quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A QUEDA DO MURO DE BERLIM

No dia 9 de novembro de 1989, após grandes manifestações civis de protesto, o governo da República Democrática Alemã (RDA), permitiu, pela primeira vez em mais de vinte e oito anos, que os moradores da parte oriental de Berlim, pudessem atravessar o muro que os separava do lado ocidental. Em resposta, milhares de berlinenses rumaram à imensa barreira de concreto, atravessando-a e unindo-se aos berlinenses ocidentais.
O movimento de pessoas atravessando o muro, como se fosse uma grande procissão revolucionária, atraiu todos os holofotes da imprensa internacional. O mundo pôs seus olhos àquele momento histórico. Uma grande euforia tomou conta dos berlinenses, que aos poucos, foram derrubando partes do muro e, dias mais tarde, máquinas industriais completaram a demolição. Caía o maior símbolo da Guerra Fria.
A queda do muro de Berlim, ou “Muro da Vergonha”, como era chamado por seus opositores no mundo, desencadeou o fim da Cortina de Ferro, constituída pela União Soviética e pelos países socialistas do leste europeu. Diante do silêncio do governo de Moscou, que decidiu não intervir com os seus tanques modeladores da ideologia socialista; outros países do bloco comunista quebraram as amarras e, um a um, derrubaram e extinguiram os seus regimes.
A queda do muro representou para Berlim o fim à humilhação e dor que a ambição nazista mergulhara a cidade e, à própria Alemanha. Famílias foram separadas por décadas. Rebeldes mortos na tentativa de fuga. Berlim era a capital logística da Guerra Fria, de um lado do muro os soviéticos, do outro as nações capitalistas ocidentais, no meio, a dor de um povo que levara o mundo à Segunda Guerra Mundial, e que se tornara refém da nova guerra entre duas ideologias.
A partir da queda do muro, a República Federal da Alemanha (RFA) e a RDA puderam ser reunificadas, em 1990. Berlim voltou a ser a capital da Alemanha. Sem o glamour de antes da guerra, a cidade foi totalmente reconstruída, com investimentos que possibilitaram que voltasse a ser uma grande e desenvolvida metrópole. Restava lapidar as cicatrizes de uma Alemanha dividida agora pelo aspecto social, de um lado rica (parte ocidental), de outro pobre e parada no tempo (parte oriental). Restava unir preceitos morais e sociais entre pessoas que apesar da mesma origem, diferenciavam-se por completo.
Na história recente da humanidade, a queda do muro de Berlim pôs fim à Guerra Fria, e iniciou a queda do grande império soviético, ocasionando o fim de várias nações construídas sob as dialéticas de uma ideologia que envelheceu, sendo corroída por seus erros, até que ruiu, tornando-se escombros, entulhos de um mundo que o povo começou a demolir na madrugada de 9 de novembro de 1989.

A Divisão da Alemanha e de Berlim

Em 1945 Berlim era uma cidade completamente destruída. Bombardeada incessantemente pelas tropas soviéticas, a capital da Alemanha foi transformada em um grande escombro. Hitler havia cometido suicídio no bunker da chancelaria, em 30 de abril. No dia 8 de maio, foi declarada oficialmente a rendição da Alemanha e, o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa.
Berlim tornara-se no século XX, uma das capitais culturais mais efervescentes do mundo. Atingiu o apogeu no período do governo nazista, alcançando um esplendor que fascinou o mundo. Dentro do delírio nazista, foi programada para ser a capital de um império imaginário com duração de mil anos. No fim da guerra, foi reduzida a escombros, tornando-se símbolo da punição à ambição nazista, e palco do ódio do exército soviético.
Com o fim da guerra, a Alemanha foi dividida, através do Acordo de Postdam, em quatro zonas de ocupação controladas pelas potências aliadas: União Soviética, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Berlim, a capital do Reich, estava situada no interior da parte ocupada pelos soviéticos, mas foi igualmente dividida em quatro setores, tornando-se a sede do Conselho de Controle Aliado.
No decorrer dos primeiros anos pós-guerra, as relações diplomáticas da União Soviética com os outros três países aliados começaram a deteriorar. O mapa da Europa passou a ser redesenhado. O líder soviético Joseph Stalin, construiu um cinturão de nações independentes, mas controladas por Moscou. Estava nascendo o bloco socialista do leste europeu, englobando a Tchecoslováquia, Polônia e Hungria, entre outras. A Alemanha estava nos planos de Stalin para que se tornasse um país pertencente ao bloco comunista. A idéia era enfraquecer os países aliados, forçando-os a deixar os territórios germânicos ocupados.
Em poucos anos, a Alemanha estava administrativamente dividida. A parte leste, controlada pela União Soviética, teve as suas indústrias e propriedades nacionalizadas. Os soviéticos eram contrários aos planos de reconstrução da Alemanha, por temer que ela voltasse a ser uma grande potência de influência nos países do leste europeu, e que recuperasse a sua força bélica, pondo em risco o controle do governo do Kremlin. Em paralelo aos planos soviéticos, Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Holanda, Luxemburgo e Bélgica decidiram em reuniões, tornar a parte alemã não controlada por Moscou, livre de ocupação, recebendo investimentos de reconstrução, abrangidos pelo Plano Marshall.
Opondo-se aos planos dos aliados para a reconstrução alemã, e a isenção das dívidas de guerra; Stálin instituiu, em 1948, o Bloqueio de Berlim, impedindo que alimentos, materiais e suprimentos chegassem ao enclave de Berlim Ocidental. Para evitar uma tragédia, a França, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Canadá, Austrália e vários outros países promoveram uma ponte aérea sobre Berlim, a Berlin Airlift, fornecendo alimentos e outros suprimentos à parte ocidental da cidade. Ironicamente, os países aliados que outrora destruíram a cidade com as suas bombas, agora socorriam a população com toneladas de suprimentos de sobrevivência. O embargo a Berlim só seria suspenso por Stalin no ano seguinte, em 12 de maio de 1949.
A situação da Alemanha ocupada só foi definida quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 23 de maio de 1949 os três blocos ocupados pela França, Reino Unido e Estados Unidos foram transformados na República Federal da Alemanha (RFA), conhecida como Alemanha Ocidental, país independente e capitalista, com a capital estabelecida em Bonn. Em 7 de outubro de 1949, os soviéticos concederam autoridade administrativa à parte que ocupava, criando a República Democrática Alemã (RDA), conhecida como Alemanha Oriental, de regime comunista subordinado a Moscou.
Com a divisão da Alemanha em dois países de regimes distintos, nascia oficialmente a Guerra Fria; travada ideologicamente entre capitalistas, liderados pelos Estados Unidos, e comunistas, liderados pela União Soviética. Berlim, situada dentro da RDA, continuou a ser uma cidade dividida. O lado oriental era controlado pelos soviéticos, sendo oficialmente a capital da Alemanha Oriental. A parte oeste da cidade, tornou-se um enclave controlado pelos capitalistas, no coração dos países da Cortina Ferro.

