quarta-feira, 15 de abril de 2009

ZEUS, PAI DOS DEUSES E DOS HERÓIS

Ao derrotar os Titãs e os Gigantes, destronando o pai Cronos (Saturno), Zeus (Júpiter), tornou-se o senhor absoluto do mundo e dos deuses. O seu reinado, comandado do alto do Olimpo, pôs fim à desordem do universo, antes governado pelas divindades primordiais, que traziam as forças desordenadas, como os vulcões e os terremotos, ou como a de Cronos, o deus do tempo, que a tudo devora e destrói. Zeus faz triunfar a ordem e a razão, que equilibra os instintos selvagens e as emoções desenfreadas dos deuses primitivos.
Zeus é o rei do Olimpo e dos deuses. Na sua relação de divindade com o homem, é quem abre a ele o caminho da razão, é quem passa para a humanidade o ensinamento e a descoberta do verdadeiro sentimento, obtido através da dor, da justiça e do merecimento. Zeus compadece-se com os sofrimentos dos mortais, mas não se deixa levar por eles, pois como senhor dos deuses e dos homens, mesmo quando magoado pelas emoções, não pode deixar de refletir a imagem da verdadeira justiça e da razão. Zeus não interfere quando os mortais ou os deuses faltam com a razão, mesmo que lhes sejam especiais.
Zeus é considerado o pai dos deuses e dos homens. Mesmo casado com Hera (Juno), sua irmã , ciumenta deusa que não lhe perdoa as traições, pois ela representa a visão de uma Grécia que se tornava monogâmica; Zeus como senhor absoluto do universo, trai e fecunda deusas, ninfas e mortais. Mais do que o sentido da fidelidade, Zeus obedece à função de fecundador, de pai de uma extensa prole de deuses e de heróis. Na Grécia antiga, as principais cidades contavam em suas crônicas históricas e nas lendas, que os seus fundadores, na maioria, eram filhos de Zeus.
Em Roma, Zeus foi relacionado a Júpiter, senhor absoluto dos deuses e protetor dos cônsules e dos imperadores. Assim como o Zeus grego, também ele é o pai da maioria dos deuses olímpicos, representante da razão e da ordem. É o deus da terra, dos raios e dos trovões, demonstrando assim, ser a mais poderosa de todas as divindades, sejam do Olimpo, dos mares ou do Érebo. Zeus é o pai do poder dos homens e das suas cidades.

Zeus Escapa de ser Devorado por Cronos

As lendas mais antigas apontam Zeus como o mais jovem dos crônidas (filhos de Cronos). Diante de uma profecia de sua mãe, a deusa Gaia (Terra), de que um dos filhos usurpar-lhe-ia o trono, Cronos vivia atormentado. Todas às vezes que Réia (Cibele), sua esposa, dava à luz a um filho, ele devorava-o logo a seguir.
Réia sofria com a perda dos filhos, cinco deles já tinham sido devorados pelo marido. Para proteger o sexto filho que o seu ventre gerava, Réia pediu auxílio a Gaia, que lhe ajudou a engendrar um plano. Momentos antes do parto, a deusa iludiu a vigilância de Cronos, indo dar à luz em uma caverna distante. Nasceu-lhe Zeus, que foi entregue às Ninfas e aos Curetes, jovens sacerdotes de Réia.
Ao voltar para junto do marido, a deusa pôs em prática o plano de Gaia. Apanhou do chão uma pedra, envolveu-a em grossas faixas, entregando-a para Cronos, como se fosse o filho. Na voracidade de devorar aquele que lhe poderia usurpar o poder sobre os deuses, Cronos engoliu a pedra a pensar ser o filho recém nascido. Zeus estava salvo, e voltaria para cumprir a profecia de destronar o pai.
O local de nascimento de Zeus segue duas vertentes da lenda, a mais corrente é a de que teria nascido na ilha de Creta, sendo citada ora no monte Ida, ora no Aégon ou ainda, no Dicteu. A segunda vertente aponta para a Arcádia como o local de nascimento de Zeus. Quanto ao local no qual cresceu e foi educado, todas as lendas convergem para Creta, onde o deus viveu aos cuidados dos sacerdotes da mãe, os Curetes, e das Ninfas.
Quando adulto, Zeus partiu para o confronto com o pai, disposto a cumprir a profecia que lhe apontava como o futuro rei dos deuses. O jovem imortal levou consigo um frasco com uma beberagem, preparada por Métis (a Prudência), que tão logo chegasse às estranhas de Cronos, provocar-lhe-ia uma convulsão tão profunda, obrigando-o a vomitar os filhos devorados.
Diante de Cronos, Zeus impôs a sua força, obrigando o pai a ingerir a bebida mágica. As entranhas de Cronos foram estremecidas, e de dentro dele surgiram os filhos devorados quando nascidos. Estavam todos vivos e adultos. Aos olhos de Zeus desfilaram os irmãos, a casta Héstia (Vesta), o taciturno Hades (Plutão), a loira Deméter (Ceres), o impetuoso Poseidon (Netuno), e a bela Hera (Juno). Segundo algumas versões, Hera, assim como Zeus, também tinha sido poupada de ser devorada pelo pai e criada aos cuidados de Tétis e das Horas.

