sábado, 25 de abril de 2009

PROFANA - O LEITE BOM DE GAL COSTA

O ano de 1984 foi um dos mais convulsivos da história do Brasil. O povo brasileiro deixou, em casa, o medo da repressão do regime, vestiu camisas amarelas e saiu às ruas batendo em panelas, pedindo o fim da ditadura e o direito de escolher o seu presidente através do voto direto. Era a efervescência do movimento político que entrou para a história como “Diretas Já”, que pedia que uma emenda constitucional fosse votada no Congresso, trazendo de volta as eleições livres naquele ano. A emenda foi derrotada em abril, mas o Brasil não mais se calou até a queda da ditadura.
Aquele ano foi marcado na MPB pela explosão das jovens bandas de rock, lançando para a fama o Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, Metrô, Barão Vermelho e tantas outras. Estava declarada a moda new wave, trazendo cores berrantes de todos os tons, jogadas com intensidade nas roupas, dando uma atmosfera de eterno verão.
Foi neste clima que Gal Costa, que assumira o posto de super estrela e primeira dama da MPB, lançou o mítico “Profana”, álbum que mais traduz os caminhos que a Música Popular Brasileira iria seguir a partir de então. A cantora iniciara o ano com um dos mais aplaudidos shows da sua carreira, “Baby Gal”, que fez a sua estréia em janeiro. O show teve direito a um cultuado programa de fim de ano na TV Globo. Tudo que Gal Costa tocava nesta época, reluzia com o brilho do sucesso. Com “Profana” não foi diferente. Álbum jovial, com um traço tropicalista que lembrava o primeiro a solo, “Gal Costa”, de 1969. Construído sobre as bases da carreira da cantora, que voltava às origens de roqueira, passava por baladas suavemente românticas, indo do forró às marchinhas carnavalescas, tudo alinhavado pela consistência e beleza da voz, cada vez mais técnica, sem perder a emoção interpretativa.
Apesar de ser o álbum que mais evidencia a década de oitenta e o mito Gal Costa como grande estrela, “Profana” não traz traço algum que o torne datado. Sucessos definitivos e marcantes, como “Vaca Profana” e “Nada Mais (Lately)” dão a dimensão perene da beleza inquietante do canto de Gal Costa, atingido, um quarto de século depois, pessoas de todas as idades.
Profana” foi o álbum da MPB que agregou os caminhos joviais que começavam a pulsar, enquadrando o momento histórico que germinava através de novas revelações, como Roberto Frejat, sem perder a essência, as raízes da verdadeira música, renovando-a, dando uma lufada no etéreo.

Gotas de Leite de Talento Sobre Nossos Ouvidos

Lançado no fim do ano de 1984, “Profana” abriria o verão de 1985, com Gal Costa cortando os cabelos, vestindo uma imagem sensual e provocativa, magnificamente registrada pelo programa “Gal Costa Especial”, produção da extinta TV Manchete, com direção de Maurício Capovilla. A cantora exalava sensualidade por todos os poros, ousando como nunca, posando nua para as lentes de Marisa Alvarez Lima, em um ensaio histórico publicado pela revista “Status”, grande ícone na imprensa da época.
O álbum começava a sua provocação histórica pela capa, que trazia a cantora maquiada em um rosto histriônico, diante do espelho, a pintar de batom a imensa boca vermelha, maliciosamente profana. Produzido por Mariozinho Rocha, com quem a cantora dividiu a direção artística, trazia uma concepção gráfica arrojada, com belos encartes e doze canções de ritmos ecléticos, distribuídas por dez faixas.
Vaca Profana” (Caetano Veloso), de onde foi retirado o título, abria o álbum. Canção feita exclusivamente para a cantora, é uma verdadeira ode à Espanha, em especial à Catalunha, com retratos discursivos diretos, formando imagens através da poesia, mescladas nas cores vivas de então. É um roque intenso, com uma poesia visceral, difícil nos refrões que não são iguais na letra e que se repetem a todo instante. A canção registra com primor os movimentos de então, a ascensão da moda new wave (nova onda), as revistas musicais da capital espanhola, “Madrid te Mata”, aqui adaptada para o jogo de palavras “Também te mata Barcelona”. Várias expressões em catalão são usadas, como “Si us plau” – por favor, ou “Orchata de chufa”, uma bebida feita com nozes e bastante apreciada na Catalunha. A canção passa pelas ramblas de Barcelona, desfila pelos movimentos punks de Londres, como num retrato contemporâneo de Picasso, atravessa a bolha de Tel Aviv, desaguando nos caretas de Nova York. Caetano Veloso provoca o tempo todo, a começar pelo título da canção, “Vaca Profana”, que se antagoniza com a “vaca sagrada” de tantos seguidores, caretas ou não. Joga com expressões como caretas e “puretas”, termo que na Espanha da juventude new wave, era usado para definir os que não fumavam haxixe. “Vaca Profana” foi a única canção grandiosa dos anos oitenta feita por Caetano Veloso para Gal Costa interpretar, e também uma das últimas, depois dela, somente em 1993, com “Errática”, a voz de Gal Costa voltou a interpretar uma canção genial do autor. Canção de letra imensa e de palavras difíceis, quase que exóticas aos ouvidos, teve uma interpretação sublime de Gal Costa, com a explosão dos agudos nos florões dos refrões. Momentos únicos na voz desta mulher sagrada, a diluir com requinte a poesia de Caetano Veloso, a jorrar o leite sobre a sensibilidade de todos os ouvintes.

