída com a lentidão das obras-primas. E nela não há equívocos, nem erros.
O teu rosto é perfeito e intenso – brilha, assim que o nomeio ou toco: sinal de vida, estremecer do mundo na melancolia das mãos.

Assim te raptei uma noite – com ansiedade e susto. E assim te mantenho vivo, e amo, dentro e fora do poema.
Hoje, tudo me parece novo e antigo, em simultâneo, como se já soubesse que havias de chegar e mudar-me a vida, o rumo dela, e depois partir.

Lá fora chove. Chove sem parar. E Lisboa parece encolher-se dentro do teu sono.

Al Berto, Lisboa, 1994

Fotos: Alexandre Matos

Veja também:

AL BERTO
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/02/al-berto.html

Um comentário:

C-ASA disse...

eu nunca tomei um café com al berto. talvez me tenha chegado fora de horas... penso que ele gostava de chegar fora de horas. no entanto, independentemente desse desfasamento temporal, al berto segurou inteira a frágil alma do meu poema... como dizer de outra forma?... habituei-me a habitar al berto e com elel "atravessar os dias".
Vejo-o nestas fotos e volto a ser mirone dos seus hábitos, das suas mãos, dos seus naufrágios.
porque era inteiro. um poeta inteiro. um poema inteiro.
obrigada pela partilha. estes "als", comovem.