quarta-feira, 27 de maio de 2009

LENDAS MEDIEVAIS

A Idade Média ficou marcada pela profunda guerra religiosa travada com os islâmicos pela Terra Santa, a Palestina, pelo obscurantismo científico e cultural, que deu passagem para um exacerbado ascetismo. Guerras santas, pestilências, cultura ascética, superstições, isolamento feudal, e vários outros fatores, fizeram da Idade Média uma época fértil para a criação de lendas. Milhares delas foram disseminadas nos reinos cristãos, tendo sempre uma moral religiosa que às vezes fugia dos costumes, criando mitos profanos e estranhos, que se confundiam com a própria veracidade histórica, como a possível estadia de uma mulher no trono de Pedro, fato até hoje obscuro, tido por alguns historiadores como lenda e por outros como um acontecimento real.
Neste artigo, três lendas medievais foram selecionadas, adaptadas e contadas, para que se perceba um pouco do universo cristão da época: “O Judeu Errante”, “A Papisa Joana” e “Lady Godiva”.
O Judeu Errante” é uma lenda que mostra o sentimento anti-semita latente na Europa medieval. Ela apaga por completo a origem judaica de Jesus Cristo, fazendo com que se acredite que já nasceu cristão e foi escarnecido e morto por judeus. Narra a lenda de Ahasverus ou Ahsuerus, um sapateiro habitante de Jerusalém, que ao ver Cristo passar no dia da sua crucificação, escarneceu-o e negou-lhe um pouco de água, ou conforme a versão, ajuda para que se levantasse do chão. Como castigo, foi amaldiçoado pelo martirizado a viver errante pelo mundo, velho e sem forças, sem nunca morrer, até o fim dos tempos. Ironicamente, a lenda castiga o algoz com a vida eterna, prêmio que todo bom cristão almeja. A figura do Judeu Errante tornou-se mítica através dos tempos. Na Alemanha nazista foi ressuscitado como parte do programa anti-semita, tendo na caricatura de David Shankbone o símbolo do mito como forma de propaganda contra os judeus.
A Papisa Joana” teria sido o papa João VIII, sendo a única a mulher a governar a igreja católica num período de dois a três anos. A lenda surgiu no fim do século IX, relatando que Joana teria ocupado o cargo entre os pontificados de Leão IV e de Bento III, que corresponde aos anos de 850 a 1100. Disfarçada de homem, Joana teria ascendido como papisa, até que uma gravidez inesperada fez com que desse à luz a uma criança nas ruas de Roma, na frente da população. Descoberta a farsa, a papisa e o filho teriam sido mortos pela revolta popular. Muitos historiadores divergem quanto à veracidade da história, tendo aqueles que aceitam Joana como uma personagem real, e outros como lenda, como uma difamação da igreja ortodoxa de Constantinopla contra a igreja de Roma, originada possivelmente de uma sátira. Nenhuma corrente teórica chegou a um acordo, e Joana, a papisa, continua um mistério, fazendo, inclusive, parte das cartas de Tarô, de romances literários e personagens do cinema.
Lady Godiva” é uma lenda inspirada em uma personagem real. Godiva foi esposa do Conde Leofric, que em 1043 fundou a ordem de São Bento, em Coventry. Godiva é a única mulher a ter o seu nome registrado em um livro da época como dona de terras. Viúva de Leofric, teria morrido em 10 de setembro de 1067. Sua lenda marca o ideal medieval, o ascetismo a vencer o luxo, o sacrifício do corpo e da moral em nome do bem dos cristãos. Ao caminhar nua em cima de um cavalo, a lenda de Lady Godiva mescla o pudor religioso da Idade Média com as lendas profanas dos gregos antigos, fazendo dela uma narrativa sublime.

