segunda-feira, 25 de agosto de 2008

CHIADO 1988 - LISBOA EM CHAMAS


Lisboa foi, no decorrer dos séculos, uma cidade marcada por grandes incêndios. Muitos foram os que procederam aos terremotos, consumindo ou levando à ruína diversos prédios históricos, como o Hospital Real de Todos os Santos, no Rossio. Era comum a cidade ser acordada com os sinos a badalar, anunciando que o fogo ardia pelas ruas da capital lusitana. Século após século, a cidade cresceu, mudou a sua face urbana, modernizando-se pouco a pouco, sem perder sua arquitetura histórica. Se a cidade modernizou-se, abrindo novas artérias de bairros, os problemas com fogos no centro histórico continuam os mesmos há trezentos anos. Em pleno século XXI, na noite de 6 para 7 de julho de 2008, um incêndio consumiu inteiramente o prédio número 23 da Avenida da Liberdade, comprometendo os outros ao seu redor. O que parecia solucionado desde 7 de novembro de 1996, quando um incêndio atingiu os Paços do Concelho, prédio que abriga a Câmara Municipal de Lisboa, fechando as catástrofes do século XX que se abateram sobre a cidade, as chamas de fogos voltam à tona em plena Avenida da Liberdade, uma das mais importantes da capital portuguesa.
Mas nenhuma tragédia recente na Olisipo moderna foi pior do que o imenso incêndio que se abateu sobre o Chiado, em 25 de agosto de 1988, transformando uma das áreas mais elegantes e históricas da cidade em ruínas, que assim se estenderiam por mais de uma década. A reconstrução do Chiado após o incêndio, foi lenta, deixando o local à deriva de um futuro incerto, que jamais recuperaria a força que tinha na vida social de Lisboa. Vinte anos após o incêndio que mudou a face histórica de Lisboa, consumindo 18 prédios seculares, ainda podemos ver as marcas da tragédia no edifício situado na Rua do Crucifixo, que acolhe o restaurante Palmeira em seu rés-do-chão, único local do prédio poupado pelo fogo, e que pertence a Câmara de Lisboa. O prédio ainda está por recuperar.

Chiado Histórico e Intelectual

A importância cultural do Chiado para a história de Lisboa e de Portugal, está nas casas emblemáticas como A Brasileira, a Livraria Bertrand, nos teatros seculares que ele abriga, como o Teatro Nacional de São Carlos, o Teatro Municipal de São Luiz, o Teatro da Trindade, nas ruínas do Convento do Carmo, ou no elevador de Santa-Justa, só para citar alguns exemplos.
Historicamente o Chiado, localizado numa das sete colinas de Lisboa, teria surgido no século XII. Tradicional bairro de vida intelectual, foi o sítio que recebeu o primeiro Estudo Geral (universidade) em Portugal, em 1288. O local foi integrado a área urbana da cidade pela Muralha Fernandina, povoando-se de conventos e solares de nobres.
Somente no século XVI a história situa a origem toponímica do bairro. Chiado era a alcunha de Gaspar Dias, um taberneiro do local, e do poeta Antonio Ribeiro, que a recebeu por freqüentar a taberna do primeiro. Antonio Ribeiro passou para a história como o Chiado que apadrinhou o bairro, é em sua homenagem o nome que se deu ao largo, e a estátua ali existente.
O grande terremoto de 1755, que destruiria grande parte de Lisboa, mudaria para sempre a história do Chiado. Após a reconstrução, os nobres dos solares tradicionais deixaram o local. Chegaram os burgueses, os maçons, todos à sombra da influência do Marques de Pombal. Uma zona totalmente reconstruída e de fulgor exuberante surgia no bairro.
Em 1784, o Café Talão, de Nicolau Massa, foi transferido para o número 37 da Rua Larga de São Roque, atual Rua da Misericórdia. A partir de 1800, o Talão mudou várias vezes de proprietários, sendo adquirido, em 1823, pelos irmãos Manoel e António Tavares. Surgia o Café Tavares, que em 1861, transformar-se-ia no restaurante Tavares, mais tarde Tavares Rico. Sendo nos dias atuais, o restaurante mais antigo de Portugal.
Em 1846 foi fundado por Almeida Garret e Alexandre Herculano, entre outros, o Grêmio Literário. Instalou-se então, uma pulsante vida intelectual no bairro, o Chiado passou a ser freqüentado por poetas, escritores, jornalistas, políticos e artistas, ficando repleto de cafés, clubes, teatros e can-cans. O Chiado tornar-se-ia um moderno local do romantismo português. Eça de Queiroz, Guerra Junqueira, Ramalho Ortigão e tantos outros freqüentavam o Tavares, sendo conhecidos como os “Vencidos da Vida”.
Em 1906 foi inaugurada A Brasileira, que a partir da década de 20 do século passado, tornar-se-ia o grande centro de reunião e tertúlia de jornalistas e intelectuais. Pelos salões de A Brasileira desfilariam Fernando Pessoa, Almada Negreiros, José Pacheco e muitos outros representantes do modernismo português.
O Chiado tornou-se o ponto sofisticado e intelectual de Lisboa, local obrigatório para quem queria ser visto na cidade. O comércio será por décadas, o mais requintado e dispendioso da capital. Casas míticas e luxuosas compunham esse comércio, como a Paris em Lisboa, Ramiro Leão, Casa Batalha, Luvaria Ulisses, o Grandela, os Armazéns do Chiado, a Casa Havaneza, a Ferrari, o Martins & Filho.
A Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, sairia do Largo do Carmo, onde Salgueiro Maia fixou a sua companhia, o povo concentrou-se no Chiado, fazendo das suas ruas o símbolo da liberdade da revolução.
Em 1988, um Chiado decadente foi assolado por um grande incêndio, tão profundo quanto o terremoto que o destruíra em 1755. Encerrava-se tragicamente, o glamour do bairro, que de forma indelével, ficaria marcado. Um novo Chiado teria que ser reconstruído. As ruínas do incêndio faziam a passagem do Chiado histórico para o Chiado contemporâneo.

O Chiado em Chamas

O Chiado e toda a Baixa Pombalina, chegaram ao ano de 1988 decadentes. Longe já se ia o requinte do comércio que marcara a história e tradição do bairro. Lisboa modernizara-se, sua população adquirira novas necessidades. Em 1985 um grande centro comercial, o das Amoreiras, fora inaugurado, marcando uma nova fase de comércio e hábitos na cidade. O comércio do Chiado sobrevivia da tradição de muitas das suas casas e das baixas rendas que se pagava pelas lojas. Os belos prédios pombalinos acumulavam, em seu interior, uma degradação camuflada, sem a atualização urbana necessária para a Lisboa que se preparava para entrar no século XXI.
Quem caminhava pelo Chiado à época que se precedeu ao incêndio, podia ver a elegância do bairro. Sentar nos banquinhos postos no meio da Rua do Carmo, uma rua fechada aos carros, com canteiros de cimento no meio, pequenos degraus e esplanadas. Foram justamente estes detalhes existentes naquela rua, feitos recentemente para torná-la um local de trânsito para peões, que se tornaram uma grande armadilha para os bombeiros, quando deflagrado o grande incêndio, dificultando a transposição dos bombeiros às ruas que ardiam.
O grande incêndio aconteceu no auge do verão de 1988. Começou entre às 3 horas e 4h30 da madrugada da quinta-feira de 25 de agosto, no interior dos Armazéns Grandela, na Rua do Carmo. O alarme só seria dado às 5h19, por um vigilante do Grandela. Naquela manhã de verão, as rádios acordavam a população a anunciar: “Lisboa está a arder”. O que se anunciava era pouco diante dos acontecimentos catastróficos. O fogo alastrava-se por toda a rua e adjacências. Enfrentando os obstáculos descritos acima em relação ao acesso à Rua do Carmo, 1680 bombeiros foram envolvidos para controlar o incêndio. Entre às 11 horas e o meio-dia e meio, o fogo foi dado por circunscrito, só declarado definitivamente dominado às 15 horas. O cenário era desolador. Vários feridos, entre eles estavam 60 bombeiros, 10 moradores e 3 policiais. 18 prédios tinham sido destruídos, como o dos Grandes Armazéns do Chiado, o da Valentim de Carvalho e o do Grandela. Quando a noite chegou, quatro quarteirões do Chiado tinham sido transformados em ruínas.

As Ruínas do Chiado

Ainda na tarde de 25 de agosto, o então presidente da Câmara de Lisboa, Krus Abecassis, criava o embrião do futuro Gabinete de Recuperação do Chiado, que prometia uma reconstrução do bairro em três anos. Um grande engano, a reconstrução das ruínas do Chiado seria lenta, sofrível, atravessaria os anos.
Após o grande incêndio, o trabalho de rescaldo dos bombeiros duraria onze dias, e neste período, a tragédia ficaria maior com a morte de um bombeiro. O local ficaria totalmente isolado por cerca de trinta dias.
Após um mês, a Rua do Carmo foi liberada. Para que se pudesse passar por suas ruínas, uma grande passarela de madeira foi posta, ligando-a a Rua Garret. Esta passarela grotesca, sem estética, ficaria por anos fazendo parte das ruínas. O arquiteto Siza Vieira foi chamado para desenhar a reconstrução do Chiado.
Aos poucos um novo Chiado foi surgindo. Prédios da Rua do Carmo foram reconstruídos, a passarela de madeira desapareceria após um novo asfaltamento da rua, que aboliu para sempre os banquinhos, as esplanadas, tornando-se mais ampla e preparada para receber tanques de bombeiros e carros, caso sucedesse uma nova catástrofe.
Quando completou a primeira década do incêndio do Chiado, o comércio local tinha sido esvaziado, devido à lentidão das obras de reconstrução que atravessaram toda a década de 90. Muitos dos novos prédios estavam vazios por causa das rendas exorbitantes que o novo Chiado exigia. Nos prédios reconstruídos, foram feitas galerias, e não estabelecimentos abertos para as ruas, com vitrines rasgadas. Esta nova forma deve-se não a Siza Vieira, mas à ganância dos proprietários, que queriam mais lojas em um mesmo espaço. Em 1998, apesar de uma nova estação do metropolitano ter sido aberta no bairro, dos 18 prédios destruídos, ainda faltava reconstruir três deles, o dos Grandes Armazéns do Chiado, o da Confepele, na esquina da Rua do Ouro, e o do Restaurante Palmeira, na Rua do Crucifixo. Em 1999 o prédio dos Grandes Armazéns do Chiado seria entregue, transformando-se em um grande centro comercial que leva o mesmo nome, trazendo grandes lojas, como a Fnac. Em 2008, vinte anos depois da tragédia, o prédio do Restaurante Palmeira ainda traz marcas do fogo, estando em ruínas, à espera de ser recuperado.Vinte anos depois, o Chiado é a zona mais cara de Portugal para a habitação. Sua vida noturna é inexistente. Estando totalmente adaptado à realidade contemporânea do século XXI, pouco lembra o local decadente antes do incêndio, muito menos o local tradicionalmente pulsante do seu apogeu. Durante o dia o Chiado pulsa com o seu novo fulgor, à noite adormece, desertificam-se as suas ruas, é no silêncio da penumbra noturna que se percebe o quão ainda lateja a cicatriz do grande incêndio que devorou séculos de tradição. O Chiado de Siza Vieira contrasta com o Chiado do Marquês de Pombal. O Chiado do século XXI é a sombra das labaredas da noite de 25 de agosto de 1988. Mesmo reconstruído!

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