quarta-feira, 8 de abril de 2009

TIETÊ, NAVEGANDO PELA PAULICÉIA

O Tietê atravessa o estado e a cidade de São Paulo, sendo um dos rios mais famosos do país, com uma importância econômica essencial não só para a região que o seu curso percorre, como para todo o Brasil. Símbolo do desleixo e da incapacidade que governos e populações tiveram, ao longo da história, de conciliar desenvolvimento industrial com o meio ambiente, o rio Tietê trafega pulsante pelo estado mais rico do país, transformando-se em um grande esgoto a céu aberto ao entrar na cidade de São Paulo.
Já dentro da Paulicéia, o rio é margeado pela Marginal Tietê, o principal sistema viário da cidade, por onde se calcula passar mais de dois milhões de veículos por dia. Sua imponência secular é camuflada pela degradação das águas, poluição e estado se salubridade, tornando-o um rio morto, sem peixes ou vegetação, um exemplo de uma grande tragédia ambiental. A partir da década de 1990 foi criada uma organização não governamental, a Núcleo União Pró Tietê, apoiada pela pressão popular que reivindicava um rio mais limpo. Mais de um milhão de assinaturas foram recolhidas em um abaixo assinado gigantesco, para que se recuperasse o rio, como aconteceu com o Tamisa, em Londres. Desde então, certas melhoras e vitórias a favor da recuperação do Tietê vêm sendo feitas, sem passos longos, processadas lentamente, quase arrancadas, mas com efeitos tenazes.
Quem observa o rio Tietê ao longo da cidade de São Paulo, jamais imagina que em um passado, não muito remoto, pescava-se e banhava-se nas suas águas, clubes recreativos eram construídos às margens, efetuavam-se campeonatos de natação, regatas, esportes náuticos; enfim, tudo isto fazia do Tietê uma fonte saudável de lazer e vitalidade dentro da maior cidade do Brasil.
É sobre este tempo que, buscando imagens do passado, extraídas de fotografias e postais antigos, navegaremos neste artigo, pelo leito límpido do Tietê, que um dia esperamos, sair das páginas do passado e constituir um futuro de águas recuperadas e vivas.

Tietê, o Rio dos Banhistas Paulistanos

O rio Tietê tem o seu nome de origem tupi, traduzido como rio volumoso, rio verdadeiro ou ainda, águas verdadeiras. Sua nascente está em Salesópolis, na Serra de Paranapiacaba, a poucos quilômetros da capital paulista, a 1.120 metros de altitude. Desviando das escarpas da Serra do Mar, segue em sentido inverso ao Atlântico, desbravando o interior, atravessando o território paulista, até desaguar no lago da barragem de Jupiá, no rio Paraná, depois de percorrer 1.136quilômetros.
Economicamente, o rio Tietê é um dos mais importantes do estado de São Paulo e do Brasil. Sua história confunde-se com a de São Paulo, foi de grande importância na conquista do interior pelos bandeirantes, sendo utilizado como meio de navegação para que se desbravasse o sertão. Sua nascente teve a flora original destruída, o que obrigou o Estado a tombá-lo, recuperando a área, constituída atualmente, por uma floresta secundária.
Ao cruzar a cidade de São Paulo, o Tietê passou a fazer parte da saga da metrópole, sendo a principal vítima do seu progresso. Até meados do século XX, via-se canoas e jangadas a transportar mercadorias pela capital paulista, e uma grande movimentação pulsante em suas águas.
Por muitas décadas, o Tietê serviu de sustento para os peixeiros, pessoas humildes do interior do estado, que na capital pescavam tabaranas, piabas, bagres e outros peixes pequenos. O peixeiro era uma figura típica, caminhava descalço pelas ruas da cidade a vender o que pescara no rio; trazia os peixes enfiados pelas guelras em um cipó.
A partir do final do século XIX, o Tietê passou a fazer intensamente parte da vida de lazer do paulistano. Com árvores espalhadas por suas margens, frondosas sombras convidavam para passeios de pedestres e a realização de piqueniques. Dentre os costumes burgueses paulistanos, a natação era uma prática bastante apreciada. Os mais abastados aprendiam a nadar nos açudes das fazendas, nas estações balneárias, praticavam o banho no mar de Santos, litoral mais próximo da capital, ou nos clubes às margens do Tietê.
Na época que se tinha como costume nadar no Tietê, as suas águas já apresentavam uma certa poluição. O costume desenfreado da população jovem atirar-se ao rio trazia perigo constante de afogamentos, além de despertar a indignação da moral vigente, visto que muitos nadavam em trajes menores ou sem roupas, refletindo uma nudez desafiadora, o que levou à proibição da natação, que passou a sofrer pressão da vigilância de policiais. Banhar-se no Tietê ou no rio Tamanduateí, tornou-se um hábito de rebeldia provocativa da juventude, ante ao peso da proibição que se fez entre 1880 e 1889. Nesta época era diversão dos jovens despirem-se, atirarem-se ao rio, e quando percebiam a aproximação da polícia, apoderarem-se das suas roupas, depois nadando rio abaixo, ou para o meio dele, fugindo para as matas ao redor, gritando e vaiando os seus perseguidores.
Este costume foi, aos poucos, esvaindo-se, visto que a intensificação da repressão aos infratores inviabilizara a rebeldia, o que encerrou de vez o nado livre nas águas do Tietê.

