sexta-feira, 15 de maio de 2009

CASABLANCA - MICHAEL CURTIZ

Casablanca” (Casablanca, Estados Unidos, 1942) é um daqueles filmes que foi gerado em cima de grandes coincidências felizes, tornando-se um dos melhores de todos os tempos. Desenhado em cima de um caos absoluto, o roteiro foi escrito em plena locação, na noite anterior em que as cenas seriam gravadas, confundindo os atores, que não sabiam o resultado final daquela confusão da história que se contava; ainda assim “Casablanca” teria um resultado surpreendente, que conquistaria as platéias do mundo inteiro, tornando-se obrigatório aos apaixonados ou não pelo cinema.
Ladeado de histórias e lendas, “Casablanca” foi gravado em plena Segunda Guerra Mundial, em um momento que os Estados Unidos acabara de entrar na guerra e os nazistas pareciam que iria vencê-la. A sua propaganda de guerra é discreta, mas sugere uma esperança tenaz diante daqueles tempos obscuros, onde o homem é sobrevivente graças às alianças que faz, mas em um mundo que tem o domínio repressivo sobre a liberdade e a vida como prêmios, há sempre um patriotismo velado, que emerge quando o caráter é confrontado.
O amor é o principal veículo para que se descubra o caráter. Ele vem com a sombra da guerra como pano de fundo. É resultado dela. Nunca um casal mostrou-se tão belo, apaixonante e carismático na grande tela, como em “Casablanca”. Ingrid Bergman, no esplendor da sua juventude e beleza, revelou-se com um olhar quente, que suga o espectador na emoção daquele amor movido pela guerra. Humphrey Bogart assume um cinismo inteligente, de uma falsa frieza, que vai dilatando-se diante da beleza e da paixão que sente pela personagem da atriz sueca. A química entre ambos é total, levando a platéia às lágrimas quando um Bogart apaixonado abre mão do seu amor para que ela siga ao lado do marido, dizendo “Nós sempre teremos Paris”. O homem frio torna-se o próprio vulcão da grandeza da alma, abrindo mão do seu único contacto com os sentimentos e com o amor, para que a amada alcance um bem maior, muito além da felicidade imaginada a dois.
Casablanca” tem um roteiro que prende o espectador, tem mistério, amor e guerra como ingredientes básicos. Mas tem, principalmente, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. São os dois que conduzem as emoções e as lágrimas da platéia. A beleza daquele casal, emotiva e física, jamais seria repetida no cinema. A cidade marroquina, o Rick’s Cafe, o pianista Sam, a música “As Time Goes By”, os nazistas, a resistência, a guerra, tudo flui para alçar o esplendor de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, que conquistarão para sempre aqueles que os viram juntos. “Casablanca” é o lugar onde Ingrid Bergman e Humphrey Bogart um dia se encontraram e se perderam. É o espetáculo vivo da verdadeira acepção do que é o cinema. “Casablanca” é cinema puro!