Zeus Torna-se o Senhor dos Deuses e dos Homens

A partir da libertação dos crônidas das entranhas do pai, a luta de Zeus pelo poder começou a ser configurada. Poseidon e Hades juntaram-se ao irmão na imensa guerra gerada entre os deuses. Astuciosamente, Zeus desceu ao Érebo e libertou os Ciclopes, hábeis forjadores das armas, e os Hecatônquiros, monstros de cem braços, todos aprisionados por Cronos. Do lado de Cronos ficaram os Titãs e os Gigantes.
Os Ciclopes prepararam as armas dos desafiantes de Cronos. Para Poseidon fabricaram o tridente, para Hades o capacete mágico que o fazia invisível e para Zeus, o raio. A seguir, foi travada uma guerra violenta e sangrenta pelo poder, que duraria dez anos. Ao lado dos irmãos, Zeus destronou Cronos. Ao fim da guerra, Cronos e os seus irmãos, os Titãs, juntamente com os Gigantes, foram encerrados, para sempre, no Érebo.
A vitória de Zeus trouxe a paz entre os deuses e a harmonia ao universo. As divindades que traziam consigo as forças da desordem tinham sido vencidas. Zeus deflagrara a era da razão e da justiça para os homens e para os deuses. Após a vitória sobre Cronos, o poder foi dividido entre os três irmãos, a Poseidon coube o reino dos mares; a Hades o reino dos mortos, e a Zeus, o reino do céu e da terra, sendo responsável pelos fenômenos atmosféricos.
Com a evolução do mito, Zeus passou a ser descrito como o primogênito de Cronos, condição que lhe conferia o poder absoluto, assim como acontecia aos reis das cidades gregas. O primogênito, herdeiro legítimo, tinha os poderes ilimitados. O mesmo acontecia com o senhor dos deuses. Quando Homero (século IX a.C.) chamou Zeus de “pai dos deuses e dos homens”, descreveu-o como o pai dos gregos e do poder que se estabelecia através da evolução daquela civilização, que evoluíra as suas aldeias para imponentes cidades, que originaram os estados. A autoridade das cidades era exercida pelo rei, que impunha a sua soberania aos núcleos de famílias, que por sua vez eram submissos à figura do pai. Assim, Zeus representava a autoridade de rei dos deuses e dos homens, e dos pais, em uma civilização patriarcal. Como o deus absoluto, era ele quem estabelecia a disciplina e a ordem entre os súditos, protegendo-os e distribuindo a justiça. As funções de Zeus confundiam-se com as dos próprios reis de toda a Grécia, excetuando os seus poderes como divindade.

Zeus, Cultos e Imagens

Na Grécia, Zeus era o deus por excelência, era o pai e o rei, ambos absolutos. Por ser o altíssimo, o senhor de todos os deuses, era cultuado no alto das montanhas. Os templos erigidos em sua honra estavam no monte Olimpo, na Macedônia; no monte Ida, em Creta; no Helicão, na Beócia; nos montes Parnes e Himeto, na Ática; no Pélion, na Tessália; no Pangeu, na Trácia e, no Liceu, na Arcádia. O mais antigo santuário de Zeus estava situado em Dodona, no Epiro, encontrando-se ali, o mais famoso oráculo do deus.
No culto à divindade, vários epítetos foram atribuídos ao senhor do Olimpo, entre eles, Zeus Xênios, que protegia os estrangeiros, os mendigos, os desterrados e os aflitos. É o Zeus Xênios que é louvado por Homero em “A Odisséia”. Era o deus que condenava os que não sabiam ser hospitaleiros, os impiedosos e os implacáveis. Zeus Herkeios era o protetor das casas e das cidades, tendo a sua força sobre o poder pátrio. Zeus Ktésios era quem trazia aos devotos a prosperidade e maiores riquezas.
Zeus tinha a sua imagem representada com a fronte adornada por cabelos longos e ondulados; rosto majestoso, de homem maduro, cingido por uma longa barba crespa. A sua imagem foi inspirada na famosa estátua de Fídias (500?-432? a.C), que além das características descritas, trazia 13 metros de altura; o deus aparecia sentado em um trono feito de ouro, ébano, bronze e marfim; na fronte trazia uma coroa de ramos de oliveira como adorno; na mão direita segurava a vitória; na esquerda portava um cetro encimado por uma águia. A estátua de Fídias serviu como modelo para representações futuras, que costumavam mostrar Zeus envolto em um grande manto, com o braço direito e o peito descobertos. Nas imagens mais primitivas do deus, ele era representado nu, sem o manto real.

