Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

FRANÇA DE VICHY - O GOVERNO DA DESONRA DE UMA NAÇÃO


Em 1939 os exércitos de Hitler invadiram a Polônia, tendo como conseqüência a deflagração da Segunda Guerra Mundial. Inglaterra e França foram as primeiras nações a declarar guerra à Alemanha. Menos de um ano depois, o exercito francês foi capitulado, obrigando à redenção total da França ante ao regime nazista.
Humilhada, a França, através do marechal Philippe Pétain, assinou o acordo de rendição à Alemanha, sendo dividida em duas zonas principais: ocupada e não ocupada. A chamada França ocupada, que consistia na parte norte e ocidental, toda a costa do Atlântico Norte e a capital Paris, passou a ser controlada diretamente pelo regime nazista; o restante do território seria administrado por um suposto regime livre, liderado por Pétain, com capital na cidade de Vichy. Surgia o Estado Francês, vulgarmente chamado de França de Vichy, ou República de Vichy.
O período em que a França livre foi governada da cidade de Vichy durou de 1940 a 1944, sendo um dos mais obscuros da história do país. Pétain construiu um regime colaboracionista com os nazistas, movido pela direita conservadora e moralista. Durante quatro anos, as Milícias de Vichy prenderam cidadãos que se opunham ao regime, fuzilou suas lideranças, entregou os judeus franceses aos alemães, além de adotar a política nazista da segregação racial, enviando ciganos, prostitutas, indigentes, homossexuais e outras minorias para os campos de concentração. Também a eugenia fez parte desse regime de exceção do Estado Francês.
Na contramão da França de Vichy surgiu a Resistência Francesa, movimento liderado por oponentes idealista, que com operações logísticas de inteligência de guerra, sabotavam, combatiam e lutavam por um país livre da ocupação nazista e do regime infame governado por Pétain.
O regime da França de Vichy só se extinguiu com a chegada das forças Aliadas ao país, a libertação da opressão nazista e o fim da Segunda Guerra Mundial. Passou para a história como o momento mais vergonhoso do povo francês. Ainda hoje historiadores dividem-se sobre o período, alguns acham um mal necessário, com a população a pagar os custos da invasão às tropas alemãs, evitando que os franceses deixassem o país. Outros acham que melhor teria sido não aceitar tão humilhante regime imposto pelos nazistas, e sim deixar o continente, formando um exército de resistência no Norte da África, nas então colônias francesas daquele continente. Por trás da França de Vichy estavam os franceses que sustentavam a idéia de uma França de raça pura e de ideais nacionalistas próximos às ditaduras de Franco, da Espanha, e do próprio Hitler, da Alemanha nazista. Colaboracionismo, racismo, perseguições e fuzilamentos marcaram com uma grande nódoa a história da França, fazendo da República de Vichy um momento de humilhação e vergonha do povo francês.

A França é Capitulada pelos Alemães

O governo nazista de Adolf Hitler propunha a elevação e expansão da Alemanha, transformando-a na maior potência da Europa e do mundo. A ideologia nacionalista do governo do Terceiro Reich procurava devolver ao povo alemão a alto-estima perdida após a derrota sofrida na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em 1938, com o consentimento do povo austríaco, Hitler anexou a Áustria à Alemanha. No mesmo ano, reivindicou a integração dos Sudetos, região montanhosa da antiga Tchecoslováquia, habitada por minorias germânicas. Diante da ameaça expansionista nazista, foi realizada uma conferência internacional em Munique, onde a França e a Inglaterra cederam às intenções dos alemães, permitindo a anexação dos Sudetos.
Mas os objetivos expansionistas da Alemanha não pararam. Em 1 de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia, derrotando as tropas polacas em um mês. A parte oriental da Polônia foi ocupada pela União Soviética, no cumprimento do acordo Ribbentrop-Molotov, assinado entre as duas nações. Desta vez, França e Grã-Bretanha opuseram-se a esta invasão, declarando guerra à Alemanha. Iniciava-se o maior conflito da humanidade, a Segunda Guerra Mundial.
A guerra entre a Alemanha e França foi considerada como uma falsa demonstração de poder, visto que o exército francês estava aquém das forças do Reich. Numa guerra relâmpago, os franceses seriam capitulados em poucos meses. Em 10 de maio de 1940 começou a ofensiva alemã contra os exércitos franceses, dando início à Batalha de França. Em poucos dias, a Holanda e a Bélgica sucumbiriam às forças nazistas. Em 20 de maio, o primeiro ministro francês, Paul Reynaud, demitiu o general Gamelin, nomeando o general Weygand para que traçasse a estratégia e medidas contra o cerco alemão. A partir de 23 de maio, as cidades portuárias da região de Calais foram sucumbindo uma a uma, ao exército de Hitler. A ofensiva prosseguiu rumo a Paris. Em 5 de junho, o exército francês comandado por Weygand foi derrotado. Em 10 de junho, a Itália, aliada da Alemanha, declarou guerra à França. Em 14 de junho, os alemães tomaram Paris. Em fuga, o governo francês transferiu-se para Bordéus, à espera da ajuda dos aliados britânicos.
Após a queda de Paris, o marechal Philippe Pétain anunciou publicamente, através do rádio, em 17 de junho, que a França proporia um armistício, com a intenção de render-se aos alemães. O primeiro-ministro Reynaud, recusou-se a assinar a rendição, demitindo-se do cargo. Em 22 de junho de 1940, o marechal Pétain, que assumiu o lugar de Reynaud, assinou o armistício com a Alemanha, após a rendição do Segundo Grupo do Exército Francês, entrando em vigor em 25 de junho. Ironicamente, a rendição oficial, foi dada em Compiègne, no mesmo trem que a Alemanha, em 1918, ao fim da Primeira Guerra Mundial, fora obrigada a render-se. Imagens do marechal Pétain a apertar a mão de Adolf Hitler tornam-se símbolos da propoganda nazista, sendo divulgadas pelo mundo inteiro. Estava concretizada a maior vitória dos exércitos do Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial.

Criada a França de Vichy

Com a ocupação da França pelos nazistas, não só a situação política-administrativa do país foi alterada, como também a sua geografia. No mapa da Europa, a França foi dividida em três partes: a França de Vichy, formada pelo centro-sul do país, com o governo entregue ao marechal Pétain, com centro administrativo a partir da cidade de Vichy, na França central, sendo ali exercido um governo colaboracionista com os nazistas, com forte orientação fascista. A França Ocupada, formada pelo norte e pela costa atlântica francesa, incluindo a capital, Paris; sendo uma zona comandada diretamente pelas autoridades militares germânicas. Finalmente, a terceira parte, os territórios da Alsácia-Lorena, foi anexada à Alemanha, tornando-se parte do território daquele país.
A divisão da França pôs fim à Terceira República Francesa (1870-1940). Na França de Vichy, Paris continuou a ser a capital oficial, embora não o fosse administrativamente. Philippe Pétain era, em 1940, um velho herói da Primeira Guerra Mundial. Durante o tempo que governou de Vichy, prometeu sempre devolver a administração a Paris, assim que o fosse possível fazer.
O governo de Vichy apresentava-se como um regime de neutralidade à guerra, mas na prática colaborava ativamente com o governo de Hitler. O termo “República Francesa” foi substituído por “Estado Francês”. Para garantir o regime, em 10 de julho de 1940, Pétain conclamou a França de Vichy, através de uma Assembléia Nacional, deixando de ser o último primeiro-ministro da Terceira República, transformando-se no chefe do Estado Francês, obtendo amplos poderes no novo cargo.
O regime de Vichy na verdade governava à sombra das diretrizes de Berlim. Não administrava apenas a considerada zona livre do sul da França, a sua jurisdição estendia-se ao longo de toda a França metropolitana, com exceção da Alsácia-Lorena, território que se tornou parte da Alemanha.
Quando as forças Aliadas desembarcaram no Norte da África, os alemães desencadearam a Operação Processo Anton, em 11 de novembro de 1942, ocupando o sul da França, zona considerada neutra e livre. O regime de Vichy continuou a exercer jurisdição sobre quase toda a França, apesar de ter os poderes diminuídos. A partir de então, a colaboração com os nazistas tornou-se mais intensificada, sendo adotados claramente as suas políticas raciais. O marechal Pétain tornou-se chefe de um Estado com um programa político reacionário, ao qual chamou de “Revolução Nacional”, que se proclamava como regenerador da nação.

A Política Racial do Regime de Vichy

O regime de Vichy tornou-se autoritário, que não só aceitou a ocupação alemã, como assimilou várias facetas da sua ideologia. Sustentava-se no poder pelo regime de Hitler, pelo medo e opressão à população, garantidos pela terrível polícia do Estado, a Milícia (Milice).
Temida pelos franceses, a Milícia garantia a face repressiva e racial do regime. Capturava os indesejáveis pelos alemães, tanto na parte norte, como no sul do país, prendendo-os, fuzilando-os ou simplesmente entregando-os aos alemães, para que fossem enviados para campos de concentração nazistas. Membros da Resistência e judeus eram os seus alvos favoritos.
Sob o comando do marechal Pétain, o regime de Vichy tomou medidas drásticas e de caráter repressivo contra diversas etnias e setores da sociedade francesa. Imitando a política vergonhosa de perseguição racial, começou uma caça aos imigrantes, chamados de métèques, aos judeus, maçons, ciganos, homossexuais, comunistas e outras minorias.
Já em julho de 1940, tão logo o regime foi implantado, foi criada uma comissão para rever a lei da nacionalidade de 1927, que concedera a cidadania francesa a vários estrangeiros, em especial aos judeus vindos do leste europeu na década de 1930, fugindo da perseguição do regime nazista. Iniciou-se o processo de desnaturalização que, de 1940 a 1944, tempo que durou a França de Vichy, atingiu mais de quinze mil pessoas, sendo os judeus os mais atingidos.
Em outubro de 1940, foi editado um decreto que autorizava a internação dos judeus em campos de concentração franceses, abertos durante a Terceira República, e que serviriam de trânsito para a execução do Holocausto. Após passar pelos campos franceses, todos os deportados eram enviados para os campos nazistas do leste europeu. Além dos judeus, os ciganos foram os principais remetidos para os campos de extermínios. Camp Gurs era o principal local de internamento de presos, construído antes da Segunda Guerra Mundial. Em 1940 recebeu o primeiro contingente de prisioneiros daquela guerra, que incluía anarquistas, comunistas, sindicalistas e antimilitaristas. Com a implantação do regime de Vichy, vários outros campos de concentração foram abertos em solo francês, sendo o primeiro deles o de Aincourt, em Seine-et-Oise. O Camp des Milles, próximo a Aix-en-Provence, foi o maior campo de concentração do sudeste francês, sendo de lá deportados cerca de 2.500 judeus. Na Alsácia, os alemães abriram o campo de Natzweiller, que incluía uma câmera de gás, utilizada para executar aproximadamente 86 prisioneiros, sendo a maioria judeus.
Com a perda da nacionalidade, os judeus passaram a ser classificados como “Grupos de Trabalhadores Estrangeiros”. Passaram a ter que usar um distintivo amarelo, sendo excluídos da administração civil. O regime de Vichy permitiu o uso da eugenia como programa destinado para preservar o francês de raça pura. Felizmente, o programa não foi tão longe quanto o seu similar desenvolvido pelos nazistas.

