sábado, 3 de janeiro de 2009

NASCI COM PASSAPORTE DE TURISTA E OUTROS CONTOS - ALVES REDOL


Alves Redol deixou para o acervo da literatura portuguesa uma vasta obra que incluí desde escritos para o teatro, roteiros para filmes, livros para crianças, estudos, notas ensaístas, contos, romances, pequenas novelas e crônicas. É um dos representantes mais sólido do neo-realismo em Portugal. Por anos, graças à perseguição política, a sua extensa obra esteve dispersa, tendo sido feito nos últimos tempos um trabalho minucioso desses seus dispersos, onde podemos encontrar volumes intitulados de “Obras Completas”. É justamente um destes volumes que aqui tomamos como base: “Nasci Com Passaporte de Turista e Outros Contos” (1ª edição - Editorial Caminho - 1991). Através desta coletânea teremos uma noção da representatividade de Alves Redol como escritor neo-realista, embora nos fuja a sua importância como figura histórica da época em que fez delirar as crianças nas escolas com os seus contos, marcando uma vasta geração.
A coletânea traz-nos os contos de Alves Redol selecionados cronologicamente de 1940 a 1968. Num período de vinte e oito anos essenciais na história da Europa e de Portugal, vamos conseguir transportar-nos para aquele momento através do seu universo revelador e de denúncia latente. Numa viagem de tirar o fôlego nas páginas neo-realistas de Alves Redol, a descoberta da sua obra através dos contos é gratificante, empolgante. Percorrer quase três décadas da sua narrativa, é redescobrir uma página virada da história portuguesa, mas que as marcas ainda se fazem recentes, compondo sem máscaras a essência de um povo.

Os Contos da Década de 1940

1940 foi o ano do auge da Segunda Guerra Mundial, com uma Alemanha armada e temível, uma França de rastos, uma Inglaterra a resistir, uma Espanha num caos, totalmente desfeita pela guerra civil, uma Itália fascista e totalitarista, um Portugal neutro, mas com uma política de melhor situação diante do conflito. Apesar da neutralidade do país, a miséria da guerra era sentida pelas classes menos favorecidas.
É justamente da miséria humana que nos fala os contos de 1940. A mais profunda miséria do ser humano, retratada de uma forma dramática, muitas vezes a tocar no melodrama. Os contos de Alves Redol são recheados de personagens sem saída, marcadas pelo fatalismo da vida e, principalmente, pela condição social. Talvez seja este o ponto fulcral dos seus contos, ao contrário de Manuel da Fonseca que descreve as suas personagens cobertas de um saudosismo infindável e melancólico, cuja fatalidade não trespassa o estado inerte da melancolia e o olhar latente da saudade; Alves Redol cria um ambiente angustiado, tenso, denso, quase a mergulhar no caos da sobrevivência social e humana, como o ambiente vivido pelos anos de guerra, onde estar vivo hoje é o futuro de amanhã, mas a incerteza do agora.
Nos seis títulos escritos em 1940 (“A Marca”, “Aquela História”, “A Corneta de Barro”, “Lua de Pé”, “Rafeiros” e “Nasci Com Passaporte de Turista”), que encontramos no livro, a sombra da guerra está por detrás deles, sempre refletidos pela miséria do tempo. Também a linguagem é a mais diversificada, o estilo de Alves Redol é inconfundível, por talvez fugir de criar estilizações e técnicas, pois a linguagem muda de ambiente para ambiente, onde o universo das palavras do cotidiano das personagens é cabalmente retratado, podemos assim, encontrar termos populares, diálogos com os erros do português falado diante do escrito, portanto a linguagem é diferente se uma história é de pescadores e outra é de um empregado de escritório. Para compreendermos melhor, vejamos as palavras de José Manuel Mendes, que fez o prefácio de “Nasci Com Passaporte de Turista e Outros Contos”:

“(...) De “A Marca” a “Tatuagem” ou “Dois Pássaros Nocturnos” não surpreendemos só o transcurso de decênios de inconformismo oficinal, na constância de um núcleo ideológico de reiterações; apreendemos o universo compósito de uma atitude que se não deixou muralhar pela esclerose nem alijou o convívio com linguagens, técnicas e movimentos que ousavam além do mimético neonaturalista, do representativismo esquemático, da própria consecução mais perdurável dos neo-realistas.(...)”