Pai de Deuses e Heróis

Ao tornar-se o senhor do Olimpo, Zeus tomou a irmã Hera como esposa. Com ela divide o reinado. Hera representa a mulher fiel, ciumenta e pouco tolerante com as amantes do marido. Do casamento real nasceram Ares (Marte), o deus da guerra, Hebe, símbolo da juventude eterna e, Hefestos (Vulcano), o deus do ferro e do metal, que nasceu disforme e coxo, uma alusão dos gregos aos casamentos entre irmãos e aos filhos geneticamente prejudicados com esta união.
Limitado por apenas três filhos no casamento, Zeus representa a realeza consumada pelo poder pátrio. Se a força vem de tal poder, ser pai é mais importante do que ser fiel a Hera. A força criadora do deus dos deuses faz com que se una às diversas mulheres, mortais ou imortais, fecundando-as com a sua prole divina e especial. O mito fecundador de Zeus fazia com que as cidades mais importantes da Grécia tomassem como patronos ou fundadores um filho de Zeus.
Mas a função procriadora de Zeus não é aceita por Hera. Impossibilitada de castigar o marido, devido à força de deus supremo, Hera vinga das amantes e dos filhos bastardos. Zeus assume para si não só o ímpeto da paixão, como o dever de proteger as amadas, assim como a sua imensa prole, da ira vingativa de Hera. Para que não seja reconhecido pela mulher enquanto ama e fecunda as amantes, o senhor do Olimpo assume várias formas e disfarces. Com a bela Dânae, ele assumiu a forma de chuva de ouro, quando a amou e fecundou, gerando o herói Perseu. Com Europa, o deus assumiu a forma de um touro, raptando a donzela fenícia, levando-a para Creta, onde, sempre usando a forma animal, amou-a e fecundou-a, gerando com ela três filhos, entre eles o famoso rei Minos. Com Leda, Zeus assumiu a forma de um cisne, gerando os gêmeos Helena, a mulher mais bela da Grécia, responsável pela Guerra de Tróia, e Pólux, que ao lado de Castor, foi transformado na constelação de Gêmeos. Com Antíopa, o deus transformou-se em um sátiro, gerando os gêmeos Anfião e Zeto. Com a ninfa Egina, Zeus transformou-se em uma labareda, gerando Éaco, que era a imagem da piedade e da justiça.
Vale ressaltar que os filhos de Zeus fora do casamento com Hera, foram mais brilhantes do que os legitimados pela união. Entre os deuses gerados com as amantes estão os gêmeos Apolo e Ártemis (Diana), Dioniso (Baco), Hermes (Mercúrio), Perséfone (Prosérpina), Atena (Minerva); os heróis Héracles (Hércules), Dárdano, Iasião, Épafo, Radamanto, Sarpedão, Lacedêmon, Britomártis, Argo, Pelasgo e Tântalo; alem das Musas, Graças, Horas, Moiras e Astréia.

Zeus é Assimilado a Júpiter

O mito de Zeus chegou a Roma muito antes da cidade ser transformada na capital de um grande império, e da sua expansão pelo mar Mediterrâneo. Muito antes de Roma conquistar a Grécia, assimilando a cultura helênica. Os romanos cultuavam os seus deuses locais, quando em contacto com as divindades helênicas, essas entidades locais passaram a ser identificadas com as dos gregos.
Zeus representava a figura do deus pai, do deus supremo e absoluto, divindade existente em todas as mitologias indo-européias, portanto era fácil assimilá-lo em diversas civilizações antigas. Em Roma teve a sua identificação local com Júpiter, antiga entidade do Lácio.
O mito mais antigo de Júpiter no mundo latino era o de Júpiter Latial, divindade de origem obscura, que tinha o seu santuário erguido nos montes Albanos. Júpiter Latial teria dado origem ao mito de Júpiter Capitolino, velha entidade da região do Lácio. Os carvalhos do monte Capitólio eram consagrados a Júpiter Capitolino. Foi este Júpiter que se identificou com o Zeus grego.
Senhor dos deuses romanos, Júpiter estendia o seu poder pátrio aos poderosos da cidade, tido como protetor dos cônsules durante a República Romana. Era costume que um cônsul dirigisse preces ao deus quando assumia o poder. Júpiter tornou-se esplendoroso com o fulgor do Império Romano. Quanto mais Roma atingia o seu apogeu como império do mundo, mais a divindade de Júpiter assumia a imagem do imperador, refletindo o retrato de cada um deles. Ao assimilar-se à imagem do imperador, Júpiter perdeu grande parte do seu sentido como divindade, passando a ser descrito pelos poetas romanos como um deus impetuoso e apaixonado, tornando-se um perseguidor volúvel de ninfas e mortais.
Os cultos a Júpiter em Roma, eram responsabilidade dos sacerdotes feciais, que tinham a sua autoridade suprema na figura do flamine dialis. O casamento de um flamine com uma flamínica, a sacerdotisa da deusa Juno, mulher de Júpiter, jamais poderia ser dissolvido. Tal casamento entre sacerdotes, simbolizava a união de Júpiter e Juno na terra.

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