A Resistência Francesa

Após a assinatura do armistício em Compiègne, que aceitava a invasão da França pelos nazistas e a sua divisão administrativa; vários setores da sociedade francesa opuseram-se à submissão do seu país. Iniciava-se uma resistência ao regime colaboracionista de Vichy e à ocupação germânica. Grupos vindos de todas as camadas sociais francesas, desde os comunistas, judeus, anarquistas, sacerdotes, católicos conservadores, liberais, jornalistas; uniram-se para dar corpo ao que ficou conhecido com Resistência Francesa.
Após a ocupação alemã, grande parte da população francesa manteve-se neutra, procurando continuar a vida sem manifestação contrária ou favorável àquela situação. O regime de Vichy mostrou-se autoritário, espelhado nos governos fascistas, iniciando uma repressão violenta aos que se opunham a ele e aos alemães. A opressão passou a gerar um número pequeno de patriotas descontentes. O envolvimento sentimental das mulheres francesas com os ocupantes alemães causou a repulsa dos homens, ofendendo-lhes a honra. A desvalorização da moeda francesa diante da alemã permitiu que os nazistas usufruíssem os privilégios econômicos, enquanto que os franceses mergulhavam em grande miséria, causada por uma galopante inflação e escassez de alimentos. Crianças e idosos sofriam com a desnutrição, combalindo diante da fome. Milhares de trabalhadores franceses foram transferidos para trabalhar na indústria alemã, em plena ascensão, enquanto que as fábricas francesas entravam em colapso, trazendo um grande desemprego. Todos estes fatores, aliados ao patriotismo e à falta de liberdade civil, com toques de recolher à noite e a repressão política durante o dia, levaram à revolta, passiva ou ativa, da população francesa.
O Estado Francês, dirigido pelo marechal Pétain, extinguiu os partidos, os sindicatos, a liberdade da imprensa, com perseguições e prisões de líderes políticos. O descontentamento não era somente com os invasores germânicos,
mas com o governo reacionário de Pétain e dos seus aliados, que se mostrava opressivo e sem honra diante da colaboração com os nazistas, a quem se havia declarado guerra em 3 de setembro de 1939. A situação forçou a união de vários grupos de movimentos de resistência. Seus membros passaram a ser chamados de partisons (partidários), desenvolvendo um esquema de inteligência logística contra os inimigos, alemães ou franceses colaboracionistas.
Os núcleos de resistência passaram a existir desde a capitulação da França pelos alemães, em junho de 1940, e da instauração do regime de Vichy, visto por líderes políticos como vergonhoso. Estudantes universitários que se proclamavam revolucionários, criaram o jornal “Resistência”. Ainda naquele ano fatídico de 1940, a Resistência teve as suas lideranças iniciais levadas prisioneiras ao campo de concentração de Camp Gurs, entre eles, os comunistas, estudantes, sindicalistas e líderes de esquerda em geral.
Com o passar do tempo, um maior número de pessoas uniram-se aos grupos de resistência. No norte, ocupado e governado diretamente por autoridades militares do Terceiro Reich, surgiram, entre 1941 e 1942, a Organization Civile et Militaire e o Liberation-Nord. Desenvolviam táticas de guerrilhas, logísticas de inteligência e sabotagem aos governantes e às polícias de Estado, e aos alemães invasores. No sul, até 1942, a Resistência concentrava as suas ações na propaganda, visto que era zona não ocupada pelos alemães. Quando os territórios do sul foram ocupados, mudaram de tática. No sul a intensidade da Resistência era menor, uma vez que a sua população conservadora apoiava, na maioria, o governo do marechal Pétain. Apenas os adeptos da esquerda aderiam à Resistência.
Até 1941, a Resistência centrava as ações em atividades clandestinas e lutas de guerrilha. A partir daquele ano, em outubro, passaram a receber apoio das forças Aliadas, quando o governo britânico decidiu ajudar, criando em Londres o Bureau Central de Renseignements et d’Action (BCRA), comandado pelo coronel Dewaurin.
A Resistência passou a usar a Cruz de Lorena como símbolo da França livre. Pequenos grupos de homens e mulheres armados desenvolviam as ações contra os inimigos através das zonas rurais, passando a ser chamados de maquis.
Diante do crescimento logístico dos grupos de resistência, o governo do marechal Pétain passou a combatê-los com uma intensa repressão. Inúmeros comunistas passaram a ser cassados pela Milícia. Em agosto de 1941, em represália à Resistência, foram estabelecidos os métodos de punição coletiva, que tomava reféns entre a população, que passavam a ser fuzilados a cada investida dos rebeldes. No decurso do regime de Vichy e da ocupação alemã, cerca de trinta mil franceses foram fuzilados como reféns em represália aos atos da resistência. Algumas aldeias, como Oradour-sur-Glane, foram destruídas pelos alemães, tendo a população massacrada, como uma resposta às atividades da Resistência ao redor. Em Lyon, o movimento de resistência Franc-Tireur, nascido em torno de alguns jornalistas, teve o seu maior líder, Marc Bloch, assassinado pelos nazistas.
A Milícia, formada por um grupo de paramilitares, foi criada no início de 1943, para combater a Resistência, e dar apoio às tropas alemãs, que desde 1942, estavam espalhadas por todo o território francês. A Milícia tornou-se uma espécie de Gestapo francesa, colaborando estreitamente com os nazistas. Tornou-se temida pela população, por usar métodos brutais de tortura e executar sumariamente a todos que suspeitassem pertencer à Resistência. Os temidos miliciens só encerrariam as suas atividades após a libertação da França pelos Aliados, em 1944. Na ocasião, grande parte da polícia terrorista do regime de Vichy foi condenada por colaboracionismo e executada. Muitos fugiram para a Alemanha, sendo incorporados na divisão do Charlemagne da Waffen-SS.
A atuação da Resistência Francesa foi de grande importância aos Aliados durante a invasão da Normandia, em 6 de junho de 1944. Foram eles que conduziram as forças Aliadas através da França, passando informações militares sobre os inimigos, além de proporcionar sabotagens nas telecomunicações, transportes e energia que abasteciam os alemães invasores. Ao lado dos Aliados, formaram unidades chamadas de Forças Francesas do Interior (FFI). As FFI reuniam em junho de 1944, cerca de cem mil membros, crescendo rapidamente, atingido o número de quatrocentos mil combatentes até outubro daquele ano.
A Resistência Francesa foi fundamental para que a França não morresse moral e politicamente durante a ocupação nazista e a duração do regime de Vichy. Gerou vários heróis, como o mítico Jean Moulin, morto pela Gestapo em 1943. Com o fim da França de Vichy, a Resistência Francesa floriu como o único motivo de orgulho e honra do povo francês durante o mais obscuro dos períodos da sua história, em que a colaboração com os nazistas trouxe desconforto e humilhação diante do mundo.

Jean Moulin, o Herói da Resistência

Se o general Charles De Gaulle é o herói vencedor da opressão nazista sobre a França, o seu libertador invencível; Jean Moulin é o herói mártir, símbolo daqueles que resistindo dentro de uma França colaboracionista, pagaram com a vida o direito de lutar pela liberdade.
Jean Moulin é a própria imagem do galã frágil e sensível, mas decidido a cumprir o seu destino trágico, mas heróico, em nome do seu país, do fim da opressão e pela liberdade de ir de vir. Tornou-se o maior símbolo da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Nasceu em Béziers, sudeste da França, próximo do mar Mediterrâneo, no fim do século XIX, em 20 de junho de 1899.
Na juventude, alistou-se no exército francês, em 1918, para lutar pelo seu país na Primeira Guerra Mundial. Com o fim da guerra, voltou aos estudos, licenciando-se em Direito, em 1924.
Muito cedo Jean Moulin deixou-se enveredar pela carreira administrativa. Em 1922 iniciava uma brilhante carreira política, exercendo o cargo de chefe de gabinete de deputado em Sabóia. De 1925 a 1930, tornou-se subprefeito de Albertville, sendo o mais jovem francês a exercer o cargo.
A vida de Jean Moulin sempre foi marcada pela ideologia política. Sua vida amorosa é menor diante da sua luta ideológica. Casou-se uma vez, em setembro de 1926, com Marguerite Cerruti, de quem se iria divorciar dois anos mais tarde, em 1928.
Durante a Guerra Civil Espanhola, Jean Moulin ajudou as forças de esquerda que lutavam contra o general Francisco Franco. As versões da participação de Jean Moulin neste período divergem, trazendo dados obscuros. Alguns historiadores acreditam que ele forneceu armas soviéticas para os espanhóis, mas a versão mais aceita é de que, de dentro do Ministério da Aviação, ofereceu aviões franceses aos que lutavam contra o fascismo na Espanha.
Além da vertente política, Jean Moulin era um exímio ilustrador e caricaturista. No início da década de 1930 chamou a atenção pelas caricaturas políticas que publicou no jornal “Le Rire”, usando o pseudônimo de Romanin. Ilustrou o livro do poeta Tristan Corbière.
Em janeiro de 1937, nomeado para o departamento de Aveyron, tornou-se o mais jovem prefeito da França. Em 1939 foi nomeado prefeito do departamento de Eure-et-Loire. Quando exercia o cargo, foi apanhado pela invasão dos alemães ao seu país. Logo no início, em 1940, foi preso pelos nazistas por recusar a colaborar com os invasores, não assinando falsos documentos por eles propostos. A sensibilidade de Jean Moulin foi rompida pela perda da liberdade. Desesperado, ele tentou o suicídio na prisão, cortando a garganta com um pedaço de vidro. A tentativa deixou-lhe uma cicatriz indelével, que sempre escondia com um cachecol. A imagem sensível, de galã romântico, com o pescoço coberto por um cachecol, tornou-se a mais conhecida através das décadas, chegando intacta aos tempos atuais.
Após a implantação do regime de Vichy, o governo colaboracionista ordenou que todos os prefeitos de esquerda, eleitos nas cidades e aldeias francesas fossem demitidos. Recusando a cumprir a ordem, Jean Moulin foi removido do próprio escritório. Foi então que entrou para a Resistência Francesa.
Em setembro de 1941, usando o nome de Jean Joseph Mercier, partiu para a Inglaterra, encontrando-se com o general Charles De Gaulle. Em Londres, De Gaulle encarregou-o de unificar os movimentos de resistência contra a invasão nazista na França, sendo nomeado delegado da zona não ocupada francesa, tendo o apoio do comitê de Londres. No início de 1942, Jean Moulin reuniu-se com membros da Resistência, dando início à missão delegada por De Gaulle.
De volta a Londres, em fevereiro de 1943, foi encarregado de uma nova missão, formar o Conselho Nacional da Resistência (CNR). A primeira reunião do CNR aconteceria em Paris, em 27 de maio de 1943, tendo Jean Moulin como presidente.
Em 21 de junho de 1943, no primeiro dia do verão, e um dia após ter completado 44 anos de idade, Jean Moulin e vários líderes da Resistência foram presos em Caluire-et-Cuire, um subúrbio de Lyon. Uma versão sobre a prisão de Jean Moulin aponta para uma possível traição de René Hardy, que foi capturado e libertado pela Gestapo. Outros historiadores acreditam que René Hardy, ao ser seguido pelos alemães, foi simplesmente imprudente.
Em Lyon, Jean Moulin foi interrogado pelo chefe da Gestapo, Klaus Barbie, sendo levado mais tarde para Paris. Mesmo sob tortura, o líder da Resistência não revelou nenhum segredo aos alemães. Durante a transferência para a Alemanha, Jean Moulin morreu perto de Metz, no dia 8 de julho de 1943. Provavelmente devido aos ferimentos sofridos pela tortura. Mais tarde, Klaus Barbie alegaria que o herói da Resistência Francesa teria morrido pelas próprias mãos, em uma tentativa de suicídio. Alguns biógrafos do mártir apóiam esta versão, acrescentando que Barbie teria ajudado pessoalmente à tentativa.
Jean Moulin tornou-se símbolo de retidão cívica e de patriotismo numa época de muitos anti-heróis e de desonra de uma nação. Tornou-se uma lenda do século XX na França, sendo homenageado e referendado por todas as gerações que viram ou procederam ao seu martírio. Inicialmente foi enterrado no Cemitério Père Lachaise. Em 19 de dezembro de 1964, suas cinzas foram transferidas para um memorial no Panteão de Paris.

O Fim da França de Vichy

Com a chegada das forças Aliadas em junho de 1944, a França seria libertada da ocupação nazista alguns meses depois. A legitimidade da França de Vichy e do seu chefe de Estado, marechal Philippe Pétain, foi contestada pelo general Charles De Gaulle e pelas suas forças francesas livres, primeiro com base em Londres, e mais tarde, através de Argel, no Norte da África, onde foi declarado que o regime de Vichy não passou de um governo ilegal e de traidores colaboracionistas com as forças do Terceiro Reich, com fortes inclinações inspiradas na ideologia nazista.
Em junho de 1944, logo a seguir à invasão da Normandia, que levou a uma seqüência de ações que culminaria na libertação da França, o general De Gaulle proclamou o Governo Provisório da República Francesa (GPRF). Em agosto as forças dos Aliados chegaram a Paris, libertando finalmente, a capital francesa de quatro anos de ocupação e humilhação impostas pelas forças dos exércitos alemães. O GPRF instalou-se em Paris, em 31 de agosto, vindo a ser reconhecido pelos Aliados como governo legítimo da França, em 23 de outubro de 1944.
A libertação da França pelos Aliados, ocasionou a fuga dos funcionários e simpatizantes da França de Vichy, entre agosto e setembro de 1944, sendo o regime movido para Sigmaringen, na Alemanha, onde foi estabelecido um governo no exílio, liderado pelo marechal Pétain. O regime de Vichy no exílio durou até abril de 1945, quando os Aliados chegaram a Berlim, pondo fim ao governo nazista de Adolf Hitler.
Na reconstrução de uma República francesa livre, importantes lideranças, políticos e militares do regime de Vichy foram julgados e executados como traidores e colaboracionistas. As mulheres que se envolveram com os nazistas, sendo deles amantes, tiveram os cabelos rapsados em praça pública, para que fosse exposta a sua desonra. O marechal Philippe Pétain foi condenado à morte por alta traição, mas teve a pena comutada para prisão perpétua. A imagem do governante a apertar a mão de Adolf Hitler ficaria para sempre marcada na lembrança dos franceses, como um símbolo de vergonha daquele povo.
Durante o período da França de Vichy, de 1940 a 1944, o exercito francês seria reduzido a cem mil homens; os prisioneiros de guerra seriam mantidos em cativeiro. A população francesa mergulharia na miséria, com a fome a tomar grande forma, assolando a nação. Estima-se que a França forneceu 42% da ajuda externa à economia alemã durante a Segunda Guerra Mundial.