O Caos dos Bastidores

Em 2000 “Casablanca” foi eleito o segundo melhor filme da história do cinema pelo conceituado American Film Institut, perdendo apenas para “Cidadão Kane”. Ao contrário do primeiro lugar, feito por um dos mais geniais cineastas, Orson Welles, “Casablanca” foi concebido como mais um filme dentre os inúmeros que a Warner Bros lançava à época. Feito em estúdio, sem maiores ambições artísticas; e, dirigido por Michael Curtiz, um diretor de origem húngara, especialista em sucessos de aventuras, dono de uma filmografia mediana, sem grandes genialidades. Contrariando todas as expectativas, “Casablanca” tornou-se um clássico do cinema, transformando-se em um dos maiores triunfos de Hollywood.
As filmagens de “Casablanca” são cercadas de estranhas histórias de bastidores, muitas se confundem com a verdade e a mitificação do clássico, gerando uma sucessão de grandes coincidências favoráveis que o transformaram em um dos maiores (se não o maior) romances já levados às telas em toda a história do cinema. Lendas ou verdades, fazem dos bastidores das gravações do filme, uma grandiosidade à parte, que não consegue explicar como, em meio ao caos, surgiu uma história tão sublime.
O primeiro cineasta convidado para dirigir o drama, William Wyler, na época no auge do seu prestígio, declinou ao convite. A bela Hedy Lamarr foi escalada para o papel Ilsa Lund, mas recusou diante das condições oferecidas pelo estúdio, que não tinha um roteiro escrito. Também George Raft declinou ao convite de fazer Richard Blaine. Reza a lenda que o êxito do filme “King’s Row” (1941), de Sam Wood, protagonizado por Ronald Reagan e Ann Sheridan, levou aos empresários da Warner Bros a pensar no casal de atores como protagonistas, tendo Dennis Morgan no papel do herói da resistência tcheca, Victor Laszlo.
Elenco e direção só foram definidos quando a Warner Bros pensou em Michael Curtiz como diretor. Curtiz, um exilado do leste europeu, vinha de grandes sucessos realizados para aquele estúdio, como “Capitão Blood” (1935), “Anjos da Cara Suja” (1938), “Quatro Filhas” (1938), “As Aventuras de Robin Hood” (1938) e “O Lobo do Mar” (1941). Era um realizador mediano, especialista em grandes aventuras que deram o estrelato ao ator Errol Flynn.
Definida a direção, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman foram escalados para protagonistas do filme, transformando-se no mais apaixonado e apaixonante casal do cinema. Paul Henreid relutou em aceitar o papel de Victor Laszlo, temendo comprometer a imagem por considerá-lo um papel pequeno, mas venceu os medos e assumiu um dos melhores papéis da sua carreira.
Os irmãos Julius e Philip Epstein foram chamados para adaptarem livremente, a peça “Everybody Goes to Rick”, de Murray Burnett e Joan Alison. Curiosamente, escreviam os diálogos nos bastidores das filmagens, entregando, durante a noite, as falas que seriam ditas pelos atores no dia seguinte. Segundo boatos de bastidores, a situação aflorava a irritação de Humphrey Bogart, que não sabia o caminho que a sua personagem seguiria no outro dia, o que lhe conferiu o azedume perene na interpretação de Rick Blaine. Mas o estilo mordaz usado pela dupla de roteiristas não agradava aos produtores, que chamaram Howard Koch para escrever o longo flash back que rasga o meio do filme, revivendo os dias felizes de Rick Blaine e Ilsa em Paris. O roteirista redigiu esta parte da trama sem nunca ter lido o que os irmãos Epstein estavam escrevendo, o mesmo acontecendo com os dois irmãos em relação a Koch. Esta intervenção aumentou ainda mais a confusão entre os atores, que se perderam da história, sem saber que rumo tomava o que estavam a filmar.
Mesmo diante do caos das gravações, o filme adquiriu um enredo intocável, de inexplicável coerência criativa. Somando os dois roteiros – dos irmãos Epstein e de Howard Koch – surgiu uma narrativa impressionantemente fluída, quase beirando à perfeição, dando origem ao maior de todos os romances do cinema.

O Reencontro de Rick e Ilsa

Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade de Casablanca, no norte da África, torna-se, diante de uma França ocupada pelos nazistas, um lugar de espionagem e de esperança para os refugiados da guerra, fugitivos do Terceiro Reich, que dali, sonhavam em conseguir documentos para que pudessem assim, chegar a Lisboa, último lugar da Europa longe dos tentáculos de Hitler. De Lisboa, um navio era a última esperança de fuga para a América, longe da guerra.
É nesta atmosfera que se inicia o filme. O americano Rick Blaine (Humphrey Bogart), um homem amargo e cínico, é proprietário do maior bar de Casablanca, o Rick’s Cafe. Rick é um sobrevivente do mundo. Não se envolve ou se deixa comover pelos conflitos gerados pela guerra. Tem uma relação difícil e polida com o chefe de polícia local, o capitão Louis Renault (Claude Rains). Rick deixa que o seu café seja usado para ajudar fugitivos a obterem salva-condutos para Lisboa, fazendo-o não por questões humanitárias, mas mediante lucros com os frequentadores do seu bar.
Rick é um homem que não acredita em amizade verdadeira, não fala no amor e na paixão, parecendo inatingível aos sentimentos, seu cinismo demarca a troça que faz de todos que lhe ladeiam. Homem frio, jamais bebe no trabalho. Mesmo diante do cinismo latente, a personagem traz os mais inteligentes diálogos já escritos para o cinema. Um exemplo é o diálogo travado entre Rick e Ugarte (Peter Lorre), um grande trapaceiro da região:
-Você me despreza, não? – Pergunta-lhe Ugarte.
-Desprezaria, se pensasse em você. – Responde Rick.
A frase define o caráter cínico, amargo e com um travo de melancolia de Rick Blaine. O motivo de toda a amargura do americano só surge cerca de trinta minutos após o início do filme. Nesses primeiros minutos, várias histórias são cruzadas, esmiuçando o clima que se ergue em Casablanca. Trinta minutos depois, Ilsa Lund (Ingrid Bergman), entra no bar, e o pianista negro Sam (Dooley Wilson) pára de tocar. Ela reconhece o pianista. Nunca o olhar de Ingrid Bergman foi tão penetrante, de uma cumplicidade quente e singela, desarmado ao mundo, tão úmido e brilhante, quando ela pede, pela primeira vez, para ele tocar “As Time Goes By”. Ao ouvir a música, Rick irrita-se, é uma canção por ele proibida. O seu asco sucumbe diante do sinal secreto de Sam, que lhe mostra Ilsa. A platéia vê tudo no olhar de Rick e de Ilsa, que iniciam um reencontro que emocionaria e levaria milhões de pessoas em todo mundo às lágrimas. Tudo se nos é revelado nos olhares de Rick e Ilsa, sem sabermos nada, sem cruzarmos uma única palavra. A cena e os atores revelam um amor penetrante e infinito.