As Primeiras Medidas Restritivas

Dividida, Berlim transformou-se no centro de espionagem da Guerra Fria. A parte ocidental da cidade representava o incômodo enclave capitalista dentro do bloco de países europeus adjacentes ao controle soviético.
Com a divisão, a Alemanha Ocidental reergueu-se de forma extraordinária, tornando-se uma potência econômica mundial, enquanto que a Alemanha Oriental estagnou o seu crescimento econômico. O não desenvolvimento da parte leste deve-se não somente ao regime socialista nela implantada, mas a um controle rígido soviético, que temia a ascensão econômica alemã, a volta do seu poderio bélico, e, principalmente, a sua influência secular sobre os países do leste europeu, exercida no pós-guerra pela União Soviética. De uma maneira sutil, mas definitiva, a população do leste alemão foi reduzida à pastoril, com escassas indústrias.
Diante da prosperidade da Alemanha Ocidental, houve uma carência de mão-de-obra, impulsionando a migração de outros povos, como os turcos, que vieram para preencher essa carência. Do lado oriental, a população empobrecida, era proibida de atravessar a fronteira em busca de trabalho.
Com o crescimento econômico da Alemanha Ocidental, proporcionando um nível de vida dos mais altos do mundo, os alemães orientais deslocaram-se em massa para o ocidente. Nos primeiros meses de 1953, cerca de 226 mil pessoas fugiram da RDA para a RFA.
Para frear as fugas, o governo da RDA fechou definitivamente, em 1952, a Zonengrenze – fronteira entre as duas Alemanhas. Desde então, o trânsito de um lado para o outro em Berlim passou a ser restrito a alguns lugares selecionados da cidade. Em 17 de junho de 1953, trabalhadores de Berlim oriental promoveram um levante contra a ocupação russa, mas foram esmagados pela polícia soviética. Em resposta às manifestações, foi exigido dos ocidentais um passe especial para que pudessem transitar no lado oriental.
Mas as restrições e proibições não inibiram o fluxo de fuga dos habitantes do lado oriental de Berlim para a parte capitalista. Em 1957, medidas mais severas foram adotadas, com a condenação de até três anos de cárcere para os que tentassem deixar o leste da cidade sem permissão.
A fuga dos alemães do oriente para o ocidente, jamais o contrário, desacreditava o regime comunista implantado nas repúblicas do leste europeu. Mesmo com medidas repressivas, a migração continuou, proporcionando fugas épicas , bem exploradas pela propaganda dos países capitalistas contra o regime comunista, transformando a Guerra Fria em um grande palco a ser assistido pelo mundo inteiro, sem nunca dar importância aos verdadeiros sacrificados, os alemães do leste, enclausurados e empobrecidos, muitas vezes separados das suas famílias.
Para evitar a fuga e a espionagem dentro de Berlim e da própria Alemanha socialista, um plano de isolamento passou a ser arquitetado: o de uma imensa muralha que separasse os dois lados da cidade e, conseqüentemente, a fronteira entre os dois países. No horizonte berlinense, a sombra obscura de um muro separatista passou a ser vislumbrado.

A Construção do Muro

A intenção da construção de um muro que separasse Berlim em duas zonas distintas foi mantida em segredo pelo governo da Alemanha Oriental. Em 1961, Walter Ulbricht, chefe de estado da RDA na época, considerado o idealizador do muro de Berlim, negou os rumores da sua construção dois meses antes do fato concretizado.
No ocidente, os serviços secretos traziam informações de que um muro seria erguido em Berlim, e que o próprio Walter Ulbricht havia pedido ao líder soviético Nikita Khrushchov, em uma conferência dos Estados do Pacto de Varsóvia, a autorização para construí-lo. Ulbricht alegava que o contato direto dos alemães do leste com a RFA atrapalhava o crescimento do estado proletário alemão, e, através da sabotagem ideológica do ocidente, incentivava a fuga em massa da população e o seu desvio dialético.
No dia 11 de agosto de 1960, o governo da RDA autorizou o conselho dos ministros a tomar medidas necessárias para a inibição do fluxo de pessoas, tanto da população, como dos espiões das potências ocidentais, nas fronteiras entre as duas Alemanhas. No dia 12 de agosto, ficou decidido que as forças armadas seriam usadas na ocupação da fronteira, instalando gradeamentos.
Os berlinenses acordaram, na madrugada de 13 de agosto de 1961, com o movimento brusco das forças armadas da RDA, apoiadas pelos soviéticos. Todas as conexões de trânsito foram interrompidas entre Berlim Ocidental e o lado Oriental. Em apenas uma noite, ergueu-se uma enorme muralha, era o muro de Berlim.
O muro de Berlim era um gigantesco paredão com cerca de 3,6 metros de altura, com 66,5 quilômetros de gradeamento metálico. Quando ficou pronto, tornou-se um cinturão sem estética arquitetônica, envolvendo completamente a cidade, medindo 155 quilômetros, com extensão interna de 43 quilômetros, sendo 37 deles na área industrial. Foram instaladas 302 torres de observação; 20 bunkers, onde os soldados atiravam em quem se arriscasse a atravessá-lo; 127 redes metálicas eletrificadas com alarme e 255 pistas de ferozes cães de guarda.
A reação da comunidade internacional foi de repulsa, mas, nos bastidores da Guerra Fria, a construção do muro não sofreu grandes pressões, pelo contrário, foi tido como dos males o menor diante da possibilidade de uma nova guerra. Os movimentos cara a cara de tanques de guerra dos Estados Unidos e da Alemanha Oriental criaram momentos dramáticos, numa encenação bélica para o mundo, que servia para medir força entre os regimes capitalista e comunista. O muro de Berlim passou a ser o marco da divisão do mundo em duas ideologias. Diante do jogo de poder entre as nações, passaria a ser chamado pelo ocidente de Muro da Vergonha.
Em um único dia, famílias foram separadas por décadas. Nas janelas, a população civil berlinense assistia inerte à divisão da cidade. Entre lágrimas e protestos, viu o imenso paredão romper a panorâmica dos dois lados de Berlim. O símbolo arquitetônico da cidade, o Portão de Brandemburgo, ficou inteiramente isolado, tendo acesso apenas pelo lado oriental, sendo reservado às autoridades policiais e militares. Berlim, cidade idealizada para ser a capital do III Reich por mil anos, que assistira ao esplendor, horror e à queda nazista, estava definitivamente dividida. A imensa e sombria muralha viera para ficar. Só cairia quando o próprio sistema ruísse.

Fugas e Mortes

Mesmo diante da indignação do mundo e do próprio berlinense, o muro persistiu erguido por vinte e oito anos. No período, várias pessoas tentaram trespassá-lo, ocasionando mortes e prisões. O número de vítimas fatais jamais foi revelado com exatidão. Alguns relatos apontam para 192 mortos, outros para 125 ou 80. O número de feridos também diverge conforme a versão, teria sido entre 112 e 200 pessoas. Cerca de 3200 pessoas foram presas acusadas de tentativa de fuga.
Momentos dramáticos vividos pelos habitantes de Berlim diante da construção do muro, ficaram registrados para sempre pelas lentes dos jornalistas. Entre eles está a fuga do soldado Conrad Schumann. Designado para controlar a linha divisória na Rua Bernauer, no dia 15 de agosto de 1961, ainda separada somente por arames farpados, o soldado atirou fora o seu fuzil, pulando sobre o arame, passando definitivamente para o lado ocidental. A fotografia da cena correu o mundo, evidenciando a realidade da cidade.
Várias pessoas atiraram-se da janela dos prédios que faziam fronteira com o muro, fugindo para a parte ocidental. Mais tarde, os edifícios foram demolidos, dando passagem para o cinturão de concreto que dividia a cidade.
A primeira vítima fatal do muro de Berlim foi o jovem pedreiro Peter Fechter. Aos dezoito anos, ele foi alvejado mortalmente pelas costas, ao tentar atravessá-lo, na altura da rua Zimmerstrasse. O jovem pereceu diante das câmeras de vários jornalistas ocidentais, sem que nada pudesse ser feito para socorrê-lo. Recolhido pela polícia da RDA, morreria logo a seguir. No local, ergue-se nos tempos atuais, um monumento em sua homenagem.
No fim de 1963, o ator Wolfgang Fuchs reuniu um grupo de jovens, que iniciaram a construção de um túnel debaixo do muro. Foram escavados, durante dez meses, um subterrâneo de 145 metros de extensão, 80 centímetros de altura, numa profundidade de 12 metros. Nos dias 3 e 4 de outubro de 1964, 57 pessoas conseguiram fugir para o lado ocidental. No dia 5 de outubro, a polícia descobriu e fechou o túnel.
Em 1979, na noite de 16 para 17 de setembro, os casais Strelzik e Wetzel, com os seus quatro filhos entre dois e quinze anos, fugiram a bordo de um balão, alcançado a Alemanha Federal.
Outras mortes chamaram a atenção do mundo, como a de Günter Litfin. Duas crianças de 10 e 13 anos foram mortas em 1966. A última vitima fatal que tentou atravessar o muro foi Winfried Freudenberg, de 32 anos. Morreu em março de 1989, poucos meses antes da queda do muro, ao tentar a fuga através de um balão de fabricação caseira.

A Queda do Muro

Na década de 1980, as reformas políticas propostas pelo líder soviético Mikhail Gorbachev modificariam para sempre o destino das nações comunistas. Ao propor as reformas de um sistema corroído, resultou no seu desmoronamento. A Alemanha Oriental foi a primeira a ser atingida pelos ventos das reformas do sistema.
No dia 7 de outubro de 1989, quando o regime comunista comemorou o quadragésimo aniversário da RDA, enfrentou forte oposição popular. Protestos e fugas em massa alertaram os comunistas mais novos de que era preciso mudanças. Poucas semanas depois das comemorações, o chefe de Estado e de partido, Erich Honecker, foi destituído de todas as suas funções, pondo fim à liderança conservadora comunista.
A destituição de Erich Honecker não pôs fim aos protestos. O processo de mudança tinha sido desencadeado de forma irreversível, sem que as lideranças do velho sistema dessem conta dos acontecimentos.
No dia 9 de novembro de 1989, o jornalista Günter Schabowski, membro da direção do SED (Partido Socialista Unificado), interpretou erroneamente, durante uma entrevista coletiva, o comunicado do governo que anunciada a abertura das fronteiras entre a RDA e a RFA. Poucas horas depois do anúncio, milhares de pessoas dirigiram-se para o muro, obrigando a guarda fronteiriça a abrir as portas. Era a queda do muro e do sistema que gerara, por quatro décadas, a Guerra Fria. O movimento histórico foi registrado pela imprensa do mundo inteiro.
Diante das manifestações do povo alemão, Mikhail Gorbachev não quis interferir, algo inédito nas rebeliões que por décadas explodiram esporadicamente nas repúblicas do Pacto de Varsóvia. No dia 10 de novembro de 1989, os berlinenses orientais e ocidentais confraternizaram-se, numa dança eufórica em cima do muro. As fronteiras foram abertas, e o Portão de Brandemburgo, símbolo de Berlim, voltou a ser ocupado por seus moradores. Desde o dia 9 de novembro, que os orientais podiam fazer compras livremente do outro lado da cidade e, reencontrar parentes que foram separados pelas atrocidades ideológicas da história.
Aos poucos, o imenso cinturão foi sendo demolido. Pessoas munidas de martelo e cunha, ajudavam na demolição. Máquinas industriais vieram, derrubando de vez o maior símbolo da Guerra Fria. Era o fim de uma época sofrida, marcada pelo jogo do poder entre os impérios capitalistas e comunistas. Era o fim da era das ideologias e dialéticas da ditadura do proletariado. Após a queda do muro de Berlim, o sistema comunista foi, um a um, caindo, varrendo países do mapa, deixando que outros emergissem.
Em 1990, a Alemanha foi reunificada. Berlim voltou a ser a capital de uma grande potência mundial. Foi totalmente reconstruída e modernizada, voltando a ter um lugar de destaque entre as grandes capitais européias. Do vergonhoso muro, restou a linha onde ele existiu, atravessando as ruas da cidade, mostrando a enorme cicatriz que, duas décadas depois do seu fim, jamais deixará o povo daquela cidade.