Domingo, 5 de Julho de 2009

PALAVRAS DE AMOR - POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Palavras de amor quando ditas pelo mais primordial dos mortais tornam-se um momento de beleza; quando ditas pelos mais sensíveis tornam-se um poema de amor. Palavras de amor, quem não as proferiu? Quem não as escreveu? Quem não as roubou aos poetas para sentir a sua intensidade ou presentear o grande amor?
No baú das minhas memórias, hei que me deparo com as minhas palavras de amor juvenil, que na época as chamei de poemas. Mas como a poesia está no dilacerar da sensibilidade, mesmo quando rompida pela estética da métrica, chamo aos meus versos livres de palavras de amor.
Às vezes olho para aquele que os escreveu e que hoje se encontra perdido dentro do tempo da minha mente, e pergunto-me: quem eras tu que os escreveu? Que heterônimo foi desprendido dos espelhos do meu sentimento? Ainda seria capaz de escrevê-los assim, tão livres, comprometidos apenas com os sentimentos, sem a técnica estética das palavras? Mas o poeta não tem compromisso apenas com o sentimento do eu mais profundo? Não tem como obrigação tornar bonito a rima da dor com o amor?
Um dia cansei de escrever o amor e fui vivê-lo na sua essência bruta. Meus versos perderam-se em lençóis estranhos e manchados pelo prazer, distanciaram-se entre as pernas desconhecidas que aconcheguei aflito a minha insaciável vontade de ejacular o amor. Sofistiquei o amor nas teias do prazer, muitas vezes desencontrando-o do calor do coração.
Então onde encontrar o jovem que escreveu os poemas de amor? Que desconhecido no tornamos! Fecho os meus olhos e posso vê-lo romântico, a sonhar com a rosa azul de um jardim eternamente secreto. Relembro corpos nus e suados, a desenhar relevos de paixão com os seus pêlos artísticos à meia-luz do quarto. Ressuscito imagens imprecisas de ventres ao léu, que no ápice do meu prazer, colheram a pequena morte de mim. Então, eu, homem maduro, recolho as palavras de amor escritas pelo meu eu de juventude. Roubo-as para mim, afinal palavras de amor, canções de amor, poemas de amor, são de quem delas necessitam.


Pássaro no Asfalto Quente


Percorro um mundo aberto em palco,
Como um viajante em fuga,
Um pássaro do asfalto,
Procurando a semente do teu segredo,
Deixa eu dormir meu corpo no teu olhar,
Deixa eu fechar meus olhos e te sonhar,
Deixa eu queimar meu mundo a te perseguir,
E desfolhar meus gritos na tua voz,
Deixa eu correr teus medos na minha sorte,
Deixa eu tentar o risco de te amar,
Soltar o meu destino pelas estradas,
Pousar o meu vôo no teu calor,
Deixa eu sentir teu corpo nas minhas mãos,
Deixa eu gemer teu nome na noite plena,
Deixa eu morrer meus passos na tua liberdade,
E no dia apenas poder sorrir o teu amor.



Outros

Outras palavras me chegam,
Outros segredos embalam-me,
Outro silêncio me cala,
Já outro sol me aquece,
Outros sorrisos me pulsam,
Roubam a minha alma ao vento,
Outra vontade,
Outro sonho,
Outros desejos agitam-me,
Outras metades me escondem,
Novos medos me gritam,
Outros pássaros voam,
Perseguem a luz da manhã,
Outra magia a soprar-me,
Acaricia a força do presságio,
Outro destino me arrasta,
Socorre a minha agonia,
Outros amigos me chegam,
Como se fosse meio-dia,
Outras promessas de vida,
Outras tantas juras de amor,
Outro pecado da noite,
Outro pedaço que se me desprende,
Outra ternura que se expande,
Outro amor,
Outra mentira...


Estado de Afeição


Tanto tempo de espera,
De luzes presas no escuro,
Caminhando ilimitado,
Sem futuro filosófico,
Sem passado amordaçado,
De repente hoje estou resumido,
Nesse fascínio que me atingiu,
Numa busca incomparável,
Vou brincando de menino,
Dos teus olhos fazendo brilho,
Como pássaro que não pousa,
No teu peito fazendo chama,
Vou negando o meu destino,
De ti tento fugir,
Mas não consigo ir com a lua,
Com a mesma bebedeira,
Tua nuvem que me flutua,
Vai devassando os meus segredos,
E o meu medo a te ferir,
A torturar a nossa poesia,
Como tristes navegantes,
Não fugimos do naufrágio,
Não queimei as tuas lembranças,
Não esqueci a tua voz,
Não rasguei teu endereço,
Não discuto o começo,
Ou a culpa que mereço,
No meu medo vou derrubando o teu poema,
Por favor não vá fugir,
Dos meus olhos desaparecer,
Eu acredito e confesso,
Quero hoje os teus versos.


O Menino

Ele é quase um menino,
Empolgou o meu destino,
Ele anda apressado,
Traz o peito carregado,
É um poema divino,
Quase repete um hino,
Ele é mais que criança,
Traz em si a lembrança,
Divaga nas madrugadas,
Persegue noites apagadas,
Ele vive drogado,
De amor não terminado,
Ele anda perdido,
Com um olhar perseguido,
Em alguns momentos conversa,
N’outros apenas versa,
Leva embora a sua alma,
Sem querer pede calma,
Ele é mais que um passado,
Que um canto sufocado,
Ele é tudo o que diz,
Quando nada quis,
Mas ele é desatino,
Pois é quase um menino.

Pensamentos de Amor e de Existência – Jeocaz Lee-Meddi

“O amor quando impossível mutila mais do que a pior das guerras.”

“Não nos podemos perder de nós mesmos quando amamos alguém. É como perdermos a direção da vida e haurirmos um ar letífero.”

“Não prometas nada que vá além da próxima primavera. Nenhuma fidelidade resiste à insatisfação humana, se assim o fosse, Adão estaria até hoje no Éden, fiel às promessas de Deus.”

“Sinto-me confortável em saber que faço parte da natureza, da sua renovação constante. Sinto-me menor como gênero humano ao ver-me apenas como um objetivo da natureza.”

“Após a tempestade há um momento sublime de encontro entre o ódio e o amor.”

“Se não guardamos a data de aniversário de quem nos é importante na memória do coração, não vale a pena escrevê-la na agenda.”

“Os calendários foram criados para inserirmos a nossa existência em um breve momento de Deus.”

“Não tenho filosofia própria ou alheia, apenas afronto o mundo! Se não afrontarmos o que nos foi legado, seremos sempre prisioneiros do tempo e das suas limitações.”

“Ser egoísta faz parte dos filhos do Adão degenerado. Ser magnânimo também.”

“Todas às vezes que me descobri feliz, tornei-me indolente para procurar a felicidade.”

“Muitas vezes aquele que faz feliz a todos à sua volta, não consegue propiciar esta felicidade a si mesmo.”

“Os meus extremos nunca me permitiu ser uma paisagem renascentista, não, a minha alma é uma paisagem de Van Gogh, bela, trêmula e com sede de viver a dor.”

“A procura do meu eu sincero torna-se sem cor diante da procura das verdades da cidade.”

Texto, poemas e pensamentos de: Jeocaz Lee-Meddi
Fotografias: Paulo César (1 Amor É..., 4 Entre Nós o Amor), Guilherme Santos (2 O Céu de Opacas Sombras Abafadas), Luís Antonio (3 Jeocaz Lee-Meddi, Ode a Luz, 5 Jeocaz Plural, 6 Retrato Jeocaz Lee-Meddi)

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

A ÉTICA DA DEONTOLOGIA

Ao passar a conviver em grupos, o homem primitivo desenvolveu sistemas de equilíbrio básicos para que se harmonizasse essa convivência. Para defender-se de si próprio, foi preciso que o homem criasse regras de condutas morais inerentes à sociedade em que vive. Assim, valores religiosos, regras de costumes morais, na eterna contradição humana em esclarecer as diferenças ínfimas entre o bem e o mal, o certo e o errado, o permitido e o proibido, fazem com que cada cultura institua uma moral. Ou várias morais, quanto mais complexas forem as culturas e as sociedades a elas ligadas.
Nossa formação moral está atrelada aos costumes da sociedade em que fomos criados. Cabe ao tempo renovar ou destruir certas morais culturais, quando elas já não respondem à evolução da sociedade em que foi inserida. Cabe à Ética estudar esta evolução moral, cuidando-se para que não se perca o fio que separa o bem do mal. A consciência ética é a própria rebelião contra as injustiças de uma moral decadente, fazendo que evolua.
Como filosofia moral, a Ética tem o seu principio no ocidente, na Grécia antiga, formalmente iniciada com Aristóteles, mas já encontramos reflexões de caráter ético em Sócrates e Platão.
Podemos definir as bases dos princípios éticos da sociedade ocidental nos conceitos gregos e judaico-cristãos. Com Aristóteles tivemos a Ética das Virtudes, da eudaimonia, ou Ética Antiga, voltada para o bem estar e os prazeres do homem que se consegue manter atrelado às virtudes e ser virtuoso. Com a cristianização do ocidente, surgiram preceitos morais de uma religião monoteísta. A Ética das Virtudes deu passagem para a Ética Moderna, voltada essencialmente para os deveres, construindo a Ética da Deontologia.
Neste artigo iremos percorrer a Ética Moderna, suas linhas principais, voltadas não para os valores individuais do homem, mas para o bem coletivo, onde o justo é a prioridade moral, a deontologia o principal objetivo.

A Ética e o Cristianismo

Quando a antiga cultura greco-romana entrou em decadência, elevou-se o cristianismo, religião fincada sobre a moral judaica e as suas leis. Os deuses antigos dão passagem para um Deus único, a quem o homem deve obediência e servir às suas leis. A vontade de Deus é superior a do homem, somente ao realizá-la ele poderá sentir a felicidade.
A Ética Aristotélica, ou Ética das Virtudes, que tem os seus alicerces na vida política e organizada em sociedades urbanas, perde terreno para a Ética religiosa, princípio que une o homem medieval, fragmentado nos feudos e pequenos burgos. Os princípios da moral passam a ser fundamentados em Deus. A Ética atrela-se ao conteúdo religioso.
Na Ética cristã, os princípios filosóficos da ética grega não são abandonados, a doutrina das virtudes e as suas classificações são inseridas quase que na totalidade. Santo Agostinho (354-430) reflete na sua filosofia ética os princípios de Platão. São Tomás de Aquino (1226-1274) os de Aristóteles.
Com o fim da Idade Média, várias correntes filosóficas vão construir as bases da Ética Moderna. Na Renascença, a filosofia moral começa a distanciar-se dos princípios teológicos e da fundamentação religiosa, passando a conceber os deveres como a essência da Ética. As tendências surgidas no século XVI, que se irão estender até o século XIX, vão constituir o que chamamos de Ética Moderna.

A Ética Moderna e as Suas Linhas

Com o fim do feudalismo e o fortalecimento do Estado Moderno, a sociedade ocidental avançou política, econômica e cientificamente. A filosofia moral deixa a fundamentação religiosa, fazendo com que a Ética seja realizada em função das normas impostas pelo dever.
A moral cristã explica que nascemos dotados de pureza benéfica e de grande generosidade para com o nosso semelhante. Esta pureza do caráter da alma é corrompida pela sociedade em que vivemos, por isto é necessário que tenhamos a idéia do dever e da intenção. O dever imposto por Deus faz com que lapidemos a degeneração moral que estamos sujeitos diante da dilatação do caráter e da sociedade. A idéia do dever é cristã, surge para resolvermos os problemas éticos através de um caminho seguro, que deve respeitar o eterno dilema entre o bem e o mal. Se seguirmos o dever das leis divinas, estamos seguindo a nós mesmos.
Se na Ética Antiga o homem questionava-se de como deveria viver dentro do contexto moral para atingir a felicidade, resumida na eudaimonia, na Ética Moderna o dever sobrepõe-se, e a questão é o que deveria fazer para respeitar e reproduzir os valores éticos e morais? A justiça torna-se o princípio fundamental. O cumprimento do dever e da lei é incondicional, acima dos interesses pessoais.
Thomas Hobbes (1588-1679) sistematizou a ética do desejo, que se fundamenta no egoísmo individual, homens que decidem viver em sociedade não são melhores ou menos egoístas do que os selvagens. Hobbes reconhece o contrato social como meio eficaz de evitar a guerra de todos contra todos.
A deontologia estabelece regras claras e específicas, que são inerentes a cada indivíduo. O dever está acima do prazer individual.
Fundamentada no princípio deontológico da moral, a Ética Moderna pode ser dividida em quatro grandes linhas: Ética Kantiana, Utilitarismo ou Consequencialismo, Contratualismo e Relativismo.

O Utilitarismo ou Consequencialismo

O Utilitarismo, também chamado de Consequencialismo, é uma grande corrente da tradição Ética, de estilo essencialmente anglo-saxônico. Fundamenta-se nas idéias dos filósofos ingleses Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873).
Para Jeremy Bentham, o fundamento é o cálculo consequencialista da utilidade. Para John Stuart Mill, a felicidade reside na procura do máximo prazer e do mínimo de dor. O bem consiste na maior felicidade e a virtude é um meio para que se atinja essa felicidade.
No Utilitarismo, a interação com as situações reais devem ser ponderadas em todos os seus resultados possíveis; privilegiando as decisões que produzam o bem maior, evitando o máximo de danos. Seu objetivo moral é o de proporcionar o máximo de felicidade ao maior número de pessoas.
O Utilitarismo não está voltado para a preocupação da natureza humana. Ser útil à sociedade é mais importante. Sua variante pragmática não reconhece leis morais absolutas e universais, tão pouco valores abstratos. São destacadas as ações que favoreçam a interação social e otimizem a relação entre os fins e os meios. A moralidade do ato é o seu principal campo de aplicação. O certo é o que for útil. Esta é uma corrente muito utilizada nos Estados Unidos e na Inglaterra.