A Canção Imortalizada, Que Foi Utilizada no Filme por Erro

O reencontro de Rick e Ilsa aparentemente casual, vem tecido de uma longa intriga política e de bastidores de guerra. Antes de rever Ilsa, Rick foi avisado pelo capitão Renault de que o major Heinrich Strasser (Conrad Veidt), membro da Gestapo, viria ao bar como um importante convidado, na tentativa de prender Ugarte, considerado responsável pela morte de dois alemães e por vender salva-condutos para fugitivos de guerra, além de fiscalizar a iminente chegada de um certo Victor Laszlo (Paul Henreid), líder da resistência tcheca que fugira de um campo de concentração. O oficial nazista apostava que Victor Laszlo viria ao café, acompanhado da esposa, na tentativa de comprar de Ugarte um visto de saída de Casablanca. Durante à tarde, Ugarte é preso pelos nazistas e executado logo a seguir. Antes da prisão, Ugarte deixa os salva-condutos aos cuidados de Rick.
É desta intriga política que Ilsa ressurge do passado de Rick. Ela tinha sido no passado, o grande amor da vida do dono do bar. Viveram um romance em Paris, tórrido e inesquecível, que marcara para sempre as suas vidas. Mas veio a guerra, os alemães marcharam sobre Paris, levando embora os encantos, a beleza e a liberdade da cidade. Diante da invasão nazista, Rick fora obrigado a deixar Paris, pensando em levar Ilsa consigo. Mas ela não o acompanhou, deixando-o seguir sozinho. Abandonado, sentindo-se rejeitado, Rick Blaine seguiu para Casablanca, tornando-se um homem frio e amargurado, vivendo das lembranças do amor de Ilsa, transbordado em um cinismo latente, defensivo e aparentemente definitivo.
Quando Ilsa foi ao bar de Rick, não imaginava que ele era o mesmo Richard de Paris. Ela era a esposa de Victor Laszlo. Vinha em busca da preciosa carta de permissão para que deixasse, ao lado do marido, Casablanca, rumo a Lisboa. Ao deparar-se com Sam, ela reconhece-o, não resiste e pede para que toque a velha canção de amor de outros tempos. Ao ouvir a música, antes de ver Ilsa, Humphrey Bogart empresta à personagem o olhar mais frio, cerrado e seco que se tem notícia, numa existência que transborda a mais tenaz das amarguras. É ao som de uma das mais banais e famosas canções de um certo Herman Hupfeld, “As Time Goes By”, que toda a glória do filme é revelada à platéia, estabelecendo-se todo o conflito que se sucedeu entre os dois anos do imenso amor de Paris e o reencontro em Casablanca. Um flash back fluente revive todo o amor e os fantasmas de Rick e Ilsa, perdidos para sempre nas ruas de Paris.
Curiosamente, “As Time Goes By”, que se tornou uma canção lendária com “Casablanca”, não foi composta para o filme. Diante do caos das gravações, quando Ingrid Bergman fez a cena, a trilha sonora de Max Steiner para o filme ainda não estava pronta. A atriz, que gostava da música, teve que improvisar. Steiner achava “As Time Goes By”, que tinha sido lançada sem sucesso anos antes, banal e sem impacto, de um valor musical menor. Só na montagem do filme é que Michael Curtiz e Max Steiner perceberam que a atriz tinha dito o nome da canção. Sob exigência de Steiner, Curtiz pediu que Ingrid Bergman voltasse às gravações para refazer os diálogos com Dooley Wilson. A atriz retornou aos estúdios, mas havia cortado os cabelos para fazer a personagem de um outro filme, e a cena não pôde ser refeita. Mais uma coincidência de um erro que deu certo e fez de “As Time Goes By” uma canção imortalizada, sem que se consiga imaginar “Casablanca” sem os seus versos e melodia, aqui a dar uma magia única ao romance temporariamente recuperado de Ilsa e Rick.

