quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A ÉTICA DAS VIRTUDES


O fim do século XX tornou o mundo globalizado, cada vez mais estreitado em suas relações através da tecnologia avançada das comunicações em massa. Várias sociedades interligam-se não só economicamente, mas culturalmente, fazendo com que costumes morais diferentes confrontem-se diante da globalização. É neste contexto que os valores morais do ocidente e do oriente são objetos de estudos, e a questão da Ética torna-se essencial para a conduta de uma sociedade mais justa e unida, quer queira-se ou não, através de uma globalização cada vez mais contundente.
No mundo contemporâneo, ser ético tornou-se um elemento de profunda estratégia de convivência pacífica entre as pessoas, quer no trabalho, quer na sociedade, ou mesmo no país que se vive. Ser ético é buscar princípios e valores morais que garantam a própria sobrevivência do homem e do planeta do qual ele explora para satisfazer o seu conforto. Cada vez mais grandes empresas adotam códigos de ética como garantia de conduta exemplar e para sobreviver às concorrências de um mercado volátil e feroz.
O estudo da Ética é tão remoto quanto à evolução dos tempos, surgindo na Grécia clássica, através dos estudos de Aristóteles, considerado o pai da filosofia da Ética. No século atual dividimos a Ética em antiga e moderna. A antiga, ou Aristotélica, é a Ética das Virtudes, do principio máximo da eudaimonia; a moderna é a ética dos deveres, do bem estar coletivo, da deontologia.
Neste artigo vamos percorrer a Ética Aristotélica, que favorece as escolhas e decisões voltadas para o homem como o seu valor máximo, tendo como objetivo a felicidade do indivíduo dentro de uma sociedade justa, tornando-o um ser virtuoso dentro da Ética das Virtudes.

Ética e Moral

Mas o que é a Ética? E o que é a moral? São palavras sinônimas, mas de significados muitas vezes paralelos, que se encontram na essência vital que o homem tem em sua consciência de valores. A moral traduz-se em um conjunto de normas, costumes, princípios e preceitos dos quais se veste determinados povos, ou determinadas sociedades. Ela transforma-se diante da evolução do tempo e do pensar do homem, conforme as necessidades de sobrevivência do clã. Quando a moral torna-se injusta, obrigando o homem a pensar na mudança dos seus princípios normativos, surge a consciência ética, que traduz a rebelião contra a injustiça, instaurando-se a indignação ética.
É a partir da conscientização e questionamento dos costumes morais, que surge a Ética, a teoria da moral, o seu estudo, que busca de forma filosófica compreender, explicar, justificar e criticar a moral ou as morais vigentes em uma determinada sociedade. A Ética torna-se filosófica e cientifica, enquanto que a moral é o retrato fiel dos costumes que defendem a sociedade diante da sua própria consciência.
Diversas foram as morais através dos tempos, modificadas quando falidas, quando ameaçavam a própria existência de uma sociedade. Um exemplo de mudança substancial nos valores morais da sociedade ocidental foi a abolição da escravatura, que até o século XIX era vista como um mal necessário e perfeitamente justificado moralmente. A indignação ética tornou possível o fim de tão execrável costume entre os povos.
Se os princípios morais mudam de sociedade para sociedade, a Ética, que torna possível a sua compreensão, é universal. Se para o ocidente a poligamia é crime, sujeita a punições penais, entre os povos islâmicos ela é aceita e serve para proteger a mulher, já que o marido é quem a dignifica diante do clã, sendo assim, cada homem pode ter quatro esposas, desde que tenha condições econômicas de manter a todas elas por igual.
Se uma pessoa caminhar nua pela avenida principal da sua cidade, não estará ferindo a consciência ética, mas desrespeitando contundentemente às normas e às morais vigentes, o que não aconteceria se fizesse o mesmo diante de uma tribo de índios do interior da floresta amazônica.
“Aquilo que numa época parece mau, é quase sempre um retolho daquilo que na precedente era considerado bom.” (Nietzche)
Portanto, a moral de cada sociedade é justificada por ela mesma, diferindo entre os costumes de cada uma, continuando vigente até que atendam à sobrevivência de um povo ou de um grupo, vigiada por uma consciência ética perene.

Filósofos Morais Antes de Aristóteles

A sociedade ocidental tem os seus princípios éticos construídos nas bases dos conceitos gregos e judaico-cristãos. A Ética dos povos ocidentais está classificada filosoficamente em cinco grandes tradições: Ética Aristotélica, Ética do Utilitarismo, Ética Kantiana, Ética do Contratualismo e Ética do Relativismo.
Se filosoficamente situamos a Ética dentro das cinco linhas acima, historicamente a Ética ocidental pode ser dividida em Ética grega, Ética judaico-cristã medieval, Ética moderna e Ética contemporânea. Não se pode esquecer que a Ética na história é bem reduzida, pequena diante da moral, que se torna infindável através dos tempos. Cronologicamente a moral modifica-se constantemente, mudando o curso da própria história, enquanto que a Ética permanece mais como filosofia.
Na Grécia antiga encontramos em diversos filósofos a abordagem de reflexões sobre os problemas morais. Aqui surgem os princípios das chamadas éticas humanísticas, que tomam o ser humano como a medida de todas as coisas, seguindo o conhecido axioma do antigo pensador sofista Protágoras (485-410 a.C).
Mas será em Sócrates (470-399 a.C) que nos vamos deparar com reflexões de caráter ético e de preocupação no entendimento do caráter humano. Sócrates põe a Ética como sendo a disciplina na qual deveriam girar as reflexões filosóficas. Considerava a virtude um princípio da inteligência humana; somente o ignorante pratica o mal, pois desconhece o bem. Ao praticar o bem, o homem torna-se naturalmente feliz. As virtudes seriam identificadas pela inteligência, decodificadas por ações fundamentadas nos valores morais da sociedade.
Além de Sócrates, temos outro grande filósofo grego, Platão (427-347 a.C), que indaga os princípios éticos que conduzem o homem na sociedade em que está inserido. Platão associa a sua Ética à metafísica. O homem possui corpo, que o filósofo divide em cabeça, peito e baixo-ventre; e alma, o princípio que o anima, dividida em razão, vontade e desejo. As virtudes são determinadas pela natureza da alma, concentradas na divisão das suas partes. A alma é elevada através da contemplação final do bem, purificando-se e libertando-se da matéria. Alma e matéria relacionam-se em suas divisões, a razão é manifestada na cabeça; a vontade ou ânimo, flui do peito; o desejo, ou apetite, emana-se do baixo-ventre. Quando as três partes do corpo e da alma agem como um todo, o homem torna-se harmônico, constituindo a justiça.

A Ética Aristotélica

A Ética como princípio filosófico tem a sua origem formal com Aristóteles (384-322 a.C), que a organiza como disciplina, formulando os maiores problemas que serviriam de estudos futuros para os filósofos morais. É através de Aristóteles que surge a relação entre a norma e o bem, entre a vida teórica e a prática, entre a ética individual e a social. O princípio aristotélico classifica a virtudes, privilegiando a justiça, a caridade e a generosidade. É a Ética das Virtudes, através das quais o homem alcança a paz e alegria da sua existência, beneficiando com isto a sociedade onde está inserido.
A Ética das Virtudes harmoniza a natureza do homem e a moralidade da sociedade. O homem ético é um homem virtuoso, sendo a virtude uma força vital. O mais virtuoso é o mais capaz de realizar-se como homem, atingindo a felicidade absoluta. A Ética Aristotélica é a Ética da Eudaimonia, palavra grega que quer dizer felicidade, bem-estar e sucesso, derivadas da harmonia entre os componentes da alma.
Aristóteles une a sua Ética à política. O homem é um ser pensante, que para ser feliz precisa do ar, da comida; precisa viver em sociedade e em ambiente político para que possa exercer os princípios morais, portanto é um animal social e político. O homem só pode viver na cidade ou em comunidades, somente os deuses e os animais selvagens não precisam da comunidade política para viver.
A Ética das Virtudes tem a sua concepção na Grécia antiga, cuja religião é politeísta e os seus deuses têm características humanas. O homem está voltado para a sua natureza.
A Ética das Virtudes tem em paralelo, várias filosofias morais, como o Estoicismo, nome herdado do local onde Zenão de Cítio (340-264 a.C.) costumava fazer os seus encontros filosóficos, a stoá, a parte coberta do mercado de Atenas. No Estoicismo o homem é feliz quando aceita o seu destino com resignação, sem perturbar a harmonia estabelecida. O homem virtuoso é aquele que sabe moderar os seus desejos e aceita o seu destino.
O Epicurismo foi outra filosofia moral que surgiu já na decadência do antigo mundo grego. Sua escola propagava que o homem só alcançaria sentido e significado à vida, se buscasse o que lhe desse prazer ou felicidade. Este movimento filosófico teve como mestre o ateniense Epicuro (341-270 a.C). A partir das suas idéias surgiu o Hedonismo (do grego hedoné, prazer), concepção filosófica moral que assume o prazer como principio dos costumes normativos.
Com a cristianização de Roma no século IV, e conseqüentemente, do mundo ocidental, a Ética Aristotélica, ou das Virtudes, passará a ser conhecida como Ética Antiga. Os deuses greco-romanos são extintos. Deus torna-se único, ser supremo e sem traços da imperfeição humana, sendo apenas Ele digno da adoração humana. O cristianismo concretiza o monoteísmo judaico e dá passagem para a Ética dos Deveres. A exigência moral deixa de questionar como o homem deve viver para atingir a eudaimonia, passando a perguntar como deve fazer para atingir os princípios morais. O critério moral já não é a virtude, mas o dever, e a prioridade intelectual já não é o bem, mas o justo.

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