O Kantismo

A Ética Kantiana coincide com o surgimento e a ascensão da sociedade industrial e capitalista. É considerada a ética do homem empreendedor, que se fundamenta na autonomia racional. Para Kant é preciso que se cumpra a validade universal dos princípios morais, evitando-se as contradições e a injustiça.
Immanuel Kant (1724 – 1804), filósofo alemão, é em geral considerado o mais influente pensador da Ética Moderna. Kant opunha-se à moral do coração de Jean Jacques Rousseau, seu contemporâneo. O filósofo afirmava o princípio da razão na ética. O homem, ser autônomo, é desprovido da bondade natural. Por natureza não é perfeito, é egoísta, ambicioso, destrutivo, dual, agressivo. A essência humana é ávida de desejo pelos prazeres que nunca são saciados, pelos quais se rouba, mente e mata.
Com tanta imperfeição no caráter, o homem precisa do dever para que se torne um ser moral. Uma pessoa frustrada faz mal a si aos que estão ao seu redor. Sua liberdade no sentido positivo consiste em fazer o que ele enxerga que é melhor, sendo o mais racional. O homem não tem preço, mas dignidade, é membro ou súdito porque obedece aos deveres que a sua própria razão se lhe formula.
No Kantismo, os atos só são legítimos quando regidos universalmente por igual para todos e em qualquer circunstância. Não se dá grande valor ao gozo dos prazeres, privilegiando os deveres.
Kant refere-se à felicidade como a da consciência do dever cumprido, não se pode atingir uma felicidade a qualquer preço. Nos seus atos, o homem deve sempre respeitar como fim, jamais como meio. A Ética Kantiana é meramente deontológica.
O Kantismo é uma linha da Ética extremamente moderna, que confia no homem, na sua razão e na sua liberdade.

O Contratualismo e o Relativismo

O Contratualismo e o Relativismo são duas teorias da Ética Moderna que mais sofrem críticas. Segundo os mais austeros e puritanos estudiosos da filosofia da Ética, elas podem ser usadas para justificarem ações que não são compatíveis com a concepção coletiva de moral.
O Contratualismo baseia-se nas idéias do filósofo inglês John Locke (1632 – 1704), e, do filósofo suíço Jean Jacques Rousseau (1712 – 1778).
Para John Locke, a concepção da Ética é fundamentada no contrato social, apesar do indivíduo também ter direitos inalienáveis. Ele atrela a tendência à conservação e satisfação à concepção de uma felicidade pública.
Jean Jacques Rousseau, em sua moral do coração, afirma que o homem é bom por natureza, o seu espírito pode sofrer um aprimoramento de proporção quase que ilimitada. Kant refutou todas estas teorias.
Na linha do Contratualismo, o ser humano assume com os seus semelhantes a obrigação de comportar-se de acordo com as regras morais, para que dessa forma, possa conviver em sociedade, firmando uma espécie de contrato social.
No Relativismo, qualquer absolutismo doutrinário e universalismo formal são recusados. É composto sobre o relativismo cultural. Cada situação deve ser considerada como particular, fundamentando a ética situacional. O homem traz como característica uma tendência inevitável de ser conflitante, o que fundamenta a ética dos conflitos. Ainda na vertente da ética narrativa, situa a necessidade de perceber e dar conta da multiplicidade de aspectos que envolvem as decisões morais.
O Relativismo defende a tolerância, aceitando posturas éticas contraditórias entre si. Deu passagem para a falácia naturalista, que procura definir a ética em termos naturalistas. É uma corrente que tem sido duramente criticada e combatida pelas igrejas católica e protestante, por defender a ética em questões morais como o aborto e o homossexualismo.

Veja também:

A ÉTICA DAS VIRTUDES

http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2009/01/etica-das-virtudes.html

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

QUANDO OS BONDES E OS AUTOMÓVEIS INVADIRAM SÃO PAULO

São Paulo é uma metrópole com cerca de 13 milhões de automóveis, uma das maiores frotas do mundo. O imenso número obrigou a promulgação de uma lei municipal que criou um sistema de rodízio, proibindo que todos os automóveis circulem ao mesmo, evitando assim, congestionamentos caóticos e uma poluição a nível insuportável na atmosfera da cidade.
Uma vasta rede de transportes ajuda o deslocamento diário de milhões de habitantes. Metropolitano, trens suburbanos, ônibus, tudo faz parte de um complexo, e nem sempre eficaz, serviço de locomoção que não deixa a maior cidade do Brasil parar.
Mas nem sempre foi assim. Durante séculos a capital paulista não passou de uma vila atrasada, que mesmo quando elevada à categoria de cidade, manteve-se fechada ao país, longe de vislumbrar o progresso. Nas ruas de chão batido, carros de bois, mulas e outros animais serviam de transporte. Com a chegada das estradas de ferro, que transpunham a Serra do Mar e ligavam a capital paulistana com as terras produtoras cafeeiras do interior, rompeu-se finalmente, o isolamento ao qual São Paulo estava confinada.
Primeiro chegaram as estações ferroviárias, trazendo o progresso. Depois, em 1872, vieram os bondes, a princípio movidos à tração animal, depois à eletricidade. Finalmente, o primeiro automóvel chegou às ruas em 1893. Desde então, jamais parou de circular. O progresso veio como um meteoro atingindo a pacata cidade, transformando-a em grande metrópole. Este artigo é um passeio pelos primórdios dos transportes em São Paulo, ilustrado por fotografias de cartões postais da época, que registraram com primor o pulsar do progresso daquela que se tornaria uma das maiores cidades do planeta.

As Estações Ferroviárias

O difícil acesso a São Paulo, fez dela uma vila pobre e isolada. Entre o litoral e os vales genéticos havia a grande muralha da Serra do Mar, quase que instransponível. Os bandeirantes desbravaram as matas, partindo da vila paulistana, que se tornou um entroncamento entre o mar e o interior sertanejo. Com o passar dos anos, o progresso chegou, aos poucos, à vila, elevando-a a uma cidade isolada, suja e sem brilho. Assim foi até que se entrou na época em que a produção cafeeira tornou-se a principal economia do Brasil. Novamente São Paulo servia de entroncamento entre o porto para onde o café era escoado, e as terras férteis do interior do Estado, onde era cultivado.
Com a necessidade de se escoar o café, exportando-o para o resto do mundo, era preciso modernizar os meios de transporte. Surgiram as estradas de ferro que ligavam o interior produtor de café com a capital paulistana, transpondo a Serra do Mar. Primeiro veio a Estrada de Ferro dos Ingleses, em 1867, na década seguinte surgiram a Sorocabana e a Central do Brasil, fazendo de São Paulo um importante entroncamento viário, trazendo-lhe um súbito surto de progresso. Através das estradas de ferro circulavam as riquezas que convergiam do interior e do litoral, e as industrias, nascidas ao longo dos desvios ferroviários.
A The São Paulo Railway, ou Estrada de Ferro dos Ingleses, interligava Santos a Jundiaí. Foi idealizada pelo Barão de Mauá, que associado a capitalistas ingleses, conseguiu a aprovação do imperador ao projeto, em 1859. Sua abertura ao tráfego foi feita oficialmente em 16 de fevereiro de 1867.
A principal estação da São Paulo Railway era a mítica Estação da Luz. Trazendo na sua versão original uma arquitetura modesta, a primeira Estação da Luz foi inaugurada no mesmo dia que se abriu o tráfego da Estrada de Ferro dos Ingleses, em 1867. Ao seu redor, foram desenvolvendo pequenas indústrias e bairros operários como o Bom Retiro e o Brás. A estação atual, um prédio neoclássico, foi construída entre 1895 e 1901, provavelmente inspirada na Flinders Street Station, de Melbourne ou Sidney, na Austrália. O material usado na construção foi todo importado da Inglaterra. Tendo a torre mais alta de São Paulo na época, a Estação da Luz tornou-se um chamativo atrativo da cidade, transformando-se em um grande cartão-postal, tornando-se por muitos anos o símbolo da Paulicéia. Um grande incêndio, em 1946, destruiu o prédio parcialmente. Reformada, ela teve o acréscimo de um pavilhão, sendo reinaugurada em 1950. A estação passou, ao longo das décadas, a receber ônibus vindos de todo o Brasil. A função de estação rodoviária foi extinta em 1982, com a inauguração do Terminal Rodoviário do Tietê.
A Estrada de Ferro Sorocabana, que ligava o interior paulistano e os estados do sul à Paulicéia, foi inaugurada em 10 de julho de 1875. Inicialmente, a estação que servia à estrada era a de um prédio antigo da Praça General Osório, construído em 1914, sobre um projeto do escritório de Ramos de Azevedo. Este prédio viria a ser as instalações do tétrico Dops (Departamento de Ordem Política e Social), tornando-se um dos locais de tortura de presos políticos durante a ditadura militar. Atualmente abriga a Pinacoteca de São Paulo.
Em 1938 foi inaugurada uma nova estação da Estrada de Ferro Sorocabana, chamada de Estação Júlio Prestes. O prédio da estação, projeto do arquiteto Christiano Stockler das Neves, começou a ser construído em 1926. Trazia uma belíssima torre de 75 metros de altura e um magnífico salão. Nos dias atuais, depois de reformado, o prédio foi destinado a ser utilizado como espaço cultural.
Finalmente, a Estrada de Ferro Central do Brasil (aqui em uma fotografia de um cartão postal de 1905), que ligava a capital do Brasil, Rio de Janeiro, à capital paulista, tinha a sua estação na Avenida Rangel Pestana, nas proximidades do Largo da Concórdia, no Brás. Popularmente conhecida por Estação do Norte, foi inaugurada em 1875. A partir de 1887, dois trens noturnos, um deles de luxo, mantinham a ligação com a capital federal. A estação foi demolida no começo do século XX, sendo substituída pela Estação Roosevelt.
Para completar o ciclo ferroviário primitivo de São Paulo, existia a Estação da Cantareira, situada na Rua 25 de Março, em frente ao mercado. Dali saía uma pequena linha de tramways, depois uma ferrovia, inaugurada em 1894. Um pequeno trem, chamado de “trenzinho da Cantareira”, atravessava a cidade rumo a Serra da Cantareira, onde estava o Horto Florestal e os açudes que abasteciam de água a cidade. Era uma viagem que servia como turismo ecológico, com paisagens pitorescas. O trenzinho parava em Santana, Mandaqui, Tremembé e na Cantareira. A última viagem do trenzinho da Cantareira foi feita em 31 de maio de 1965, pela locomotiva 3131. Na plataforma, uma faixa feita pelos servidores dizia-lhe adeus:
Os funcionários do Trenzinho da Cantareira desejam ao comércio e ao povo muitas felicidades, no adeus saudoso de despedida ao velho e inesquecível trenzinho.”

A Implantação dos Bondes

O progresso lento da capital paulista foi aos poucos, acelerando. Transformada em uma cidade de entroncamento ferroviário, era preciso que transportes eficazes vencessem as distâncias e chegassem aos novos bairros operários. Em 1872, foi inaugurada a primeira linha das chamadas diligências sobre trilhos da cidade, efetuada pela Carris de Ferro de São Paulo. Os primeiros transportes eram efetuados por tração animal. O sistema era tido como um passo importante rumo à modernidade de uma cidade que começava a ter importância no cenário econômico do Brasil.
Mas o sistema de bondes só ganhou grande impulso quando a energia elétrica chegou à Paulicéia, iluminando as suas ruas. Em 1900 começaram a circular os bondes elétricos da Light. A primeira linha inaugurada foi a da Barra Funda. As linhas de bondes elétricos foram, aos poucos, conectadas a todos os bairros da cidade. Os serviços oferecidos pelo transporte eram distintos, tendo bondes de primeira e segunda classe; alguns especiais para transportar operários; ou ainda, aqueles que circulavam à saída dos teatros e dos campos de futebol, que se tornaram a nova febre da Paulicéia.
A vida dos bondes elétricos pelas ruas de São Paulo foi longa, durou mais da metade do século XX. Em 27 de março de 1968, foi realizada a última viagem de bonde elétrico na Paulicéia. O último bonde foi o carro “Camarão 1543”, da linha de Santo Amaro. Saiu todo enfeitado com bandeiras. A população paulistana veio às ruas despedir-se do tradicional transporte. Senhoras já saudosas punham os filhos nas janelas para fotografar o bonde. Pelos bairros, mesas preparadas com banquetes interrompiam o trajeto, obrigando-o a parar. A população cantava velhas marchinhas de carnaval, acenando com lenços brancos, causando comoção e lágrimas na despedida do último bonde elétrico de São Paulo.