O Amor Reascende em Casablanca

Antes do reencontro com Ilsa, Rick tinha recebido no seu bar o poderoso major Strasser. O chefe da gestapo confidenciara ao dono do estabelecimento que o seu principal objetivo em Casablanca era prender líderes e membros da resistência, principalmente o fugitivo Victor Laszlo. Rick mantém-se impassível, neutro, para ele pouco importava os nazistas ou os heróis da resistência. Era apenas um sobrevivente, um homem de negócios.
Ao saber que Ilsa Lund é a mulher de Victor Laszlo, Rick Blaine tem consciência dos perigos que o rival corre em Casablanca, sendo a sua prisão e possível fuzilamento uma questão de tempo. O Reencontro dos antigos amantes é marcado pelo ressentimento, pelo ódio da traição e cicatrizes da separação. Mas Ilsa sabe que com a prisão de Ugarte, só Rick Blaine pode ajudá-la. Pede a ajuda do antigo amante, não para si, mas para o marido, que não viverá muito tempo se continuar em território marroquino.
No meio da explosão entre jogos de culpas e cicatrizes, uma Ingrid Bergman sensível, com lágrimas nos olhos a evidenciar-lhe a culpa e o abandono do grande amor, deixa sem fôlego não só um frio e seco Humphrey Bogart, como toda a platéia. Aos prantos, ela reafirma o seu amor por Rick, que nunca o esquecera. Confessa porque o tinha abandonado em Paris. Quando vivera um romance com Rick, ela era casada com Laszlo, que estava preso em um campo de concentração nazista, one ela o julgara morto. Soube que o marido estava vivo no dia que iria deixar Paris ao lado de Rick, por isto não podia sair da Europa e seguir o amado pelo mundo. Se o fizesse, jamais teria paz com a sua consciência.
Tudo que Ilsa quer é salvar o marido. Fazendo-o, ela libertar-se-ia do peso da culpa, podendo seguir Rick para qualquer parte do mundo. Ambos reacendem a paixão. Beijam-se, mostrando-se apaixonados e decididos, vão ficar juntos, após a fuga de Victor Laszlo.

A Marselhesa Vence o Hino Nazista

Mas o mundo vai além da paixão entre Rick e Ilsa. Uma guerra sangrenta é travada nos campos de batalha e nos bastidores políticos. O destino de ambos está seriamente entrelaçado com a guerra e com os seus envolvidos. Victor Laszlo e a mulher são levados ao escritório do capitão Renault, onde são ameaçados pelo major Strasser, que os intimida, na tentativa de que entreguem os nomes de todos os líderes da resistência, só assim sairão com vida de Casablanca. Mas Victor Laszlo responde às ameaças com a sua natural devoção aos ideais de liberdade:
-Se não delatei meus companheiros quando me encontrava preso em um campo de concentração, onde vocês usavam métodos mais persuasivos, não será aqui que vou fazê-lo.
O caráter ideológico e político do filme são desenhados pela luta tenaz de Victor Laszlo. Um dos momentos míticos e criativos de “Casablanca” acontece quando Laszlo interrompe um diálogo intrínseco com Rick, ao ouvir que o oficial nazista encarregado de prendê-lo cantava o introspectivo e sombrio “Die Wacht am Rheim”; e incita os freqüentadores do bar a cantar o hino da França. A beleza romântica e explosiva da “Marselhesa” interrompe o ritmo marcial do hino nazista, trazendo uma emocionante seqüência que culmina com o triunfo do patriotismo sobre a traição, do desafio sobre o silêncio, e da coragem exaltada sobre o medo disseminado. A partir de então não se pode mais ter personagens neutros, há uma guerra sendo travada, não se pode ignorá-la, e as imagens da cena devoram os diálogos, não há palavras, mas a redenção para todas as opressões políticas e sentimentais. O silêncio dos diálogos evidencia a força do hino, que naquele ano de 1942, era um grito quase que arrancado das entranhas. Se nos campos de guerra o terror nazista parecia vencer a resistência, neste momento apoteótico do filme, há uma breve vitória dos oprimidos, refletida no esplendor do hino da França.

Despedida em Casablanca

Nas seqüências finais do filme, Rick Blane decide fugir com Ilsa para Lisboa. Irá usar os salva-condutos de Ugarte, que os possibilitarão deixar Casablanca. Negocia a venda do Rick’s Cafe, e envolve o capitão Renault em uma tramóia de fuga que, aparentemente, prepara uma armadilha para Victor Laszlo.
Ilsa, Rick e Laszlo estão prontos para seguirem para o aeroporto de Casablanca. Ela pensa que só o marido seguirá viagem, e que ao vê-lo a caminho da liberdade, poderá finalmente viver o seu amor com Rick. O que ela não sabe é que Rick só possui duas cartas de trânsito. Um suspense final leva o filme a um novo ápice. O que acontecerá a Laszlo? Quem partirá de Casablanca?
Quando Rick dá as cartas de trânsito para Laszlo preencher, o capitão Renault surge com a ordem de prisão. Ilsa põe-se ao lado do marido, disposta a morrer por ele. Rick percebe que o destino da amada estava ligado para sempre ao de Laszlo, e que os dois devem partir juntos. Inesperadamente, Rick aponta uma arma disfarçada para Renault, impedindo que o líder da resistência fosse preso, forçando o capitão a telefonar para o aeroporto e avisar que dois passageiros irão embarcar para Lisboa. Mas o esperto capitão Renault telefona para o chefe da Gestapo, major Strasser, avisando-o da fuga.
A tensão aumenta. No hangar do aeroporto, um avião está preparado para partir em dez minutos. Rick, Ilsa, Laszlo e Renault chegam ao local de embarque em um carro do governo. Rick ordena que Renault preencha as duas cartas de trânsito em nome do Senhor e da Senhora Victor Laszlo. Só então Ilsa apercebe-se da armadilha do destino. Atônita, ela insiste para que os dois continuem juntos, que não se separem outra vez. Mas um Rick magnânimo sabe que a luta de Victor Laszlo é maior do que a sua paixão por Ilsa. Que o mundo em guerra, precisava muito mais da ideologia dos heróis salvadores do que do amor incondicional dos amantes. A razão dentro daquele mundo de guerra exigia e explicava o sublime sacrifício do amor dos amantes de Paris.
Para Rick, haveria as lembranças de uma felicidade efêmera. “Sempre teremos Paris”, justifica-o à amada. Abre-se a imensidão do adeus que fará chorar o mais frio do espectador. Ambos sabem que terão Paris apenas na memória, jamais uma outra vez. Terão Casablanca apenas na persistência das lembranças do amor perdido. O adeus seria definitivo. Jamais se voltariam a tocar, nunca mais se iriam beijar. Paris e Casablanca permaneceriam por todo o tempo, quando tinham a certeza de que “as time goes by”. Ao lado do marido, Ilsa aceita o sacrifício do amado, partindo, lançando-lhe um último olhar de adeus. Quanto mais se distanciava do amado, aproximando-se do avião, uma lágrima inundava-lhe a beleza instransponível e solitária do rosto. Casablanca fica deserta. Jamais iríamos ver Ilsa-Bergman e Rick-Bogart juntos outra vez.
Rick fica sozinho, com a ameaça do capitão Renault, que lhe garante, irá prendê-lo tão logo o avião parta. Rick Blaine não se importa. Fizera o maior sacrifício da sua vida. Era um novo homem. Ou talvez o antigo, o revolucionário da juventude. A frieza cortante dava passagem para um homem idealista e de ambições humanas mais perenes.
Em um último fôlego, surge o major Strasser, ameaçando telefonar ao hangar para que o avião seja interceptado. Mas Rick saca da arma, ordena-lhe que desista. O chefe nazista consegue sacar de uma arma, ao tentar atirar em Rick, é atingido mortalmente por ele. Há um breve momento de silêncio e tensão. No horizonte, o avião que leva Ilsa e Laszlo distancia-se, rumo a Lisboa.
Imprevisivelmente, o capitão Renault desiste de prender Rick, diz que não há testemunhas, sugere que Rick desaparecera de Casablanca por alguns tempos. O capitão deixa o patriotismo vencer à traição, tão comum na sua França ocupada. Rick e Renault caminham debaixo de um intenso nevoeiro, enquanto o avião desaparece no horizonte.
Encerra-se um dos filmes que, omitindo o caos dos bastidores, tornou-se quase que perfeito. Nos desacertos, foram gerados momentos antológicos do cinema. Nos acertos, reuniu um elenco esplendoroso, com as indicações de Humphrey Bogart e Claude Rains para o Oscar de melhores atores, principal e coadjuvante respectivamente. Triunfante, receberia três Oscars, o de melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro. Foi um dos filmes que mais atingiu o coração da platéia que o veio assistir, tornando-se um gigante definitivo cinema mundial.