Os Clubes de Regatas do Tietê

A partir da proibição que encerrou com os banhos simples no rio, surgiram, no fim do século XIX, os esportes náuticos, desenvolvidos a partir dos clubes que foram criados às margens do Tietê, na Ponte Grande. Em 1899 surgiam os clubes de remo, um presente para o lazer dos habitantes da Paulicéia.
A Ponte Grande, construída por volta de 1860, era o principal ponto de referência do rio Tietê. Ao seu redor foi desenvolvido um atraente local de lazer dos paulistanos. Às margens do Tietê eclodiram locais de recreios para piqueniques, passeios de barcos e restaurantes. Um dos principais restaurantes foi o Bella Venezia, freqüentado pela comunidade italiana, que aos domingos promovia passeios de barcos pelo rio. O sucesso dos passeios foi tanto, que motivou um grupo de rapazes a fomentar a idéia da criação de um clube desportivo para a prática de atividades de remo e de canoagem. A partir da idéia, sete jovens italianos praticantes de remo fundaram o Club Canottieri Esperia, que se tornaria um dos mais famosos de São Paulo. O Clube Espéria persiste até os dias atuais, sendo referência na zona norte de São Paulo, em Santana, onde está situado.
A partir do Clube Espéria, foram fundados outros clubes de regatas ao longo do rio. Entre eles o Clube de Regatas Tietê e o São Paulo. Tinham como atrativos principais às práticas da natação e do remo. O Clube de Regatas Tietê atravessou as décadas, ainda existindo atualmente.
Sobre esta época de esplendor do rio Tietê, o francês L. A. Gaffre, que visitou São Paulo, em 1910, escreveria em seu livro Visions du Brésil:
De passagem, um olhar ao rio Tietê, sinuoso e suave, que estende langorosamente suas águas sob belas sombras, permitindo à juventude paulistana entregar-se, em suas margens e em seu leito, aos esportes prediletos.
Os clubes de regatos às margens do rio Tietê tornaram-se famosos pela disputa de provas desportivas aquáticas. Em 1924, o Espéria promoveu, com sucesso, a primeira competição de travessia a nado pelas águas do rio. Não havia o medo de qualquer contaminação por se nadar no maior rio da cidade de São Paulo.