O Automóvel Chega às Ruas da Paulicéia

O primeiro automóvel circulou pelas ruas de São Paulo em 1893. Pertencia a Henrique Santos Dumont, irmão do célebre aviador Alberto Santos Dumont. Há relatos que apontam para o próprio Santos Dumont como dono do primeiro carro que teria circulado não só em São Paulo, como no Brasil. O Pai da Aviação teria trazido da França, em 1891, um Peugeot que havia comprado por 1200 francos.
O segundo automóvel a circular pela capital paulista viria em 1898, sendo de propriedade do doutor Tobias de Aguiar. Tinha dois lugares, rodas dianteiras menores que as traseiras, portando uma alavanca horizontal como volante.
Nos primeiros anos do século XX, diante da novidade nas ruas paulistanas, o prefeito Antonio Prado obrigou os veículos a utilizarem placas, mediante pagamento de taxa. Henrique Santos Dumont teria solicitado a isenção do pagamento da taxa, alegando que as ruas da cidade estavam em más condições para a circulação de tráfego. A crítica não agradou ao prefeito. Henrique Santos Dumont teve a sua licença para dirigir automóvel caçada e perdeu a placa P-1, que foi posta, em 1903, no carro do industrial Francisco Matarazzo.
Antonio Prado baixou uma portaria, que garantia a velocidade máxima “a de um homem a passo” nos locais com aglomeração de pessoas, podendo exceder aos 12 quilômetros por hora nas ruas da cidade, aos 20 quilômetros nos locais habitados, e a 30 quilômetros em campo raso. A licença de habilitação dada pela prefeitura exigia que o motorista conhecesse todos os componentes do automóvel e saber manobrá-lo, além de ser necessário ter “prudência, sangue frio e visualidade”, segundo a portaria baixada.
Em 1904 foi criada a Inspetoria de Veículos, que registrou a existência de 84 automóveis em São Paulo.
Em 1908 foi fundado o Automóvel Club de São Paulo, que logo à partida, organizou uma corrida, chamada de “Bandeirantes Sobre Rodas de Borracha”. Quinze carros participaram, tendo o conde Silvio Penteado chegado em primeiro lugar, após percorrer setenta quilômetros em uma hora e trinta minutos.
Em 1912, foi inaugurado o transporte motorizado de passageiros, que viriam a ser os futuros táxis, pela empresa Auto Viária Paulista.
A direção dos carros era uma exclusividade dos homens. Quando a Senhora Batista Franco, em 1918, chegou a São Paulo dirigindo o seu automóvel, provocou grande escândalo, incitando a indignação e o repúdio das famílias tradicionais paulistanas.
Diante do crescimento de veículos circulando pelas ruas de São Pulo, em 1915, no governo de Washington Luís, foi instituído o policiamento do trânsito, com guardas que, usando luvas e polainas brancas, montados em cavalos, dirigiam o tráfego de veículos e pedestres. Para que se pudesse ser um policial do trânsito, o candidato ao cargo tinha que ter no mínimo 1,80 metro de altura.
Em 1920, a Ford chegou ao Brasil; numa oficina da Rua Florêncio de Abreu, começou a fabricar carros no país.
Os primeiros ônibus que invadiram a capital paulistana surgiram em 1924, numa conseqüência da crise que o bonde elétrico atravessava como transporte público. Os primeiros ônibus que circularam foram chamados pelos populares de “Mamãe-me-leva”. Posteriormente passaram a ser chamados de “Jardineiras”.
Os automóveis, particulares ou públicos, pequenos ou grandes como os ônibus, aos poucos tomaram as ruas de São Paulo, banindo os velhos bondes elétricos e os animais que ainda serviam como transportes. Tornaram-se imprescindíveis quando a cidade transformou-se numa grande metrópole. Nos tempos atuais, cerca de treze milhões de veículos circulam pela Paulicéia.

Veja também:

SÃO PAULO, SÃO PAULO
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2009/01/so-paulo-so-paulo.html
TIETÊ, NAVEGANDO PELA PAULICÉIA

http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2009/04/tiete-navegando-pela-pauliceia.html

Domingo, 28 de Junho de 2009

DIRETAS JÁ! - QUANDO O POVO VOLTOU ÀS RUAS

1984 seria o último ano de governo do presidente João Figueiredo. Era preciso escolher o seu sucessor. Desde que o golpe militar fora instalado em abril de 1964, a escolha de cada presidente militar que governou a ditadura era feita por um colégio eleitoral, sem a participação do povo. Figueiredo terminava o mandato ante a um panorama político e histórico diferente do dos seus antecessores. O Ato Institucional nº 5 (AI-5) tinha sido extinto, a lei da anistia, que permitia a volta dos exilados políticos tinha sido promulgada, em 1979. Avanços que vislumbravam o fim dos militares no poder e a abertura do sistema ditatorial foram alcançados, um deles tinha sido as eleições de 1982, que trouxeram de volta o voto direto para eleger os governadores dos Estados. Faltava a ambição máxima do sonho de liberdade política, o voto direto para a escolha do presidente da República.
Aproveitando a esmagadora vitória que obtivera nos estados economicamente mais importantes do país, a oposição chegou à conclusão que seria hora de iniciar um movimento para voltar a ter eleições diretas para presidente, ato que acontecera pela última vez em 1960.
Assim, os partidos de oposição da época, o PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) de Ulisses Guimarães, o PT (Partido dos Trabalhadores) de Lula, e o PDT (Partido Democrático Trabalhista) de Leonel Brizola, pela primeira esqueceram as divergências políticas e se uniram na luta pela volta das eleições presidenciais no Brasil. O movimento tomou forma em torno do projeto de Emenda Constitucional do deputado do PMDB, Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições presidenciais já para o ano de 1984, extinguido de vez o Colégio Eleitoral. O projeto foi apresentado em 2 de março de 1983.
Na casa do então governador de São Paulo, Franco Montoro, uma reunião de alguns líderes da oposição, feita em outubro de 1983, decidiu que deveriam ser feitos alguns comícios favoráveis à aprovação da Emenda Dante de Oliveira, como o projeto daquele deputado passou a ser chamado. Nasciam os grandes comícios do movimento das Diretas Já, que levou milhares de brasileiros às ruas, numa manifestação popular jamais vista pelo regime militar.
Os comícios pelas Diretas Já trouxeram grande euforia à população, crescendo como um estopim a partir do carnaval de 1984. Políticos e artistas subiam aos palanques, sendo aplaudidos por milhares de manifestantes, que passaram a trajar camisas amarelas, bater panelas e fazer do ato político uma grande festa. A festa da esperança, do fim da opressão e da ditadura instaurada há vinte anos. O povo, após um silêncio mantido pela repressão e pela tortura, voltou às ruas para exigir os seus direitos cívicos e um governo legítimo.
A Emenda Dante de Oliveira foi rejeitada no Congresso Nacional, em 25 de abril de 1984. Mas os quatro meses que durou o Movimento das Diretas Já mudaram para sempre a face da política no Brasil, trazendo um novo tempo e o desgaste final do regime militar, que expiraria nos próximos meses. As Diretas Já fez o brasileiro acreditar que era possível lutar pelo fim da mais negra das ditaduras do país.

O Cenário Político Pré Diretas Já

A abertura política no Brasil foi sendo dada lentamente, quase a conta gotas. A máquina construída pelo regime militar instituído em 1964 parecia perfeita, digna de ser comparada às maiores ditaduras do mundo e ao estado nazista. Na estrutura de abertura, minuciosamente programada pela genialidade opressiva dos que insistiam em associar democracia com perigo à soberania nacional, chamar de Estado de exceção a um regime sanguinário e ilegítimo; vários golpes foram dados no povo e nos oposicionistas.
O governo militar extinguira , logo no início, o pluripartidarismo, criando apenas dois partidos: a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido do governo, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), de oposição confiável. Com o passar dos anos, o MDB transformou-se em uma grande frente democrática, abrigando sob a sua legenda todos os partidos clandestinos, como o PCB (Partido Comunista Brasileiro), o PC do B (Partido Comunista do Brasil) e o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro).
Em 1979 o AI-5 foi extinto e a Anistia promulgada. Vários líderes oposicionistas, inimigos históricos da ditadura, puderam voltar ao país. A abertura política previa eleições mais amplas, que trariam de volta o voto direto para governador de Estado, programadas para 1982. Temendo uma grande derrota nas urnas, os militares e os seus aliados criaram grandes obstáculos na realização dessas eleições. Transformaram a antiga Arena no PDS (Partido Democrático Social), que se manteve coeso, e incitaram a volta do pluripartidarismo, no intuito de dividir a oposição. No novo contexto político, o MDB passou a ser o PMDB. Surgiu uma nova frente política, o PT, liderado por sindicalistas e intelectuais. Num golpe histórico, os militares não deixaram que Leonel Brizola ressuscitasse o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) de Getúlio Vargas, dando a legenda a Ivete Vargas, uma política próxima ao PDS. Ao perder a legenda, Brizola fundou um novo partido, o PDT, que já nasceu pequeno e sem grande força política, o que favoreceu ao regime.
Outro conjunto de medidas foi criado para que o partido do governo não perdesse nas urnas. Foram proibidas as coligações partidárias e instituído o voto vinculado, ou seja, o eleitor teria que escolher candidatos do mesmo partido para vereador, prefeito, deputados estadual e federal, senador e governador, sob pena de anular o voto se assim não o fizesse. Mesmo diante de medidas que confundiam um povo que há vinte anos exercera o sufrágio pouquíssimas vezes, no dia 15 de novembro de 1982, a oposição venceu nos principais estados do Brasil: São Paulo, com Franco Montoro; Minas Gerais, com Tancredo Neves; e, Rio de Janeiro, com Leonel Brizola. Estavam formadas as bases para que se lutasse pelas diretas presidenciais.

Surge o Movimento das Diretas Já

Após as eleições de 1982, a oposição sentia que poderia tentar eleger o presidente sucessor de João Batista Figueiredo através do voto direto, e não esperar até 1989 para ir às urnas, conforme o que estava programado pelos militares. Em 1983, o senador Teotônio Vilela ousou a propor na televisão, no “Programa Livre”, a criação de um movimento que tivesse como objetivo a luta pela volta das eleições diretas para presidente. No mesmo ano, Ulisses Guimarães, deputado federal, fundador e presidente do PMDB, despertou para o proposto por Teotônio Vilela, quando participou em Goiânia, de um ato público pelas eleições diretas. O evento estava programado para ser realizado no auditório de uma faculdade. Surpreendentemente, o local tornou-se pequeno, pois uma multidão parou nas ruas para ouvir o que os oradores falavam, gerando uma manifestação espontânea que reuniu cinco mil pessoas.
Ainda no início de 1983, Dante de Oliveira, deputado federal eleito pelo PMDB, em 1982, apresentou o Projeto de Emenda Constitucional nº 5, que previa a volta das eleições diretas para presidente em 1984, que passaria para a história como a Emenda Dante de Oliveira.
No fim do ano de 1983, após comícios acontecidos em alguns locais, como o da Praça Charles Miller, em frente ao Pacaembu, em São Paulo, que reuniu dez a quinze mil pessoas; Ulisses Guimarães chegou à conclusão que o movimento estava a crescer, e teria que ter coesão e apoio de todas as lideranças. Para atingir o objetivo, era preciso que o presidente do maior partido de oposição negociasse com as diferentes estâncias da oposição.
Após todas as negociações, em 5 de dezembro de 1983, Ulisses Guimarães e os governadores da oposição, eleitos no ano anterior, criam um calendário oficial de comícios e passeatas em favor da antecipação das eleições diretas, programadas pelo governo para 1989.
Em 1984 tem início a Caravana das Diretas, comissão formada pelos principais partidos de oposição ao regime militar, tendo o apoio de mais de duzentas entidades. Oficialmente, Curitiba foi a cidade que viu nascer a maior mobilização popular da história do Brasil. O comício, realizado em janeiro de 1984 na capital paranaense, reuniu cerca de quarenta mil pessoas, sendo chamado de Campanha das Diretas Já.
O movimento, logo assimilado pelo povo, foi atraindo mais e mais pessoas às ruas e aos comícios. Durante quatro meses, milhares de pessoas foram às ruas, pedindo para votar para presidente e pelo fim da ditadura. A poderosa força que uniu a população em torno de um ideal comum, assustaria profundamente o regime da caserna, desgastando-o e dividindo-o.

Os Grandes Comícios

O movimento ganhou grande visibilidade quando realizado em São Paulo. Naquele ano a cidade atingia a idade histórica de 430 anos. O comício das Diretas Já foi marcado para o dia do aniversário da Paulicéia, 25 de janeiro. Subitamente, a Praça da Sé, local da manifestação, reuniu trezentas mil pessoas. Na época, a maior emissora do Brasil, a TV Globo, não percebendo a importância e as conseqüências daquele momento histórico, omitiu o fato de que se tratava de um comício pelas eleições diretas, transmitindo o evento para todo o país como uma festa de aniversário da capital paulista. A partir de então, todos os comícios que assolariam as principais cidades do Brasil, quando recebiam a cobertura da Globo, ouviam a multidão gritar: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!
Não se poderia mais ignorar o movimento, muito menos minimizar a sua importância. Os comícios alastraram-se por Pernambuco, Rio de Janeiro, Amapá, Pará, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e diversos outros estados. O comício realizado na Candelária, no centro do Rio de Janeiro, reuniria cerca de um milhão de pessoas. Foi tão marcante que, o próprio presidente Figueiredo, na época em viagem ao Marrocos e à Espanha, teria declarado que seria o um milhão e um na Candelária. Mais tarde, o presidente desmentiria o comentário.
No carnaval de 1984, duas epidemias marcaram aquele verão, um grande surto de conjuntivite, que infectou milhares de brasileiros; e, o das Diretas Já, que arrebatou e contaminou toda a nação, unida por um grito de liberdade e sonho de terminar com uma ditadura de vinte anos.