sábado, 31 de outubro de 2009

O PEQUENO PRÍNCIPE - ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY

Vindo de um micro planeta distante, o Pequeno Príncipe conquistou todas as gerações da Terra, desde que foi criado, em 1943. Saído da mente fértil de Antoine de Saint-Exupéry, o livro é o legado do seu autor ao mundo. Ele mesmo desapareceria entre as nuvens, naqueles fatídicos anos da maior guerra contemporânea do planeta.
Não se pode classificar o livro de infanto-juvenil, porque ele arrebata todas as idades, toca no coração de todos nós como uma doce intenção de redimirmos nossos conceitos diante dos erros da moral. O romance desenvolve-se a partir do encontro de um aviador com um menino sonhador e de cabelos dourados, vindo de outro planeta. Através de parábolas, a narrativa adquire um teor poético e filosófico, que encanta e nos faz pensar nos pequenos momentos da vida, nos sentimentos de amor e solidariedade que às vezes não percebemos, mas que se encontram em todos os quartos da nossa existência. Faz-nos reconhecer através dos detalhes do cotidiano, aquele algo que definimos como especial, apenas porque assim o fizemos. A parábola do amor à rosa, tão feminina e humana; da conquista do coração selvagem da raposa, tão amiga e símbolo da fraternidade universal, da morte do corpo para o vôo da alma.
O Pequeno Príncipe”, ou “O Principezinho” (Le Petit Prince), traz ilustrações originais do próprio autor. É o livro francês mais vendido no mundo, tendo sido traduzido em 160 idiomas ou dialetos. É um dos romances mais lido em todo o planeta. Escrito no auge da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa, em especial a França, estava mergulhada nas trevas, oprimida pela ambição nazista; revela um canto de esperança, um hino à fraternidade, como se Saint-Exupéry viajasse pelo sonho de voar, tão distante da insensatez bélica, ultrapassando o seu tempo, sem perder de vista a essência da vida. “O Pequeno Príncipe” é um convite à criança sonhadora e etérea que há dentro de cada um de nós, para que emirja sem medo de voar.

A Rosa Mais Perfumada do Mundo

Na paisagem árida do deserto do Saara, um aviador é obrigado a aterrissar, devido a uma avaria no motor. Será neste ambiente inóspito que encontrará àquele que lhe modificaria para sempre o modo de pensar, o menino de cabelos dourados, vindo de um planeta distante, em busca dos seus sonhos e conhecimentos do universo em que o cerca.
No meio do nada do deserto, o solitário aviador ouve uma suave voz de criança, que lhe pede para desenhar uma ovelha. Como numa miragem a contrastar com o ambiente selvagem, a figura doce e impetuosa daquele menino surpreende o errante piloto. Não sabendo desenhar ovelhas, o homem desenha uma jibóia que trazia no ventre um elefante. O príncipe protesta, dizendo que não quer aqueles dois animais. Para surpresa do aviador, ele foi o único que decifrara o desenho, que todos insistiam em dizer que era um chapéu. Aquele desenho outrora incompreendido, motivo da frustração do artista que havia dentro do aviador, encontrara finalmente quem lhe percebera a arte. Feliz, desenhou a ovelha que lhe pedira o menino. Inicia-se a amizade entre os dois.
Aos poucos, a criança encantadora, começa a narrar as suas aventuras pelo universo. Viera de um pequeno planeta, o Asteróide B612, tão distante que não se podia ver no horizonte. Tão pequeno, que tinha apenas dois vulcões ativos e um extinto, e uma rosa. De lá o pôr do sol poderia ser visto a qualquer momento.
Dos poucos atrativos do seu planeta, o principezinho tem como principal a rosa, que com amor e carinho, regava e cuidava todos os dias. Queria uma ovelha para que comesse os embondeiros ou baobás, árvores que quando pequenas não passavam de arbustos, mas que depois de grandes tornavam-se gigantescas, tomando todo o pequeno planeta e matando a sua rosa. O aviador revela-lhe que as ovelhas não comiam somente os arbustos, mas também as flores. O pequeno teme pela sorte da sua rosa.
Nos cuidados com a rosa, ela tornou-se exigente, muitas vezes presunçosa e voluntariosa. Sendo única, defendia-se com os seus espinhos, seduzia o pequeno com a sua beleza e a delícia do seu perfume. Na figura da rosa, Saint-Exupéry retrata a sedução das paixões, as exigências do amor e do afeto, que muitas vezes nos parece sem sentido, mas que são essenciais aos sentimentos. Na beleza da rosa, o principezinho encontra os espinhos da sua primeira decepção, ou talvez, incompreensão dos labirintos de quem se ama.
Assim, para fugir dos caprichos da rosa, o pequeno e sonhador, parte do seu planeta, levado por uma revoada de pássaros, perseguindo as aventuras do seu ser, numa ardente vontade de voar pelos mistérios do universo.