O Judeu Errante

O tumulto levou as pessoas às ruas de Jerusalém. Jesus, filho de José, entrara triunfante na cidade, desafiara os comerciantes e os guardiões do templo, presidira a ceia com os seus apóstolos, transmitira a sua mensagem definitiva no Monte das Oliveiras, para cair, tragicamente nas mãos de soldados, sendo julgado, açoitado, humilhado e condenado a ser crucificado.
As festas da Páscoa em Jerusalém foram interrompidas para que se acompanhasse o martírio daquele que se dizia o Messias, que viera para elevar o seu povo, acabar com os sofrimentos dos judeus. Pelas ruas da cidade, o profeta caminhava humilhado, a levar a cruz nas costas, a mesma que serviria como suplício final. Caminhando enfraquecido, quando se deixava cair, era obrigado a levantar através dos açoites impiedosos dos soldados romanos.
Alheio ao tumulto da cerimônia que precedia à crucificação, Ahasverus trabalhava dentro da sua casa, a preparar o couro que usava para fazer os sapatos que vendia. Era um homem calado, frio e alheio aos dramas e às pessoas à volta. Sua barba espessa escondia as marcas que lhe ia esculpindo o tempo. Não havia Páscoa ou tradições que lhe arrebatasse do cheiro do couro curtido, trabalhado artesanalmente. Fechar um acerto de casamento com uma jovem estava longe de qualquer plano que fizera. A sua solidão latente era o prêmio maior que já adquirira. A sua arte com o couro a realização da alma.
À medida que o supliciado aproximava-se da rua onde Ahasverus morava, o tumulto tornava-se insuportável. Pessoas gritavam, algumas pediam a morte do suposto Messias, outras pediam misericórdia por sua vida. O sapateiro procurou ignorar o barulho. Continuou a recortar o couro curtido. De repente um estrondo bateu-lhe na porta, fazendo com que ela se abrisse. Parte de uma cruz entrou pela sala. Ahasverus viu um homem atormentado, caído na sua porta, com uma coroa de espinhos na cabeça, o rosto coberto de sangue e as costas em carne viva. Ahasverus irritou-se com aquela imagem. Sentiu-se profundamente incomodado, como se aquele homem ensangüentando, a descansar por um momento na sua porta, fizesse com que todos os males da sua alma se lhe fosse revelado. Tomou-se de cólera quando viu gotas de sangue a sujar a sua porta. Deixou os afazeres e aproximou-se do supliciado, que caído no chão, pediu-lhe ajuda para se erguer. Mas Ahasverus não se deixou comover, com o pé direito, empurrou o nazareno, vociferando com arroubo:
-Sai da minha porta! Anda, põe-te a andar! Vá logo!
Naquele momento Simão, o Cireneu, apiedando-se de Jesus, ofereceu-se para ajudá-lo a reerguer-se do chão com a cruz. Antes de continuar o caminho para o martírio, o nazareno olhou profundamente Ahasverus, falando-lhe mansamente:
-Eu vou, mas tu ficarás... Caminharás errante e sem descanso pelo mundo até a minha volta...
O olhar que Jesus, filho de José, lançou para o sapateiro, fez com que ele estremecesse a alma. Sentiu-se paralisado, a ver aquele homem caminhar para a morte, afastando-se da sua tenda, deixando-o com uma maldição eterna. Ainda no fim da tarde daquela sexta-feira, quando o céu escureceu e o nazareno morreu na cruz, Ahasverus viu a barba do seu rosto ficar branca, as mãos envelheceram, sem que tivessem mais habilidade para trabalhar o couro. Ahasverus perdera a juventude e a sua arte. A solidão passou a queimar-lhe o peito.
Lentamente Ahasverus viu o tempo passar, os seus contemporâneos sugados pela morte. Sua alma tornou-se inconstante, peregrina. Uma grande nuvem de poeira bateu-lhe na porta, arrebatando-o e levando-o para as estradas do mundo. Quanto mais envelhecia, mais se distanciava da morte. Ahasverus passou a percorrer cidades com ruas sem fim. Por onde passava, era conhecido como o Judeu Errante, o eterno estrangeiro, sem pátria, sem raízes.
Nas vilas, nas aldeias, nas terras mais distantes, o povo era surpreendido por um redemoinho de poeira, era o Judeu Errante que vinha dentro dele, numa peregrinação permanente, a carregar consigo a maldição por ter sido cruel com o nazareno. Todos, quando viam o redemoinho, fechavam as suas portas e janelas, até que passasse o amaldiçoado, evitando que o agouro entrasse pela casa. O Judeu Errante vaga no meio da poeira, atormentado e solitário, na esperança do dia em que Jesus, filho de José, retorne ao mundo e anuncie o fim da sua maldição e dos tempos.