Ficha Técnica:

Casablanca

Direção: Michael Curtiz
Ano: 1942
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Duração: 103 minutos / preto e branco
Título Original: Casablanca
Roteiro: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e Howard Koch, baseado na peça “Everybody Comes to Rick’s” de Murray Burnett e Joan Alison
Direção de Diálogos: Hugh MacHullan
Produção: Hal B. Wallis
Produção Executiva: Jack L. Warner
Música: Max Steiner, M. K. Jerome, Jack Scholl e Herman Hupfeld (As Time Goes By)
Arranjos de Orquestra: Hugo Friedhofer
Direção Musical: Leo F. Forbstein
Direção de Fotografia: Arthur Edeson
Direção de Arte: Carl Jules Weyl
Decoração de Set: George James Hopkins
Figurino: Orry-Kelly
Maquiagem: Perc Westmore
Edição: Owen Marks
Efeitos Especiais: Lawrence Butller e Willard Van Enger
Montagem: Don Siegel e James Leicester
Som: Francis J. Scheid
Consultor Técnico: Robert Aisner
Estúdio: Warner Bros.
Distribuição: Warner Bros. / Metro-Goldwyn-Mayer
Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre, S. Z. Sakall, Madeleine LeBeau, Dooley Wilson, Joy Page, John Qualen, Leonid Kinskey, Curt Bois
Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, Casablanca, cidade do Marrocos, então protetorado francês, torna-se rota obrigatória de quem estava a fugir das atrocidades dos nazistas. Será em Casablanca que Rick Blane (Humphrey Bogart), dono do maior bar local, irá reencontrar Ilsa Lund (Ingrid Bergman), anos depois de terem se apaixonado e se perdido em Paris. Nos meandros da guerra, uma história comovente de paixão e sacrifício desenha uma trama empolgante e definitiva. Inesquecível.

Michael Curtiz

Mihály Kertész ficou conhecido no mundo pelo seu nome americanizado, Michael Curtiz. Nasceu em Budapeste, no Império Austro-Húngaro (hoje Hungria), em 24 de dezembro de 1886. Oriundo de uma família judaica, tinha o nome de Manó Kertész Kaminer, substituído pelo pseudônimo de Mihály Kertész quando iniciou a carreira de ator e diretor no Teatro Nacional Húngaro, em 1912.
Segundo o próprio Michael Curtiz, teria fugido da casa dos pais para que se pudesse juntar ao circo. Também costumava gabar-se de ter feito parte da seleção de esgrima nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. De concreto, sabe-se que estudou na Universidade de Markoszy e na Academia Real de Teatro e Arte.
Em 1913, Michael Curtiz seguiu para a Dinamarca, onde passou seis meses no estúdio Nordisk, a aperfeiçoar-se como diretor de cinema. A carreira foi interrompida por algum tempo quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, obrigando-o a fazer parte da artilharia do exército Austro-Húngaro. Retornaria à direção dos filmes em 1915. Por esta época casou-se com a atriz Lucy Doraine, com quem viveu até 1923.
Por conta da nacionalização da indústria cinematográfica do seu país, Curtiz deixou a Hungria em 1919, fixando-se em Viena, onde fez cerca de 21 filmes para o estúdio Sascha-Film. Em 1924 teve o filme “Die Sklavenkönigin”, lançado nos Estados Unidos com o título de “Moon of Israel” (Lua de Israel), atraindo a atenção de Jack Warner, que o contratou para o seu estúdio, a Warner Bros. Assim, em 1928, Curtiz realizou para aquele estúdio “Noah’s Ark” (Arca de Noé).
Nos Estados Unidos, adotou o nome de Michael Curtiz, iniciando uma carreira de grandes sucessos em Hollywood. Por cerca de trinta anos, teve o nome nos créditos de mais de cem filmes. Durante a Segunda Guerra Mundial, Curtiz teve parte da família enviada para o campo de concentração de Auschwitz. Nesta época realizou grandes sucessos como “O Lobo do Mar” (1941), o mítico “Casablanca” (1942) e “Alma em Suplício” (1945).
Michael Curtiz recebeu quatro indicações da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para Oscar de melhor diretor: “Anjos da Cara Suja” (1938), “Quatro Filhas” (1939), “A Canção da Vitória” (1943) e “Casablanca”, que lhe deu a estatueta em 1944.
A relação de Curtiz com os estúdios de Hollywood deteriorou-se com o passar dos anos, terminando em uma grande batalha nos tribunais. A partir de 1953, continuou a dirigir como independente. Seu último filme foi “Os Comancheros” (1961), com John Wayne, lançado menos de um ano antes da sua morte. Michael Curtiz morreu vítima de um câncer em 10 de abril de 1962, em Hollywood.