Viagem aos Pequenos Planetas

Viajando pelo espaço, o principezinho visita seis pequenos planetas. Em cada um deles, descobre diferentes pessoas, vivendo no universo egocêntrico das suas personalidades e limitações.
No primeiro planeta, encontrou um rei sem súditos, que a tudo queria governar, permitir ou mandar. Talvez uma visão rebuscada do totalitarismo nazista que dominava a França ocupada. Sem a preocupação do dogma dialético, o rei é mais trágico e louco do que absolutista. Decepcionado com o universo dos adultos, o príncipe deixou o mundo do rei solitário.
No segundo planeta, encontrou um homem vaidoso e presunçoso, a ansiar pelas palmas dos admiradores que não tinha. Para satisfazer tão incontrolável vaidade, o principezinho bateu palmas, em retribuição, o homem tirava o chapéu. Cansado de alimentar a futilidade das palmas, o pequeno partiu novamente.
No terceiro planeta, deparou-se com um bêbedo, que se embriagava para esquecer a vergonha do ato. Diante de tanta melancolia, a visita do pequeno foi breve, sem maiores lições.
No quarto planeta, conheceu o homem de negócios, que contava as estrelas do céu, julgando-se dono delas. Quanto mais estrelas contava, mais rico se sentia. Apoderara-se das estrelas que jamais tinham sido reivindicadas. Sua fortuna brilhava no céu, impalpável, como a ilusão de todas as riquezas do mundo. Desiludido com a ganância do homem, o principezinho seguiu a sua jornada.
O quinto planeta era o menor de todos eles, com espaço apenas para um acendedor de lampiões. Por causa do seu tamanho, o planeta dava a volta a si mesmo em apenas um minuto, gerando um dia fugaz, o que obrigava o acendedor a ter uma tarefa sem fim, já que tinha que acender o candeeiro à noite e apagá-lo ao amanhecer, tudo em segundos. Mesmo sabendo da inutilidade do seu trabalho, o homem não deixava de executá-lo, pois assim estava estabelecido, cumpria cabalmente as funções designadas. Foi o único que o principezinho não considerou ridículo, pois acreditava que as obrigações eram maiores do que os prazeres, como um determinante senhor da deontologia.
No sexto planeta, o maior de todos eles, o principezinho encontrou um homem idoso, que sabiamente escrevia livros enormes. Era um geógrafo que desenhava todos os lugares do mundo. Lugares que nunca visitara, pois baseava os conhecimentos através dos relatos dos exploradores. Como não tinha exploradores, desconhecia por completo o aspecto físico do seu planeta. Entusiasmado com a visita, o geógrafo confunde o pequeno com um explorador. Pede a ele que descreva o planeta de onde veio. O principezinho o faz com modéstia, quando descreve a sua rosa, é interrompido pelo geógrafo, que lhe diz somente os mares e as montanhas, por sua eternidade, eram postos nas cartas geográficas, e que a rosa, por sua existência efêmera, não poderia constar na sua lista. Com tristeza, o principezinho descobre que a sua rosa tão querida, um dia iria morrer. Desolado, decide deixar aquele planeta. Antes de ir, o geógrafo aconselhou-a a visitar a Terra, por considerá-la um planeta de boa reputação.
O principezinho partiu em direção a Terra. Viajou melancólico e triste, por descobrir que a sua rosa era efêmera, e que a tinha deixado sozinha, com apenas quatro espinhos para se defender dos perigos do mundo.

O Principezinho e a Raposa

O sétimo planeta visitado pelo principezinho foi a Terra. Percebeu que era um lugar gigantesco, com uma paisagem que se perdia no horizonte. Sem saber que estava em pleno deserto do Saara, no norte da África, o pequeno pensou que chegara em um planeta desabitado.
Como numa alusão ao Gênesis, a primeira criatura viva que encontrou na Terra foi uma astuciosa serpente, que, através dos seus enigmas, descreveu-se mais poderosa do que o próprio homem:

“Quando toco em alguém, devolvo-o imediatamente à terra de onde veio. Mas tu és puro e vieste de uma estrela...”

Embora o diálogo com a serpente passe despercebido diante de outras parábolas do livro, esta frase é a codificação para que se perceba o desfecho final da aventura do principezinho na Terra.
Desvencilhando-se dos sortilégios da serpente, o pequeno príncipe prosseguiu a sua jornada pelo deserto da Terra. Passou por uma flor de três pétalas, simples e sem a beleza da sua rosa... Subiu montanhas, atravessou rochas e vales, até que se deparou com um jardim coberto por cinco mil rosas iguais à sua. Descobriu que a rosa que tanto amava não era única no universo. Ao sentir-se príncipe de uma única rosa comum, deitou na relva e chorou as lágrimas da decepção.
Foi quando lhe apareceu a raposa. Travou com o animal a sinceridade dos sentimentos e a genuinidade das palavras. O diálogo com a raposa é um dos momentos mais bonitos do livro, em que se desenha a essência da narrativa. Numa sabedoria filosófica, o animal revela ao menino que todos somos iguais na paisagem humana, assim como os animais e as rosas, e que só passamos a ser diferenciados para alguém, quando somos por ele conquistado. Revela-lhe que a sua rosa era única, porque ela o cativara, tornando-se fundamental em sua vida. Por fim, a raposa ensina ao príncipe que ele era responsável por aqueles que cativara.

“Adeus – disse a raposa. - Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos..”

“Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...”