A Papisa Joana

No princípio do século IX, os ingleses dirigiram-se às terras da Saxônia, conquistada pelos cristãos, para ali, propagarem a fé da igreja romana. No meio dos propagadores da fé estava um padre inglês, que levava consigo uma jovem de doze anos, grávida. Ele a raptara dos pais e para fugir à desonra do ato, seguira para as terras germânicas. A jovem deu à luz em Mayence, a uma menina que foi chamada de Gerberta.
A menina cresceu, tornando-se uma bela jovem. Aprendera com o pai os estudos seculares, enchendo-se de erudição, surpreendendo a todos os doutores com a sua sabedoria. Gerberta interessava-se pelas ciências, mesmo diante das limitações que se lhe impunham por ser mulher, jamais abandonou o aprendizado. Sua alma intelectual só deu uma trégua quando foi seduzida por um jovem frade da abadia de Fulde. A paixão arrebatou aos dois, fazendo com que se entregassem aos prazeres do amor. O frade, de família inglesa, convenceu a jovem que fugisse com ele. Para acompanhar o amante, Gerberta, que passou a ser chamada de Joana, despiu-se da sua identidade e das raízes, vestindo roupas de homem. Em Fulde, viveu com o amante sob o disfarce, enganando a todos.
Mais tarde, os amantes partiram para a Inglaterra. Apresentada como homem, Joana pôde aprofundar os seus estudos, tornando-se ao lado do amante, os maiores eruditos de toda a Grã-Bretanha.
Joana e o amante viajaram por diversos países, buscando a erudição suprema. Passaram pela França, pela Grécia. Por dez anos os amantes viveram a paixão de forma velada em terras gregas. Um dia, o companheiro de Joana foi vítima de uma doença súbita, que lhe consumiu a vida em poucas horas. Solitária e feita em homem, Joana deixou a Grécia, retirando-se para Roma.
Em Roma Joana foi admitida na academia da cidade para ensinar as sete artes liberais. Atraiu para si as honras de monges, padres, ricos senhores feudais e doutores, tamanha era a erudição que trazia. Quando o papa Leão IV caiu doente, Joana foi citada para que ocupasse o seu lugar. Assim, após a morte do papa, aclamada pelos cardeais, diáconos, clero e povo; disfarçada de homem, pela primeira vez uma mulher foi eleita como papa, sentando-se no trono de Pedro, usando o nome de João VIII.
Joana fez um pontificado que foi aplaudido e reverenciado por todas as terras cristãs. Mas a sua verdadeira essência não lhe permitiu viver a farsa por completo. Apaixonada por um oficial da Guarda Suíça, Joana fez dele um amante, revelando-lhe o seu segredo. Nos quartos frios do Vaticano, viveu o seu amor com intensidade, até que ficou grávida. Com as roupas largas que usava, não lhe foi difícil ocultar a gravidez dos olhos do povo e do clero.
Anualmente, os romanos celebravam a festa das Rogações. Era costume que o papa seguisse em frente a uma procissão solene, montado em um cavalo. Joana não fugiu à tradição, montou um cavalo ao sair da igreja de São Pedro. Quando deixou a basílica, a papisa estava revestida com ornamentos pontificais, mostrando a exuberância de toda a pompa da igreja. Dirigia-se à basílica de São João de Latrão acompanhada de um séquito, dos clérigos, nobres e do povo de Roma. Quando caminhava entre a basílica de São Clemente e o anfiteatro Domiciano, o Coliseu; foi arrebatada por fortes dores de parto, tão violentas que fizeram com que caísse do cavalo. Assustado, o povo não se apercebia o que estava acontecendo com o pontífice, que se contorcia no chão. No meio das dores, Joana rasgou os ornamentos e vestes sagradas, expelindo das entranhas, para espanto geral, uma criança.
Humilhada, desmascarada e vencida, Joana sangrava incessantemente, devido à queda do cavalo e ao parto difícil. Tomados pela vergonha e pela cólera, membros do clero cercavam o corpo da papisa para escondê-la da fúria do povo. Diante do choro da criança, um bispo ergueu as mãos para o céu e disse:
-Milagre! Milagre!
Mas o ardil foi em vão. Joana morreu sem que se lhe fosse prestado socorro. Deu um último suspiro e, ainda a sentir-se vitoriosa, partiu para o mundo dos mortos. A criança recém nascida foi sufocada pelos padres. Mãe e filho foram enterrados sem pompas no mesmo túmulo.
Para que não se cometesse o mesmo engano, os sucessores de Joana passaram a ser submetidos à prova da cadeira furada. Após a eleição, momentos antes de ser conduzido ao palácio de Latrão para a tomada de posse, o papa eleito assentava-se em uma cadeira furada no centro, que ficava na capela de São Silvestre, com as pernas separadas, o corpo meio estendido, com os hábitos pontífices abertos, confirmando aos assistentes a prova da sua virilidade. Após ser tocado na genitália por dois diáconos, ouvia-se o grito de um deles:
-Temos um papa!
Joana, a papisa, foi a única mulher da história a presidir a igreja de Roma por quase três anos. A maternidade pôs fim ao seu pontificado!