Mas eu também sei ser careta
De perto ninguém é normal
Às vezes segue em linha reta
A vida que é meu bem/meu mal
No mais, as “ramblas” do planeta
Orchata de chufa, si us plau

Após iniciar explosiva e roqueira, a cantora volta às aves do Brasil, com “Ave Nossa” (Moraes Moreira – Beu Machado), que não lhe deixa esquecer o canto das terras brasileiras. Ela já visitara os gritos da acauã, a tristeza trágica e melancólica do assum preto, agora percorria com alegria o universo do sabiá, símbolo da saudade dos brasileiros espalhados pelo mundo, exilados das belezas nativas. A canção brinca com o famoso poema “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, mostrando que todos os desencantos da nação são reduzidos quando canta o sabiá. Moraes Moreira foi uma presença constante na obra de Gal Costa nos anos oitenta, que fez dos seus frevos grandes sucessos populares, como "Festa do Interior".

Emoções Dilacerantes na Voz da Cantora

Na terceira faixa, “Nada Mais (Lately)” (Stevie Wonder – versão Ronaldo Bastos), Gal Costa mergulha num dos mais belos momentos do seu canto. Começa intimista, suave, submissa, triste e indefesa, terminando dilacerante, no agudo final e apoteótico quando canta a palavra “jamais”, emocionando o ouvinte, deixando-nos sem fôlego. Ronaldo Bastos havia preparado duas belíssimas versões de canções de Stevie Wonder, “Lately” e “Black Orchid” (Orquídea Negra), sendo esta última preterida à primeira. “Nada Mais” tornou-se um dos grandes sucessos da carreira da cantora. Gal Costa tira qualquer resquício de versão da canção, transformando-a em algo inédito e sublime. A interpretação é romântica sem ser melodramática, é suave sem perder a intensidade, é um dos momentos mais belos do disco e da sensibilidade da cantora.

Vão dizer que são tolices
Que podemos ser felizes
Mas tudo que eu sei não dá pra disfarçar
Dessa vez doeu demais
Amanhã será jamais

Gal Costa, adoravelmente tropicalista, deixa o romantismo da terceira faixa, rasgando o frevo “Atrás da Luminosidade” (Teca Calazans – Luiz Carlos Sá). Leve e solta, debruça-se na alegria contagiante que tem em cantar, convidando os ouvintes para que saiam literalmente do chão, e percorram os sentidos do frevo da cidade, porque a vida traduz-se na força da dança e da juventude com os seus cordões foliões de felicidade instantânea.
O disco, concebido no molde do long-play (LP), encerrava o lado A com a existencialista “De Volta ao Começo” (Gonzaga Jr.). O intimismo delicado de Gal Costa suaviza a esperança melancólica da canção. A poesia de Gonzaguinha muitas vezes atingia ao âmago da existência do sofrimento, saindo dele como quem emerge para a vitória dos medos. Gal Costa traduz com uma serenidade lírica esta travessia. Ela própria voltava, neste álbum, ao começo de si própria, mais tropicalista, como há anos não ousava sê-lo.