Com as palavras da raposa, o principezinho prosseguiu o seu caminho, com a certeza que jamais as esqueceria. Seguiu feliz, com a certeza de que a sua rosa era única, a mais bela de todas aquelas cinco mil que avistara no jardim terrestre. Porque era a rosa que ele cuidara. Sentia-se culpado por deixá-la tão solitária.

O Pequeno Príncipe e a Serpente

Após passar por algumas aventuras, o principezinho encontra-se com o aviador. A ele irá transmitir tudo o que aprendeu em suas aventuras. De indagador, passa e indagar, tornando-se a luz nas dúvidas do amigo solitário.
A amizade feita no deserto acontece em oito dias, tempo que duraria a sua provisão de água. Quando ela acaba, no meio da sede e do desespero, surge a esperança dos sonhos. Juntos, eles encontram um poço no meio do deserto. É a fonte límpida da melhor água do mundo, a da natureza da fraternidade e do amor.
O aviador conserta a avaria do seu avião. É hora de partir. Também o principezinho quer voltar para o seu planeta. Sente-se culpado por ter abandonado a rosa amada à deriva. Quer voltar a cuidar dela. Mas sabe que o corpo lhe pesa e impede a viagem de regresso. Precisa libertar a alma e deixá-la voar, regressando ao seu mundo e ao amor da rosa.
Contrariando o aviador, o principezinho decide aceitar a ajuda da serpente. Sabe que o seu veneno é mortal. Através dele, libertará o corpo, ao qual considera apenas uma “casca”, que quando levada pelo vento, nada significa. Fugindo do amigo, ele parte na calada da noite, em busca da serpente. Ao se deparar com a fuga, o aviador vai ao seu encontro. Não consegue demovê-lo daquele objetivo enigmático. Assim, atado à vontade do príncipe, ele assiste ao momento em que a serpente pica mortalmente o amigo. O pequeno príncipe cai na areia, sem vida. Iniciara a viagem de volta à rosa e ao seu pequeno planeta. No outro dia, quando voltou ao local onde o corpo tombara, já não o encontra. Assim como surgira, desaparecera para sempre.
Seis anos depois, o aviador olha para o seu, na esperança que o lume das estrelas sorria para ele, pois sabe que em alguma delas, está o planeta do pequeno príncipe, e de lá ele o observa.

“Fixem bem esta paisagem para a poderem reconhecer se um dia fizerem uma viagem a África e forem ao deserto. Se passarem por este local, suplico-vos; não tenham pressa, fiquem um bocadinho à espera mesmo por baixo da estrela! Se vier um menino ter convosco, um menino que se está sempre a rir, com cabelos cor de ouro e que nunca responde quando se lhe faz uma pergunta, já sabem quem ele é. E então, por favor, sejam simpáticos! Não me deixem assim triste: escrevam-me depressa a dizer que ele voltou...”

Antoine de Saint-Exupéry

Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry, foi uma das personalidades mais interessante da história da literatura francesa. Viveu entre as aventuras de uma aviador e a filosofia poética da sua escrita. Saint-Exupéry nasceu em 29 de junho de 1900, em Lyon, na França. Nascido de uma família aristocrática, era o terceiro filho do conde Jean-Marie Saint-Exupéry e da condessa Marie Boyer Foscolombe.
Com a morte do pai, quando tinha apenas quatro anos, e o empobrecimento da família, Saint-Exupéry, sob a guarda da mãe, passou muito tempo da sua infância entre o Castelo da Molê, propriedade da avó materna, e o castelo de Saint-Maurice-de-Remens, perto de Ambérieu, propriedade de uma tia.
A educação do pequeno Antoine foi rígida, efetuada no colégio jesuíta Notre Dame de Saint-Croix. Na adolescência descobriu a poesia, lendo vários autores e escrevendo alguns versos.
Na juventude, Saint-Exupéry tinha como ambição fazer parte da Armada Francesa, mas foi reprovado, aos dezenove anos, nos exames de acesso à Escola Naval. Tinha fascínio pelos aviões e pela mecânica. Quando convocado para o serviço militar, em abril de 1921, alistou-se no 2º regimento de Aviação de Caças em Neuhof, próximo de Estrasburgo. O sonho de voar só foi concretizado após nove meses de instrução, quando se transformou em piloto civil. No exército, conseguiu o diploma de piloto de guerra e segundo-tenente.
O mundo da aviação jamais o abandonaria, influenciando toda a sua obra. Aos vinte e seis anos, tornou-se piloto de aviação da empresa aérea Latécoère, assegurando o transporte do correio entre Toulouse, na França, e Dacar, no norte da África. A paixão pelos desertos africanos faria parte da sua vida.
Viajando pela África, América do Norte e do Sul, Saint-Exupéry parecia estar onde sempre o fascinou, no céu. Nas pausas da sua vida atribulada de aviador, escrevia a sua obra. Em 1939, o livro “Terre des Hommes” (Terra dos Homens), alcançaria um relativo sucesso.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o escritor-aviador pôs-se à disposição da força aérea francesa, sendo nomeado capitão. Com o armistício assinado entre a França e a Alemanha, que possibilitou o domínio nazista sobre o seu país, Saint-Exupéry exilou-se nos Estados Unidos. Foi no exílio que, em 1943, escreveria aquela que se tornaria a sua maior obra, “O Pequeno Príncipe”.
Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, alistou-se ao comando americano, disposto a pilotar os Lightning P-38, mas encontrou, a princípio, dificuldades em obter permissão para fazê-lo, devido já ter uma idade acima do limite. Vencidos os obstáculos, realizaria oito missões. A última seria a de reconhecimento sobre Grenoble e Annecy, a 31 de julho de 1944. Às 8h45 daquela manhã, levantou vôo de Borgo, na Córsega. Jamais voltou. Em 3 de novembro, recebeu, em homenagem póstuma, as maiores honras do exército.
Recentemente, o alemão Horst Rippert, declarou-se o autor dos disparos que abateram o avião do escritor. Em 2004, foram encontrados no Mediterrâneo, próximo a Marselha, os destroços do avião. O corpo, assim como do “Pequeno Príncipe”, desapareceu no horizonte.