Filmografia de Michael Curtiz:

1912 – Ma És Holnap
1912 – Az Utolsó Bohém
1913 – Rablélek
1913 – Házasodik Az Uram
1914 – Bánk Bán
1914 – Az Éjszaka Rabjai
1914 – Az Aranyásó
1914 – A Tolonc
1914 – A Kölcsönkért Csecsemök
1914 – A Hercegnö Pongyolaban
1915 – Akit Ketten Szeretnek
1916 – Makkhetes
1916 – Farkas
1916 – Doktor Úr
1916 – Az Ezüst Kecske
1916 – A Magyar Föld Ereje
1916 – A Karthausi
1916 – A Fekete Szivárvány
1917 – Zoárd Mester
1917 – Tavasz a Télben
1917 – Tatárjárás
1917 – Halálcsengö
1917 – Egy Krajcár Története
1917 – Az Utolsó Hajnal
1917 – Az Ezredes
1917 – A Vörös Sámson
1917 – A Szentjóbi Erdö Titka
1917 – A Senki Fia
1917 – Árendás Zsidó
1917 – A Kuruzsló
1917 – A Föld Embere
1917 – A Béke Útja
1918 – Varázskeringö
1918 – Lulu
1918 – Lu, A Kokott
1918 – Júdas
1918 – Az Ördög
1918 – A Vig Özvegy
1918 – A Skorpió I
1918 – Alraune
1918 – A Csúnya Fiú
1918 – 99
1918 – A Napraforgós Hölgy
1919 – Liliom
1919 – Jön Az Öcsém
1919 – Die Dame Mit Dem Schwarzen Handschuh
1920 – Boccaccio
1920 – Der Stern von Damaskus
1920 – Die Gottesgeisel
1921 – Miss Tutti Frutti
1921 – Herzogin Satanella
1921 – Frau Dorothys Bekenntnis
1921 – Labyrinth des Grauens
1922 – Sodom und Gomorrha
1923 – Der Junge Medardus
1923 – Die Lawine
1923 – Namenlos
1924 – General Babka
1924 – Ein Spiel Ums Leben
1924 – Harun al Raschid
1924 – Die Sklavenkönigin
1925 – Das Spielzeug von Paris
1926 – Fiaker Nr. 13
1926 – Der Goldene Schmetterling
1926 – The Third Degree
1927 – A Million Bid
1927 – The Desired Woman
1927 – Good Time Charley
1928 – Tenderloin
1928 – Noah’s Ark (A Arca de Noé)
1929 – Glad Rag Doll
1929 – Madonna of Avenue A
1929 – The Gamblers
1929 – Hearts in Exile
1930 – Mammy (Minha Mãe)
1930 – Under a Texas Moon
1930 – The Matrimonial Bed
1930 – Bright Lights
1930 – River’s End
1930 – A Soldier’s Plaything
1931 – Dämon des Meeres
1931 – God’s Gift to Women
1931 – The Mad Genius (O Gênio do Mal)
1932 – The Woman From Monte Carlo
1932 – Alias The Doctor
1932 – The Strange Love of Molly Louvain
1932 – Doctor X (Doctor X)
1932 – The Cabin in the Cotton
1932 – 20.000 Years in Sing Sing (20.000 Anos em Sing Sing)
1933 – Mystery of the Wax Museum (Os Crimes do Museu)
1933 – The Keyhole
1933 – Private Detective 62
1933 – The Mayor of Hell (não creditado)
1933 – Goodbye Again (Mais Uma Vez Adeus)
1933 – The Kennel Murder Case (O Caso de Hilda Lake)
1933 – Female
1933 – From Headquarters (não creditado)
1934 – Mandalay (Capricho Branco)
1934 – Jimmy the Gent (Bancando o Cavalheiro)
1934 – The Key
1934 – British Agent
1935 – Black Fury (Inferno Negro)
1935 – The Case of the Curious Bride
1935 – Go Into You Dance (não creditado)
1935 – Front Page Woman (Miss Repórter)
1935 – Little Big Shot
1935 – Captain Blood (Capitão Blood)
1936 – The Walking Dead (O Morto Ambulante)
1936 – Anthony Adverse (não creditado)