Negociações de Bastidores

Mas a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, apesar da grande pressão popular, estava longe de ser aprovada. Várias negociações passaram a ser feitas entre a oposição e muitos líderes do governo, que diante do desgaste político da ditadura, passaram a temer por seus futuros como políticos no novo cenário que se desenhava no país. Passaram a surgir os chamados arrependidos. Eram neles que a oposição apostava, já que para a emenda ser aprovada, eram necessários 320 votos, o equivalente a dois terços dos votos da Câmara, e outro tanto no Senado. Não contando com tantos parlamentares, a oposição investiu nos “arrependidos”.
Mas o governo apercebeu-se da possível debandada que ameaçava o seu partido. Para evitar a traição da base aliada, já temente de ir contra a reação daquela manifestação massiva do povo, que com o possível fim da ditadura, tornar-se-ia legítimo eleitor e eleitorado; o chefe do Gabinete da Casa Civil, João Leitão de Abreu, formulou, às pressas, uma emenda que antecipava as eleições de 1989 para 1988. Com esta emenda, negociou com os parlamentares indecisos.
A votação da Emenda Dante de Oliveira foi marcada para o dia 25 de abril de 1984. Nos bastidores, negociações entre oposição e situacionistas apontavam para uma outra solução que não seria a da aprovação da emenda, sonhada e exigida pelo povo. O PMDB jogava com duas frentes, de um lado o da mobilização popular que clamava pelas eleições diretas, com Ulisses Guimarães como candidato a presidente; e a frente que negociava com deputados e senadores, que diante de um possível fracasso na aprovação da emenda, apostariam no Colégio Eleitoral, com o nome de Tancredo Neves para presidente.

A Festa das Diretas Já

As manifestações de ruas, normalmente impulsionadas pelos comícios, passaram a adquirir características particulares. Os próprios comícios tinham uma estrutura peculiar. Reunindo políticos e artistas no palanque, eles eram iniciados pelo jornalista Osmar Santos, comentarista esportivo da TV Globo, que tinha grande prestígio de público e de mídia na época. No microfone discursavam além das lideranças políticas, artistas, líderes estudantis e sindicalistas. Alguns nomes passaram a dar rosto e voz aos comícios: Ulisses Guimarães, tido como a própria voz do movimento; Leonel Brizola, Franco Montoro, Luiz Inácio Lula da Silva, Mário Covas, José Serra, Miguel Arraes, Eduardo Suplicy, José Richa, Chico Buarque, Taiguara, Fernando Henrique Cardoso, Fafá de Belém, Tancredo Neves, Christiane Torloni, e muitos outros.
Em 27 de novembro de 1983 Teotônio Vilela, que deixara o governo militar e aliara-se à oposição para combatê-lo, morreu vítima de um câncer. A morte do senador foi lamentada pelo país, que via nele uma grande evolução da política que representara durante décadas, no caminho rumo à democracia. Nos comícios foi eleito o patrono do movimento pelas Diretas Já. Como num ritual, a cantora Fafá de Belém iniciava a sua intervenção soltando uma pomba branca, repetindo o gesto do próprio Teotônio Vilela quando discursou em comícios pela promulgação da Anistia. A seguir, Fafá de Belém cantava “Menestrel das Alagoas”, canção que Milton Nascimento e Fernando Brant fizeram em homenagem a Teotônio Vilela. Nos últimos comícios, passou a cantar o Hino Nacional Brasileiro, causando grande polêmica aos militares, que julgaram um insulto a um símbolo nacional. Outras canções eram puxadas pelo coro de milhares de pessoas, como “Caminhando”, de Geraldo Vandré. No fim do ano, já com o sonho das Diretas Já encerrado pela história, Chico Buarque compôs em sua homenagem a canção “Pelas Tabelas”.
Na última semana que antecedeu à votação, a população brasileira passou a vestir-se diariamente de camisa amarela, agitando bandeiras, batendo panelas, trajando fantasias, adereços, máscaras, bonecos gigantes; lembrando ao regime que o povo queria os seus direitos de cidadãos há duas décadas usurpados. As ruas das cidades brasileiras viraram palcos de festas pelo sonho da volta da democracia. Ao contrário do famoso comício de 13 de março de 1964, na Central do Brasil, que manifestações da esquerda assustaram com os seus cartazes de teor comunista, os comícios das Diretas Já traziam não só palavras de ordem, mas uma festa de caráter nacional. Esta postura intimidava aos políticos do regime, e ao próprio regime, que diante de uma festa tão grandiosa de teor político, viu-se acossado, sem poder tomar medidas abertas de estratégica repressiva. O regime militar calou-se diante das festas e dos comícios. Um silêncio velado, pronto para explodir a sua truculência a qualquer momento.
O último comício antes da votação da emenda Dante de Oliveira foi realizado no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 16 de abril, reunindo um milhão e meio de pessoas. Era a apoteose da festa, o baile final do maior movimento popular do Brasil.

O Dia da Votação da Emenda

Mas a resposta da ditadura agonizante não tardou. Na tentativa de intimidar a população, uma pane misteriosa no sistema elétrico do país deixou, por uma hora, três estados na completa escuridão, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, os mais populosos e governados pelos líderes das Diretas Já.
No dia da votação, 25 de abril de 1984, veio a truculência da ditadura militar sobre o povo brasileiro. O então ministro da justiça, Ibrahim Abi-Ackel, assinou as medidas que pôs Brasília em estado de emergência. Numa demonstração de forças, o general Newton Cruz, comandante militar do Planalto, desfilou nas ruas os seus tanques de guerra. Uma grande marcha de estudantes e pessoas civis que se dirigia para Brasília para pressionar a aprovação da emenda, foi impedida de entrar no Distrito Federal. Tropas tomaram as fronteiras de Brasília e do sul do estado de Goiás, declarando esta parte do país zona de segurança nacional. As comunicações da capital federal com o resto do Brasil foram cortadas. Nenhum veículo, televisão ou rádio, transmitia quaisquer notícias vindas do Congresso. Newton Cruz , numa truculência decadente, desfilava pelas ruas de Brasília montado em um cavalo, de rebenque na mão, tentando silenciar o povo. Alguns líderes estudantis foram presos na capital federal.
O povo não se deixou intimidar. Um placar foi instalado na Praça da Sé, em São Paulo, com o objetivo de registrar nomes e votos dos congressistas. A todas as medidas repressivas de emergência, respondeu batendo panelas e apertando buzinas dos automóveis, os chamados “panelaços” e “buzinaços”. No dia da votação, vários palanques foram montados nas praças das principais cidades brasileiras. Mesmo sem notícias do Congresso, as pessoas mantiveram unidas em torno dos palanques da sua cidade. A votação estender-se-ia pela madrugada. Notícias vinham através de telefonemas, numa época em que não se existia telefones móveis.
Na madrugada veio o resultado: a emenda não foi aprovada. 298 deputados disseram sim; 65 disseram não; 113 não compareceram e 3 se abstiveram. A emenda foi derrotada por uma diferença de 22 votos. Estava mantida a eleição indireta para a sucessão do presidente João Figueiredo.
No dia seguinte, a nação brasileira estava de luto. As pessoas desfilavam pelas ruas de camisa amarela com uma fita preta no peito. Os deputados que votaram contra a emenda, tinham os seus nomes divulgados nas câmaras das suas cidades. Muitos foram recebidos com vaias no aeroporto dos seus estados. Os grandes jornais brasileiros trouxeram uma tarja preta na primeira página, sem manchetes, mostrando repúdio e um silêncio simbólico. O sonho de votar para presidente tinha findado, as Diretas Já foram encerradas.Poucas vezes na história do Brasil os congressistas foram confrontados com um desejo tão explícito do povo. Diante da pressão popular, o partido da ditadura rachou. Muitos migraram para os partidos de oposição. Naquele ano, no Colégio Eleitoral, foi eleito um presidente civil e de oposição, Tancredo Neves. Estava encerrada a época dos generais na presidência do Brasil.

Sábado, 27 de Junho de 2009

FERNANDO PESSOA - OS MÚLTIPLOS EUS DE UM POETA

Dono de uma personalidade ímpar, de uma alma psicológica plural, misteriosa e mística, Fernando Pessoa tornou-se o maior poeta de língua portuguesa. Senhor absoluto da beleza das palavras e das verdades da essência humana, a sua poesia atinge a todos, sem distinção de raças ou classes sociais. A sua mensagem é de identificação universal, tocando de forma indelével a sensibilidade humana.
Considerado ao lado de Pablo Neruda, o maior poeta do século XX, Fernando Pessoa foi um dos responsáveis para que a cultura portuguesa atingisse o mundo contemporâneo, dando mais fama à literatura do seu país do que o próprio Luís de Camões. O mundo inteiro rende-se à sua poesia.
Fernando Pessoa dividiu a sua obra com vários personagens que criou, dando-lhes nome e personalidades distintas. Os chamados heterônimos, o médico Ricardo Reis, o camponês Alberto Caeiro e o engenheiro Álvaro de Campos, entre os mais famosos, foram vozes poéticas saídas da genialidade do poeta, que enriqueceram a sua obra grandiosa.
Sendo o poeta mais lido da língua portuguesa, com uma obra traduzida com sucesso em diversas línguas, Fernando Pessoa viveu uma vida discreta, sem histórias de amor registradas, sem fatos escandalosos ou dramas pessoais. Conviveu com artistas do modernismo português, como Almada Negreiros e Sá Carneiro. Para sobreviver trabalhou no comércio, como tradutor e, como colaborador de agências publicitárias. Justificava as profissões paralelas à sua escrita dizendo: “Ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação”. Sua personalidade enigmática venceu a discrição de vida, explodindo na beleza da sua obra.
Ironicamente, Fernando Pessoa só publicou um livro em vida, “Mensagem”, um conjunto de poemas dedicados aos heróis portugueses, e ao sonho máximo do sebastianismo: o Quinto Império. O livro trazia umas trinta páginas, um nada diante dos vinte e cinco mil manuscritos que deixou, em parte por classificar, dentro da sua mítica arca.
Fernando Pessoa morreu aos 47 anos de idade. Sua morte não causou comoção, pois era um quase desconhecido. Sua obra, aos poucos, foi sendo tirada da arca mágica e descoberta pelo mundo. Da poeira dos manuscritos, revelou-se um mundo deslumbrante e infinito na grandeza da alma humana. Ainda hoje, poemas inéditos continuam a emergir dos baús. Sua personalidade, quanto mais lida a obra deixada, isola-se em um patamar inatingível, em um magnetismo misterioso inabalável. Pessoa não só fez parte do gênero humano, mas foi a sua própria essência da alma.

Infância e Adolescência na África do Sul

Fernando Antonio Nogueira Pessoa nasceu no Chiado, em Lisboa, num prédio em frente ao Teatro Nacional de São Carlos, em 13 de junho de 1888. Nascido no dia de Santo Antonio, o santo mais popular de Lisboa, o menino recebeu o nome, Fernando Antonio, em sua homenagem. Fernando devido ao nome de batismo do santo, Fernando de Bulhões, e Antonio o nome canônico. Era filho do funcionário publico e crítico musical, Joaquim de Seabra Pessoa, e de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa.
Filho de uma família de pequenos aristocratas, o menino Fernando teve a vida alterada aos cinco anos, em 1893, quando o pai morreu de tuberculose. Seguindo a tragédia, perderia o irmão mais novo, Jorge, em 1894, que não chegou a completar um ano. Diante das adversidades, Maria Magdalena viu-se obrigada a leiloar a mobília e a mudar para uma casa mais modesta da Rua de São Marçal.
No ano de 1895, a mãe casou-se novamente, por procuração, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. Em razão da profissão do padrasto, o pequeno partiu com a família para Durban, em 1896, onde viveria por muitos anos.
Foi na África do Sul, então colônia da Grã-Bretanha, que Fernando Pessoa adquiriu uma educação inglesa que o iria influenciar pelo resto da vida. Foi em Durban que viu despertar o seu talento para a literatura. Em 1903, ao candidatar-se para a Universidade do Cabo da Boa Esperança, não obtém uma boa classificação, mas consegue a melhor nota no ensaio de estilo inglês. Aos quinze anos, ele recebe pelo ensaio, o Queen Victoria Memorial Prize (Prêmio Rainha Vitória). Desde esta época, o poeta demonstrou o seu talento para escrever também em inglês, iniciando a produção de vários poemas nesta língua.

Participação na Vida Cultural Portuguesa

Fernando Pessoa só regressaria definitivamente a Portugal em 1905. Ele viria sozinho, para viver com a avó Dionísia e duas tias na Rua da Bela Vista, em Lisboa. No ano seguinte, em 1906, matricular-se-ia no Curso Superior de Letras. Nesta época entra em contacto com importantes escritores do modernismo português.
Morre-lhe a avó Dionísia, em 1907, deixando-lhe uma pequena herança. Com o dinheiro, o poeta funda uma pequena tipografia, a Empresa Íbis-Tipografia Editora – Oficina a Vapor. Para geri-la, ele abandona o curso de letras, mas o negócio não prospera, e em poucos meses vem a falência. A partir de então, passa a trabalhar como tradutor e correspondente estrangeiro em casas comerciais. Trabalharia nessa profissão o resto da sua vida.
Fernando Pessoa passou a interessar-se pela obra de Cesário Verde e do Padre Antonio Vieira. Em 1912, toma para si a atividade de ensaísta e crítico literário, estreando-se com o artigo “A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada”, publicado pela revista “Águia”, órgão oficial da Renascença Portuguesa. Para esta revista, faria ainda os artigos “Reincidindo...” e “A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico”.
Pouco depois, desliga-se do grupo da Renascença, aliando-se à geração mais nova, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros, que marcaria o modernismo português. Com os amigos, fundaria a revista “Orpheu”, em 1917. Em 1921 colabora com o único número de “Portugal Futurista”. Em 1921 seria lançada a “Contemporânea”. Em 1924, dirige com Ruy Vaz a “Athena”. Em 1927 escreve para a “Presença”, onde passa a dar conhecimento dos seus versos. Nesta época colabora com textos para os jornais. Passa a colaborar com uma agência publicitária, atividade que exerceria de 1925 a 1935, ano da sua morte.

Vida Sem Grandes Paixões e Voltada Para o Ocultismo

Fugindo ao estereótipo da vida dos grandes poetas, que na sua maioria, viveram grandes e atribulados romances, Fernando Pessoa teve uma vida amorosa em branco, o que levou alguns comentários sobre uma suposta homossexualidade, algumas vezes despejada em alguns poemas; ou mesmo, a ausência de uma vida sexual. Ele jamais se casou.
Uma única mulher fez parte da sua biografia, Ofélia Queiroz, colega de trabalho, com quem teve um breve namoro e trocou cartas de amor. Ofélia dirigia-se a ele nas cartas como Ferdinand Personne, ou “Monsieur Personne”. Mais tarde, Agostinho da Silva, que conhecera pessoalmente Fernando Pessoa, relataria que o poeta confidenciara-lhe arrependido de ter escrito as cartas de amor a Ofélia , pois o fizera movido pela fantasia heteronímica, sem jamais ter tido paixão por ela. Quando viu que Ofélia, uma mulher carente, estava irremediavelmente apaixonada por ele, apercebeu-se do ardil do amor fictício que vivia e pôs fim a ele, para não fazer uma mulher real e apaixonada sofrer.
Se a vida amorosa foi feita de mistério, também o misticismo e ocultismo que teria praticado deixaram grandes lacunas de dados. Sua suposta ligação com a Maçonaria e com a Rosa Cruz jamais foi provada, não se conhecendo nenhuma filiação do poeta a essas escolas em suas lojas ou fraternidades. O que se tem registrado é a defesa pública dessas organizações, feita por ele no “Diário de Lisboa” , contra as perseguições do Estado Novo, em 1935.
Fernando Pessoa estabeleceu mapas astrológicos para a maioria dos seus heterônimos e para Portugal. Fazia consultas astrológicas para si mesmo. Durante os seus estudos de astrologia, teria realizado mais de mil horóscopos.
Das chamadas ciências ocultas, Fernando Pessoa mostrou-se um estudioso profundo, tendo deixado uma razoável biblioteca de temas esotéricos anotada, além de escritos da sua própria autoria. Proclamava-se um cristão gnóstico e iniciado na Ordem Templária de Portugal. Era um grande admirador de Jacques de Molay, último grão-mestre dos Templários queimado vivo na fogueira. Dizia em defesa do mártir dos cavaleiros do Templo, que todos deveriam combater “os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.

Os Heterônimos de Fernando Pessoa

A beleza estética da obra de Fernando Pessoa deve-se à criação dos diferentes e marcantes heterônimos. Neles, o eu do poeta diluiu-se na escrita, fragmentando-se em personalidades poéticas complexas e de personalidades definidas. Uma vez tendo escrito em privado, com uma única publicação em vida, a escrita repleta de inovações prosódicas não é alcançada por seus contemporâneos. Quando revelada, trar-lhe-ia fama internacional, construindo um grande elemento da literatura universal.
Fernando Pessoa faz a divisão do eu, levando ao extremo dos limites a multiplicação da personalidade, transformando a identidade falsa de cada um deles em verdadeira, tornando-as imiscíveis.
Os heterônimos mais conhecidos na obra de Fernando Pessoa foram três: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Sobre eles o próprio poeta escreveu, em uma carta a Adolfo Casais Monteiro:
Criei, então uma coterie inexistente. Ricardo Reis nasceu em 1887, não me lembro do dia e mês (...), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890 (às 1,30 horas da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como se sabe é engenheiro naval (por Glasgow) (...). Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil quanto era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mais seco. Álvaro de Campos é alto (1,75m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos – o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instrução primária; morreram-lhe cedo e pai e a mãe, (...). Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico: vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.
Com personalidades definidas e histórias de vidas próprias, cada heterônimo vai assumir para si um tipo e tema de poesia. Alberto Caeiro, o mestre, guardador de rebanhos, tem uma poesia filosófica. Foi morto por seu demiurgo no mesmo ano que foi criado, na revista “Orpheu”. Álvaro de Campos é um engenheiro futurista, cultor da máquina e do progresso, sua poesia é mais crítica. Ricardo Reis, o monárquico, cultiva em seus poemas Horácio e a tradição clássica. Há ainda um quarto heterônimo de grande importância na obra do poeta, Bernardo Soares, que é tido como o mais parecido com Fernando Pessoa, daí, muitas vezes tido como pseudo-heterônimo. Bernardo Soares, o inadaptado social, rabisca os seus fragmentos e impressões de Lisboa em “O Livro do Desassossego”.
Fernando Pessoa morreria no dia 30 de novembro de 1935, no Hospital de São Luis dos Franceses, em Lisboa, sua terra natal. As causas da morte seriam uma “cólica hepática”, associada a uma cirrose hepática, fruto das longas tertúlias no “Martinho da Arcada” e na “Brasileira do Chiado”, regadas à aguardente.Tinha 47 anos de idade. Conta-se que nos últimos instantes de vida, escreveu em inglês, a última frase: “I Know not what tomorrow will bring” – “Não sei o que amanhã trará”.

[275] – Poemas Inconjuntos - Alberto Caeiro

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se eu soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo se eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que fôr, quando fôr, é que será o que é.

Passagem das Horas (Enxertos) – Álvaro de Campos

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim ...
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer cousa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

Vivem em Nós Inúmeros – Ricardo Reis

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo.

Vaga, no Azul Amplo Solta – Fernando Pessoa

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

Cronologia

1888 – Nasce, em 13 de junho, em Lisboa, Portugal, Fernando Antonio Nogueira Pessoa.
1893 – Nasce, em janeiro, o irmão Jorge. Em 13 de julho morre-lhe o pai, vitimado pela tuberculose.
1894 – Morre o irmão Jorge, em janeiro, pouco antes de completar um ano.
1895 – Em julho, o pequeno poeta escreve o seu primeiro poema. João Miguel Rosas, pretendente da sua mãe, é nomeado cônsul interino em Durban, na África do Sul, partindo para aquela região. Em dezembro, o cônsul casa-se com a mãe de Fernando Pessoa, por procuração.
1896 – Parte com a família para Durban. Em novembro nasce a irmã, Henriqueta Madalena.
1897 – O poeta entra para o curso primário.
1898 – Nasce a segunda irmã, em outubro.
1899 – Ingressa na Durban High Scholl. Cria o pseudônimo Alexander Search.
1900 – Nasce Luís Miguel, terceiro irmão do poeta.
1901 – Aprovado no exame da Cape Scholl High Examination. Morre a irmã do meio. Começa a escrever poesias em inglês. Ao lado da família, parte em agosto para uma visita a Portugal.
1902 – Nasce em Lisboa, o irmão João Maria. Em setembro, volta para Durban.
1903 – Presta exame de admissão à Universidade do Cabo, obtendo a melhor nota no ensaio de inglês, ganhando o Prêmio Rainha Vitória.
1904 – Nasce, em agosto, a irmã Maria Clara. Conclui os estudos na África do Sul.
1905 – Sozinho, retorna definitivamente para Lisboa, passando a viver com a avó Dionísia.
1906 – Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa. Morre a irmã Maria Clara.
1907 – Desiste do Curso Superior de Letras. Morre a avó Dionísia. Abre, por um curto período, uma tipografia.
1908 – Começa a trabalhar como correspondente estrangeiro em escritórios comerciais.
1910 – Escreve poesia e prosa em português, inglês e francês.
1912 – Publica artigo literário na revista “Águia”.
1914 – Cria os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Escreve os poemas de “O Guardador de Rebanhos” e o “Livro do Desassossego”.
1915 – No primeiro número da revista “Orpheu”, o poeta mata Alberto Caeiro.
1916 – Suicida-se o amigo Mário de Sá Carneiro.
1920 – Conhece Ofélia Queiroz. Os irmãos e a mãe voltam para Portugal. Deprimido, pensa em internar-se em uma casa de saúde. Rompe com Ofélia.
1921 – Funda a editora Olisipo, onde publica poemas em inglês.
1924 – Dirige com Ruy Vaz a revista “Athena”.
1925 – Morre, em 17 de março, em Lisboa, a mãe do poeta.
1927 – Passa a colaborar com a revista “Presença”.
1929 – Volta a relacionar-se com Ofélia Queiroz.
1931 – Rompe novamente com a namorada.
1934 – É publicado o seu livro “Mensagem”.
1935 – Internado em um hospital, no dia 29 de novembro, com diagnóstico de cólica hepática. Morre no dia 30

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

APOLO, O DEUS DA LUZ

De todas as divindades do Olimpo, nenhuma recebeu tantas honras na Grécia antiga quanto o deus Apolo. Filho de Zeus (Júpiter) e Leto (Latona), o deus passou a ser, através dos tempos, a principal divindade cultuada pela civilização helênica. Aos poucos, várias funções foram atribuídas a ele, fazendo com que adquirisse várias faces.
Considerado a última geração dos deuses olímpicos, assume importância equiparada as do pai, Zeus, senhor dos deuses, tornando-se mais cultuado do que os tios, Poseidon (Netuno), rei dos mares, e Hades (Plutão), senhor dos infernos. Considerado o deus da luz, Apolo, aos poucos roubou as funções de Hélios (Sol), minando o culto àquele deus.
Na Grécia antiga a luz era tida como essencial para o desenvolvimento da civilização. Era através dela que se clareava a escuridão da Terra e do homem. O fogo, que transmitia luz e calor, era tido como o elemento vital na construção psicológica do homem. Tanto que foi a partir do roubo de Prometeu à chama dos deuses, que a consciência humana foi despertada. Ao dominar a luz, Apolo garantia as colheitas agrícolas, e ao iluminar a mente humana, tirava os homens das trevas da ignorância, fazendo-o triunfante diante das artes, da medicina e da filosofia. Sem a luz de Apolo, a Grécia estaria morta, perpetuada nas trevas.
Divindade de origem indo-européia, ao ser introduzida na Grécia, conservou grande parte das suas funções primitivas. O núcleo primitivo do mito de Apolo trazia na sua essência a explicação das necessidades primárias da vida, porque a luz garantia a agricultura e a navegação. Apolo era quem protegia a existência do homem dos fenômenos naturais que conduziam a formação de uma sociedade que sobrevivia do campo, da pecuária e do mar. Quando a civilização grega desenvolveu-se, gerando núcleos urbanos avançados, mergulhados na política e na filosofia, também Apolo adquiriu novas funções, deixando as primitivas para tornar-se protetor das artes, da medicina, da música e da poesia.
Através de Apolo, os deuses adquirem um rosto humano. O deus passa a representar a beleza e a obsessão grega em atingir a perfeição. Apolo passa a ser a imagem da beleza pretendida, infinitamente perseguida nas inúmeras estátuas que se lhe são atribuídas. Torna-se o símbolo da vitória do belo sobre o feio, do erudito sobre o vulgar, da filosofia sobre a ignorância, da luz sobre as trevas.
Conduzindo um carro puxado por cavalos presenteados por Hélios, o Sol, Apolo navega o céu, trazendo a luz aos homens. Ao lado das suas súditas, as Musas, inspira aos poetas e aos artistas, ensina aos homens a arte da medicina e, simboliza a harmonia da beleza perfeita, a essência do ideal grego.

