sábado, 20 de setembro de 2008

KOUDELKA - IMAGENS SILENCIOSAS


Ao longo dos séculos, os países da Europa do leste tiveram suas fronteiras alteradas várias vezes. Quando no século XX o conceito de nação moderna foi protegido pelos tratados e pela formação de ligas para defender o direito da soberania e preservação dos estados, guerras e revoluções transformaram a paisagem geográfica do oriente europeu, varrendo várias nações do mapa em sua história recente. Uma vez desaparecidos alguns países, coube aos que neles nasceram, adaptarem-se à inexistência das suas pátrias. Josef Koudelka faz parte daqueles que em determinada época da história, viu extinguir o país onde nasceu. Fotógrafo genial, registrou nas lentes da sua objetiva a fragmentação da história contemporânea. É dele as imagens que correram o mundo mostrando o estrangulamento da Primavera de Praga, em 1968. Imagens que dispensam qualquer legenda, trazendo a dor latente de um povo que viu a sua festa de liberdade ser bruscamente terminada pela chegada dos tanques e soldados dos países vizinhos.
As belíssimas fotografias de Josef Koudelka, com as quais ilustrei o artigo “Praga 1968, Florescimento e Morte de uma Primavera”, não serão aqui repetidas, para que se possa expandir o universo do fotógrafo. As imagens de Koudelka não nos convidam a um voyeurismo, mas a uma reflexão silenciosa, muitas vezes sem explicação das palavras, outras vezes rasgando em pungente um mundo esteticamente perfeito através das objetivas. Seja nos retratos do povo cigano, seja no desalento de uma nação diante dos canhões a dilacerar os sonhos, o mundo de Koudelka parece-nos estranho, mas sabemos que ele existe tão próximo a nós, que os rostos retratados podem emergir a qualquer momento da fotografia e assustar-nos na esquina da história, no bairro das frágeis fronteiras construídas pelo homem para legitimar o abstrato conceito de nação e país.

O Fotógrafo dos Silêncios

Josef Koudelka nasceu em 1938, na Moravia, região da antiga Tchecoslováquia, país formado em 1918 dos escombros do antigo Império Austro-Húngaro e dividido em dois, República Tcheca e Eslováquia, em 1993. Para que se perceba a obra de Koudelka, é preciso que se entenda o país onde ele nasceu. A Tchecoslováquia foi totalmente ocupada por Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, sendo devastada pelos males da guerra. Em 1945 foi libertada do julgo nazista pelos soldados soviéticos. Na divisão do mundo que as grandes nações fizeram após a guerra, o pequeno país ficou fazendo parte dos países do bloco soviético. É em uma nação socialista que Koudelka cresceu e fez-se um engenheiro da força aérea. Paralelamente a esta profissão, passou, a partir da década de 60, a exercer a profissão de fotógrafo.
Koudelka começou por fotografar a performance dos atores de teatro. Deste período revela-se um observador dos gestos do ator, tirando-lhe o sentido dramático da palavra, dando-lhe uma nova interpretação diluída na imagem dilatada através do silêncio.
Ainda nos primeiros anos da década de 1960, Koudelka passa a fotografar, além do teatro, os ciganos do seu país. Sua identificação com a temática está nas suas próprias origens. Koudelka fotografou a vida dos ciganos da Europa do leste por quase uma década, formando um dos mais importantes acervos da sua obra com os rostos desnudos dessa gente itinerante. Em 1967 o fotógrafo já se libertara da profissão de engenheiro. A Romênia é considerada o berço dos ciganos europeus. Foi para lá que ele se dirigiu quando se deu a Primavera de Praga, em busca de novas imagens para as suas fotografias temáticas.
Coincidentemente, viajou para Praga um dia antes da chegada das tropas dos países do Pacto de Varsóvia. Na noite de 20 para 21 de agosto, aos 30 anos, Koudelka presenciou um dos momentos mais tensos da recente história contemporânea. Com aguda sensibilidade jornalística e artística, registrou este momento de violência e violação à liberdade e ao povo de uma nação. As imagens silenciosas feitas pelo fotógrafo dispensaram qualquer relato, apagado pelos invasores. Tão fortes e de impacto perturbador, os retratos do fim da Primavera de Praga correram o mundo, abrindo as portas para a genialidade de Koudelka.
Josef Koudelka saiu da Tchecoslováquia pela primeira vez em 1969. No ano seguinte ele pediu asilo à Inglaterra, onde permaneceria até 1971. Depois decidiu tornar-se apátrida, percorrendo o mundo, assim como os ciganos que fotografara em sua obra. No mesmo ano que deixou a Inglaterra, começou a trabalhar para a agência Magnum, tornando-se membro da cooperativa em 1974.
Josef Koudelka declarou que o seu maior medo não é das nações que viu desaparecer, ou da força bruta que registrou em suas lentes, mas de parar de fotografar, de perder a inspiração. Segue registrando o mundo, mostrando-nos personagens que se desenham aos nossos olhos a todo instante, mas que na nossa cegueira intrínseca, recusamo-nos a ver.