Também as personagens de Alves Redol têm características muito próprias. As mulheres vêem sempre sem dote para o casamento, trazendo sempre uma estrutura forte para o trabalho, são normalmente mulheres sem a vaidade feminina habitual, são mais companheiras do que esposas. O universo feminino traz-nos sempre a matriarca da família, pobre, resignada, submissa e colaboradora do homem. A vida para elas é o suor do trabalho, o sorriso dos filhos, a angústia com as aflições do marido, normalmente explorado, desempregado, quase frágil diante delas, mas sempre com a última palavra.
As crianças do universo de Alves Redol são inteligentes, trazendo maliciosamente a marca do inconformismo do autor. Não são raras às vezes que o mundo é visto pela óptica de uma criança (“A Corneta de Barro”, “Os Sonhos” ou “O Comboio das Seis”), onde mergulhamos nos seus sonhos e esperanças diante das limitações sociais e econômicos.
Também o Ribatejo é uma constante na sua obra, já que ali nasceu (Alves Redol é vilafranquense). As histórias passam-se normalmente entre o Vale do Tejo nas mediações de Vila Franca de Xira, da Chamusca, da Golegã, de Salvaterra dos Magos, de Samora Correia, de Alverca, enfim, de uma zona ainda pouca urbana como é atualmente. Para dar mais impacto dramático, normalmente repete parágrafos inteiros, onde traduz-nos uma idéia da consciência ou ironia do tema. O seu explicit é dado em duas linhas, sem maiores reflexões ou meditações.
Dos contos de 1940, podemos dividi-los em três universos de espaço: o mar, o campo e a cidade. Nos contos do mar ou com a temática sobre a miséria dos pescadores, se assim quisermos designá-los, encontramos “A Marca” e “Lua de Pé”. No primeiro - mais uma noveleta do que um conto -, encontramos a descrição das lotas do Tejo, do seu movimento de comércio. Aqui os pescadores sofrem na carne os perigos da profissão, a exploração social é ideologicamente descrita, apesar dos condicionalismos político-ideológicos vividos na época, onde a apertada censura fazia com que o autor usasse de artifícios melodramáticos para fugir talvez dos olhos da repressão. O texto é coberto por metáforas que fogem do naufrágio da redundância para, como já foi dito, o melodrama, a densidade deixa no ar uma sombra de tragédia iminente, como se um acidente fosse acontecer a qualquer momento e a morte tragar a vida de qualquer uma das personagens ultrajadas, exploradas, humilhadas. É como se uma revolução social estivesse próxima de acontecer, mas a força do poder é mais tenaz e a revolta é engolida, mastigada, quase com um gosto de veneno. Logo o clímax da revolta é substituído pelos gritos dos vendedores, das varinas, o anúncio do preço do peixe a mostrar o dia a dia, levando embora qualquer revolta:

A Gracinda do Manco vem à lota pela primeira vez, depois que o marido se finou. Traz com ela os dois filhitos, ensonados e rabugentos. O mais velho, agarrando-lhe as saias, a tiritar, encolhido, camisita rota a cobrir-lhe a barriga bojuda e tostada das soalheiras, sexo destapado, pernas finas e arqueadas. O mais novo - poucos meses ainda - enrola-se-lhe no xaile, rosto sujo de quanta porcaria lhe veio à mão, rameloso, olhos azuis a fixarem-se no Tejo, como retendo lá dentro a miragem de uma tragédia que um dia lhe contarão, quando começar na labuta do rio, como moço de fragata ou aprendiz de pescador.

A linguagem é a do dia a dia dos pescadores, muitas vezes coberta de erros gramaticais pouco inteligíveis para alguém que não viva naquele cotidiano. Encontramos em “Lua de Pé”, o Manco vivo e sem dinheiro, sem pão, sem peixe para pescar. A Gracinda a dar aos filhos o último pedaço de pão, no dia seguinte não iria às compras, pois o crédito nas mercearias tinha-lhe sido cortado. É no meio de todo esse melodrama que o Manco sai para pescar. Numa noite que ninguém se atreveria a sair, lá vai ele, desafiando a todos os perigos para trazer o pão do dia seguinte. A miséria está diante de cada movimento das personagens. A fome é uma sombra devastadora das limitações do mundo e da ideologia da cada personagem. A mulher que sem saída apenas reza aos santos, sem convicção, mas com fé, porque a fé vence as convicções quando estas não superam o vazio da sobrevivência humana. Uma gente abandonada pelo mundo, à deriva dos ventos:

Nossa Senhora na moldura de conchas com o seu menino ao colo. A lamparina a iluminá-la no seu pingo de claridade. E Nossa Senhora sorria-lhe.
Cerrou as portas e caiu de joelhos defronte da cômoda. Silêncio em toda a casa. Os rapazes adormecidos, a pêndula do relógio sem movimento.
Ela e Nossa Senhora. Nossa Senhora a sorrir-lhe.”


