segunda-feira, 21 de julho de 2008

BENÍCIO: RETRATOS DO CINEMA BRASILEIRO


O cinema nacional dos anos setenta ficou marcado pelas pornochanchadas. O termo surgiu de chanchada, designação para as comédias do cinema nacional de caráter popular, ingênuo e burlesco que predominou da década de trinta à ao início da década de sessenta. Com a mudança dos comportamentos sociais no mundo, o cinema absorveu novas tendências e uma nova linguagem. No Brasil, as chanchadas, inspiradas nos filmes italianos e franceses, adquiriram nos anos setenta, uma verve mais erótica, com cenas de nudez, que fizeram ser classificadas à época de pornográficas, surgindo o termo pornochanchada. Vistas aos olhos de hoje, as pornochanchadas eram filmes até certo ponto maliciosos, picantes, mas de um humor ingênuo, que nada lembram aos filmes pornôs atuais. Uma das características dos filmes das pornochanchadas era os seus cartazes, todos eles feitos pelo ilustrador José Luiz Benício, conhecido por J.L. Benício, ou simplesmente Benício. É dele a autoria dos famosos cartazes da então rainha das pornochanchadas, Vera Fischer, entre eles, o mais conhecido: “A Super Fêmea”, de 1973. Os cartazes de Benício eram uma marca do cinema nacional nos anos setenta e oitenta, não só os das pornochanchadas, mas de clássicos como “Dona Flor e os Seus Dois Maridos” (1976), “Independência ou Morte” (1972), “O Beijo no Asfalto” (1981), ou “Perdoa-me Por Me Traíres” (1983). Foram mais de 300 cartazes de filmes feitos por Benício, praticamente a produção de uma década. O traçado de Benício hoje faz parte do nosso acervo cultural, tornou-se cult, uma obra pop que reflete a identidade de uma época, que já distante, parece que foi ontem.

Das Mãos de Benício, Belos Rostos das Espiãs dos Livros de Bolsos

Benício é gaúcho de Rio Pardo, nascido em 1936. Iniciou a sua carreira de ilustrador aos 16 anos. Foi no Rio de Janeiro que, trabalhando para a Rio Gráfica Editora, passou a ser conhecido, construindo uma carreira que ilustrava, principalmente, as mulheres. Inspirado no norte-americano Norman Rockwell, é de Benício as ilustrações das mais famosas pin-ups feitas no Brasil.
As mulheres das ilustrações de Benício já eram famosas no Brasil antes dele ilustrar os cartazes do cinema. Sua fama vinha dos livros de bolso, ou pocket book. A partir dos anos cinqüenta os livros de bolsos tornaram-se populares no Brasil, atingindo o ápice nos anos sessenta. Uma geração de brasileiros deliciou-se com os livros de bolsos com histórias do western norte-americano, os famosos livrinhos de cowboys. Além deste tema, a Editora Monterrey criou duas outras séries de sucesso dos livrinhos de bolsos: ZZ7 e FBI. Todas as capas desses livros foram feitas por Benício.
É da série ZZ7 que surgiu a famosa espiã Brigitte Montfort. A imagem de Brigitte, uma morena de olhos azuis e corpo escultural, foi inspirada em uma modelo chamada Maria de Fátima Lins. A série dos livros de Brigitte Montfort tem uma origem curiosa, que muito mexeu com imaginário do brasileiro por mais de duas décadas. Sua origem remota da época em que, para concorrer com Nelson Rodrigues, que publicava o folhetim “Meu Destino É Pecar”, em “O Jornal”, sob o pseudônimo de Suzana Flag, David Nasser inventou uma personagem para o “Diário da Noite”, outra publicação dos “Diários Associados”, de Assis Chateaubriand. Surgia “Giselle - A Espiã Nua Que Abalou Paris”. Giselle Montfort foi apresentada aos leitores não como uma personagem fictícia, o “Diário da Noite” anunciava que comprara com exclusividade, as memórias da bela mulher que passara de cama em cama dos nazistas, obtendo informações para as forças aliadas. O nome de David Nasser como sendo o autor das memórias de Giselle, só seria revelado muitos anos depois. “Giselle - A Espiã Nua Que Abalou Paris”, fez vender nas bancas, milhares de exemplares do “Diário da Noite”. David Nasser jamais havia posto os pés em Paris, criou a espiã francesa em conversas com Jean Manzon, fotógrafo parisiense dos “Diários Associados”, para dar veracidade à ficção. Conta-se que, inconformado com os salários atrasados, David Nasser invadiu a sala de Assis Chateaubriand e ameaçou: "O senhor deve ter visto que a personagem principal está encostada num muro e vai ser fuzilada no capítulo de amanhã. Chega de trabalhar de graça." O patrão teria pago de imediato os salários atrasados, ressaltando: "Se Giselle aparecer morta, depois de amanhã você acorda desempregado, seu turco ordinário!". No final da história, Giselle era fuzilada pelos nazistas. Foi então que surgiu a idéia de criar a filha da Giselle, nascia a sedutora Brigitte Monrfort. A filha da espiã francesa foi uma das mais belas e famosas criações das ilustrações de Benício. Foram mais de 1500 capas de pocket books criados pelo ilustrador, que além de Brigitte Montfort, deu notabilidade a outro personagem: K. O. Durban.

