quinta-feira, 16 de outubro de 2008

LEGAL: EXISTENCIALISMO UNDERGROUND


Os anos 1970 começam com uma geração dividida pelos acontecimentos históricos. A juventude engajada nos movimentos políticos de esquerda é cada vez mais isolada, líderes juvenis e políticos estão presos, exilados ou na clandestinidade. A juventude Flower Power que surgiu com o manifesto de Scott McKenzie com a música San Francisco, em 1967, e teve o seu apogeu em 1969 com Woodstock, lança o lema “Faça Amor, Não Faça Guerra”, incitando ao amor livre e à emancipação sexual. Esta juventude após Woodstock, vê a decadência do movimento hippie, cada vez mais voltado para o rock n’ roll e às drogas. É justamente as drogas que ceifa logo no início da década os seus ícones, Janis Joplin, Jimi Hendrix... Os Mutantes resistiram à ditadura, mas não às drogas, que prejudica alguns dos seus componentes de forma indelével, fazendo-os deixar por anos o mundo musical. Os Beatles dão seus últimos suspiros juntos. A ditadura está cada vez mais dura e fortalecida graças ao boom econômico que dá origem ao chamado “milagre brasileiro”, e à conquista do tri-campeonato mundial de futebol. Nos seus porões há gente morta e torturada. Surge uma juventude intelectual que impedida de falar e não aderindo à radicalização da esquerda ou ao Flower Power, menos atuante e mais leve, é chamada de juventude do desbunde. Aquela que tem consciência do momento vivido, mas que prefere ouvir música e curtir as praias do Brasil enquanto a ditadura não passa.
Nas malhas do desbunde e da contra-cultura, após o grito de protesto à interrupção da Tropicália em 1969, com o radical “Gal 1969”, surge o existencialista e vanguardista Legal. Constitui um retrato vivo do início da década de 1970, o que lhe dá a condição de ser o álbum mais anos setenta de Gal Costa. Tem a cor daqueles tempos e consegue não ser datado! O que é bom prevalece, sem ficar preso à época que o gerou, destacando-se do modismo passageiro. Após o exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso e a agonia tropicalista, este disco pode ser classificado alegoricamente como parte de uma Tropicália Underground. Vanguardista quando posto no mercado, hoje histórico e definitivo. Underground quando lançado, hoje um luxo!

Do Grito das Ruas de Londres ao Gemido da Acauã

Legal foi lançado no segundo semestre de 1970. É resultado do show “Deixa Sangrar”, que teve estréia no Teatro Opinião naquele ano. Traz capa de Hélio Oiticica, um dos ícones da Tropicália, dividindo o rosto da cantora ao meio, sobre um fundo azul, transformando os seus longos cabelos numa miscelânea de personalidades. É considerada até hoje, pelos críticos, a capa mais artística de um álbum de Gal Costa.
O álbum começa com a versão rock de “Eu Sou Terrível” (Roberto Carlos – Erasmo Carlos), que parece continuar a radicalização do álbum psicodélico anterior. Temos a sensação de que a explosão registrada no segundo álbum de 1969 vai adentrar por este álbum, mas, aos vinte e cinco anos, a inquietude de Gal Costa é sempre uma surpresa.
Apesar do início rascante, o álbum vai seguindo outra vertente com o baião “Língua do P” (Gilberto Gil), uma moda adolescente da época para mandar recadinhos de amor, introduzindo a letra P entre as sílabas, e fugir ao controle dos mais velhos. Traz gírias da época, como bulhufas, que a faz uma música datada.
Love, Try And Die” (Lanny - Gal Costa - Jards Macalé), canção leve que insere uma Gal Costa cantando em estilo Janis Joplin, num ritmo bem anos setenta. A música traz uma letra sem pretensões, um joguete de palavras, a curiosidade é ter a assinatura de Gal Costa como uma das compositoras da canção.
Depois de “Carcará” e “Asa Branca”, é a vez de mais uma ave nordestina refletir o sertão seco e pobre: “Acauã” (Zé Dantas). Aqui os agudos de Gal Costa imitam lindamente o canto da acauã, não trazendo a força do carcará, mas o lirismo melancólico da acauã, beleza única de um céu rasgado pelo sol e pelo chão dilacerado pela seca.
Gal Costa passara o natal de 1969 em Londres, na companhia dos amigos exilados Gilberto Gil e Caetano Veloso. Trouxe de lá as canções “Mini Mistério” (Gilberto Gil) e “London, London” (Caetano Veloso), gravando-as em um compacto e inserindo-as no álbum. “London, London” tornou-se um grande sucesso nas rádios daquele ano, alcançando o primeiro lugar nas paradas nacionais. Esta música caracteriza bem o Caetano Veloso exilado, a desfilar perdido pelas ruas de Londres. Tornou-se uma das canções que se atrelaram definitivamente ao repertório de Gal Costa, e seria revisitada e regravada em 1997, no “Acústico MTV”. Uma das interpretações mais passionais de Gal Costa à música de Caetano Veloso, de uma singular beleza melódica de uma voz de revolta poética. Talvez por ter sido gravada com o amigo ainda distante, traz esta força interpretativa tão perenemente bela. É a canção que marca este álbum.
Mini Mistério” é a preocupação de uma juventude calada pela força bruta e mais atormentada por dúvidas existencialistas, onde tudo é mistério, do cemitério do Caju à Santíssima Trindade, avisando que tudo está por um fio labiríntico, até mesmo a vida.