As Múltiplas Funções Primitivas

Leto, após ter vivido um ardente romance com Zeus, perdeu totalmente a paz. Grávida do senhor dos deuses, ela foi perseguida por Hera (Juno), a ciumenta esposa do amante. Leto andou por todos os cantos da Grécia, a fugir da rainha do Olimpo. Chegou a ilha de Delos, onde daria à luz aos gêmeos Apolo e Ártemis (Diana). Quando os deuses nasceram, a ilha antes desértica e estéril, tornou-se fértil e florida. Apolo trazia consigo a luz, a vida e a beleza.
No início da civilização grega, o fogo e a luz eram elementos considerados essenciais, vitais para o progresso humano. Sem a luz haveria apenas as trevas. Quando o culto a Apolo foi introduzido na Grécia, foi assimilado a Hélios, o Sol. Se Hélios era o próprio astro solar que pairava no céu, Apolo era a luz, o condutor do calor sobre o solo. A luz garantia a sobrevivência, a partir dela vários fenômenos eram acionados, o que levou inúmeras funções a Apolo. Na claridade, os mares poderiam ser navegados, se Poseidon era o senhor dos mares, senhor das tempestades, terremotos e maremotos, Apolo era a orientação. Nenhum navegante grego ousava sair ao mar sem invocar a proteção do deus solar. Apolo roubava, assim, os cultos a Poseidon. Como as ilhas gregas representavam uma força econômica maior do que as terras continentais, o culto a Apolo tornou-se mais tenaz dentro delas.
Se a luz era essencial para garantir os pastos, as colheitas agrícolas, mais uma vez os gregos invocavam a proteção de Apolo, que assumia funções da deusa da agricultura, Deméter (Ceres). A primeira colheita da primavera era dedicada a Apolo por meio de grandes festividades. Os agricultores agradeciam assim, a volta de Apolo ao mundo e o fim do inverno.
Uma das lendas mitológicas atribuíam o outono e o inverno ao rapto de Core (Prosérpina) por Hades, o deus dos mortos. A mãe da jovem, Deméter, não se conformou em ter a filha a morar no reino dos Infernos. Desgostosa, a deusa da agricultura abandonou a terra, que foi assolada pela fome. Para mediar a situação, Zeus ordenou que Core vivesse seis meses do ano no Érebo e seis meses no Olimpo, ao lado da mãe. Assim, quando Core voltava dos infernos, a terra florescia novamente, trazendo a primavera.
Outra lenda atribuía o inverno a Apolo, que uma vez por ano viajava para o país dos hiperbóreos, levando Hélios consigo. Na terra de homens honrados e justos, Apolo convivia feliz, ao eco dos cânticos harmoniosos dos hiperbóreos e dos seus corais de meninos. Quando terminava as férias, Apolo retornava ao mundo, e com ele voltava o sol, começava a primavera. Graças a esta lenda, era atribuída a Apolo a mudança das estações.
Assim, pastores, navegantes e agricultores, promoviam cerimônias religiosas em honra a Apolo, onde ofereciam sacrifícios ao deus. Multiplicar as colheitas, conduzir os pastores e, orientar os navegantes, eram as funções que faziam parte do mito primitivo de Apolo.

O Deus Protetor da Música e da Poesia

Em meados do século IX a.C., a civilização grega alcançava grande desenvolvimento. A luz continuava essencial na cultura helênica. Aos poucos, ela deixava de ser mitificada apenas nos atos básicos de uma civilização primitiva, para iluminar a mente avançada de um povo que se tornava sofisticado e erudito. A luz sobre a consciência arrebatava o homem das trevas, levando-lhe ao conhecimento e à perfeição diante da vida, das artes e das doenças. Apolo passou a ser o deus que iluminava a sabedoria humana.
Às funções primitivas de Apolo juntavam-se novas, muitas delas contrastavam umas com as outras. Tornou-se o deus protetor das artes e inspirador dos artistas. Passou a ser o símbolo da erudição grega, que impôs a sua cultura aos povos ao redor.
A lenda da disputa de Apolo e Mársias refletia a vitória da cultura grega sobre a cultura asiática. Para os gregos a flauta era um instrumento rude, incapaz de acompanhar as belas canções dos grandes poetas gregos, que exaltavam a epopéia dos seus heróis. A lira era considerada perfeita como instrumento, os helênicos elegiam o seu som como o mais puro, o mais harmonioso dos que se podiam produzir. A Apolo era atribuída a sua invenção. A flauta vinda da Ásia, passou a ser um instrumento a despertar o ciúme dos músicos gregos.
Conta a lenda que um dia, Apolo foi chamado a uma nobre assembléia no alto do monte Parnaso, local onde viviam as nove Musas, para com a sua lira, competir com um afamado flautista, Mársias, que chegara da Frigia. Da flauta de Mársias surgiu um som grosseiro e vulgar. Da lira de Apolo ouviu-se um som elevado, de harmonia perfeita e beleza irresistível. Encantadas com a lira de Apolo, as Musas declararam-no vencedor, aclamando-o deus protetor da música, da poesia e dos poetas.
Para punir a ousadia de Mársias, o frígio, Apolo esfolou-o vivo, depois suspendeu o seu corpo na entrada de uma caverna, para que todos vissem o fim de um som imperfeito e admirassem a lira grega como o mais perfeito dos instrumentos. A lenda representava a superioridade da cultura grega diante da asiática.
A associação de Apolo com as Musas passou a fazer parte do mito do deus da luz. Protetor absoluto das artes, as Musas atuavam como intermediárias do deus. Eram a elas que os poetas invocavam proteção direta. Também através das musas, os médicos invocavam a proteção de Apolo.

Deus da Medicina e dos Médicos

Com a evolução da medicina na Grécia, o deus escolhido para protetor foi Apolo. Os gregos viam os médicos como artistas que exerciam o seu talento sobre a vida humana, sobre a fisiologia do corpo.
A medicina era tida como uma arte, a saúde nada mais era do que a harmonia entre o corpo externo e a alma, entre as diversas partes anatômicas do homem e a sua mente; uma arte tão bela quanto a música. O médico era um mediador que assim como um músico, cuidava das dissonâncias que perturbavam a harmonia e beleza do corpo. Cabia a Apolo proteger à medicina e aos médicos.
Quando nasceu Asclépio (Esculápio), filho de Apolo e de Corônis, o deus da luz e das artes passou ao filho a atribuição de protetor da medicina. Asclépio herdou a sabedoria do pai. Educado pelo sábio centauro Quirão, logo desenvolveu a arte da medicina, descobrindo xaropes e antídotos das plantas silvestres, bebedeiras miraculosas extraídas das raízes. Preparava bálsamos que venciam graves enfermidades, e ungüentos que aliviavam as mais terríveis feridas.
A fama de grande médico de Asclépio percorreu toda a Grécia. O lugar onde vivia, Epidauro, passou a receber visitantes de todas as partes, que vinham em busca da cura dos seus males. Aos poucos, os gregos passaram a cultuar o filho de Apolo, esquecendo de Zeus, o senhor do Olimpo. Preocupado com o poder de Asclépio sobre a vida humana, enciumado com os cultos dirigidos a ele, temente que não houvesse mais morte entre os enfermos, o que os faria livres da proteção dos deuses; Zeus decidiu fulminar o neto com os seus raios. Para isto, pediu aos Ciclopes que o fizessem.
Como vingança, Apolo exterminou os Ciclopes, voltando a assumir a função de protetor da medicina, que tinha atribuído ao filho. Cabia ao deus não só curar, como também provocar as doenças e as pestilências.

Imagens de Apolo

O deus das artes e inspirador dos artistas, passou a ser símbolo da beleza e da busca obsessiva dos gregos em encontrar a sua perfeição. Apolo passou a ter a imagem esculpida em estátuas de belezas anatômicas perfeitas. O divino grego passou a ser representado em figuras humanas. Ao contrário das religiões antigas, que tinham deuses híbridos, em parte animal, em parte humana; ou, as semitas que não permitiam a adoração de uma imagem na forma divina, os gregos faziam dos deuses o espelho da sua imagem.
Apolo era o deus da luz, das artes e da beleza. As estátuas que lhe prestavam homenagem traziam uma beleza perfeita, símbolo do ideal grego. A inspiração era encontrada nos ginásios de atletas, onde os homens exibiam os seus corpos nus quando praticavam esportes. As estátuas de Apolo traziam uma nudez perfeita, às vezes cortada por um manto. Para que fossem esculpidas, os artistas juntavam os mais belos mancebos, selecionando de cada um a parte do corpo mais perfeita, somando o que havia de mais belo na anatomia humana.
Quando a obra esculpida era a do deus da luz, tudo era estudado minuciosamente, o lineamento entre a cabeça e o tronco, a perfeição do torso em comparação aos membros, a simetria perfeita entre a testa e o queixo, a cabeça e os cabelos. Juntando os dados, criavam a imagem de um deus de uma beleza ideológica, que representava o ideal perseguido pela civilização helênica em seu apogeu cultural. As mais belas estátuas de Apolo foram produzidas nos séculos V e IV a.C. , como a famosa estátua de Apolo de Belvedere, de autor desconhecido, ou a obra de Praxíteles (370? – 330? a.C.), modelada nos traços de sete belos rapazes atenienses.

Amores Impetuosos

Apolo era um deus impetuoso, ardente e constantemente apaixonado. Dentro desta impetuosidade, viveu amores sofridos e de fins trágicos, demarcando o lado humano da tragédia e das paixões.
A sexualidade grega e os seus costumes amorosos, também refletiram nas lendas de Apolo. O costume grego de recorrer à pederastia como iniciação da vida sexual, onde era considerado de profunda elevação social um homem aristocrata mais velho tomar um mancebo como amante, passando-lhe não só os segredos do sexo, como os conhecimentos culturais, militares e religiosos. O mito de Apolo serviu para que este costume fosse legitimado na sociedade grega.
De todos os deuses do Olimpo, Apolo é aquele que tem maior número de amores homossexuais. Os mais famosos foram os que ele viveu com Jacinto e Ciparisso. Com Jacinto viveu um amor intenso, depois de vencer uma disputa com Zéfiro pelo coração do rapaz. Quando praticava arremesso de discos com o amante, Apolo foi surpreendido pela vingança de Zéfiro, que soprou o disco arremessado contra o rosto de Jacinto. Ao perder o amado para a morte, Apolo transformou o sangue derramado em uma flor púrpura, com cálice em forma de lírio, a qual chamou de jacinto.
Ciparisso arremessava dardos com Apolo, quando atingiu mortalmente um cervo de estimação que lhe dera o deus. Desesperado, o jovem amante chorou incessantemente, pedindo a Apolo que jamais se lhe secasse as lágrimas. Para atender ao pedido, Apolo transformou Ciparisso em um cipreste, árvore que da sua resina formava gotículas de lágrimas no tronco.
A lenda de amor mais conhecida do mito de Apolo é a que viveu com Dafne. Ao deparar-se com a beleza da ninfa, o deus foi fulminado pela paixão. Declarou-se a ela, fez-lhe as mais ternas juras de amor, mas não atingiu o coração da bela. Solitária, Dafne jurara jamais pertencer a homem algum, fazendo um voto de castidade aos deuses. Diante do assédio de Apolo, a ninfa recusou-se a quebrar o juramento que fizera. Rejeitou o amor do mais belo dos deuses e tentou seguir o seu caminho.
Mas Apolo estava perdido de paixão. Não enxergava mais nada a não ser o corpo da jovem, o seu cheiro embriagador. Decidido a possuir tão delicada beleza, Apolo iniciou uma perseguição decidida a Dafne. Desesperada, ela entrou pelos bosques, fugindo sempre da impetuosidade do deus. Mas Apolo tinha a velocidade da luz nos pés, alcançando a bela ninfa. Desesperada, sem ver uma saída, Dafne implorou a Gaia (Terra), que lhe protegesse de ter o corpo deflorado por aquele amor selvagem. A deusa mãe atendeu aos clamores da ninfa. Mal Apolo tocou-lhe o corpo, sentiu-lhe a pele a enrugar, a enrijecer-se, cortada por sulcos profundos. Diante do silêncio súbito, Apolo percebeu que a amada tinha sido transformada em uma árvore. Desolado, o deus abraçou a árvore, a qual chamou de dafne, nome que em sua língua significava loureiro. Em homenagem à amada, declarou o loureiro árvore sagrada. As suas folhas, outrora os cabelos de Dafne, seriam usadas para purificar os sacerdotes e coroar aqueles que obtivessem grandes vitórias nas artes, nos esportes e nas batalhas.

O Símbolo do Ideal Grego

Diante da multiplicidade de atribuições que foram dadas a Apolo, a mais importante foi a da profecia. Deus da luz, que tudo via, sob a sua claridade não poderia haver mistérios. A Apolo foram erguidos os mais importantes e famosos templos da Grécia antiga. Seus sacerdotes praticavam a arte da adivinhação, vaticinando o futuro dos fiéis.
O templo de Apolo em Delfos, constituiu o maior santuário da Grécia. O oráculo recebia pessoas de todas as camadas sociais, vindas dos quatro cantos do país. Chefes militares não se envolviam em batalhas sem que pedissem orientação aos sacerdotes. Navegantes não ousavam enfrentar o mar sem que fossem aconselhados pelo oráculo do deus da luz; assim como os reis, aristocratas e pessoas do povo, procuravam desvendar o futuro e conhecer até onde poderiam ter êxito nos negócios, nos amores, nas guerras e nas viagens.
Através da leitura das vísceras de animais sacrificados, os sacerdotes previam o futuro daqueles que a eles recorriam, em nome de Apolo, que era quem lhes punha as palavras proféticas nos lábios. O oráculo de Delfos tornou-se o maior centro profético e de peregrinação da Grécia. A cada nove anos, os habitantes de Delfos comemoravam a mítica vitória de Apolo sobre a lendária serpente Pitão. Pessoas de todas as cidades gregas iam ao local, onde uma pomposa cerimônia revivia a luta do deus e da serpente, representando a vitória da luz sobre as trevas.
Deus da luz na essência do mito, Apolo era quem, nas suas funções primitivas, trazia as boas colheitas, cuidava dos pastores e dos seus rebanhos e orientava os navegantes quando no meio do mar. Nas suas funções de deus de uma civilização desenvolvida, iluminava os artistas, inspirando os poetas, músicos e escultores; protegia os médicos; zelava pelo equilíbrio da saúde dos homens; desvendava o futuro, profetizando-o aos que lhe prestavam homenagens e sacrifícios.Por todas as funções mencionadas, Apolo era a representação absoluta da vitória da inteligência sobre a ignorância. É o deus símbolo do que se chegou mais próximo da obsessão do ideal grego em busca da perfeição da beleza.