Ao deixarmos os contos do mar, vamos encontrar os contos do campo: “Rafeiros” e “A Corneta de Barro”. No primeiro surge-nos a figura de um capataz (Feliciano) e de um cão rafeiro (Tejo), ambos fiéis servidores de um patrão latifundiário. Feliciano e Tejo eram denominados de rafeiros por toda a Vila, devido à sua fidelidade ao patrão. É o exemplo típico da repressão e do canalizador da repressão. O patrão é a repressão e Feliciano o executor da mesma. Novamente a ideologia a ser invocada, de uma forma ainda que velada, mas muito fácil de ser percebida. Feliciano é odiado por todos, até pelas mulheres consideradas da noite, que paradoxalmente entregam-se não a ele, mas àqueles que ele oprime. Ao canal da repressão resta o paradoxo da solidão, compensada pela fidelidade que lhe deposita Tejo, o cão. Daí os dois rafeiros:

Um trazia-lhe as carícias das patas e da língua, e os seus ladridos de júbilo. O outro vinha dar-lhe novas de searas e gados ou de algum alugado mais respingão ou mais sorna no trabalho.”

Em “A Corneta de Barro” novamente o tema do desemprego, do homem agricultor sem terra para cavar. Retrato vivo da época da guerra, onde o trabalho daqueles que serviam nas quintas dos senhores de posse era cada vez mais escasso. No meio de todo o drama social, encontramos a figura obstinada de uma criança que, após ganhar algum dinheiro na vindima, sonha em ter uma corneta de barro. Agarra este sonho com ansiedade e obsessão. Vai até a feira com o pai na mais completa embriaguez do sonho. Finalmente compra com o seu dinheiro o seu primeiro brinquedo. Mas como a fatalidade é a constante nos contos de Alves Redol, ao correr para abraçar a mãe cai e parte a corneta, partindo também o seu sonho. É um conto que poderíamos comparar com “O Cavaquinho” de Miguel Torga, onde uma criança sonha com uma prenda de natal, que o pai, também miserável trabalhador do campo, promete trazer-lhe quando voltar. Como no conto de Alves Redol, o de Torga também termina em tragédia, pois o pai morre quando trazia um cavaquinho para o filho. As duas vertentes dos anos difíceis de Portugal retratadas em temas semelhantes por dois autores contemporâneos: Miguel Torga e Alves Redol.

‘Caminho comprido. Mais comprido que na vinda. Era o primeiro brinquedo seu. E ganho por ele. Bem empregadas canseiras no rabisco. Na Boiça haveria mais brincadeira. Tocaria para o toiro e como os militares. E como o homem do circo, a chamar todo o mundo para a entrada. Mandaria nas brincadeiras, porque a corneta era sua. Acabavam-se os empurrões do Pipio. Se quisessem corneta seria homem da unha, capinha e até cavaleiro. Estava farto de ser boi. Deitado para o chão nas pegas, picado nas esperas. Agora a coisa mudara.’

