quarta-feira, 13 de agosto de 2008

ASSALTO À CAIXINHA DO ADHEMAR


Adhemar de Barros foi um dos políticos que escreveu de forma indelével o seu nome na história de São Paulo e, conseqüentemente, do Brasil. Foi prefeito da capital paulista e governador do estado por duas vezes. Da sua forma carismática, folclórica e populista de fazer política, nasceu o bem-amado dos paulistas e paulistanos durante algumas décadas do século XX.
Do bem-amado, ficaram para a posteridade as mazelas da corrupção ativa de um político e a participação passiva da população, que o via como “um fazedor de obras”, cujo lema era “Rouba, mas faz!”.
Adhemar de Barros apresentava-se ao povo com o seu jeito de pai bonachão, populista, travestido de um moralismo incondicional, que nos comícios chamava a mulher de “aquela santa”, e no escritório recebia telefonemas de um certo “Doutor Rui”, codinome da amante.
A partir da década de 1950, durante as campanhas eleitorais, começou a surgir boatos e lendas em torno de uma certa “caixinha do Adhemar”. Estes boatos tornaram-se famosos, ainda hoje fazem parte do anedotário da política nacional. Mas o que era a caixinha do Adhemar? Lenda política? Maledicência? Intriga da oposição? A prova viva da corrupção de um político?
A caixinha seria uma forma de arrecadação de dinheiro e de troca de favores, com transações espúrias que envolveriam empresários, bicheiros, empreiteiros, fornecedores, enfim, todos aqueles que almejavam favores e benefícios políticos.
Segundo relatos históricos, a caixinha do Adhemar permitiu ao político paulista uma fortuna não declarada, convertida em dólares, guardada em cofres particulares espalhados pelas residências dele e da amante. Dizia que a caixinha do Adhemar, guardada em sua casa, tinha cerca de 2,5 milhões de dólares para os seus gastos pessoais. Num dos episódios mais inusitados da história brasileira, a caixinha do Adhemar iria parar, em 1969, nas mãos de guerrilheiros que resistiam e combatiam à ditadura militar. Numa operação espetacular, a Vanguarda Popular Revolucionária, de Carlos Lamarca, assaltaria a caixinha do Adhemar.

A Caixinha do Adhemar Vira Tema de Música da MPB

Adhemar de Barros, no auge da sua popularidade como político, era abertamente chamado de corrupto e ladrão por todas a vertentes sociais. A história sobre a caixinha do Adhemar nunca foi desmentida por ele. Nesta época chegou a ter a alcunha de “Promessão”, uma alusão clara a um bandido alcunhado “Promessinha”, que assustava a população com seus crimes de roubos a mão armada.
Duas vezes governador de São Paulo (1947-1951 e 1963-1966), Adhemar de Barros já no seu primeiro governo inspirou o lema “Rouba, mas faz”. Com o seu jeito populista de ser, ele enfrentava os boatos de peito aberto, sem constrangimentos, mesmo quando o seu nome ficou para sempre atrelado às evidências de financiamentos clandestinos de campanhas. Para ficar livre do estigma da história da caixinha, Adhemar de Barros usou-a em seu benefício, encomendando aos compositores Herivelto Martins e Benedito Lacerda uma música a contar uma história diferente da que os adversários propagavam. Surgiria um sucesso musical popular: “A Caixinha do Adhemar”, que em vez de criticar o político, exaltava-o:

Quem não conhece
Não ouviu falar,
Na famosa “caixinha do Ademar”,
Que deu livro, deu remédio, deu estrada,
Caixinha abençoada (…)
Deixa falar toda essa gente, maldizente,
Deixa quem quiser falar (…)
Enquanto eles engordam tubarões,
A caixinha defende o bem-estar de milhões


Atraiçoado Pelos Militares Que Apoiou

Na época do golpe militar de 1964, Adhemar de Barros era governador de São Paulo. Juntamente com os governadores Carlos Lacerda, da Guanabara, e Magalhães Pinto de Minas Gerais, conspirou contra o governo do presidente João Goulart e ajudou a provocar o golpe, apoiando-o de imediato. Todos os três governadores golpistas tinham uma grande ambição, a presidência da República. Esta pretensão dissipou-se tão logo os militares chegaram ao poder, dispostos a por lá permanecerem por muitos anos.
Adhemar de Barros, era aspirante à presidência da República desde 1955, quando sofreu um grande fracassado eleitoral. Mesmo sendo um dos pilares do golpe militar (chegou a apoiar a indicação do general Humberto Castelo Branco à presidência, em 5 de abril de 1964), o velho político foi mantido à distância pelos militares no poder. Sem nunca deixar de lado a pretensão de vir a ser presidente da República, em 11 de março de 1966, Adhemar de Barros exigiu publicamente, a renúncia do então presidente Castelo Branco. A resposta do presidente veio em 5 de junho daquele ano: a velha raposa teve o seu mandato de governador cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos. Para evitar vir a ser preso, Adhemar de Barros deixa o Brasil em 7 de junho de 1966, exilando-se em Paris, na França. Acabava-se aqui, uma das carreiras políticas mais bem-sucedidas da história brasileira, também uma das mais corruptas.

Morte e o Constrangimento da Família

Adhemar de Barros viria a morrer em Paris, em 12 de março de 1969. Não fora somente um político eminente, acumulou atividades empresariais bem-sucedidas, sendo o dono da fábrica de chocolates Lacta (a mesma que produzia o famoso bombom “Sonho de Valsa” e outros chocolates famosos) e sócio da Rádio Bandeirantes, entre os seus muitos negócios.
A morte do político causou constrangimentos à família durante o enterro, que se deu no cemitério da Consolação, em São Paulo. Publicamente veio à tona o seu relacionamento com Ana Gimol Capriglione. A amante, na época que o falecido era governador, era conhecida pelos amigos e funcionários do Palácio do Governo, pelo codinome de “Doutor Rui”. Quando o “Doutor Rui” telefonava, era preciso passar imediatamente ao governador, pois todos sabiam da importância da amante. Durante a cerimônia fúnebre, Ana Capriglione, que fora quem cuidara do translado do corpo de Paris para o Brasil, fez questão de velar o morto até o fim, causando desconforto à viúva, Leonor Mendes de Barros, e aos filhos. O impasse foi resolvido quando se chegou ao acordo inusitado de que as duas mulheres dividiriam o tempo no velório. Ana Capriglione permaneceria até o início da madrugada e, em seguida, cederia à família. O trajeto final até o cemitério foi feito pela família do morto.

O Caso do Cofre do Adhemar

Quatro meses depois da morte de Adhemar de Barros, um novo e definitivo escândalo histórico envolveria o seu nome. Em julho de 1969 surgia a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), resultado da fusão entre o Comando de Libertação Nacional (Colina) com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), comandada por Carlos Lamarca. É desta organização de esquerda que virá a ação que seria conhecida como o Caso do Cofre do Adhemar.
Por detrás da lenda da caixinha do Adhemar, havia a certeza das suas negociatas obscuras e do hábito do velho político guardar o resultado delas em dinheiro vivo. Mas onde estaria o dinheiro? Comentava-se que estava espalhado por vários cofres.
Através de um militante da VAR-Palmares, Gustavo, soube-se do paradeiro de dois dos cofres com o dinheiro da caixinha do Adhemar. Um deles estava na casa e Ana Gimol Benchimol Capriglione, que morava com o irmão, o cardiologista Aarão Benchimol. O outro estaria na casa de José Benchimol. O jovem Gustavo sabia o que dizia, pois era sobrinho de Ana Capriglione, e de Aarão e José Benchimol. Através das revelações do jovem militante, a VAR-Palmares desenvolveu uma minuciosa e bem planeada ação, que envolveria treze guerrilheiros de várias regiões, identificados apenas pelos seus codinomes. Esta ação teria tido como cérebro a guerrilheira Estela (Dilma Rousseff).
No dia 18 de julho de 1969, a ação para expropriar o cofre herdado por Ana Capriglione foi posta em execução. A ex-amante de Adhemar de Barros vivia em uma luxuosa mansão do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Às 15:30 horas, três guerrilheiros, de codinomes Leo (o sargento Darcy Rodrigues), Mariana (a estudante Sônia Lafoz) e Maurício (o professor Reinaldo José), estacionaram uma Aero Willys próxima à entrada da mansão. Leo desceu do carro, deixando Maurício ao volante e ao seu lado, a bela Mariana de fuzil e granadas à mão. Dois outros veículos, uma Veraneio C-14 e uma Rural Willys, encostavam ao lado, trazendo mais dez guerrilheiros.
Da Veraneio C-14, desceram os guerrilheiros Justino (o estudante Wellington Moreira Diniz), Alberto (o sargento José de Araújo Nóbrega) e Juvenal (o sociólogo Juarez Guimarães de Brito), todos vestindo paletó e gravata. Os três foram até a guarita, apresentaram ao vigia um falso mandado de busca e apreensão, supostamente expedido por um general, que estaria atrás de documentos subversivos em poder do doutor Aarão Benchimol. Justino carregava duas pistolas 45 e uma metralhadora, pronto para dispará-las, mas não foi preciso. Após desarmarem o vigia, a Veraneio C-14 e a Rural Willys subiram a alameda, estacionando em frente da escadaria. De acordo com os planos, eles têm 30 minutos para executar a ação.
Já dentro da mansão, os guerrilheiros renderam onze empregados da casa, trancando-os na despensa. O irmão do guerrilheiro Gustavo, Sílvio Schiller, é algemado, ficando preso na despensa, ao lado dos empregados. Os fios dos telefones da casa foram cortados. Seguindo as indicações de Gustavo, eles encontraram em um armário, um cofre de 350 quilos. Tentaram descer o cofre pela escadaria, deslizando-o em cima de um carrinho de rolimãs. No meio da operação, perderam o controle do carrinho, que desceu bruscamente, quebrando degraus de granito, tombando o cofre quando chegou ao fim das escadas. Usando da força bruta, conseguiram levantar o precioso e pesado objeto. Por fim, puseram o cofre dentro da Veraneio C-14, deixando a mansão.
Já no meio do caminho, a Veraneio C-14 parou em um sinaleiro, um guarda de trânsito, vendo a traseira do veículo arriada pelo excesso de peso, comentaria:
O defunto que vocês estão carregando está pesado mesmo!”
Todos já de armas em punho, ouviram quando Leo, mantendo uma calma disciplinar, falou friamente ao guarda, quase gracejando:
“É um cofre que acabamos de roubar. Quer ver?”
Ao que o guarda teria, inocentemente, respondido:
Não, façam bom proveito. Tomara que esteja cheio!”
Mais tarde, Gustavo, o sobrinho de Ana Capriglione, seria preso e torturado. Ele manteria sempre a versão de que existiam oito cofres, que sabia o paradeiro de apenas dois, ambos nas casas dos tios. Quando a polícia investigou o caso, ouviu a versão de que o cofre na casa de José Benchimol estava vazio. Ana Capriglione, para safar-se de um inquérito aberto, manteve a versão de que o cofre levado da sua casa também estava vazio, que tudo não passara de um grande equívoco dos guerrilheiros.
Ao contrário do que foi declarado pela ex-amante de Adhemar de Barros, os guerrilheiros, numa ação que duraria exatos 28 minutos (2 a menos dos 30 que haviam planejado), puseram as mãos em mais de 2,5 milhões de dólares. Como se fosse um Robin Hood tupiniquim, Carlos Lamarca, dirigente da VAR-Palmares, declararia à agência France Press:
Esse dinheiro, roubado do povo, a ele será devolvido.”Assim, parte do dinheiro da famosa caixinha do Adhemar, ele um fervoroso inimigo do comunismo, ironicamente serviu para financiar a resistência comunista e as guerrilhas contra a ditadura militar no Brasil.

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