1936 – The Charge of the Light Brigade (A Carga da Brigada Ligeira)
1937 – Black Legion (não creditado)
1937 – Stolen Holiday
1937 – Marked Woman (Mulher Marcada) (não creditado)
1937 – Moutain Justice (Justiça Humana)
1937 – Kid Galahad (Talhado Para Campeão)
1937 – The Perfect Specimen
1938 – Gold is Where You Find It
1938 – The Adventures of Robin Hood (As Aventuras de Robin Hood)
1938 – Four’s a Crowd (Amando Sem Saber)
1938 – Four Daughters (Quatro Filhas)
1938 – Angels With Dirty Face (Anjos de Cara Suja)
1939 – Blackwell’s Island (não creditado)
1939 – Dodge City (Uma Cidade Que Surge)
1939 – Sons of Liberty
1939 – Daughters Courageous
1939 – The Private Lives of Elizabeth and Essex (Meu Reino Por um Amor)
1939 – Four Wives
1940 – Virginia City (Caravana de Ouro)
1940 – The Sea Hawk (O Gavião do Mar)
1940 – Santa Fe Trail (A Estrada de Santa Fé)
1941 – The Sea Wolf (O Lobo do Mar)
1941 – Dive Bomber (Demônios do Céu)
1942 – Captains of the Clouds (Corsários das Nuvens)
1942 – Yankee Doodle Dandy (A Canção da Vitória)
1942 – Casablanca (Casablanca)
1943 – Mission to Moscow (Missão em Moscou)
1943 – This is the Army (Forja de Heróis)
1944 – Passage to Marseille (Passagem para Marselha)
1944 – Janie
1945 – Roughly Speaking
1945 – Mildred Pierce (Alma em Suplício)
1946 – Night and Day (A Canção Inesquecível)
1947 – Life With Father (Nossa Vida com Papai)
1947 – The Unsuspected (Sem Sombra de Suspeita)
1948 – Romance on the High Seas (Romance em Alto Mar)
1949 – My Dream is Yours (Meus Sonhos Te Pertencem)
1949 – Flamingo Road (Caminha da Redenção)
1949 – The Lady Takes a Sailor (Até Parece Mentira)
1950 – Young Man With a Horn (Êxito Fugaz)
1950 – Bright Leaf (Cinzas ao Vento)
1950 – The Breaking Point (Redenção Sangrenta)
1951 – Force of Arms (Quando Passar a Tormenta)
1951 – Jim Thorpe – All-American (O Homem de Bronze)
1951 – I’ll See You in My Dreams (Sonharei Com Você)
1952 – The Story of Will Rogers (A História de Will Rogers)
1952 – The Jazz Singer (O Cantor de Jazz)
1953 – Trouble Along the Way (Atalhos do Destino)
1954 – The Boy From Oklahoma (Aço de Boa Têmpera)
1954 – The Egyptian (O Egípcio)
1954 – White Christmas (Natal Branco)
1955 – We’re No Angels (Veneno de Cobra)
1956 – The Scarlet Hour
1956 – The Vagabond King (O Rei Vagabundo)
1956 – The Best Things in Life are Free (O Encanto de Viver)
1957 – The Helen Morgan Story (Com Lágrimas na Voz)
1958 – The Proud Rebel (O Rebelde Orgulhoso)
1958 – King Creole (Balada Sangrenta)
1959 – The Hangman
1959 – The Man in the Net (A Mulher que Comprou a Morte)
1960 – A Breath of Scandal (O Escândalo da Princesa)
1960 – The Adventures of Huckleberry Finn (As Aventuras de Huckleberry Finn)
1961 – Francis of Assisi (São Francisco de Assis
1961 – The Comancheros (Os Comancheros)

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