Os Cartazes Eróticos das Pornochanchadas

Numa época de rigorosa censura moralista que assolava o Brasil, criar cartazes sensuais que atraíssem os telespectadores às telas dos cinemas exigia talento e sensibilidade, além de uma aguçada visão do momento que se vivia. Os cartazes das pornochanchadas eram insinuantes, eróticos, mas estavam longe da vulgaridade, ou tão pouco, eram pornográficos. Benício sabia como ninguém realçar a beleza sensual das atrizes, tornando-as irresistíveis e desejáveis.
Há que se esclarecer que as pornochanchadas não traziam atrizes de filmes pornôs, não eram filmes de sexo explícito, mas insinuado, eram comédias picantes, com uma dose de cenas de nudismo que excitava a platéia. Em um momento tão inóspito para as artes, foram as pornochanchadas que permitiram a sobrevivência do cinema nacional na época da ditadura militar, uma vez que temas políticos eram proibidos. O gênero só desapareceria em 1982, quando a censura da ditadura militar liberou os filmes de sexo explícito, e os filmes pornográficos passaram a ser feitos no Brasil. O primeiro filme pornográfico produzido no país, “Coisas Eróticas” (1982), teve uma grande repercussão, enterrando de vez as pornochanchadas.
Os cartazes de Benício insinuavam a nudez que se iria ver dentro das salas de cinema, mas jamais a visualizava por inteiro. O cartaz teria que ser revelador, sem cair na pornografia, passar a mensagem erótica, sem fazê-la vulgarmente. A respeito desses cartazes Benício declararia:
Eu era o Pitanguy das atrizes. As deixava mais bonitas do que eram realmente. Tirava a celulite, botava cintura. Eu resolvia o que não podia ser feito por fotografia, e elas ficavam felizes.”
Uma geração não se esquece dos anúncios na porta dos cinemas, com cartazes ilustrados por Benício, entre eles: “A Super Fêmea”, “Histórias Que as Nossas Babás Não Contavam”, “O Grande Gozador”, “.. Cada Um Dá o Que Tem” e “Um Soutien Para o Papai”.
Os cartazes de Benício sobreviveram aos próprios filmes, sendo hoje disputados por uma legião de fãs nos sebos e nos sites de leilões. As pornochanchadas cumpriram nos tempos sombrios da ditadura, a missão de não deixar o cinema nacional morrer. Ainda sobre o seu trabalho para os cartazes desses filmes, Benício, hoje com mais de setenta anos de idade, revela-nos:
“Eu tomava cuidado, nunca desenhava o bico do seio, por exemplo. A gente disfarçava, botava florzinha, um brilhante, o que fosse.”

Valiosa Contribuição Para o Cinema Nacional

A importância do trabalho de Benício para o cinema nacional vai além das pornochanchadas. Da sua genialidade criativa saíram os mais belos cartazes para os mais diversos estilos de filmes feitos no Brasil. Foram cerca de 30 cartazes para os filmes de “Os Trapalhões”. Quem foi criança na época de ouro de Os Trapalhões, lembra-se dos cartazes de Benício para os filmes dos comediantes, entre eles: “Simbad o Marujo Trapalhão", “Cinderelo Trapalhão”, ”Robin Hood o Trapalhão da Floresta”, e o clássico “Os Saltimbancos Trapalhões”, que se tornaria capa do álbum do mesmo nome, com músicas de Chico Buarque.
Das mãos de Benício saíram ainda, cartazes para clássicos do cinema nacional, como: “O Ébrio”, com Vicente Celestino; “O Profeta da Fome”, um psicodélico desenho para o filme de José Mojica Marins, o Zé do Caixão; “A Madona de Cedro”, filme com Leonardo Villar e os saudosos Sérgio Cardoso e Leila Diniz; “Independência ou Morte”, filme com Tarcísio Meira e Glória Menezes, feito para as comemorações dos 150 anos de independência do Brasil, em 1972; ou do mítico “Dona Flor e os Seus Dois Maridos”, de Bruno Barreto, que consagraria Sonia Braga no cinema nacional. Também é de Benício os cartazes de duas adaptações para o cinema da obra de Nelson Rodrigues, feitas nos anos oitenta: “Perdoa-me Por Me Traíres” e “O Beijo no Asfalto”.
José Luiz Benício, que na juventude sonhara ser músico, um pianista, tornou-se um ícone nas artes visuais do país com as suas míticas capas dos livros de bolsos ou com os mais de 300 cartazes para os filmes do cinema nacional.
Convidado por Oswaldo Massaini, em 1969, para ilustrar os cartazes do cinema, Benício só interromperia a sua produção nos anos noventa, quando o então presidente Fernando Collor acabou com a Embrafilme, e, conseqüentemente, com o cinema nacional. Quando foi retomado no fim dos anos noventa, o cinema já usava o computador para a produção dos seus cartazes, que tornam a produção mais barata. E a obra de Benício tornou-se um ícone histórico da sétima arte no Brasil.

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