A Degradação do Rio

A decadência do rio começaria com a degradação das suas águas, dantes límpidas. O processo de poluição do Tietê começou sutilmente, na década de 1920. Nesta época as práticas e disputas de provas aquáticas ainda serviam de lazer para os paulistanos. Também os pescadores ainda tiravam peixes das águas do rio. Foi nesta década que a empresa canadense Light, construiu a represa de Guarapiranga, com objetivo de gerar energia elétrica nas usinas hidrelétricas Edgar de Souza e Rasgão, situadas em Santana do Parnaíba. A intervenção afetaria o regime de águas do Tietê, deixando-o com o leito menos sinuoso na área da capital paulista.
O processo de degradação do rio avançava conforme o progresso chegava à Paulicéia. Com a proliferação das grandes indústrias e a explosão demográfica da população, o rio deixou de ser fonte de lazer dos paulistanos, tornando-se o principal receptor dos seus resíduos e esgotos.
O Tietê agonizava, e com ele os clubes de regatas, que aos poucos, tornaram-se inviáveis diante da degradação iminente, sendo condenados a deixar de existirem. A Ponte Grande seria demolida, dando lugar à construção da Ponte das Bandeiras, inaugurada em 25 de janeiro de 1942.
Já em 1933, a publicação oficial “A Capital de São Paulo”, alertava para as transformações ambientais dos rios paulistanos. Na publicação, culpavam ao desaparecimento dos peixes à barragem em Santana do Parnaíba e ao Salto de Itu. Mencionavam ainda, que os resíduos das indústrias corroboraram para um ambiente não favorável aos peixes. Estava decretada a morte do Tietê e os seus clubes de regatas. Os clubes sobreviveriam até a década de 1950, quando a poluição tomou conta das águas do rio, tornando-o um autêntico esgoto a céu aberto, transmissor de doenças e sendo foco de contaminações pestilentas.
Entre as décadas de 1940 e de 1960, São Paulo cresceu vertiginosamente. Sua população saltou, em vinte anos, de dois milhões para seis milhões de habitantes. A política de incentivo à expansão do parque industrial da cidade, permitindo-lhe eclodir sem um planejamento ambiental, fez com que o rio Tietê fosse inviabilizado como abastecedor da população e se lhe retirasse a promoção do lazer e da qualidade de vida. No início da década de 1970, o Tietê estava praticamente morto para os paulistanos. Na década de 1980, o rio atingiu níveis intoleráveis de poluição, mesmo assim, não se gastou verba alguma para a sua recuperação.
Nos tempos atuais, parcas iniciativas vêm sendo feitas para que se recupere o rio. Não recuperar o Tietê é uma situação catastrófica, que no futuro afetará de forma indelével a todos os paulistanos. Não poder utilizá-lo como via fluvial para o transporte de cargas e passageiros acarreta prejuízos à economia da cidade de São Paulo. Não utilizar tão potente gerador de lazer, de áreas verdes, que tanto necessita a metrópole, é subtrair a população de uma qualidade de vida superior, tragada pela falta de educação na preservação ambiental. Recuperar o Tietê é apagar a imagem de decadência da cidade, que ao percorrer a marginal que o ladeia, traz um dos mais deprimentes cartões postais para quem a visita. Quem sabe, um dia, ainda se volte a ver as canoas a deslizar nas águas límpidas do Tietê. Sonho? Utopia? Não, necessidade de que São Paulo sobreviva ambientalmente, e o Tietê renasça das cinzas da sua degradação.

Veja também:


PÁTIO DO COLÉGIO: LOCAL GENÉTICO DA PAULICÉIA

http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2007/12/ptio-do-colgio-local-gentico-da.html
AVENIDA PAULISTA
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/03/avenida-paulista.html
SÃO PAULO, SÃO PAULO
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2009/01/so-paulo-so-paulo.html
OS TEATROS DA SÃO PAULO DOS BARÕES DO CAFÉ
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/06/os-teatros-da-so-paulo-dos-bares-do-caf.html
AS ELEGANTES RUAS DA SÃO PAULO DOS BARÕES DO CAFÉ
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/11/as-elegantes-ruas-da-so-paulo-dos-bares.html

Nenhum comentário: