domingo, 28 de setembro de 2008

POEMAS AMERÍNDIOS


O Estado moderno é resultado de várias conquistas que resultaram na submissão dos mais fracos pelos mais fortes, na dizimação de culturas e extinção de muitos povos. A Terra Prometida por Deus, onde jorrava o leite e o mel era habitava por tribos pagãs e de costumes hostis aos ensinamentos judaicos, foi preciso a guerra e a aniquilação dessas tribos para que se erguesse o Templo ao Deus de toda a civilização ocidental.
Assim também aconteceu com a América descoberta por Cristóvão Colombo. Os grandes navegantes encontraram às costas do Mar Oceano (Atlântico), imensas terras transbordantes de leite e mel, de rios límpidos e solo fértil. O novo continente urdia por ser explorado. Mas povos pagãos que nessas terras habitavam, eram providos de uma cultura paralela, de deuses próprios e filosofia voltada para a natureza, esses povos contrapunham aos desígnios dos conquistadores europeus. Considerados ilidimos na sua fé, aos poucos os americanos verdadeiros, chamados de índios pelos europeus, e que habitavam a América do Alasca à Terra do Fogo, foram conquistados, catequizados, aprisionados, mortos e extintos, dando passagem para fronteiras invisíveis de nações concretas.
Do grito das civilizações pré-colombianas, alguns poemas chegaram aos nossos dias. Chegam aos nossos ouvidos como uma brisa ecoada pelo sangue derramado em nome da civilização moderna, mostrando-nos a imarcescibilidade de uma glória que o tempo aclama. São os Poemas Ameríndios, lúdicos na natureza em que se inspiram, eternos no grito de nações extintas e povos que derramaram o seu sangue em nome da utopia do que se veio a ser o continente descoberto por Colombo, a América única, sem norte, sem sul, sem fronteiras ou símbolos patrióticos.

Extrato do Discurso de Seattle, Chefe dos Dwamish e Squamish

“Cada parcela deste solo é sagrada, no modo de ver do meu povo. Cada encosta, cada vale, cada planície e bosque foi santificado através de algum acontecimento triste ou alegre em dias há muito desaparecidos. A própria poeira sobre a qual vocês agora se erguem responde mais amorosamente aos seus passos do que aos vossos, porque foi enriquecida com o sangue dos nossos antepassados e os nossos pés nus estão conscientes da empatia do contacto. Até as criancinhas que aqui viveram e se divertiram durante uma breve estação irão amar estas solidões sombrias e, ao cair da noite, saudarão os assombrados espíritos que regressam. E quando o último Pele-Vermelha tiver perecido e a memória da minha tribo se tiver tornado um mito entre o Homem Branco, os mortos invisíveis da minha tribo irão pulular por essas praias; e quando os filhos dos vossos filhos se julgarem sós no campo, no armazém, na loja, na estrada ou no silêncio das florestas sem caminhos, não estarão sós. Pela noite, quando as ruas das vossas cidades e vilas estão silenciosas e vocês as supõem desertas, estarão apinhadas com as hostes que regressam e que outrora encheram e ainda amam esta bela terra.”

Poema (Astecas)

As flores nascem, amadurecem, completam-se,
Abrem as corolas.
- De dentro de saem as flores do canto:
derrama-las sobre os homens, sobre eles as esparzes:
tu és um cantor!
- Fruí do canto, todos vós,
fruí, dançai, entre as flores respira o canto:
e eu, cantor, respiro no meu canto!

Canto de Amor de um Jovem (Kwakiutles)

Cada vez que como, como a dor do teu amor.
Cada vez que tenho sono, sonho com o teu amor.
Cada vez que estou em casa deitado de costas, estou deitado sobre a dor do teu amor.
Cada vez que ando, ponho o pé sobre a dor do teu amor.

Canção (Araucanos)

A terra inteira é uma só alma,
somos parte dela.
Mudar, sim, mudarão as nossas almas,
mas não morrerão nunca as nossas almas.
Somos uma alma única
como única é a terra.

Canção do Tear Celeste (Tewas)

Pai-Céu, Mãe-Terra,
somos vossos filhos, e nas costas cansadas
trazemos as dádivas.
Para nós mesmos trazemos as vestes esplendorosas.
Que seja a urdidura a luz branca da aurora,
que a trama seja a luz vermelha da tarde,
que sejam as franjas a chuva que tomba,
que a orla seja o arco-íris que se levanta.
Para nós mesmos tecemos as vestes esplendorosas.
Para podre caminhar por onde cantam os pássaros,
para poder caminhar por onde é verde a erva,
Pai-Céu, Mãe-Terra.

Poema (Astecas)

Se me ponho a cantar,
como vermelha trepadeira se entrelaça o meu canto:
flor que cheira a milho torrado, onde se ergue a Árvore:
perfume de flor de cacau: dança junto ao tambor,
dança libertando o teu perfume.
Ergue-se além o sol:
num vaso de esmeralda coberto de quetzal,
cinge-o um colar de turquesas,
e as flores caem entre todas as cores.

Canções (Quíchuas)

Nasci qual planta que no deserto
irrompe sem seiva e sem calor:
no caule que sobe, ríspido, hirto,
abrolha um germe, não abre a flor.
Que não vi estrela assim tão áspera:
fechada nas trevas, nunca arder.
E sobre o meu berço agras lágrimas:
porque eu nasci só para morrer.
Acabará minha estéril história
que a si própria se liga por dentro:
a vida, o nome, a minha memória,
gravados fundo no esquecimento.

Canto do Sonho (Papagos)

Ali onde a montanha se acaba,
Lá em cima, nem eu mesmo sei aonde,
Vagueei por ali, por onde a minha cabeça
e o meu coração pareciam perdidos.
Vagueei lá longe.

Poema (Zunis)

Cobre a terra minha mãe quatro vezes de flores inumeráveis.
Que os céus se cubram de nuvens acumuladas.
Que a terra se cubra de névoa; cobre a terra de chuvas.Grandes águas, chuvas, cubram a terra. Relâmpago, cobre a terra.
Que se oiça o trovão por cima de toda a terra; que se oiça o trovão.
Que se oiça o trovão por cima das seis regiões da terra.

Poema (Tewas)

A minha casa lá longe, a minha casa lá longe!
A minha casa lá longe, agora me recordo!
E quando vejo essa montanha lá longe,
Pois bem, choro. Ai! Que posso fazer?
Que posso fazer? Ai! Que posso fazer?
A minha casa lá longe, agora me recordo.

Canto do Veado de Cauda Negra (Pimas)

Do alto das moradas da magia,
Do alto da moradas da magia,
Sopram os ventos. Nos meus cornos,
Nas minhas orelhas, juntos, sopram ainda mais forte.
Lá longe, corria tremendo,
Lá longe, corria tremendo:
Arcos e flechas perseguindo-me.
Quantos arcos havia na minha pista!

Poema (Siouxs)

Como desejaria vaguear na noite
Contra os ventos.
Vaguear na noite
Quando a coruja ulula.
Como desejaria vaguear.
Como desejaria vaguear na alba
Contra os ventos.
Vaguear na alba
Quando a gralha grita.
Como desejaria vaguear.

Poema (Makahs)

Por mais que me esforce por te esquecer,
Voltas sempre aos meus pensamentos.
E é quando me ouves cantar,
Que te choro.

Poema (Chippewas)

Às vezes
Sucede que me compadeço
Enquanto que, levado pelo vento,
Atravesso o céu.

Poema (Papagos)

Ao entardecer
Chove.
Além, nos confins da terra
Há um ruído como um ranger,
Há um ruído como o de uma queda.
Além, abaixo, continua a bramir
Continua a tremer.

Poema (Kiowas)

Esse vento, esse vento
Sacode a minha tenda. Sacode a minha tenda
E canta uma canção para mim
Canta uma canção para mim.

Poema (Winnebagos)

Era digno de se ver,
esse mundo novamente criado.
Sobre toda a largura e amplidão
da terra, nossa avó,
estendia-se o reflexo verde
da sua cobertura
e os perfumes que ascendiam
eram doces de respirar.

Poema (Apaches)

O dia levantou-se por entre uma chuva suave.
O lugar chamado “onde fica a água do relâmpago”,
O lugar chamado “ali onde surge a alba”,
Quatro lugares denominados “a alba da vida”,
Ali é onde toco a terra.
Os filhos do céu, vou por entre eles.
Chegou até mim com uma longa vida.
Quando fala por cima do meu corpo com a mais longa vida,
A voz do trovão falou quatro vezes
Falou-me quatro vezes com vida.
O santo jovem celeste falou-me quatro vezes.
Quando me falou, chegou o meu alento.

Prece para Curar a Epilepsia (Maias)

Fogo verde, névoa no ar,
tornas-te epilepsia.
Fogo amarelo, tornas-te epilepsia.
Vento norte,
tornas-te epilepsia,
epilepsia engendrada pelo sono, engendrada pelo
sonho,
epilepsia,
névoa branca, tornas-te epilepsia,
névoa vermelha, tornas-te epilepsia.
Desatamos,
nove vezes desatamos,
desfazemos,
nove vezes desfazemos,
aplacamos, Senhor, nove vezes aplacamos.
Uma hora, meia hora, para que saia como uma névoa,
para que saia como uma borboleta, para que saia.
Regula-te, pulso grande! Regula-te, pulso pequeno!
Os dois pulsos numa hora, meia-hora,
Senhor, assim seja.
Sais agora, epilepsia, sais agora
sobre treze montanhas,
sobre treze cumeeiras,
sais ao meio de treze renques de árvores,
sais ao meio de treze renques de pedras,sais agora.

Um comentário:

Bruma Artio disse...

Maravilhosos poemas, maravilhoso blog, delícia ficar a ler.
Já estou te seguindo, parabéns.
Uma pergunta; posso usar alguns dos poemas? A quem dar o crédito?

Um suave bater de asas.