Lady Godiva

Em Coventry vivia-se um tempo difícil. O sol não aquecera os pomares, fazendo com que as azeitonas e as vinhas não produzissem o suficiente para que se fizesse com fartura o azeite e o vinho. A miséria do povo era tão latente quanto à modéstia de jóias que as mulheres da nobreza traziam sobre o corpo, ou as vestes modestas que faziam dos seus habitantes os menos abastados de toda a Inglaterra.
Como se não bastasse a penúria vivida, a insatisfação assolava os habitantes, cada vez mais empobrecidos pelos altos impostos cobrados pelo conde Leofric, senhor absoluto daquele feudo. Grande parte do alimento colhido naquela estação ingrata, saía da boca do povo para que se pagasse os impostos ao nobre senhor. A fome pairava afoita pelas casas, pelos campos, por Coventry.
O conde Leofric era casado com uma das mulheres mais belas de toda a Inglaterra. Lady Godiva era serena, cabelos sedosos, longos e dourados como os raios do sol. Seus olhos eram azuis como o mar, traziam uma expressão de infinito que seduzia ao marido e todos os súditos em volta. Lady Godiva era de uma bondade imensa. Servos e escravos eram tratados por ela com dignidade. Não se furtava da caridade e de ajudar aos desvalidos e desprovidos da grandiosidade da vida e da sua opulência secular.
Um dia, os servos trouxeram diante do conde um camponês que fora apanhado a roubar nabos da horta de Leofric. Levado diante do conde, o infeliz declarou que cometera aquela imprudência extrema por não ter nada para comer, que os últimos grãos que colhera foram usados para pagar os impostos devidos. Que os cinco filhos pequenos choravam de fome, atormentando-o toda a noite. Ao ouvir os relatos do infeliz, Lady Godiva comoveu-se, convenceu o marido a não punir o infeliz, fornecendo ainda, alimentos para os seus filhos. Mesmo irritado, o conde acedeu com a bondade infinita da mulher.
Depois dos acontecimentos, Lady Godiva andou por todos os cantos de Coventry. Montou em seu cavalo, atravessou as muralhas, rondando por toda a parte. Descobriu que a fome assolava o lugar. Que grande parte dos alimentos colhidos iriam para os impostos do conde. Compadecida com o sofrimento daquele povo, Lady Godiva prometeu a si mesma intervir e a ajudá-lo.
Quando retornou ao castelo, encontrou o marido no estábulo, a supervisionar a alimentação das bestas. Lady Godiva desceu do seu cavalo. A respiração arfava de cansaço. Mesmo assim, encontrou forças para contar ao marido da tristeza e miséria que se abatia sobre Coventry. Falou com tanta ênfase que as lágrimas afloraram-lhe os olhos, derramando-se sobre as faces. O conde ouviu a mulher, que lhe implorava para que abaixasse os impostos. Não se deixou comover, mas as lágrimas da esposa, a sua veemência em defender os oprimidos, fizeram com que Leofric tentasse um ardil. Usando da sua inteligência sarcástica, ele esboçou um sorriso irônico e disse à mulher:
-Muito bem, já que insistes tanto na defesa deste povo, comovendo-me com as lágrimas que destroem a cor do céu dos teus olhos, concedo-te o pedido. Mas para que se realize, imponho-te uma condição, que a próxima vez que fores cavalgar, tu o faças sem roupas, completamente nua pelas ruas de Coventry.
-Tenho a tua palavra de que se o fizer, irás cumprir a promessa?
-Minha amada, se cavalgares nua pelas ruas de Coventry, não só abaixarei os impostos, como perdoarei a dívida aos mais necessitados.
-Que assim seja feito.
Leofric sorriu para a mulher. A promessa fora-lhe fácil fazer, difícil seria Lady Godiva cumprir a condição que impusera. Estava confiante de que ela desistiria e, ao sentir-se culpada, deixar-lhe-ia em paz com aquelas lamúrias.
Mas Lady Godiva trazia no coração uma bondade maior do que qualquer moral estabelecida pela mesquinhez dos homens. Lady Godiva mandou que os seus servos avisassem ao povo do seu sacrifício para salvá-los dos impostos e da fome. Pediu que durante a sua cavalgada penitente, todos os moradores deixassem as ruas e que se fechassem em suas casas. Comovido com a grandiosidade de Godiva, o povo de Coventry aceitou atender-lhe o pedido.
Assim, Lady Godiva desafiou a ironia e mesquinhez do marido. Despiu as vestes no estábulo, montou, completamente nua, o seu belo cavalo. Cavalgou por todas as ruas de Coventry de cabeça erguida, sem que ninguém ousasse observá-la. Somente Jack, o moleiro, não resistiu de contemplar tamanha beleza edênica. Contrariando a todos os moradores, abriu uma fresta da janela da sua casa, ao olhar tamanha beleza nua a desfilar pelas ruas, viu uma grande luz sobre os seus olhos, que foram cegados para sempre.
Ao retornar da cavalgada, Lady Godiva encontrou o conde à espera. Comovido, ele vestiu as roupas à mulher, depois se ajoelhou aos seus pés, reafirmando a palavra dada. Levantou-se e beijou a mulher.Leofric retirou os impostos altos dos ombros do seu povo. Naquele ano as colheitas foram abundantes em Coventry. O azeite jorrou nos lagares, o trigo transformou-se em pães quentes sobre as mesas, e o vinho abençoou as refeições. Lady Godiva passou a ser amada pelo seu povo, até mesmo por Jack, o moleiro, que depois da luz da nudez da mulher sobre o cavalo, não viu mais nada na vida.

Adaptação Livre de: Jeocaz Lee-Meddi

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