As Imagens da Morte de uma Primavera

Escolher imagens registradas por Koudelka não é fácil. Cada uma traz um pedaço da história contemporânea, que não se dissocia do seu contexto. Voltemos aqui à noite em que a Primavera de Praga morreu, em cinco imagens definitivas:
Primeira imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Prague. August 1968. Warsaw Pact tanks invade Prague. Praga, 1968, o verão está no seu auge, também a ebulição das utopias e dos sonhos de um novo tempo, uma nova liberdade dentro de um mundo velho, mas nem por isto repudiado por aquela gente. As velhas dialéticas sentem-se ameaçadas, estão em causa todos os princípios do lado da esquerda da Guerra Fria. A imagem de Koudelka mostra a ponta do canhão abrindo a avenida da cidade. O canhão entra como se rasgasse o sonho de liberdade numa terebração na carne da utopia.
Segunda imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Prague. August 1968. Protesting the Warsaw Pact troops Invasion. National flag decorated with photographs of leaders removed by Russians. Contra os canhões restam as bandeiras, flamejantes como um último grito, aqui são colados à flâmula retratos dos líderes da Primavera de Praga, a essa altura, já levados prisioneiros para Moscou. A bandeira nas mãos de homens que representavam o sonho que estava a ser calado por fuzis e outros homens de farda.
Terceira imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Prague. August 1968. Várias gerações de homens, adolescentes, jovens, maduros, mostram na desolação dos seus rostos, a dor da perda do sonho, a tristeza de saber que um longo período de repressão viria. Koudelka capta a expressão exata que angustia cada homem, formando uma só voz silenciada.
Quarta imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Prague. August 1968. Warsaw Pact troops invasion. Quantas palavras podem definir um espanto? Todas e nenhuma. É o que retrata esta imagem, duas mulheres que não acreditam no que se sucede. Uma tampa a boca, contendo a angústia cada vez mais latente, a outra segura o rosto, como se todas as palavras tivessem transbordado do seu âmago, como se pudesse segurar o pavor, o horror.
Quinta imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Prague. August 1968. Wenceslas Square. Protesting the Warsaw Pact troops invasion. Sem saída, as pessoas protestam no centro da Praga. Estão todos sentados na rua, enquanto um homem, no centro da fotografia, exibe um jornal, como um manifesto da liberdade. A sua figura está em alinhamento com a estátua ao fundo; ambos, homem e estátua, representam a história escrita no passado e a que se escrevia naquele momento, no mesmo cenário da Praça Wenceslau, o coração de Praga.
Nunca uma tragédia da história foi tão fartamente ilustrada, captada e registrada, como o fim da Primavera de Praga. Aqui a arte da fotografia fundiu-se com o fotojornalismo, imortalizando a obra de Koudelka.

As Imagens do Mundo Cigano

Deixando a Primavera de Praga, percorremos o registro obsessivo de Koudelka do universo dos ciganos da Europa do leste. Este tema deu origem a grandes momentos na fotografia de Koudelka. Infelizmente, impossível de ser mostrado em um único artigo. Foram selecionadas duas imagens, para que se perceba o mundo através dos olhos deste fotógrafo singular.
Primeira imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Slovakia. Bardejov. 1967. Gypsies. A cigana vela o seu morto. Seria o seu filho? O contraste da morte aqui tragicamente revelado, a ordem natural seria o contrário, o jovem a velar a velha, mas a vida não é exata, muito menos a morte. Imagem perturbadora, como é a morte. Pungente no olhar da mulher e no silêncio do morto. Excruciante na absorção de quem a contempla. Realista na visão de um mundo nem sempre perfeito.
Segunda imagem: Josef Koudelka - CZECHOSLOVAKIA. Slovakia. Velka Lomnica. 1966. Gypsies. Um casal idoso de ciganos posa para o retrato. Nada no registro é singelo, pelo contrário, retrata a crueza de uma vida miserável de uma gente eternamente perseguida pelo racismo e pelo preconceito. A mulher não mostra um momento de vaidade para as lentes do fotógrafo, mas todo o peso da vida que sente diante do mundo. Seu olhar é de dor, como se penetrasse no vazio do mundo. O homem traz um olhar duro, quebrado pelo exotismo do chapéu, que mostra o seu momento de vaidade diante da objetiva. Koudelka não registra a beleza estética, mas a verdadeira concepção da alma humana, a sua história nua, sem retoques, escancarada pela luz da imagem.
Os ciganos de Josef Koudelka são místicos, enraizados em seus costumes, mais voltados para a salvação da alma do que da vida, jogada a uma existência perseguida e discriminada. Uma vida de minorias dentro da intolerância da maioria. Também Koudelka tornara-se cigano, itinerante, andarilho sem pátria e sem amarras, voltado para a captação da história e do homem.

Retratos do Avesso das Almas Humanas

O universo de Josef Koudelka traduz a de um menino que conviveu com a guerra. Um jovem que cresceu dentro de um regime autoritário, na concepção dos estados de papel da Europa central. Em suas viagens pelo mundo, o fotógrafo passou por guerras, pela miséria humana. Aprendeu a olhar e registrar o cotidiano do homem fora dos seus sonhos, mas à luz das suas verdades. Não retrata as esperanças da vida, mas a crueza da luta para sobreviver ao sol.
Vicki Goldberg, crítica de fotografia, descreve Josef Koudelka de uma forma definitiva:
Um estranho que nos lembra como o mundo é verdadeiramente estranho, um fotógrafo que consegue perfurar as superfícies do nosso pequeno momento na história com a sua visão escura e vigorosa e descobrir um mundo que é assombrado por pessoas muito parecidas conosco.”
Se o mundo das palavras não satisfaz a humanidade, a imagem muitas vezes preenche essa lacuna. As imagens de Koudelka evidenciam não a beleza, mas as mazelas humanas, defeitos que muitas vezes não queremos vê-los refletidos, tão pouco registrados. São imagens que mesmo não compreendidas em uma primeira leitura, causa um arrepio que nos faz temer a alma humana se ela saltar dali.

Veja também:
PRAGA 1968, FLORESCIMENTO E MORTE DE UMA PRIMAVERA
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/08/praga-1968-florescimento-e-morte-de-uma.html

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