O Conto dos Sobreviventes da Guerra

E nesse tumultuado 1940 que surge a surpresa do conto “Nasci Com Passaporte de Turista”. Aqui um tema que na época estava no limiar daquela que seria a maior catástrofe da guerra, o anti-semitismo do nazismo. Momento dramático da história, a fuga de judeus da Alemanha de Hitler para os países da Europa Ocidental estava a ser duramente controlada e limitada pelas fronteiras, nenhuma autoridade dos países do ocidente quiseram saber das conseqüências que teria esta recusa, colaborando de uma forma indireta com o grande holocausto. Em Portugal, que devido a sua localização geográfica era o principal país de fuga para o Novo Mundo (América do Norte e América do Sul), Salazar limitou vistos de entrada aos flagelados da Europa ocupada pelos nazistas. Houve um comboio cheio de judeus que ao chegar à fronteira portuguesa, foi selado e mandado de volta para a Alemanha, o seu destino todos nós sabemos qual foi. Em Bordéus, o cônsul português na altura, Aristides de Sousa Mendes, contrariando as ordens de Salazar, forneceu vários vistos que salvaram a vida de muitos judeus. O cônsul foi desonerado pela insubordinação e morreu no desemprego em Portugal, vítima do sistema repressivo que nunca o perdoou, mesmo a saber do extermínio de seis milhões de judeus nos campos de concentração alemães, quando a guerra acabou.
Alves Redol conta-nos a história de Edith, uma jovem judia que é vítima da mudança dos ventos na Alemanha, quando vê da noite para o dia o seu povo ser responsável por todos os males do país. É o conto mais psicológico de Redol, a personagem central é uma mulher diferente das habituais do universo redoliano. A personagem é intimista, o psicológico vai além do ambiente que a gera. A morte da mãe, a prisão no tempo através das lembranças, a sua forma de recomeçar longe do prédio e da janela de onde viu o mundo transformar-se. A linguagem já não é a dos pescadores ou a dos homens do campo. É uma linguagem de uma mulher inteligente, da cidade e do mundo. Edith foge da Alemanha, mas não consegue visto de trabalho para outro país, só consegue visto de turista. É com a amargura da desilusão (não a da guerra, pois o ano é de 1940 e as atrocidades cometidas contra o povo judeu ainda não tinham vindo à luz) que ela vê que jamais irá obter um visto de trabalho, e será nas ruas, com uma identidade qualquer que poderá trabalhar, nas ruas, nas noites, como companheira de ninguém. Certamente se o conto fosse escrito cinco anos depois a denuncia seria outra, a tragédia também. Neste conto a tragédia habitual dá passagem para a realidade da guerra, mais melancólica aqui do que trágica.

Naquela janela da esquerda passei longas horas de meditação, devorando páginas de livros que me emprestavam. Que abismo se abria, se me debruçava no parapeito da janela e olhava os que iam e os que vinham. Aqueles livros não me diziam dos que voltavam a casa de camisolas ensopadas, rostos negros e mãos a abanar.”

Retratos da Miséria Portuguesa na Época do Salazarismo

E os anos quarenta corriam. A guerra exigia definições de posturas de Salazar. Só a partir da invasão da Normandia pelas forças aliadas é que Salazar deixou a neutralidade, apoiando os aliados. Em 1944 surge-nos o conto “Espólio”, onde vamos encontrar a figura caricata e decadente de um velho montado na sua égua, também velha e sem forças. O velho sonha com a mulher morta, nele há a vontade de juntar-se a ela. Do seu espólio só lhe restara a égua Judia e uma casa a ruir. Sonha com a morte, mas não tem coragem para tanto, sonha em vender ou matar a égua, também não tem coragem. Surge-nos um Dom Quixote ribatejano, sem sonhos bons, sem moinhos para voar, sem guerras para fazer, apenas com a companhia da égua:

“Que passassem os outros e se rissem. Ele também se ria deles, pois bem conhecia da vida para ter a certeza que iam enganados. Fossem andando agora, a folgar enquanto era tempo. 'Atrás de tempo, tempo vem'.

Em 1945 iremos encontrar o conto “Os Sonhos”. Um vadio escreve uma carta imaginária da prisão onde está para a sua mãe. Na suposta carta ele relembra da infância miserável, da noite em que a mãe fez sonhos para que ele fosse vender pelo Cais do Sodré. A criança vai vender os sonhos, única fonte que iria gerar comida para o dia seguinte. No caminho encontra um velho mendigo que tem fome, com ele divide os sonhos. Ao chegar em casa sem os sonhos e sem o dinheiro, é castigado pela mãe. Na prisão ele ri da ironia da única vez que fora bondoso e que fora castigado por ser bondoso. Longe de ser um conto de Dickens, é uma ironia portuguesa, sem paga, onde a prisão parece ser a única recompensa:

Diz lá, não te confranjas em confessá-lo. O que lá vai, lá vai. Mas tu achas realmente que eu fui malandro e mereci aquela tareia, quando dei sonhos a um velho desiludido?... Quando dei sonhos a uma criança sem jantar e cheia de tentações?...”