Dueto com o Rei do Baião

Profana” iniciava-se no lado B com uma velha marchinha de carnaval, “Onde Está o Dinheiro” (José Maria de Abreu – Francisco Mattoso – Paulo Barbosa), já preparando um sucesso inevitável para o carnaval de 1985. Desde 1979, quando gravara “Balancê” (Alberto Ribeiro – João de Barro), Gal Costa trouxera brilhantemente de volta à MPB as velhas e tradicionais marchinhas carnavalescas, ritmo que a Bossa Nova, a Jovem Guarda e a Tropicália encerrara, tornando-o algo velho e fora de moda. Gal Costa provou que velhas tradições musicais podem ser renovadas sempre, atingido novas gerações. Maliciosa, “Onde Está o Dinheiro” toca em um velho problema nacional, a corrupção política e civil, infelizmente continua atualíssima.
Chuva de Prata” (Ed Wilson – Ronaldo Bastos) é uma balada romântica, que na voz doce de Gal Costa transforma-se em uma delícia adolescente, sem compromissos com o intelecto, mas definitiva na sua mensagem proposta. É sem dúvida, a canção mais fácil do disco, pronta para ser um sucesso instantâneo, o que se faz necessário em um repertório com canções tão complexas como “Vaca Profana”. A faixa conta com a participação do grupo Roupa Nova, que a cantora convidara para a versão de “Baby” (Caetano Veloso) do seu disco anterior, “Baby Gal” (1983). Com o tempo, “Chuva de Prata” sofreu a rejeição dos puritanos e “caretas” mais jovens, mas quando lançada, foi cantada pelos populares e pelos intelectuais, na perfeita sintonia que desenhava a atmosfera da época.
A terceira faixa do lado B renova o disco, mais uma vez, trazendo nada menos do que três canções, “Cabeça Feita” (Jackson do Pandeiro – Sebastião Batista da Silva), “Tililingo” (Almira Castilho) e Tem Pouca Diferença” (Durval Vieira). “Profana” mergulha neste momento, no seu ponto mais alto, trazendo o forró da baiana para alegria dos mais ecléticos. A trilogia veio do show “Baby Gal”, onde ela conseguia uma grande reação do público ao cantá-la. Ritmo tradicional, alegre e carismático, o forró começou os anos oitenta sendo atingido pelo preconceito dos mais novos, mas cantoras como Elba Ramalho, Amelinha e Diana Pequeno impuseram a tradição. Gal Costa não se esquece dele no momento em que o rock leve das bandas emergentes queria apagá-lo. Interpreta com brilho as canções, encerrando a trilogia com a presença histórica de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, num dueto inesquecível. Gonzagão rendeu-se à beleza da voz e à sedução latente da baiana, convidando-a logo a seguir, para um novo dueto, na faixa “Forró nº 1” do seu disco de 1985, “Gonzagão, Sanfoneiro Macho”.

Uma Volta ao Começo

Topázio” (Djavan), é uma daquelas canções enigmáticas do universo de Djavan, que só Gal Costa sabe dar vida, traduzindo a sua beleza numa voz de sereia solitária, perdida entre sombras reluzidas pelo exotismo dos topázios e dos lugares de fuga pelo mundo, não importando se aqui ou em Berlim. A canção dilui a sua essência sem sentido na voz contagiante de uma Gal Costa misteriosa, que encanta ao dilatar na garganta cada melodia.
E “Profana” encerra-se como começou, com um grande rock, “O Revólver dos Meus Sonhos” (Roberto Frejat – Waly Salomão – Gilberto Gil). Outra canção difícil, mas que une toda a proposta do disco, sendo uma das faixas mais significativa e emblemática. A própria parceria dos autores é de um simbolismo ímpar, reunindo Frejat, na época com apenas 22 anos e a despontar na carreira com a banda Barão Vermelho; Waly Salomão, velho companheiro da época do apogeu do desbunde; e, Gilberto Gil, um dos mentores da Tropicália. Gal Costa une aqui a estrela da MPB, a musa do desbunde e da Tropicália, fazendo uma retrospectiva contundente da sua carreira em uma só canção. Roqueira, underground e artista Pop, ela encerra com a força da voz, já transformada em mito. A canção tem uma letra que contrasta o passado – “Arembepe, Woodstock, Píer, verão da Bahia”, com o presente vivido “Interfone - Blitz, Joaninha, computador”. Era a Gal Costa tropicalista que reacendia no álbum, sem esquecer o desbunde, a “buzina do vapor barato”. Há muito tempo que ela não voltava a ter uma canção assinada por Waly Salomão em seus discos. Gilberto Gil era a própria raiz do início do mito Gal Costa. A canção era uma das preferidas da cantora neste álbum. Não foi feita para ser tocada nas rádios, mas para encerrar a volta ao começo de Gal Costa, aqui novamente roqueira, tropicalista e infinita na sua pluralidade cada vez mais dilacerante, a desenhar a voz sagrada de uma mulher profana.