As Angústias do Desbunde da Verdadeira Baiana


Mas é sem dúvida “Hotel das Estrelas” (Duda – Jards Macalé) a canção que mais descreve a juventude do desbunde da qual Gal Costa tornar-se-ia a musa no ano seguinte. A juventude que vê amigos mortos pela ditadura e pela droga. A juventude que se sente tolhida e ameaçada. Nem a ditadura nem a droga oferecem saídas, mas a segunda alivia um pouco mais os tormentos. É a solidão dos anos vista pela janela e pela distância:

“Dessa janela sozinha
Olhar a cidade me acalma
Estrela vulgar a vagar
Rio e também posso chorar
Oh, e também posso chorar...”

Ao contrário dos gritos de fúria do álbum anterior, aqui os gritos acontecem, mas são diluídos em cantos e desencantos melancólicos, assim é a canção “The Archaic Lonely Star Blues” (Duda – Jards Macalé), com letra em inglês e em português, formando um grande e atormentado poema existencialista, com gritos rascantes de uma cantora jopliniana em seu apogeu vocal de juventude.
Distraindo um pouco a angústia, mas sem perde-la de vista, temos o frevo “Deixa Sangrar” (Caetano Veloso), que vem com o sub-título Carnaval 1971, frevo composto em Londres por Caetano para o carnaval do ano seguinte. O nome da canção é uma paródia ao título do álbum Let it Bleed dos Rolling Stones.
Fechando o álbum, mais uma canção que faria parte para sempre dos shows e da carreira de Gal Costa, “Falsa Baiana” (Geraldo Pereira). Com uma interpretação mais recôndita, temos uma Gal Costa outra vez bossa-nova, que a remete ao álbum de estréia, Domingo, de 1967. “Falsa Baiana” iria persistir ainda nos álbuns “Fa-tal – Gal A Todo Vapor” (1971) e “Acústico MTV” (1997), além de ter como reposta a canção “A Verdadeira Baiana” (Caetano Veloso), que viria no álbum “Plural” (1990).
Você Não Entende Nada” (Caetano Veloso) tornou-se um imenso sucesso no show e foi lançado em compacto. A Philips tentou inseri-la às pressas nas prensagens do álbum Legal após o seu lançamento, o que explica certos LPs lançados na época conter a música.
Vendo o álbum como um todo é que percebemos uma Gal Costa mais tranqüila do que em 1969. Os cabelos já não são estilo hippie, mas compridos e partidos ao meio, que seria sua marca até os dias de hoje. É um álbum tipicamente dos anos setenta que, como já se disse, consegue não ser datado. É o alicerce do show que Gal Costa faria no ano seguinte, “Gal a Todo Vapor”, que se tornaria o espetáculo mais visto pela juventude da época. Com ele encerrar-se-ia a fase jopliniana de admiração e o início da desaceleração no cantar vanguardista.
Gal Costa nesta época é moda entre a juventude cabeluda. É imitada, idolatrada. Faz parte da cultura do país. Sobrevivente absoluta da Tropicália. E naquele estranho fim de ano de 1970 ela cantava para o carnaval seguinte:

"...Deixa o mar ferver, deixa o sol despencar
Deixa o coração bater, se despedaçar
Chora depois, mas agora deixa sangrar
Deixa o carnaval passar...”

Legal é poesia underground, marginal, existencialismo convulsivo. É o começo do namoro dos cabeludos do desbunde e o seu movimento cultural, que tomou o canto de Gal Costa como hino.

Ficha Técnica:

Legal
Philips
1970

Direção da produção: Manoel Barenbein
Técnicos de gravação: Ary Carvalhaes, João Moreira, Mazzolla
Estúdio: CBD
Arranjos de base: Lanny Gordin e Jards Macalé
Arranjos de orquestra: Chiquinho de Moraes
Baixo Elétrico: Cláudio
Bateria: Norival D'Angelo
Guitarra: Lanny Gordin
Acordeom: não creditado no disco
Piano e órgão: Chiquinho de Moraes
Violão: Gal Costa
Coro (na faixa “Love, try and die”): Erasmo Carlos, Jards Macalé, Lanny Gordin e Tim Maia Capa: Hélio Oiticica

Faixas:

1 Eu sou terrível (Erasmo Carlos - Roberto Carlos), 2 Língua do P (Gilberto Gil), 3 Love, try and die (Lanny - Gal Costa - Jards Macalé), 4 Mini mistério (Gilberto Gil), 5 Acauã (Zé Dantas), 6 Hotel das estrelas (Duda - Jards Macalé), 7 Deixa sangrar (Caetano Veloso), 8 The archaic lonely star blues (Duda - Jards Macalé), 9 London, London (Caetano Veloso), 10 Falsa baiana (Geraldo Pereira)


Veja também:

TROPICÁLIA:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2007/11/tropiclia.html
GAL COSTA:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2007/12/gal-costa.html
FA-TAL – GAL A TODO VAPOR: O ÁLBUM DA GERAÇÃO DO DESBUNDE:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/01/fa-tal-gal-todo-vapor-o-lbum-da-gerao.html
TEMPORADA DE VERÃO - AO VIVO NA BAHIA: TRÊS VOZES DO BRASIL:
hhtp://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/04/temporada-de-vero-ao-vivo-na-bahia-trs.html
GAL COSTA 1969, O ÁLBUM QUE FECHOU 1968:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/05/gal-costa-1969-o-lbum-que-fechou-1968.html
Gal 1969: O PSICODÉLICO:
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/07/gal-1969-o-psicodlico.html

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