Outra noveleta nos surge em 1946: “O Comboio das Seis”. O comboio é a personagem central. O mesmo comboio que atravessa o Ribatejo, indo parar em Lisboa. Personagens do dia a dia são nos atiradas página a página. Por fim, concentra-se na figura de um menino e a sua primeira viagem de comboio. Primeira e última, pois ao tentar descer do comboio, a criança cai na linha e é atropelada pela máquina, a tragédia novamente faz o explicit da história.
Chegamos a 1949 com dois contos: “O Cravo” e “Romaria”. No primeiro, um rapaz do campo é levado por uma mulher para Lisboa, sendo enfiado nas obras a trabalhar e em um pátio a viver. A inadaptação à vida da cidade é visível, mas ele nada diz. Por fim fica desempregado. Passa o seu tempo de vadiagem a cultivar um cravo, com o qual sente-se transportado outra vez para a vida do campo. A mulher acha-o um vagabundo, e num momento de mesquinhez da alma, parte-lhe o cravo. E toda a revolta do homem concentra-se no cravo despedaçado, que faz com que agrida violentamente a mulher. Em conseqüência ao ato de violência, vai preso por agressão e fica sem os filhos e sem a mulher.
Romaria” traz-nos as festas das aldeias Ribatejanas e a sua importância cultural. Aqui o relato de uma procissão, com todos os seus rituais, crenças e costumes; descrita cabalmente. Assim termina a década de 1940 para o nosso estudo.

A Ebulição dos Tempos no Último Conto

Em 1950 “Tatuagem” traz-nos o inconformismo de Alves Redol. Dez anos depois e as personagens continuam fiéis a si próprias, e o autor mais mordaz na descrição da miséria da comédia humana. O conto retrata os homens que são levados presos para longe das suas aldeias. No caminho encontram um deles que passa o tempo a fazer tatuagens, o que dá uma outra “marca” na vida dos homens. Aqui o paradoxo de “A Marca” e “Tatuagem”, todas elas a cravar na pele a dor da miséria.
Finalmente chegamos a 1968. Tal como a guerra, o salazarismo também começava a ser cercado. A doença do ditador traz esperanças para um momento de liberdade e democracia, mas o povo português teria que passar pela humilhação de uma feroz guerra colonial por mais alguns anos, até que uma primavera de Abril encerrasse de vez um mundo antigo. O último conto de Alves Redol a ser analisado é justamente deste ano, “Três Contos de Dentes Para o Ofício 4001”. Ao contrário da tragédia que sempre utilizou nos seus contos, aqui a sátira aos costumes é o ponto principal. Um presidente de câmara que terá a visita de um governador, mas que não pode sorrir porque tem os dentes em estado lastimável. Daí resolve tirar todos os dentes e pôr uma placa, que irá lhe custar três contos. É justamente a adaptação à placa que é satirizada, quando este tenta fazer um discurso, não conseguindo, pois a placa ou foge-lhe da boca ou quase é engolida. Alves Redol está atento ao tempo e às mudanças, o filho do presidente de direita, que é de esquerda, pois tem um retrato de Che Guevara no quarto. O pai que espanca o filho por este ‘sacrilégio’, mas este foge para a França, justamente a França de 1968. O conto traduz de uma forma brilhante uma época em ebulição, à procura de futuras primaveras democráticas. Assim chegamos à conclusão da importância de Alves Redol como representante do neo-realismo e de uma época que soube sempre se mostrar inconformista, utilizando a escrita, literária ou não, como veículo.

Alves Redol

António Alves Redol é o escritor que sintetiza o movimento Neo-Realista em Portugal, sendo o seu principal representante. Nasceu no dia 29 de dezembro de 1911, em Vila Franca de Xira, distrito de Lisboa. Filho de uma família pobre e humilde, começou a trabalhar muito cedo para manter o seu sustento. Aos 16 anos migrou para Angola, em busca de maiores oportunidades. Ficaria três anos na então colônia portuguesa da África.
Em Portugal, Alves Redol faz oposição ao regime salazarista, integrando-se ao MUD (Movimento de Unidade Democrática). Mais tarde filia-se ao PCP (Partido Comunista Português). Em 1936 passa a colaborar com o jornal “O Diabo”, para o qual escreve contos e crônicas.
Em 1939 publica o seu primeiro romance, “Gaibéus”, nome dado aos camponeses que faziam a ceifa do arroz no Ribatejo, em meados do século XX. Para escrever o livro, o autor chegou a morar no campo, colhendo dado sobre o trabalho daqueles homens. A obra revela uma profunda preocupação social, ainda que restringida pela censura e perseguição política do regime do Estado Novo. “Gaibéus” além de marcar oficialmente o início da carreira de escritor de Alves Redol, consolida também, o Neo-Realismo em Portugal.
Alves Redol tem em suas obras a denúncia das injustiças sociais, transformando-as em um retrato fiel da sociedade que viveu. Graças à militância simpatizante ao PCP, à denúncia latente que ele insistia em acusar para transformar uma sociedade injusta, chegou a ser preso e torturado. Foi o único autor português a ter os seus livros revisados por uma censura prévia. Mesmo perseguido, jamais deixou de militar contra o salazarismo, o que lhe custou a restrição da sua obra, tendo que recorrer a outras atividades para sobreviver.
Alves Redol morreu em 29 de novembro de 1969, sem ver o fim do Estado Novo.

