quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

ÍNDIA - OS ÚLTIMOS AGUDOS DO DESBUNDE DE GAL COSTA


Depois de passar pelo sucesso do show “Gal a Todo Vapor”, que deu origem ao disco de 1971, Gal Costa só voltaria a lançar um novo álbum em 1973. E para os cabeludos undergrounds que encheram a platéia do show, Gal Costa voltava mais uma vez renovada, em outra atmosfera além das limitações do desbunde e da contracultura. Com o fim do milagre brasileiro e a crise econômica mundial gerada pelo petróleo, os tempos já não eram de abundância, e a repressão cultural e ideológica era acirrada. Sem a fartura do milagre, desbundar já não era tão agradável para mascarar a falta de liberdade da ditadura. A morte do estudante de geologia da USP Alexandre Vanucchi Leme (o Minhoca), reacende o movimento estudantil, que convida Gilberto Gil para uma apresentação na Politécnica. O show, uma homenagem ao estudante morto e um protesto à repressão, teria 30 minutos, durou 3 horas, apesar da vigilância da polícia. Gilberto Gil apresentou a sua nova canção de protesto feita em parceria com Chico Buarque “Cálice”.
Em 1973 a Phonogram realizou com todo o seu elenco o festival Phono 73, no Palácio de Convenções do Anhembi, de 11 a 13 de maio. “Cálice” foi proibida, na hora da apresentação a censura cortou o som e não se ouviu a interpretação de Chico Buarque e Gilberto Gil. Ficaria proibida até 1978, quando Chico Buarque finalmente a gravou, tendo a participação especial de Milton Nascimento. No Phono 73 Gal Costa canta em duo com Maria Bethânia “Oração de Mãe Menininha” (Dorival Caymmi), seu maior sucesso de massas daquele ano.
Ainda no fatídico e agitado ano de 1973, Gal Costa grava o compacto com a canção “Três da Madrugada” (Torquato Neto – Carlos Pinto), que acompanhava o livro “Os Últimos Dias de Paupéria”, poemas de Torquato Neto, o Anjo Torto da Tropicália, que se matara em novembro de 1972, em homenagem póstuma. 1973 registra, ainda, o fenômeno “Secos e Molhados”, banda sob o comando de Ney Matogrosso, que parou o Brasil.
É nesse clima que numa atmosfera folk-glitter o álbum “Índia” é lançado no segundo semestre. Gal Costa que naquele ano traz a sensualidade à flor da pele, faz um ensaio seminua na praia com Marisa Alvarez Lima, para a revista Pop.
Já a distanciar-se do desbunde, “Índia” é um álbum definitivo, traz nove faixas essenciais no universo galcostiano, com interpretações de uma cantora que crescia a cada novo álbum, surpreendendo sempre.

Intimismo Telúrico

Sensual também é a capa do álbum “Índia”, com fotografias de Antonio Guerreiro, traz um close frontal de Gal Costa vestida com um pequeno biquíni vermelho, na contra capa a cantora aparece de seios nus, vestida como uma índia. A censura vetou a exposição da capa e o disco foi vendido nas lojas dentro de um plástico opaco, azul, a esconder a beleza sensual das fotos.
Longe dos holofotes de musa do desbunde, Gal Costa surpreende logo na abertura do álbum, ela resgata um antigo sucesso guarani do repertório de duplas sertanejas: “Índia” (J. A. Flores – M. O. Guerrero – versão José Fortuna). Em 1973 a musa do underground a cantar uma canção sertaneja era além de inusitado, um ato de coragem em arriscar. Numa recriação musical de Rogério Duprat, a canção sofre uma ruptura histórica. Deixa de ser assimilada a interpretações masculinas e de duas vozes, perde a sua verve sertaneja para ganhar a voz definitiva de Gal Costa e dos seus agudos, como se a música tivesse sido feita para ela, e nunca tivesse existido antes da sua interpretação. Os arranjos dão um tom épico à canção, quase que lembram um filme. Gal Costa começa com uma interpretação contida, intimista, depois vai crescendo, até encontrar o apogeu da música. “Índia” passou a ser definitiva no repertório de Gal Costa, tamanha assimilação que quando a cantora foi dar shows em Portugal em 1986, teve que incluir a canção no repertório por exigência do público português. Gal Costa revisitaria “Índia” por mais duas vezes, em “Gal Tropical” (1979) e “De Tantos Amores” (2001). Anos mais tarde a cantora declararia que esta era a música preferida do pai, e que esta gravação era uma singela homenagem a ele.
Uma canção genuinamente do folclore lusitano, “Milho Verde” (Folclore Português – adaptação Gilberto Gil), perde a essência básica lusitana e adquire aqui um agradável som africano, e Gal Costa homenageia as suas raízes portuguesas.
Após o sucesso de “Pérola Negra”, Gal Costa ganha uma canção inédita do seu autor : “Presente Cotidiano” (Luiz Melodia), a canção traz um certo gosto de existencialismo do desbunde, traz uma conotação da força do sexo que perturba a censura. Momento telúrico do álbum, num intimismo revelador da cantora. A música é proibida de ser executada em público (nas rádios), segunda censura sobre o álbum. Numa época de muita tortura, achar o corpo natural da cama era ofensivo para quem pensava em sangue, não em sexo. Talvez pela proibição, a canção não teve o impacto de “Pérola Negra”, mas traz uma Gal Costa visceral, provocadora.

Últimos Agudos do Desbunde

Percorrendo uma interpretação intimista, temos “Volta” (Lupicínio Rodrigues), mostrando a cantora em um universo que a gíria da época chamava de fossa ou dor-de-cotovelo, e o mundo lupiciniano é o puro sofrimento dos amores infelizes (ele mesmo é chamado de compositor da dor-de-cotovelo). Na sua voz doce, Gal Costa canta o abandono como uma menina triste e solitária, quase como um cálido gemido.
Mas como a musa do desbunde ainda reina em Gal Costa, duas canções de um existencialismo mais leve permeiam o álbum: “Relance” (Caetano Veloso – Pedro Novis) e “Pontos de Luz” (Jards Macalé – Waly Salomão), a primeira é um animado jogo de palavras que dão dois sentidos propostos e opostos, numa interpretação frenética, de uma jovialidade existencial contagiante.

“Prove, reprove
Clame, reclame
Negue, renegue
Salte, ressalte
Bata, rebata
Fira, refira
Quebre, requebre
Mexa, remexa
Bole, rebole
Volva, revolva
Corra, recorra
Mate, remate
Morra, renasça”

“Pontos de Luz” é um quase bem-estar de torpor delirante, talvez a canção mais fraca da dupla Macalé-Salomão gravada pela cantora, que faz aqui quase que uma despedida definitiva de Gal Costa com o desbunde.

De Caetano Veloso a Tom Jobim

Da Maior Importância” (Caetano Veloso) nos devolve Gal Costa caetaneando da forma que só ela pode e sabe fazer. Um dos melhores momentos do disco. A música traz uma letra longa, com expressões acentuadamente datadas (“Deve haver uma transa qualquer” – na época a gíria “transa” não se referia ao que hoje está relacionada ao ato sexual, uma pessoa transada, uma transa, uma roupa transada, nos anos setenta, era algo ou alguém que estava bem, na moda, de bom gosto – ou “você não teve pique” – não teve garra, enfim, expressões típicas dos anos setenta) que não diminuem a beleza perene da canção. Segundo Gal Costa, a música teria nascido de uma tarde de sol no famoso Píer, num affair relâmpago entre ela e o autor, que não foi além das dunas da Gal, mas se perpetuou nas dunas da MPB e da interpretação da sereia.
Lírica, bucólica, doce é Passarinho” (Tuzé de Abreu), canção que Gal Costa transforma em singela, terminando com “pios” de um pássaro livre, sem a melancolia da acauã ou a cegueira do assum preto, apenas um passarinho na hora do vôo em águas limpas da voz da cantora:

“Cantar Como um passarinho
De manhã cedinho
Lá na galha do arvoredo
Na beira do rio
Bate as asas, passarinho
Que eu quero voar”

E Gal Costa voou. Voou do underground, da mística do desbunde e da contracultura e pousou na sua primeira interpretação do mestre soberano, “Desafinado” (Tom Jobim – Newton Mendonça). Termina o álbum totalmente, belissimamente bossa nova. Casamento perfeito da sua voz com o violão de Roberto Menescal, e o universo jobiniano. Fecha o ciclo do desbunde e avisa como voltará no próximo álbum, leve e reciclada, eternamente índia, eternamente Gal Costa.

Ficha Técnica:

Índia
Philips
1973

Direção de produção: Guilherme Araújo
Direção de estúdio e coordenação: Edu Mello e Souza
Técnicos de som: Luigi (Rio), Marcus Vinícius (São Paulo)
Estúdios: Phonogram (Rio), Eldorado (São Paulo)
Fotos externas: Antonio Guerreiro
Fotos internas: Mario Luiz T. de Carvalho
Capa: Edinizio Ribeiro
Palavras destaque: Waly Salomão
Direção musical: Gilberto Gil
Violão e violão 12 cordas: Gilberto Gil
Violão em “Desafinado”: Roberto Menescal
Acordeom: Dominguinhos
Guitarra: Toninho Horta
Contrabaixo: Luiz Alves
Bateria: Roberto Silva
Percussão e efeitos: Chico Batera
Percussão em “Milho Verde”: Chacal
Órgão: Wagner Tiso (“Pontos de Luz”, “Presente Cotidiano”)
Órgão em “Volta”: Tenório Jr
Arranjos e regências: Arthur Verocai (“Pontos de Luz”, “Presente Cotidiano”)
Regência das Cordas em “Índia”: Mário Tavares
Recriação de “Índia”: Rogério Duprat

Faixas:

1 Índia (J. A. Flores - M. O. Guerrero - versão José Fortuna), 2 Milho verde (Folclore português – adaptação Gilberto Gil), 3 Presente cotidiano (Luiz Melodia), 4 Volta (Lupicínio Rodrigues), 5 Relance (Pedro Novis - Caetano Veloso), 6 Da maior importância (Caetano Veloso), 7 Passarinho (Tuzé de Abreu), 8 Pontos de luz (Jards Macalé - Waly Salomão), 9 Desafinado (Newton Mendonça - Tom Jobim)

Veja também:


TROPICÁLIA:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2007/11/tropiclia.html
GAL COSTA:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2007/12/gal-costa.html
FA-TAL – GAL A TODO VAPOR: O ÁLBUM DA GERAÇÃO DO DESBUNDE:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/01/fa-tal-gal-todo-vapor-o-lbum-da-gerao.html
TEMPORADA DE VERÃO - AO VIVO NA BAHIA: TRÊS VOZES DO BRASIL:
hhtp://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/04/temporada-de-vero-ao-vivo-na-bahia-trs.html
GAL COSTA 1969, O ÁLBUM QUE FECHOU 1968:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/05/gal-costa-1969-o-lbum-que-fechou-1968.html
GAL 1969: O PSICODÉLICO:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/07/gal-1969-o-psicodlico.html
LEGAL: EXISTENCIALISMO UNDERGROUND:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/10/legal-existencialismo-underground.html
GAL CANTA CAYMMI – O ENCONTRO DE DOIS BAIANOS:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/08/gal-canta-caymmi-o-encontro-de-dois.html
CANTAR – SOFISTICADA BOSSA NOVA DE GAL COSTA:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/09/cantar-sofisticada-bossa-nova-de-gal.html

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

DE MARTIN LUTHER KING A BARACK OBAMA


A vitória de Barack Obama nas eleições para presidente dos EUA em 2008, encerrou uma fase da participação do negro na história daquele país, iniciando outra, que à partida, desencadeou uma grande esperança de florescimento humano e intelectual no mais alto poder político da nação mais poderosa do planeta nos tempos contemporâneos.
Todas as atenções do mundo voltaram-se para a vitória de Obama, que causou comoção pelo inédito na história dos EUA, pela tenaz esperança de um novo tempo que se abre. Não que Obama seja um estadista pronto para mudar uma nação e o mundo, mas a sua eleição é a própria mudança na visão de um povo, que muitas vezes foi intransigente, reacionário e racista na condução da sua política interna e externa. Obama é a vitória de várias vertentes inéditas, primeiro negro a ser presidente do seu país, primeiro homem com raízes islâmicas acentuadas, e com a África histórica recente em seu DNA, distante dos afro-americanos, cuja origem do continente negro perde-se na distância dos séculos.
Quarenta anos antes da eleição de Obama para presidente, o líder negro Martin Luther King era assassinado por um branco furioso, racista e temente que os negros americanos alcançassem os seus direitos. Pregando a luta intensa pelos direitos civis dos negros, o pastor batista seguia os princípios de Gandhi, lutar, mas sem violência, algo quase que impossível numa época que o negro norte-americano não podia votar em alguns estados da união, não se podia sentar nos bancos da frente dos ônibus coletivos, não podiam freqüentar grandes universidades e, eram vítimas da violência de organizações racistas como a Ku Klux Klan.
Se a luta de Martin Luther King começou com a luta pelo direito do negro poder sentar-se em qualquer banco de um ônibus, ela estendeu-se por todas as vertentes da injustiça que se fazia aos seus, tomou proporções de sonhos e vitórias, suas palavras conquistaram o mundo, incomodou os mais radicais racistas e culminou com o seu assassínio em 1968. Quarenta anos depois, o sonho de liberdade e igualdade de Martin Luther King vingou, quando Barack Obama foi eleito presidente, ele negro e filho de pai muçulmano.

O Negro Americano Através da História

A história do negro nos EUA, assim como no restante do continente americano, iniciou-se com a escravidão, quando foram capturados e comprados na África, trazidos e vendidos nas Américas. Com o tempo, os EUA tinham o maior número de escravos do mundo, segregados e sem direito algum. O desenvolvimento industrial chegou apenas para o norte do país, o que dispensou a mão de obra de escravos negros, o mesmo não acontecendo no sul, região essencialmente agrícola, dependente do trabalho escravo para as suas lavouras. As diferenças econômicas entre o norte e o sul, a questão da escravidão, dividiriam profundamente o país, levando-o a uma guerra civil na segunda metade do século XIX, conhecida como a Guerra da Secessão.
No início da Guerra da Secessão, em 1861, havia 19 estados onde a escravidão era proibida e 15 estados onde a escravidão era permitida. Em 1860 Abraham Lincoln venceu as eleições para presidente, durante a campanha discursara contra a escravidão: “Metade livre, metade escrava”, o que levou os sulistas a temer que ele a abolisse de vez. Em 4 de março de 1961, antes que Lincoln assumisse a presidência, 11 estados que mantinham a escravidão declararam secessão da União, formando um novo país, os Estados Confederados da América. No dia 12 de abril, a guerra civil tinha início, só terminando em 1865, com a rendição dos confederados.
Após o fim da guerra civil, que deixaria marcas indeléveis nos estados sulistas, os americanos aprovaram a 13ª Emenda à Constituição, ratificada no fim de 1965, pondo fim oficialmente à escravidão nos EUA. Em 1968, era aprovada a 14ª Emenda, dando ao governo federal poderes amplos para obrigar os Estados a fornecerem proteção igualitárias às leis. Em 1870, a 15ª Emenda dava aos negros americanos do sexo masculino e maiores de idade, o direito ao voto, direito que não se estendeu para todo o país até meados da segunda metade do século XX.
Mesmo libertados, os negros americanos continuaram discriminados, perseguidos e sem um lugar definido na sociedade estadunidense. Com o fim da Guerra da Secessão, o sul continuaria ocupado por tropas do norte até 1877. Empobrecidos pela guerra, acostumados com a escravidão como realidade secular, os sulistas sentiram-se humilhados quando a União pôs, durante a ocupação, diversos negros libertos em importantes posições do governo dos estados do sul. Este desconforto, movido por um ódio racial latente, permitiu que surgissem sociedades secretas que empregavam a violência e a perseguição aos negros americanos, defendendo com veemência a segregação racial. Dessas sociedades, destacaram-se a dos Cavaleiros da Camélia Branca e a Ku Klux Klan.

Um País na África Para os Negros Americanos

Mesmo antes da guerra civil, no começo do século XIX, debatia-se nos EUA o destino dos escravos libertos naquele país. Na época duas idéias eram defendidas, e nenhuma delas pensava na integração do negro na sociedade norte-americana.
A primeira idéia, defendida por representantes do governo, queriam que se desse a liberdade aos escravos e que eles fossem reconduzidos à África. Um segundo grupo defendia a idéia de que os negros não tinham condições de se enquadrar no sistema capitalista, e era exaltada pelos cidadãos brancos. Assim, nascia em 1816, a American Colonization Society, organização criada por Robert Finley, cujo objetivo era levar para a África os antigos escravos negros e os negros nascidos livres, eliminando-se o problema do negro nos EUA, evitando-se o “perigo” de casamentos entre raças nos país, ou a criminalidade.
A American Colonization Society adquiriu na África, em 1821, um grande território perto da área do Cabo Mesurado, lugar ideal para enviar os negros livres dos EUA. Em 1824 a colônia foi chamada de Libéria (do latim, terra livre), e nela foram fixados os negros oriundos da América do Norte. Em 1847, a colônia declarou a independência, adotando símbolos norte-americanos na bandeira, lema e brasão de armas, além de uma constituição copiada da dos EUA. O primeiro presidente da Libéria foi Joseph Jenkins Roberts, um negro nascido no estado da Virginia. A Libéria nasceu com o objetivo de abrigar os negros livres dos EUA, ficando no país só os escravos, segregados e sem direitos, até que se abolisse a escravidão, em 1865.

O Protesto de Rosa Parks

Com o fim da escravidão, o negro foi, aos poucos, integrando-se como cidadão estadunidense, apesar de violenta pressão de uma segregação racial declarada. No século XX os EUA firmar-se-iam como a nação mais poderosa do planeta. Sua formação populacional era essencialmente de imigrantes europeus, além da contribuição africana e dos índios nativos.
O afro-americano teve que conquistar os seus direitos diante de uma sociedade declaradamente racista. Esta luta veio à tona em 1 de dezembro de 1955, quando
Rosa Parks negou-se a ceder o seu assento em um ônibus a um branco. Este ato desencadearia o processo de uma longa luta anti-racista que se travaria nos EUA, com proporções irreversíveis.
O marco da luta anti-racista deu-se em Montgomery, capital do Alabama, onde os primeiros assentos de bancos dos ônibus coletivos eram, por lei, reservados aos passageiros brancos. Os negros só podiam sentar-se nos assentos de trás. No dia 1 de dezembro de 1955, Rosa Parks, ao retornar do trabalho, tomou um desses ônibus de volta para casa. Cansada, Parks, ao lado de outros três negros, sentou-se nos assentos reservados. Quando passageiros brancos entraram, o motorista (também ele branco), exigiu que Rosa Parks e os três negros levantassem dos assentos e desse lugar aos bancos. Os outros obedeceram, mas Rosa Parks negou a cumprir a ordem, continuando a ocupar o assento, sendo por isto detida e levada à prisão.
A coragem de Rosa Parks, o seu protesto silencioso, repercutiu-se rapidamente, desencadeando grandes protestos. O Conselho Político Feminino, em solidariedade a ela, organizou como medida de protesto contra a discriminação racial, um boicote aos ônibus urbanos. A causa ganhou a adesão daquele que, a partir de então, tornar-se-ia o maior defensor dos direitos civis dos negros americanos, Martin Luther King Jr.
Milhares de negros aderiram ao boicote, recusando-se a andar de ônibus na ida e na vinda para o trabalho, caminhando muitas vezes quilômetros a pé, acenando e cantando pelas ruas, enquanto que eram agredidos física e verbalmente pelos brancos. Além de Martin Luther King, várias outras personalidades conhecidas apoiaram o boicote, entre elas o músico ativista Harry Belafonte e a cantora gospel Mahalia Jackson, que fez vários shows beneficentes para ajudar ativistas do movimento que estavam presos. Durante o boicote, as empresas de transporte coletivo amargaram com prejuízos cada vez maiores.
Pouco menos de um ano após o protesto de Rasa Parks, no dia 13 de novembro de 1956, a Suprema Corte dos EUA aboliu a segregação racial nos ônibus coletivos de Montgomery. Algumas semanas depois, a nova lei entrou em vigor na capital do Alabama e, no dia 21 de dezembro daquele ano, Martin Luther King e o sacerdote branco Glen Smiley, entraram juntos em um ônibus, ocupando lugares na primeira fila de assentos.
Rosa Parks seria, em 1999, condecorada pelo então presidente Bill Clinton, com a medalha de ouro do congresso estadunidense. Estava na época com 88 anos de idade.

Martin Luther King Firma-se Como Liderança

O reverendo Martin Luther King foi o negro que mais se engajou na luta pela igualdade dos direitos entre brancos e negros nos EUA, sua luta estender-se-ia pelas décadas de 1950 e de 1960, alcançando grandes vitórias. Como ativista, ele conseguiria atrair para si o amor e o ódio de grandes massas.
A luta de Martin Luther King iniciou-se quando os Estados Unidos, em combate à expansão do poderio soviético pelo mundo, promovia a Guerra Fria. Nação rica e poderosa, concentrava uma população fechada em seus valores e símbolos nacionais, movidos por um patriotismo exacerbado e por um forte sentido de racismo. Contraditoriamente, os americanos consideravam-se o modelo de democracia e liberdade para o mundo, e ao mesmo tempo, classificavam os seus habitantes de acordo com a raça. Na segregação de um país profundamente racista em suas raízes, os negros sofriam discriminações no aspecto social, na economia e na política. Em muitos lugares não podiam votar, tinham os trabalhos de menor remuneração, sendo chamados pejorativamente de “nigger” ou “boy”, as agressões dos brancos era uma rotina que não encontrava um eco para que fosse encerrada, não havendo leis que condenassem a discriminação.
Quando Rosa Parks foi presa por negar a levantar-se de um assento em ônibus destinado a brancos, Martin Luther King, pastor da cidade, conclamou o boicote dos negros aos transportes coletivos. A partir de então, em um ano tornou-se conhecido em todo o país, assumindo a liderança do movimento negro estadunidense. Seguiram-se marchas de protesto, cerceadas pela violação consciente da legislação racista, como freqüentar salas de esperas, restaurantes, lojas, museus, praças e teatros reservados a brancos. Tais protestos geravam uma violenta repressão policial, mas jamais intimidou o movimento de Martin Luther King e as suas lideranças adjacentes. Entretanto, o reverendo não deixava de advertir aos seus seguidores que não deixassem que os protestos degenerassem em violência.

Vitórias e Adversidades

As conquistas dos direitos dos negros eram lentas, mas definitivas. Em 1957 nove estudantes negros obtiveram nas cortes da União o direito de estudar na Escola Central de Little Rock, Arkansas, lugar em que as escolas eram todas segregadas. No primeiro dia, entre insultos e ameaças, foram proibidos pelos brancos de entrar na escola. Por ordem da Guarda Nacional, retornaram para casa. Em resposta ao desacato à justiça federal, o então presidente Dwight Eisenhower dissolveu a Guarda Nacional do Arkansas, enviando tropas de pára-quedistas para garantir a entrada e o estudo dos nove alunos negros em Little Rock. Quando o ano letivo terminou, os racistas da cidade preferiram fechar a escola de que aceitar negros nela. Outras escolas do Arkansas e do sul seguiram o exemplo.
O estudante James Meredith conseguiu através das cortes federais, em 1962, o direito de ingressar na Universidade do Mississipi, o estado racialmente mais conservador dos EUA. Mesmo sendo impedido algumas vezes de entrar no campus, por interferência do próprio governador, Meredith ingressou escoltado por agentes federais, e a corte federal instituiu uma multa diária de 10 mil dólares por cada dia que ele fosse impedido de assistir às aulas. Uma conflagração de civis e estudantes brancos na universidade terminou com a morte de 2 pessoas, 28 agentes federais feridos à bala e 160 feridos entre a população. No dia seguinte, o então presidente John Kennedy, enviou tropas do exército que garantissem a entrada e a permanência de Meridith na universidade.
Foi diante de todas as dificuldades descritas acima, que a liderança de Martin Luther King explodiu por todo o país. O líder negro manteve sempre a filosofia de protestos não violentos, mesmo quando 1100 líderes radicais do movimento negro exigiram, na Black Power Conference, em 1967, a divisão dos EUA em dois, para brancos e para negros.
Em agosto de1963, Martin Luther King organizou ao lado de Phillip Randolph e Bayard Rustin, a maior aglomeração pacífica realizada nos EUA, 250 mil pessoas, brancas e negras, vindas de todos os cantos do país, marcharam sobre Washington, realizando um dia de discursos, cantos e protestos a favor da igualdade dos direitos civis para todos os cidadãos.
Em 1964, Martin Luther King foi galardoado com o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços pacíficos pelo fim da segregação racial e pelos direitos civis dos negros nos EUA. A premiação deu grande visibilidade internacional ao reverendo e à sua luta, o que gerou incômodo e ódios entre os mais conservadores dos seus opositores. No meio do ódio, Martin Luther King escaparia por um triz de dois atentados à sua vida.
Em 1965, Martin Luther King liderou passeatas e manifestação na cidade de Selma, no Alabama, em prol do direito dos cidadãos negros a registrarem-se com votantes. Durante uma manifestação, o pastor e vários manifestantes foram presos. Choques entre negros e brancos resultaram em tumultos com mortos e feridos. As cenas transmitidas pela televisão, causaram grande indignação por todo o país, o que levou o presidente Lyndon Johnson a conseguir aprovar junto ao congresso a Lei do Direito de Voto, de 1965. O direito de voto negro mudou definitivamente a face da política do sul do país, com a eleição de negros já em 1966, nos estados mais racistas da região, como o Mississipi.
Mas se Martin Luther King pregava a não violência em seus protestos, outros grupos negros de luta não pensavam igual. Em 1966 surgiu o movimento Black Power (Poder Negro), um grupo liderado por Storkely Caemichael, que pregava a violência e a necessidade de defesa dos negros diante dos ataques sofridos pela Ku Klux Klan, no sul do país. A partir de então, os negros sulistas passaram a enfrentar de armas nas mãos a violência sofrida, o que levou a Klan a desistir de aterrorizar os habitantes negros da região. Os Black Power enfrentavam a violência através da violência, passaram a difundir o orgulho de ser negro, ganhando maior identidade cultural, exigindo que não mais fossem chamados de negros, mas de afro-americanos.

“Eu Tenho Um Sonho”

O ano de 1968 foi um dos mais violentos nos EUA, com grandes protestos contra a Guerra do Vietnã, que passava a perder a razão ideológica para ser vista como um grande fracasso da maior nação do planeta. Se em 1967 espalhou-se que a guerra não duraria mais de um ano, no ano seguinte via-se a derrota ante os comunistas vietnamitas, vazava-se a notícia de que o exército enviaria mais 200 mil homens para o combate, o que significava mais baixas e mais mortes de jovens estadunidenses. Os ânimos acirraram-se e Lyndon Johnson foi obrigado a desistir de tentar a reeleição naquele ano.
Foi neste violento e confuso ano de 1968 que, a 4 de abril, o maior líder negro da história do século XX norte-americano, o Prêmio Nobel da Paz, Martin Luther King, seria definitivamente silenciado, sendo assassinado em Menphis, Tennessee. Vinte e quatro horas antes da sua morte, ele pronunciou o célebre discurso profético, em que anunciava ter avistado a terra prometida:
“Talvez eu não consiga chegar com vocês até lá, mas quero que saibam que o nosso povo vai atingi-la.”
Aos 39 anos, Martin Luther King era morto por um racista branco. Foi abatido a tiros na sacada de um hotel em Menphis. Anos mais tarde, um processo civil que correu no Tennessee, chegou à conclusão de que membros da máfia e do governo norte-americano engendraram o seu assassínio.
A morte de Martin Luther King provocou comoção e consternação internacional. Como conseqüência, as inquietações raciais agravaram-se em Washington e Chicago. Em junho, a mesma violência atingiu Robert Kennedy, candidato à presidência e, também ele, assassinado. Em 1983, a terceira segunda-feira de janeiro (data próxima do nascimento do pastor, 15 de janeiro) foi feita feriado nacional, em homenagem ao reverendo assassinado.
Martin Luther King tornou-se o ícone da luta do negro pelos direitos civis e igualdade, seu célebre discurso entraria para a história da humanidade como um dos mais belos em prol das causas humanistas. Sua frase “Eu tenho um sonho”, ecoou durante quatro décadas, até que Barack Obama, filho de um economista muçulmano queniano e de uma estadunidense, um negro, chegasse à presidência dos Estados Unidos. O sonho de Martin Luther King, a chegada da sua gente à terra prometida, concretizaram-se finalmente.

sábado, 27 de dezembro de 2008

ADEUS, MENINOS (AU REVOIR LES ENFANTS) - LOUIS MALLE


Há momentos da história que a força bruta, a crueldade opressiva, o preconceito e a insensatez dos homens vingam sobre a humanidade, gerando guerras sangrentas e de efeitos irreversíveis. Adeus, Meninos (Au Revoir les Enfants), escrito, produzido e dirigido por Louis Malle, é um filme que com sensibilidade expressiva, mostra um desses momentos negros da história, a Segunda Guerra Mundial.
Filme de 1987, Adeus, Meninos é o retrato de uma França ocupada pelos nazistas, dividida entre os que resistiam à ocupação e os que a aceitavam passivamente, até colaborando com os invasores, delatando e denunciando vizinhos, amigos e patriotas.
No meio do preconceito gerado pela insanidade nazista, esteve a perseguição e o extermínio ao povo judeu. O filme de Louis Malle traz uma história delineada em fatos reais, vividos pelo diretor aos 12 anos, quando ele estudava em um colégio carmelita perto de Fontainebleau. Traz a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, mas o cenário é um colégio católico, internato de crianças ricas francesas. A amizade de Julien Quentin (Gaspard Manesse) e Jean Bonnet (Raphael Fejto), o primeiro, um menino cristão de família rica, o segundo um menino judeu refugiado no colégio para fugir à perseguição nazista, comove pela sua ingenuidade juvenil, sincera diante de tempos de preconceito e obscuridade. O perigo é iminente, mas a amizade de ambos suaviza o fantasma devastador da guerra. Mesmo diante da tragédia que se instalará a qualquer momento, há tempo para a descoberta da amizade, da adolescência que assim como os nazistas, está à porta, da intelectualidade da vida, das diferenças culturais e, principalmente, do grande amor fraterno que une as pessoas em momentos de penúria e perigo. Mesmo diante de uma temática com um fim pungente, Louis Malle constrói uma história forte e lírica, com uma sensibilidade ímpar e delicada, sem em momento algum se prostrar diante do melodrama, sem recorrer ao sentimentalismo óbvio, fazendo do filme um dos melhores da década de 1980, e um dos melhores do cinema francês de todos os tempos.

Amizade Nascida à Sombra da Guerra

No inverno francês de 1943-44, a França está completamente ocupada pelas tropas de Hitler, sendo os seus habitantes submetidos ao poder nazista, sofrendo grandes dificuldades por conta dessa ocupação. A Segunda Guerra Mundial está em sua plenitude. É neste cenário histórico movido pela guerra que nos surge Julien Quentin, menino de 12 anos, filho de uma rica família do norte da França. Após as festas natalinas em casa, ele retorna ao colégio interno católico de St. Jean-de-la-Croix, lugar que considera tedioso, de uma rotina asfixiante, onde a maioria dos colegas lhe tem animosidade, pois Julien leva os seus estudos a sério, recebendo elogios dos professores. Oitenta meninos estudam no colégio, numa época de inverno, enfrentam não só o frio rigoroso, mas os bombardeios, a opressão dos nazistas, a falta de abundância de comida, até mesmo o mercado negro que controla os produtos essenciais.
Julien sente a falta de casa. Suas aulas parecem sem novidades até o padre Jean (Philippe Morier-Genoud), o diretor, aceitar três novos alunos. Entre os novos está Jean Bonnet, da mesma idade e turma que Julien.
O entediado Julien fica intrigado com Bonnet, por sua introspecção e assim como ele, também marginalizado pelo resto da classe. Se a princípio os dois não se dão bem, com o tempo eles se aproximam, criando um ínfimo vínculo próximo da amizade.
Estreitados laços entre dos dois meninos, uma noite Julien descobre que Bonnet usa um solidéu e faz uma oração em hebraico. A revelação é simples, Bonnet é judeu, ele e vários outros meninos do colégio são acolhidos pelos padres para protegê-los da perseguição dos nazistas, evitando que sejam enviados como prisioneiros para os campos de concentração. A descoberta de Julien não o afasta de Bonnet, não influencia a amizade de ambos, pelo contrário, a sensação do perigo envolvendo o segredo, une-os ainda mais.

O Católico e o Judeu em Tempos da Ocupação Nazista

Feita a revelação do segredo de Bonnet, são delineados o motivo e as personagens do filme. Julien é católico, filho de uma tradicional família francesa, dono de uma excepcional força de personalidade e carisma, que emprestará ao solitário companheiro. Bonnet é judeu, a condição diante da guerra acentua-lhe a inteligência e a disciplina como vertentes de sobrevivência, é apaixonado por livros, por onde tenta decifrar o mundo dos adultos. Bonnet está no colégio com nome falso e foragido, vivendo no limiar de uma situação de pânico
Se Julien vive a saudade da família, que viu recentemente no natal, quando esteve em casa, com Bonnet não acontece o mesmo. O pequeno judeu está sozinho, perdera a direção da família, levada pelos nazistas, não sabe do paradeiro dos entes queridos, mas a platéia que assiste ao filme desconfia, pois sabe da existência dos campos de concentração da história.
Na força que traz a amizade de Julien, Bonnet vence a solidão, voltando a ser ele mesmo, resgatando sonhos juvenis, de uma infância que se esvai diante de uma adolescência que se desponta. A inocência infantil dilacerada pela crueza da guerra, é devolvida diante da amizade dos dois. Por alguns instantes, em meio a um tempo asfixiante, tornam-se dois meninos normais, sonhadores, donos de uma beleza de personalidades ímpares, longe do cenário da guerra.
A história cresce diante da visão de dois jovens, nas sensações que vivenciam, na metamorfose da criança para o adolescente. Juntos, Julien e Bonnet visitam, às escondidas, a sala de música; lêem secretamente o livro “Arabian Nights”, procuram com afinco um tesouro nas matas aos arredores do colégio.
Louis Malle relata com rara beleza a amizade profunda de Julien e Bonnet, sem esquecer em momento algum a época de medo que se vive, repleta de angústias e incertezas. Não nos deixa distrair que se vive em um mundo transformado pela guerra, dos efeitos devastadores que ela trouxe para as pessoas que faziam parte daquele tempo. Esta sensação é captada pelo expectador, que sente as tensões humanas vividas pelas personagens, traduzidas pelas sombras da adolescência e da guerra, aqui indivisíveis. Malle não relata um filme de guerra, mostra-nos uma história de amizade passada durante a guerra e o preço que se paga diante dela.

O Adeus aos Companheiros

A amizade entre Julien e Bonnet é breve, mas intensa, definitiva, como todos os grandes acontecimentos que envolvem a infância. É esta infância perdida em todos nós, que acentua tão bem o filme, que faz dele uma comovente e nostálgica ode à amizade, que será interrompida bruscamente, mediante a denúncia de um rancoroso empregado do colégio à Gestapo, revelando-lhes que ali havia a presença de crianças judias.
A partir daí o desfecho é inevitável, quase uma tragédia anunciada. Se a crueldade da guerra e os efeitos de uma nação ocupada são apenas sugeridos, a partir da denúncia, elas tornam-se paradoxalmente mais onipresentes do que se Malle trouxesse imagens explícitas.
Julian e Bonnet serão cruelmente afastados, quando soldados nazistas invadem o colégio, prendendo Bonnet, dois alunos judeus e o padre Jean, diretor responsável pelo internato. Neste momento dramático final, quase que se respira a tragédia, que é captada com extrema delicadeza por Malle através dos olhares e silêncios repletos de significados. Trejeitos arrancados dos atores revelam a indignação sugerida, a opressão sem limites, e, finalmente, a perda da inocência. Julien, ao ver o seu amigo ser levado pelos nazistas, já não é a criança inocente de outrora, entra definitivamente na adolescência. Bonnet, ao lançar um olhar de despedida para Julien, é definitivamente arrastado pela guerra, a caminho de uma morte que não se vê, mas que bem é sabido, aconteceu a milhares de judeus. É o momento silencioso de Bonnet dizer adeus.
No pátio, as crianças estão alinhadas, ao ver o padre Jean e os três meninos conduzidos pelos nazistas, começam a gritar: “Au revoir, seg. Pére (adeus, senhor padre)”, ao que ele responde: “Au revoir les enfants. A bientôt!”. Revela-se o eufemismo do título. Numa narrativa final, um Julien mais velho, conta que jamais se esqueceu daquele dia, que das três crianças enviadas para os campos de concentração, nenhuma sobreviveu, assim como padre Jean. Encerra-se uma obra-prima do cinema, e como diriam alguns críticos, de um grande humanista.

Um Filme Humanista

Adeus, Meninos é um dos mais belos filmes de todos os tempos. Louis Malle viveu esta história aos 12 anos, levou 43 anos para conseguir contá-la diante dos ecrãs do cinema. Com grande sensibilidade, a sua memória não se esqueceu em momento algum de reproduzir os encantos da infância e as amizades nela feita, mesmo diante de situações de hostilidade política e opressão ideológica.
O filme é um encontro da própria França com a sua história, um acerto de contas de uma nação que ocupada pelos nazistas de 1940 a 1944, teve grande parte da sua população a colaborar com os invasores, perseguindo e delatando muitos que fizeram parte da resistência. O próprio cinema francês, vê no filme de Malle uma análise de consciência do seu povo, numa época dúbia do comportamento de muitos patriotas que, em nome da sobrevivência, perderam a identidade de uma nação e renderam-se aos invasores, muitos por medo, outros tantos por simpatia ao regime de Hitler.
A beleza do filme de Louis Malle está em um roteiro bem estruturado, numa esmerada e natural direção de fotografia de Renato Berta, numa direção afiada e competente, além de um excelente elenco, que trouxeram interpretações simples e contidas, mas encantadoras. É o filme de estréia no cinema da bela Irène Jacob, então com 21 anos, que se tornaria a musa de Krzysztof Kieslowski.
Adeus, Meninos concorreu e ganhou vários prêmios por todo o mundo, entre eles: o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1987; concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, perdendo para o não menos belo “A Festa de Babette”; ao Globo de Ouro, também como melhor filme de língua estrangeira; arrebatou sete Prêmios César, na França, entre eles o de melhor filme e o de melhor diretor.
Merecidamente galardoado com vários prêmios, é um dos mais belos filmes de todos os tempos, conseguindo ser poético ante a um ambiente inóspito de guerra. Sua atmosfera nostálgica vai além do lirismo que se emana, fazendo-o grandioso, sem ser uma grande produção. Um filme humanista.

Ficha Técnica:

Adeus, Meninos

Direção: Louis Malle
Ano: 1987
País: França, Alemanha Ocidental
Gênero: Drama
Duração: 103 minutos / cor
Título Original: Au Revoir les Enfants
Roteiro: Louis Malle
Produção: Louis Malle
Música: Franz Schubert e Camille Saint-Saens
Direção de Fotografia: Renato Berta
Desenho de Produção: Willy Holt
Direção de Arte: Willy Holt
Figurino: Corinne Jorry
Edição: Emmanuelle Castro
Estúdio: Stella Films / MK2 Productions / NEF Filmproduktion / Nouvelles Éditions de Films
Distribuição: Orion Classics
Elenco: Gaspard Manesse, Raphael Fejto, Francine Racette, Stanislas Carré de Malberg, Philippe Morier-Genoud, François Berléand, François Négret, Peter Fitz, Pascal Rivet, Benoît Henriet, Richard Lebouef, Xavier Legrand, Irène Jacob
Sinopse: França, inverno de 1944. Julien Quentin (Gaspard Manesse) é um garoto de 12 anos que freqüenta o colégio St. Jean-de-la-Croix, que enfrenta grandes dificuldades devido a Segunda Guerra Mundial. Lá ele se torna o melhor amigo de Jean Bonnet (Raphael Fejto), um introvertido colega de classe que Julien posteriormente descobre ser judeu. A tragédia chega à escola quando a Gestapo invade o local, prendendo Jean, outros dois alunos e ainda o padre responsável pelo colégio.

Louis Malle

Louis Malle, francês, grande diretor de cinema, nasceu em Thumeries, a 30 de outubro de 1932. Formou-se em Ciências Políticas, na Sorbonne, mas foi no cinema que se revelaria para a França e para o mundo. No início da carreira foi assistente de Robert Bresson e de Jacques Cousteau, com quem dirigiu o documentário O Mundo do Silêncio, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1956.
Por possuir um estilo diferente da geração de cineastas de seu país que formavam a nouvelle vague, Malle conviveu à margem, sendo rejeitado por Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Françoise Truffaut.
Louis Malle dirigiu trinta longas-metragens, construindo uma carreira cinematográfica sólida, retratando filmes com temas polêmicos, críticos aos valores burgueses do século XX. Conseguiu emoldurar as angústias sociais humanas geradas por um século dividido entre guerras e revoluções de costumes. Nos seus filmes encontramos temas como o suicídio (Trinta Anos Esta Noite, 1963), a liberação feminina (Os Amantes, 1958), o incesto (O Sopro no Coração, 1971) e a pedofilia (Menina Bonita, 1978). Suas obras sofreram cortes da censura, algumas causaram constrangimentos os seus compatriotas, como Lacombe Lucien.
Louis Malle foi um dos poucos diretores franceses bem sucedidos em Hollywood. Foi casado com a atriz Candice Bergen. Morreu em Beverly Hills, EUA, em 23 de novembro de 1995, vítima de um câncer.

Filmografia de Louis Malle:

1953 – Crazeologie
1954 – Station 307
1956 – Le Monde du Silence (O Mundo do Silêncio) - Co-Direção com Jacques Cousteau
1958 – Ascenseur pour l’Échafaud (Ascensor para o Cadafalso)
1958 – Les Amants (Os Amantes)
1960 – Zazie dans le Mètro (Zazie no Metro)
1962 – Vie Privée (Vida Privada)
1962 – Vive le Tour
1963 – Le Feu Follet (Trinta Anos Esta Noite)
1964 – Bons Baisers de Bangkok (TV)
1965 – Viva Maria!
1967 – Le Voleur (O Ladrão Aventureiro)
1968 – Histoires Extraordinaires
1969 – L’Inde Fantôme
1969 – Calcutta
1971 – Le Souffle au Coeur (O Sopro do Coração)
1974 – Place de la République
1974 – Humain, Trop Humain
1974 – Lacombe Lucien
1975 – Black Moon (Lua Negra)
1976 – Close Up
1977 – Dominique Sanda ou Le Revê Éveillé (TV)
1978 – Pretty Baby (Menina Bonita)
1980 – Atlantic City
1981 – My Dinner with André (Meu Jantar com André)
1984 – Crackers
1985 – Alamo Bay (A Baía do Ódio)
1986 – God’s Country (TV)
1986 – And the Pursuit of Happiness (TV)
1987 – Au Revoir, les Enfants (Adeus, Meninos)
1990 – Milou en Mai (Loucuras de Primavera)
1992 – Damage (Perdas e Danos)
1994 – Vanya on 42nd Street (Tio Vânia em Nova York)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

ORIGEM DO NATAL


O Natal é juntamente com a Páscoa, a festa mais importante do cristianismo. As duas datas celebram, respectivamente o nascimento e a morte de Cristo. Quanto à morte de Cristo, não paira nenhuma dúvida, visto que foi julgado e crucificado nas comemorações da Páscoa judaica por volta do ano 27 ou 33 d.C.. O mesmo não acontece com a data do nascimento, pois não há nenhuma referência ao dia nos quatro evangelhos que registraram a vida de Cristo.
Sem registro de uma data de nascimento, o aniversário de Cristo, comemorada pela maioria das igrejas cristãs no dia 25 de dezembro, é uma usurpação da data de nascimento de Mitra, o deus touro persa, deus solar, cultuado na Roma antiga como “Sol Vencedor”.
As comemorações das Saturnálias (festas em honra ao deus romano Saturno), que culminavam com a comemoração do nascimento de Mitra, após o solstício de inverno no hemisfério norte, eram as festas pagãs mais tradicionais de Roma. Mesmo depois da cristianização do poderoso império, as tradições pagãs não se renderam à nova religião, o que levou a igreja primitiva cristã a transformar as festas nas comemorações do nascimento de Jesus Cristo, estabelecendo assim, o dia 25 de dezembro como a data natalícia oficial.
Originário das festas pagãs, o Natal, poderosa e importante festa do mundo cristão, nada mais é do que a adaptação da festa de um deus proscrito e esquecido, o misterioso deus solar Mitra, senhor do sol em um mundo incondicionalmente pagão.

Cristo Teria Nascido na Primavera ou no Verão

Para explicar a data de nascimento de Cristo, é preciso que se procure pistas no nos evangelhos cristãos. Dos quatro evangelhos, apenas o de Lucas faz uma breve referência sobre a possível época do ano que Cristo nasceu:

“E ela deu à luz o seu filho, o primogênito, e o enfaixou e deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles no alojamento.
Havia também no mesmo país pastores vivendo ao ar livre e mantendo de noite vigílias sobre os seus rebanhos.
(Lucas 2:7-9)

Considerando este registro, anula-se totalmente a possibilidade do nascimento ter acontecido em dezembro. Se os pastores ainda estavam nos campos, cuidando dos rebanhos, é sinal de que a data era na primavera ou no verão. O mês judaico que corresponde a novembro e a dezembro é o de Kislev, sendo um mês frio e chuvoso, o que impossibilita que se encontre pastores nos campos, à noite e ao ar livre. O mês seguinte Tevet (correspondente aos meses de dezembro e de janeiro do calendário Gregoriano), é quando ocorrem as temperaturas mais frias do ano, com nevadas ocasionais, o que impossibilitava aos antigos ficar nos campos ao ar livre, principalmente no período noturno.
Diante de estudos mais específicos, mediante ao relato de Lucas, aos fatos de que evidenciavam a presença dos pastores ainda nos campos durante a noite, aos arredores do local onde Maria dera à luz, conclui-se que, 25 de dezembro, pleno inverno, não pode ser a data do nascimento de Cristo, que se teria dado na primavera ou no verão. Considerando-se que Cristo viveu 33 anos e meio, morrendo entre 22 de março e 25 de abril, esta data torna-se definitivamente impossível de ser a do seu nascimento.

Origem das Festas de Dezembro na Roma Antiga

A história do Natal começa sete mil anos antes do nascimento de Cristo, sendo tão antiga quanto às próprias civilizações. A festa tinha como motivo a celebração do solstício de inverno no hemisfério norte. No dia do solstício, tem-se a noite mais longa de todo o ano, a partir dessa madrugada de dezembro, o sol fica cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão. Para as civilizações antigas, o solstício de inverno era o momento do renascimento do sol, marcando a vitória gradual da luz sobre as trevas. Os dias mais longos significavam a volta das farturas aos campos, culminando com as boas colheitas.
Na Mesopotâmia, as comemorações da volta dos dias longos a partir do solstício de inverno, eram celebradas durante doze dias. O mesmo solstício relembrava no Egito antigo, a passagem do deus Osíris para o mundo dos mortos. Nas ilhas Britânicas, as festas do solstício aconteciam em volta do monumento de Stonehenge, que marcava a trajetória do sol ao longo do ano. Na Grécia o solstício marcava o culto a Dioniso, deus do vinho e da embriaguez. Na Pérsia o solstício marcava o nascimento de Mitra, deus sol e do renascimento, representado sempre ao lado de um touro.
No século IV a.C., o culto ao deus Mitra chega à Europa. Muitos séculos depois, os soldados romanos viraram ardorosos adoradores do deus, levando a divindade para Roma, estendendo a sua veneração a todo o império. Os romanos festejavam a data de nascimento de Mitra no dia 25 de dezembro, data do solstício de inverno no antigo calendário Romano (no calendário atual a data que se dá o solstício é no dia 20 ou 21, conforme o ano).
Com o tempo, Mitra tornou-se um dos deuses mais venerado de Roma. Na data do seu nascimento, 25 de dezembro, os romanos comemoravam o nascimento do menino Mitra, o invicto, deus que trazia o alvorecer de um novo sol. Na data os sacerdotes faziam sacrifícios ao deus, a população entrava em festa, as famílias trocavam presentes dias antes, grandes comilanças e orgias aconteciam durante as comemorações do nascimento de Mitra. O culto ao deus que trazia a luz ao mundo é o que dá origem ao Natal cristão.
Outra grande festa pagã realizada na Roma antiga em dezembro, era a Saturnália, que homenageava ao deus Saturno, tendo a duração de uma semana. Tornando-se a festa mais sagrada da Roma antiga, Mitra ganharia a celebração exclusiva do Festival do Sol Invicto, fechando oficialmente a Saturnália.

A Cristianização das Festas do Solstício

Quando Constantino converteu o império romano ao cristianismo, não conseguiu acabar com as tradições pagãs, principalmente as festas em homenagem a Mitra, tão populares e entranhadas nas tradições dos romanos. Com a ausência de uma data específica que apontasse o nascimento de Cristo, o dia 25 de dezembro foi adotado para que coincidisse com as festividades do nascimento do deus sol invicto. Assim, a igreja cristianizou a mais importante das festividades pagãs, transformando-a em um ícone do mundo cristão.
Registros do almanaque romano apontam o Natal cristão celebrado em Roma já no ano de 336 d.C.. Como o Império Romano era imenso, na sua parte oriental, comemorava-se em 7 de janeiro o nascimento de Cristo, ocasião tida como a do seu batismo. Já no século IV, as igrejas ocidentais passaram a adotar oficialmente o dia 25 de dezembro para o Natal e o dia 6 de janeiro para a Epifania (manifestação), comemorando-se nesse dia a visita dos magos. Usurpava-se, assim, a data do nascimento do deus persa Mitra, transformando-a na festa mais importante do mundo cristão, ao lado da Páscoa.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

OS DIAS DA SEMANA


Perde-se nos anos a origem da divisão do tempo em semanas. Com precisão, sabe-se que os povos antigos inspiraram-se na duração das fases lunares para demarcar o período semanal de sete dias (“septmana” – semana).
A origem do nome de cada dia da semana deve-se aos deuses ou aos astros das religiões precedentes ao cristianismo. Com exceção da língua portuguesa, que aboliu os nomes primitivos dos dias da semana, todos os outros países cristãos conservam a nomenclatura pagã, onde cada dia era dedicado a um astro ou a um deus da mitologia local de cada cultura.
Na língua portuguesa, os nomes dos dias da semana seguem a liturgia católica desde que Martinho de Braga tomou a iniciativa de abolir os nomes pagãos, no século VI, denominando-os na semana da Páscoa de dias santos, que não se deveria trabalhar, assim, durante àquela semana, acrescentar-se-ia a palavra "feriae", originando-se os nomes litúrgicos que se estenderiam não só na semana santa, mas durante todo o ano.
Mesmo diante da cristianização do ocidente, é pela nomenclatura pagã que cada dia da semana é chamado pela maioria dos povos, não importando a língua. Deuses ou astros, os dias, ainda hoje, representam o marco do tempo pelo homem, o seu encontro com um calendário imaginário que o situa na história, revelando-lhe as origens, as religiões primitivas diretamente ligadas ao céu dos astros.

Os Dias a Partir dos Astros

Demarcada pelas fases da Lua, a origem dos dias da semana estava diretamente ligada aos fenômenos astronômicos e climáticos, além dos conceitos religiosos de cada povo. Na concepção judaica, Deus criara todas as coisas em seis dias, no sétimo descansara, portanto o homem como imagem do criador, também deveria contar os dias em sete.
É na época da expansão do Império Romano que a definição dos dias da semana encontram-se com diversas culturas. Na antiguidade os planetas conhecidos, por ordem decrescente da distância da Terra eram: Saturno, Júpiter, Marte, Vênus e Mercúrio, que formavam cinco esferas, acrescidas a elas vinham mais duas esferas: uma que continha o Sol e outra, a Lua. Tendo como referência os sete astros, iniciando a contagem pela Lua (sempre em ordem decrescente) e pondo o Sol ao centro do sistema, deparar-nos-emos com esta ordem astrológica: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua.
Além das sete esferas formadas pelos astros citados acima, havia uma oitava, a das estrelas. No centro dos sete astros e das estrelas encontrava-se a Terra, com os seus quatro elementos: terra, ar, água e fogo. Quatro são os ventos, quatro são as divisões da Terra, quatro são os elementos. Assim, o quadrado era o símbolo da perfeição, sendo sempre igual de qualquer lado que é visto. A partir da perfeição do quadrado simbólico, voltando à ordem astrológica descrita acima, conta-se até quatro, a partir de Saturno (incluindo-o na contagem), até chegar ao Sol e temos o primeiro dia (Sunday); a partir do Sol (incluindo-o), conta-se até quatro e chega-se à Lua (Monday, Lunes, Lundi, Lunedi); seguindo a contagem de quatro a partir da Lua, chega-se a Marte (Mardi, Martes, Martedi); conta-se quatro a partir de Marte e chega-se a Mercúrio (Miércoles, Mercoledi, Mercredi); a partir de Mercúrio conta-se quatro e chegamos a Júpiter (Jeudi, Jueves, Giovedi); conta-se quatro a partir de Júpiter e chega-se a Vênus (Vendredi, Viernes, Venerdi); e, finalmente, conta-se quatro a partir de Vênus e chegamos a Saturno (Saturday).
Uma vez feita a identificação, temos a origem dos nomes dos dias da semana, ou seja, Domingo é o dia do Sol, Segunda-Feira o da Lua, Terça-Feira o de Marte, Quarta-Feira o de Mercúrio, Quinta-Feira o de Júpiter, Sexta-Feira o de Vênus e, Sábado, o de Saturno.
Com a cristianização, como já foi dito, só Portugal aboliu à nomenclatura pagã. Apenas dois dias foram abolidos desta nomenclatura pelos outros países de origem de língua latina (Espanha, França e Itália), o Sábado e o Domingo. O Sábado, de Sabbatum, é um nome de origem do hebreu Shabbat, o dia sagrado para o povo judeu, considerado o dia em que Deus descansou da sua obra grandiosa. O dia de Saturno foi substituído pelo Shabbat hebreu (Sábado, Samedi e Sabato nos restantes países latinos). O Domingo, instituído pelo imperador Flavio Constantino após a sua conversão ao cristianismo, deixou de ser o dia do Sol em todas as línguas de origem latina, sendo denominado Dominica Dies, que evoluiu para Dominus Dei (Dia do Senhor), evoluindo para Domingo, Dimanche e Domenica.

A Concepção dos Dias a Partir do Concílio de Nicéia

Com a conversão de Constantino (280-337 d.C.) ao cristianismo, Roma passa a repudiar o paganismo milenar disseminado pelo seu império. Esta conversão aconteceu na época do Papa Silvestre I. É a partir daí que são organizados os registros de datas como chegaram aos dias atuais.
Em 325 d.C., Constantino convocou o Concílio de Nicéia, à revelia do Papa Silvestre I, que dele não participou. A partir de então foram definidas inclusive as datas do dia de Natal e da Páscoa, esta última deixando definitivamente de ser associada à data comemorativa dos judeus. Constantino mudou o nome litúrgico do antigo dia do Sol, agora Prima Feria, para Domenica Dies, que evoluiria para Dominus Dei, dando origem ao nome Domingo, em português. Desde então, o Domingo passou a ser o primeiro dia da semana do calendário cristão, tornando-se o dia de reunião de fé e de mercado, até então compartilhadas no sábado entre judeus e cristãos.
Era interesse tanto de Constantino, quanto de Silvestre I, que todos os povos abolissem a nomenclatura pagã relativa aos dias da semana. Na época a Páscoa era comemorada por toda a semana, dando origem a sete feriados consecutivos. Durante a Páscoa, os dias eram chamados de “feriae” no latim (traduzido para “feira” no português), a semana adotava a nomenclatura: Prima-Feira, Segunda-Feira, Terça-Feira, Quarta-Feira, Quinta-Feira, Sexta-Feira e Sábado.
Silvestre I tentou que esta nomenclatura fosse adotada para além da Páscoa. Mas ela logo foi esquecida e, à exceção do Sábado e do Domingo, os antigos nomes pagãos continuaram a fazer parte do cotidiano dos povos cristãos, jamais sendo abolidos, prevalecendo as tradições, não a nova fé que se assumia comum aos reinos europeus.

Origem da Nomenclatura dos Dias da Semana em Inglês

Os nomes dos dias da semana, tanto em inglês, como em alemão e outras línguas do norte da Europa, têm a sua origem na mitologia nórdica e na adoração dos seus deuses pagãos, marcados principalmente pela força e bravura guerreira.
Em inglês o dia de Saturno continuou a vigorar, Saturday, mesmo depois da cristianização, assim como o dia do Sol, Sunday, e o dia da Lua (moon), Monday, substituindo-se os outros dias pelo nome dos deuses nórdicos.
Marte, deus da guerra dos romanos, foi substituído pelo deus Tyw, divindade maneta, senhor da força e da guerra. A Terça-Feira foi consagrada a este deus, ficando denominada Tuesday.
Mercúrio, o astuto deus dos comerciantes e dos ladrões, mensageiro dos deuses, foi substituído por Odin ou Wedin, deus da mitologia escandinava, ou Wotan, o mais poderoso dos deuses entre os germanos, com equivalência ao Zeus grego. A Quarta-Feira ficou denominada Wednesday (do deus Wedin).
Se a Quinta-Feira era na mitologia romana, consagrada ao poderoso Júpiter, aqui ele é substituído pelo deus escandinavo Thor, também ele deus do trovão, sendo Thursday o “dia de Thor”. Na literatura germânica o deus do trovão é traduzido por Donner, daí a designação de Donnerstag para a Quinta-Feira.
Finalmente a Sexta-Feira, consagrada à deusa do amor e da beleza, Vênus, era destinada à deusa Freya, a bela esposa de Odin, deusa do amor, da juventude e da morte na mitologia nórdica, daí a designação de Friday em inglês, e, Freitag em alemão (tag em alemão significa dia).

Os Dias da Semana em Português

Como já foi dito, Portugal foi o único país do mundo que adotou os dias da semana com a nomenclatura surgida no Concílio de Nicéia, derivados do latim eclesiástico. Sendo o português a última das línguas romanas a se formar, isto ajudou a que a língua não adotasse a nomenclatura pagã de outros povos.
Em 563 Martinho de Dume (ou Martinho de Braga), reuniu o Concílio de Braga, em Braga (hoje cidade portuguesa). Considerando ser indigno dos bons cristãos que se continuasse a chamar os dias da semana pelos nomes latinos de deuses pagãos, decidiu que se usaria a terminologia eclesiástica para os designar. Assim ficaram registrados: Feria Secunda, Feria Tertia, Feria Quarta, Feria Quinta, Feria Sexta, Sabbatum, Dominica Dies; evoluindo para a nomenclatura atual: Segunda-Feira, Terça-Feira, Quarta-Feira, Quinta-Feira, Sexta-Feira, Sábado e Domingo, constituindo assim, caso único nas línguas novilatinas, que substituiu integralmente a terminologia pagã pela terminologia cristã.
A “Feriae” (dia de descanso), termo latino, evoluiu para “feira”, vindo a ser usada a designação não só na semana da Páscoa, mas durante todos os dias do ano. Com exceção do Sábado, derivado do Shabbat hebreu, e do Domingo (então Prima Feria na semana da Páscoa), todos os outros dias em língua portuguesa vieram da derivação do latim eclesiástico.
Quanto ao dia considerado santo, ou tido como feriado, ele diverge entre as três principais religiões monoteístas do mundo contemporâneo, o islamismo, o judaísmo e o cristianismo. Se o conceito da criação divina do mundo não tem divergências entre as três, vários outros conceitos de fé fizeram com que os dias de reuniões de fé e de descanso fossem diferentes, sendo a Sexta-Feira (muçulmanos), o Sábado (judeus) e o Domingo (cristãos), os dias assinalados e consagrados pelos monoteístas.

Veja também:

CALENDÁRIOS DA HUMANIDADE:

http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2007/12/calendrios-da-humanidade.html

domingo, 21 de dezembro de 2008

LENDAS LUSITANAS


Portugal é o país mais ocidental da Europa, sendo também um dos mais antigos em suas fronteiras. A conquista do território foi feita aos muçulmanos (chamados de mouros), que dominaram a península Ibérica por quase mil anos. Antes da formação da nação portuguesa, vários povos habitaram o lugar, entre eles os lusitanos, pescadores e camponeses primitivos, que enfrentaram bravamente o domínio e a opressão dos romanos.
Sendo um país tão antigo, foram muitas as lendas que se criaram para contar tão extensa história. Lendas medievais, lendas ainda mais antigas; chegaram aos nossos dias as mais belas narrativas que contam a saga de um povo e da sua nação, formadora de uma cultura lingüística que se estendeu pelos quatro cantos do mundo. Da antiga Lusitânia ao Portugal de hoje, chaga-nos um acervo de personagens maravilhosas, algumas trazidas das páginas de Homero, outras do imaginário medieval, das páginas cantadas pelos trovadores.
Olisipo, a Cidade de Ulisses” é uma das lendas mais cultivadas pelo povo português. É a história da fundação de Lisboa, que segundo a tradição lendária, teria sido feita pelo herói homérico Odisseu (Ulisses), que na sua trajetória errante após o fim da guerra de Tróia, perder-se-ia por vinte anos pelos mares europeus. O herói grego teria atravessado as Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar), alcançando a desembocadura do rio Tejo, deparando-se com o reino de estranhas criaturas metade mulheres, metade serpentes. Olisipo, a cidade mítica de Ulisses, seria mais tarde Lisboa, a bela capital portuguesa.
A Dama Pé de Cabra” resgata o período de conquista das terras lusitanas aos muçulmanos, chamados de mouros. A luta por esta conquista foi sangrenta, o que fazia o povo cristão a sentir que efetuava uma guerra santa, cada mouro morto por sua espada, significa recompensa na terra e nos céus medievais. Esta lenda traz a figura do diabo, tão temida e tão comum no cotidiano do homem medieval. Entre as guerras e os medos dos demônios, surgia uma nação jovem, cristã e destinada à expansão através do mundo.
O Galo de Barcelos” retrata um dos símbolos mais populares de Portugal. Várias são as versões da lenda, mas todas elas remetem para um único final: a ressurreição de um galo assado, que com o seu canto vivo efetuaria a justiça e repararia a injúria diante dos injustiçados. É uma lenda sucinta, mas com forte teor de se ver através dela o cumprimento de todas as leis, fundindo-se entre as leis sacras e as leis dos homens, tornado-se um uno inquestionável.
Três lendas de beleza universal, que nos remete para diversos momentos de uma história imaginária e repleta de aventuras seculares, que fariam dos lusitanos grandes navegadores e descobridores de mundos diversos, infinitos aos olhos humanos.


Olisipo, a Cidade de Ulisses

Há muito tempo atrás, em um ponto remoto do calendário, existia um promontório que recebia o desembocar do Tejo. Era um reino inóspito, muito além das Colunas de Hércules, conhecido pelo nome de Ufiusa, a terra das serpentes. Este reino formado por serpentes, tinha como rainha um estranho ser, metade mulher, metade serpente, que trazia um rosto belíssimo, dona de um olhar feiticeiro e de uma voz quase de criança.
Senhora absoluta do seu reino, a rainha mulher-serpente costumava visitar o alto de um monte e gritar ao vento as palavras que ecoavam por todo o Tejo:
-Este é o meu reino! Só eu governo aqui, mais ninguém! Nenhum homem atrever-se-á pôr aqui os pés. Ai do que ousar! As minhas serpentes não o deixarão respirar um só minuto!
Assim correram os anos. Até que um dia surgiu errante, com os ventos, o grego Ulisses (Odisseu). O rei da Ítaca, herói da Tróia destruída, tão logo terminara a guerra, por um capricho dos deuses, navegava perdido pelo Mediterrâneo sem fim. Um dia os barcos de Ulisses foram soprados para muito além das Colunas de Hércules, vindo a entrar pela desembocadura de um imenso rio ao qual chamavam de Tejo, aportando no reino de Ufiusa. Tão logo chegou àquelas terras, o grego deslumbrou-se com a sua beleza, com a suavidade das suas brisas, o sabor das suas frutas e o gosto doce das águas do Tejo. Ofuscado por tanta beleza, Ulisses reuniu os seus homens, declarando potente a todos eles:
-Aqui, onde a natureza mostra-se tão pródiga, edificarei a mais bela cidade do mundo! Dar-lhe-ei o meu nome... será Ulisseia, capital das belezas do mundo!
Assim foram edificados os primeiros alicerces da sua cidade. Mas a terra que tanta beleza trazia aos olhos do grego, mostrou-se traiçoeira diante das serpentes que deslizavam por elas. Muitos dos homens da tripulação tombaram envenenados por picadas das serpentes, outros desapareciam, vitimados por armadilhas traiçoeiras. Cada vez mais o inimigo oculto ladeava Ulisses. Diante de estranhos inimigos, o valente rei da Ítaca clamou:
-Por todos os deuses do Olimpo, eu vos desafio, inimigo invisível e traiçoeiro. Aparecei das sombras, mostrai a vossa face e desafiai-me corpo a corpo!
Mas o inimigo continuou oculto, Ulisses só continuava a ouvir os silvos das serpentes, que vinham como uma sinfonia noturna. Assim o perigo rondava Ulisses e os seus homens, que cada vez mais tombavam envenenados. Irritado, Ulisses bradou com todas as suas forças:
-Traiçoeiro inimigo, podeis tentar tudo o que quiserdes, mesmo assim não abandonarei esta terra sem aqui deixar a mais famosa cidade edificada que se tenha notícia!
Foi então que a rainha das serpentes, profundamente atraída pelo valente guerreiro, revelou-se a ele. Surgiu do disfarce de uma rocha, com a sua voz de criança e formosura na sua face de mulher, escorregadia na sua metade serpente.
-Bem vindo ao reino das serpentes, conhecido por Ufiusa! Sois valente e ousai a enfrentar aos súditos deste reino, do qual sou a rainha soberana e absoluta!
Ao ver a revelação da rainha, Ulisses apercebeu-se da face do misterioso inimigo, finalmente revelada. Uma vez revelado-lhe o inimigo, o grego já não o temia. Viu na voz doce da mulher o sibilar das serpentes, refletida no olhar amargo.
Já apaixonada por Ulisses e por sua valentia, a rainha percebeu que a sua rendição não iria acontecer. Não mais esperava por ela, pelo contrário, decidira que queria o guerreiro para sempre em seus reinos.
-Durante dias esperei por vossa rendição. A vossa coragem foi superior, o que atraiu a minha admiração! Sei do vosso sonho de aqui edificardes uma cidade! Pois bem, eu vos permito a realização desse sonho, com uma condição: a de cá ficardes para sempre!
Enigmático, Ulisses sorriu-lhe, sem jamais lhe dar uma resposta com palavras, meneando a cabeça, como se concordasse. Com o consentimento da rainha das serpentes, Ulisses passou a edificar a sua cidade, erguendo-se jardins, casas e ruas. As serpentes já não atacavam os homens, que cada vez mais ali aportavam. Enquanto os homens trabalhavam, as mulheres serpentes cantavam para que a labuta lhes fosse mais suave.
Erguida a cidade de Ulisses, que passou a ser conhecidas como Olisipo, uma brisa suave inundou tão soberba obra. Mas o coração de Ulisses pertencia a Ítaca e a Penélope, a sua mulher, que há muitos anos esperava por sua volta. Assim, mesmo deslumbrado com a sua obra, o grego só pensava em partir, navegando até que aportasse na sua terra natal. Mas a paixão da rainha serpente impedia que Ulisses partisse, tornando-o prisioneiro da sua própria cidade.
Sabendo-se prisioneiro da rainha, Ulisses encheu-se dos mais falsos carinhos e de amor ardente e traiçoeiro, enquanto desenhava o seu plano de fuga. Por fim chegara a noite da tão esperada fuga. Combinara buscar a rainha para um passeio ao luar. Em vez de comparecer ao encontro, Ulisses enviou um dos seus homens, que tinha a mesma estatura do que ele e ao longe, poderia ser confundido com ele. Assim, enquanto Ulisses fugia navegando pelas águas do Tejo em direção ao Oceano, o seu fiel companheiro, muito bem disfarçado, foi buscar a rainha, levando-a para longe do rio.
Durante o passeio, só a rainha falava, mostrava para o companheiro o futuro da sua Ulisseia, ou Olisipo. De repente a mulher inquietou-se com o silêncio do amado. Ao olhar para aquele que estava ao seu lado, percebeu que os olhos eram outros. Ao perceber o engano, a rainha soltou um grito de indignação. Ao ver-se traída, furiosa, ela mordeu o impostor, envenenando-o com a sua peçonha. Antes de morrer, o infeliz murmurou que o seu amo já deveria ir longe, a navegar pelo grande Mar Oceano, rumo às terras gregas.
Desesperada, a rainha tentou ir além de todas as suas forças, estendendo-se sobre a cidade de Ulisses, na ânsia asfixiante de alcançar o mar. Foi tamanho o seu esforço de alcançar o amado, que onde ela estendeu o corpo de serpente, das suas contorções desenhou-se sete colinas sobre Olisipo. Mas Ulisses já estava longe, e a infeliz rainha não resistiu, morreu após tamanho esforço.
Sem a sua rainha, as serpentes fugiram da cidade. No antigo reino de veneno e morte, ficou edificada altaneira, a cidade de Ulisses, erguida sobre as suas sete colinas. Ulisses jamais retornou, mas Olisipo tornou-se a principal cidade às margens do Tejo. Muitos anos mais tarde a cidade de Ulisses passou a ser conhecida como Lisboa.

A Dama Pé de Cabra

Esta história é do tempo que os cristãos lutavam com os mouros pelo domínio do oeste da Ibéria e pela formação do reino cristão de Portugal. Dom Diogo era um bravo cristão que tinha como missão a expulsão dos mouros daqueles reinos. Destemido e arrojado, o fidalgo gostava de montar o seu cavalo branco e sair pelos bosques e montes a caçar veados, javalis, lobos e ursos. Fizesse sol ou chuva, fosse inverno ou verão, lá estava o inquieto fidalgo longe do seu castelo, em caças perigosas a animais silvestres ou aos mouros infiéis.
Foi a perseguir um javali em um monte agreste e coberto de silvas espinhentas, que o valente fidalgo um dia deparou-se com o mais belo canto que já ouvira. O canto ecoava pelo ar, fazendo que o javali ficasse manso e esperasse pela sua lança, como se encontrasse a redenção. Embriagado por tão bela e aguda voz, dom Diogo correu com os olhos em direção a um pedregulho que se lhe aparecia à frente, ao cimo encontrava-se, sentada, a mais formosa das mulheres. O coração do fidalgo disparou. Aproximou-se da mulher e perguntou:
-Quem sois vós, encantadora senhora? Quem sois vós que me cativou com o vosso belo canto?
Ela riu, do riso saltava-lhe a mais bela feição, rimando com o olhar vindo de duas contas cristalinas, seus cabelos dourados dobravam-se ao vento, sua face gentil reluzia o dia de sol, suas mãos brancas traziam uma pele macia como a neve.
-Sou uma dama tão nobre quanto sois vós.
Ao ouvir-lhe as palavras, dom Diogo não se conteve, aproximou-se com o coração a arfar-lhe cada mais, descompassado de amor.
-Formosa senhora, se casardes comigo, ofereço-vos as minhas terras e os meus castelos, além do meu coração que já vos pertence!
-Guarda as tuas terras que precisas para cavalgar a tua inquietude da alma.
-Que posso oferecer-te então para que sejas minha?
Numa malícia que se traduzia em constrangimento, a mulher baixou a cabeça, a demonstrar um fulgurante pudor. A olhar com um encanto de serpente para o homem, pronunciou as palavras com a mais doce das vozes:
-A única coisa que me interessa, não ma podes dar, porque foi um legado da tua mãe.
-E seu te amar mais do que à minha própria mãe?
-Então tens de jurar que não tornas a fazer o sinal da cruz que ela te ensinou quando eras pequeno.
Por alguns instantes, dom Diogo hesitou ante tão estranho pedido, que lhe pareceu coisa do diabo. Olhou-a com estranheza, mas ao deparar-se com tamanha beleza, com aquele sorriso tão puro, afastou as dúvidas e os pensamentos obscuros. Já se apaixonara irreversivelmente por ela. Questionou-se para que serviam as benzeduras? Chegou à conclusão que se deixasse de benzer, continuaria a ser o mais puro dos cristãos. Para compensar esta omissão, decidiu que mataria duzentos mouros e todos os pecados ser-lhe-iam perdoados.
-Que assim seja, minha amada!
Movido pela paixão, arrebatou-a nos braços, esporeou o cavalo e partiu a galope para o castelo. À noite, quando se deitaram, embriagados de amor, dom Diogo apercebeu-se que a dama tinha pés de cabra. Mas o seu coração apaixonado não deu importância àquele defeito, pois o corpo da amada era esbelto, esguio, os cabelos eram lisos e perfumados, a pele fina como a seda.
Durante alguns anos o casal viveu em paz, felizes e apaixonados. Da união nasceu um menino que chamaram Inigo, e uma menina que deram o nome de Sol. Assim correram os anos, Diogo continuou inquieto em suas caças, mas com a certeza que ao final delas, encontraria a paz que precisa nos braços da amada e no aconchego da família.
Numa noite, durante a ceia, Diogo reparou que o seu melhor cão de caça dormitava junto à lareira, enquanto que uma feroz cadela, pertencente à mulher, andava inquieta de um lado para o outro, com um rosnar estranho. Por algum motivo dom Diogo não gostava da cadela. Para afrontá-la, pegou um grande pedaço de osso, atirou-o para junto do focinho do cão que se encontrava próximo à lareira, e disse:
-Toma lá tu, Silvano, valente caçador, precisas te alimentar. À cachorra não dou nada, porque não pára quieta!
Satisfeito e agradecido, Silvano abocanhou tão generoso osso, mas não teve tempo de comê-lo, pois a fúria da cadela fez com que se atirasse ao cão, abocanhando-lhe mortalmente a garganta. Ao ver o seu cão preferido morto no chão, dom Diogo levantou-se furioso, entornando o vinho sobre as tábuas. Com a ponta da bota, virou o corpo do cão e viu a sua garganta dilacerada.
-Maldita cadela! Por minha fé cristã, jamais vi coisa assim! Por cá andam artes de Belzebu...
Ao dizer tais palavras, dom Diogo esqueceu-se do juramento que fizera à mulher alguns anos antes, benzendo-se repetidas vezes. Foi quanto bastou para que a mulher emitisse urros pavorosos. Aos olhos apavorados de dom Diogo, a mulher parecia desmanchar-se em outra, a pele branca e sedosa tornou-se áspera e negra, os olhos reviraram, a boca ficou torta. A mulher tornara-se um animal horrendo, que se erguia no ar, leve como uma pena. Debaixo do braço esquerdo levava a filha, dona Sol, o braço direito alongava-se para o filho.
-Santo Deus! Jesus Cristo! – Bradava o fidalgo. – A minha mulher é o diabo!
Antes que o braço direito da mulher alcançasse Inigo, o fidalgo agarrou o filho e fez vários sinais da cruz. A mulher soltou um último e horripilante grunhido, desaparecendo de vez por uma fresta próxima ao teto, levando consigo a menina. Desde àquela noite, ninguém no castelo tornou a pôr os olhos em cima da mãe, da filha e da cadela. Desapareceram entre as artes mágicas.
Mesmo a saber que a mulher talvez fosse o diabo, dom Diogo Lopes sofreu a dor da sua perda, vivendo muito tempo cabisbaixo, triste e aborrecido com a vida. Para esquecer a dor que sentia no coração, decidiu partir para a guerra. Entregou ao filho Inigo o governo dos castelos. Os servos desenferrujaram-lhe as armas, preparando-lhe o cavalo. Partiu assim, para lutar contra os mouros e ajudar na formação do reino cristão de Portugal.

O Galo de Barcelos

Há muitos anos, em tempos remotos, aconteceu em Portugal um crime de morte, que, por mais minuciosas investigações feitas, jamais se descobriu o assassino.
Tempos depois, quando tudo parecia já estar esquecido, surgiu na povoação de Barcelos um galego peregrino, que se dirigia para Santiago da Compostela. Diante da figura do romeiro, alguém levantou perante as autoridades uma questão, aquele homem era o autor do crime há tempos ali acontecido. Diante da acusação, houve quem garantisse que o romeiro estivera no local do crime no dia do assassínio. De frente com as evidências, as autoridades deram o caso como solucionado, aprisionado o romeiro.
Mesmo diante de grande tortura e suplício, o galego afirmou-se sempre inocente. Mas todas as evidências e coincidências apontavam o homem como o verdadeiro assassino. Sem provas que lhe garantissem a inocência, foi julgado e condenado à morte, através da forca.
Finalmente chegara o dia do suplício do pobre homem, que jamais deixou de jurar estar alheio e inocente ao crime. Tudo em vão! No meio do povoado erguera-se a forca. Como último desejo, o infeliz pediu que fosse levado à presença do juiz. O malogrado romeiro foi encontrar o juiz em uma grande ceia, ladeado de vários amigos e admiradores. Diante do juiz e de todos os presentes, o galego voltou a afirmar a sua inocência, pedindo pela fé cristã que dele tivessem misericórdia e que o não enforcassem. Mas o magistrado, homem que aprendera as leis em Salamanca, apesar de ficar confuso diante da veemência com que o infeliz proclamava-se inocente, nada pôde fazer, pois já acontecera o julgamento e a condenação à morte, portanto era preciso que se cumprisse a sentença.
Vendo que todos faziam escárnio das suas palavras, e continuavam a comer e a beber; o pobre galego, a olhar para um frango assado em cima da mesa do magistrado e dos seus amigos; clamou para São Tiago, o santo que iria visitar quando fora interrompido em sua romaria:
-Oh São Tiago, sabeis que estou tão inocente que, antes de morrer, esse galo que está em cima da mesa, morto e assado, cantará!
Todos riram das palavras de clamor do galego. O magistrado ordenou que o condenado fosse levado à forca e que se cumprisse à sentença. Assim foi feito. Passado o mal estar, todos continuaram a comer e a beber normalmente. Por uma estranha superstição, ninguém ousou a tocar no galo assado que indicara o sentenciado. Todos estavam ansiosos para que se desfechasse o suplício do galego, cumprindo-se finalmente, a justiça.
De repente, diante do espanto geral de todos os presentes, o galo assado passou a ter penas, transformando-se em uma bela ave, tão viva quanto eles, que passou a cantar alegremente!
O espanto foi geral. O juiz e os seus convidados correram ao local que se erguera a forca. Encontraram o galego suspenso no ar, com a corda no pescoço solta. Com grande espanto, descobriram que ele ainda estava vivo! Imediatamente libertaram o supliciado, deixando que ele seguisse viagem até Santiago da Compostela, para que cumprisse a sua promessa de romeiro.
Meses depois, o galego regressou da sua romaria, já com a promessa cumprida. Em sinal de agradecimento aos que atestaram a sua inocência, mandou que se erguesse um padrão, tendo de um dos lados São Paulo e a virgem, o sol, a lua e um dragão. Do outro lado o Cristo crucificado, um galo e São Tiago sustentando um enforcado! A justiça fora feita através do canto do galo ressuscitado, que se tornaria o símbolo de Barcelos.