O revólver do meu sonho
Atirava, atirava no que via
Mas não matava o desejo
Do que ainda não existia
Interfone, Blitz, Joaninha, computador
O futuro comum de hoje em dia
Que eu cigana já pressentia

Profana” é um álbum que desenha uma atmosfera jovial perene. Um adulto eternamente adolescente no lapso do tempo, atravessando as gerações, mantendo-se intacto, mesmo quando confrontado com o mundo musical do século XXI. Poucas vezes um álbum trouxe letras tão longas e diretas, acentuando e explicando alguns porquês do mito Gal Costa, posta sempre para fora e acima da manada das grandes cantoras.

Ficha Técnica:

Profana
BMG
1984

Produção: Mariozinho Rocha
Direção Artística: Gal Costa e Mariozinho Rocha
Coordenação Artística: Gal Costa e Miguel Plopschi
Direção de Produção: Guti
Técnicos de Gravação: Luís Paulo e Edu
Técnico de Mixagem: Luís Paulo
Auxiliares de Gravação: Julinho e Jackson
Corte: José Oswaldo Martins
Montagem: Dalton Rieffel
Arregimentação: Gilberto D’Ávila
Capa: Noguchi
Fotos: Milton Montenegro
Maquiagem: Guilherme Pereira
Cabelo: Jean
Estúdios de Gravação: SIGLA RJ e Guerenguê RJ (gravação de metais – RJ)

Músicos Participantes:

Arranjos: Paulo Rafael, Marcio Miranda, Paulo Ramiro, Lincoln Olivetti, Cleberson Horst, Luizinho Avelar, Djavan, Severo e Ricardo Feghali
Regências: Cleberson Horst e Nilton Rodrigues
Guitarra: Paulo Rafael, Paulo Ramiro, Urubu, Pisca, Kiko, Zepa e Djavan
Teclados: Marcio Miranda, Lincoln Olivetti, Serginho Trombone, Luizinho Avelar, Cleberson Horst, Ricardo Feghali e Rick Pantoja
Baixo: Jorge Degas, Nando, Pedrão, Sisão e Fernando
Bateria: Jurim, Serginho Herval, Paulinho Braga, Sergio Della Mônica e Teo Lima
Stell Guitar: Rick Ferreira
Bongô: Paulinho
Clave: Paulinho
Acordeom: Severo
Viola: Manasses, Frederick Stephany, Arlindo Penteado, Nelson de Macedo, Antonio Fidelis e Hindenburgo Pereira
Percussão: Feijão
Marimba: Pinduca
Ritmos: João Firmino, Peninha, Ariovaldo, Paulinho, João Gomes, Geraldo Gomes e Melquiades Lacerda Cavalcanti
Spala: Pareschi
Violinos: Aizick, Jorge Faini, Alfredo Vidal, Walter Hack, Carlos Hack, Paschoal Perrota, Michel Bessler, Virgílio Arraes, José Alves, Luiz Carlos Marques, João Daltro, José Lana e Bernardo Bessler
Cellos: Marcio Mallard, Alceu Reis, Luiz Zamith e Jorge Ranesvky
Trombone: Serginho Trombone
Trompete: Bidinho, Paulinho, Don Harris e Nilton Rodrigues
Sax Tenor: José Carlos Ramos
Sax Alto: Mauro Senise
Sax Barítono: Leo Gandelmann
Piston: Paulinho, Nilton Rodrigues e Don Harris
Coro: Cleberson Horst, Ricardo Feghali, Serginho Herval, Nando, Kiko, Regininha, Viviane, Marcio Lott, Luna, Flavinho, Regina e Paulinho

Faixas:

1 Vaca Profana (Caetano Veloso), 2 Ave Nossa (Moraes Moreira – Beu Machado), 3 Nada Mais (Lately) (Stevie Wonder – versão Ronaldo Bastos), 4 Atrás da Luminosidade (Teca Calazans – Luiz Carlos Sá), 5 De Volta ao Começo (Gonzaga Jr.), 6 Onde Está o Dinheiro (José Maria de Abreu – Francisco Mattoso – Paulo Barbosa), 7 Chuva de Prata (Ed Wilson – Ronaldo Bastos) Participação: Roupa Nova, 8 Cabeça Feita (Jackson do Pandeiro – Sebastião Batista da Silva) / Tililingo (Almira Castilho) / Tem Pouca Diferença (Durval Vieira) Participação: Luiz Gonzaga, 9 Topázio (Djavan), 10 O Revólver do Meu Sonho (Roberto Frejat – Waly Salomão – Gilberto Gil)


Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

"Profana"é um dos meus discos preferido,"De volta ao começo" devia ser tocada até nas igrejas.