OBRAS:

Romance

1939 – Gaibéus
1941 – Marés
1942 – Avieiros
1943 – Fanga
1945 – Anúncio
1946 – Porto Manso
1949 – Horizonte Cerrado
1951 – Os Homens e as Sombras
1953 – Vindima de Sangue
1954 – Olhos de Água
1958 – A Barca dos Sete Lemes
1959 – Uma Fenda na Muralha
1960 – Cavalo Espantado
1962 – Barranco de Cegos
1966 – O Muro Branco
1972 – Os Reinegros (Publicação Póstuma)

Teatro

1945 – Maria Emília
1948 – Forja
1967 – O Destino Morreu de Repente
1972 – Fronteira Fechada

Contos

1940 – Nasci com Passaporte de Turista
1943 – Espólio
1946 – Comboio das Seis
1959 – Noite Esquecida
1962 – Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos
1963 – Histórias Afluentes
1968 – Três Contos de Dentes

Literatura Infantil

1956 – Vida Mágica da Sementinha
1968 – A Flor Vai Ver o Mar
1968 – A Flor Vai Pescar Num Bote
1969 – Uma Flor Chamada Maria
1970 – Maria Flor Abre o Livro das Surpresas

Argumentos de Filmes

1952 – Nazaré
1975 – Avieiros

Estudos

1938 – Glória – Uma Aldeia do Ribatejo
1949 – A França – Da Resistência à Renascença
1950 – Cancioneiro do Ribatejo
1952 – Ribatejo (Em Portugal Maravilhoso)
1964 – Romanceiro Geral do Povo Português

Conferência

Le Roman de Tage (Edição da Union Française Universitaire – Paris)

CRONOLOGIA

1911 – Nasce, em Vila Franca de Xira, em 29 de dezembro, António Alves Redol.
1927 – Conclui o Curso Comercial.
1928 – Em 5 de abril, parte para Angola, onde fica por três anos.
1932 – Em 5 de junho, é publicado em “O Notícias Ilustrado” de Lisboa, a sua primeira novela, “Drama na Selva”.
1934 – Realiza no Grêmio Artístico Vilafranquense a sua primeira palestra, “Terra de pretos, ambição de brancos”.
1936 – Casa-se com Maria dos Santos Mota. Passa a colaborar para o jornal “O Diabo”. Participa da Conferência sobre arte em Vila Franca de Xira.
1939 – Publica o primeiro romance, “Gaibéus”, consolidando o movimento Neo-Realista em Portugal.
1943 – Nasce o seu único filho, António, em 13 de março, data que coincide com o lançamento do seu livro “Fanga”.
1944 – Preso pelo Estado Novo, em 12 de maio. Durante alguns anos, é o único escritor português a ter a obra submetida a uma censura prévia.
1945 – Em 10 de novembro, é pedido que faça parte da comissão central do MUD (Movimento de Unidade Democrática). Encenada a sua primeira peça, “Maria Emília”.
1947 – Nomeado Secretário Geral da Secção Portuguesa do Pen Club.
1948 – Integra a delegação portuguesa que intervém no Congresso dos Intelectuais para a Paz, em Wroclaw, Polônia. Encenada “Forja”.
1949 – Publica o romance “Horizonte Cerrado”, primeiro volume de uma trilogia sobre os vinhateiros do Douro, conhecida como “Ciclo Portwine” (“Horizonte Cerrado” – 1949, “Os Homens e as Sombras” – 1951, e “Vindima de Sangue” – 1953).
1950 – Recebe o prêmio Ricardo Malheiros pelo romance “Horizonte Cerrado”.
1962 – Publica o romance que é considerado pela crítica como o melhor da sua obra, “Barranco de Cego”.
1963 – Em outubro é preso novamente.
1964 – Mesmo a despeito do regime salazarista em relação à obra de Alves Redol, é iniciada em Vila Franca de Xira grandes comemorações para marcar os 25 anos do lançamento de “Gaibéus”, considerado o marco do Neo-Realismo português. As comemorações estendem-se por todo o país.
1969 – Morre em Lisboa, no dia 29 de novembro.

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