Cronologia

1900 – Nasce, em Lyon, França, em 29 de junho, Antoine de Saint-Exupéry.
1904 – Morre o pai, o conde Jean-Marie de Saint-Exupéry.
1919 – Reprovado nos testes para a Escola Naval.
1921 – Cumpre serviço militar em Estrasburgo, no 2º regimento de Aviação de Caças em Neuhof.
1923 – Deixa o exército, passando por vários empregos.
1925 – Começa a escrever o seu primeiro livro, “L’Aviateur” (O Aviador), publicando-o no ano seguinte.
1926 – Passa a trabalhar como piloto para a companhia de aviação Latécoère.
1929 – Escreve “Courrier Sud” (Correio do Sul).
1931 – Publica “Vol de Nuit” (Vôo Noturno), alcançando relativo sucesso.
1935 – Com a falência da Latécoère, tenta em vão, ao serviço da Air France, bater o recorde aéreo Paris-Saigon.
1938 – Tenta fazer a ligação aérea de Nova York à Terra do Fogo, sofrendo um acidente que quase lhe custa a vida.
1939 – Publica “Terre des Hommes”.
1940 – Com a ocupação da França pelos nazistas, exila-se nos Estados Unidos.
1942 – Publica “Pilote de Guerre”.
1943 – Publica “Lettre à un Otage”. Publica aquela que seria a sua obra-prima, “O Pequeno Príncipe”.
1944 – Numa missão de reconhecimento sobre Grenoble e Annecy, tem o avião abatido em 31 de julho. Seu corpo jamais foi encontrado.

OBRAS:

1926 – L’Aviateur (O Aviador)
1929 – Courrier Sud (Correio do Sul)
1931 – Vol de Nuit (Vôo Noturno)
1939 – Terre des Hommes (Terra dos Homens)
1942 – Pilote de Guerre (Piloto de Guerra)
1943 – Le Petit Prince (O Pequeno Príncipe)
1943 – Lettre à Un Otage (Carta a Um Refém)

Publicações Póstumas

1948 – Citadelle
1953 – Lettres de Jeunesse
1953 – Camets
1955 – Lettres à sa Mère
1982 – Écrits de Guerre
2007 – Manon, Danseuse

TODAS AS SAUDADES DO MUNDO - POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Hoje acordei com todas as saudades do mundo.
Saudades do eu que um dia fui, saudades do eu que ainda não vi. Saudades das minhas mentiras mais profundas e das verdades ignoradas.
Hoje eu quero usar todas as palavras que me seduzem o intelecto; que me dilaceram os sentimos e me reduz ao homem que escreve. Neste momento exato que me cruzo ao céu do arco-íris, não há poetas que me consolam as angústias, epístolas que me aliviem os medos.
E continuo a clamar por todas as palavras do mundo. Palavras doces, como carinho, mel, deleite, ciranda, amigo, mãe... palavras frias, fim, solidão, espinho, indiferença, violeta... palavras tristes, lágrimas, esquecimento, dor, adeus... palavras quentes, ardor, torpor, vermelho, sexo, paixão, ilusão... palavras definitivas, passado, Deus, amor... Todas as palavras do mundo.

“Calo-me quando me perguntas quem sou, dar-te-ia as mais insinceras respostas, mas reflito no meu silêncio todas as minhas verdades”

Hoje acordei e deparei-me com todas as lembranças do mundo. Dos amigos que perdi pelas estradas por onde andei, dos amores que se foram na penumbra dos meus medos, das ilusões que me arrebatam o destino andarilho, do meu papagaio de estimação, do meu egoísmo diante do espelho. Todas as lembranças assaltaram-me a mente, retratando-me confuso, errático.
Não me quero confessar, quero vagar livre dentro da minha saudade. Navegar pelas ruas estreitas de Lisboa, pelas fontes de Roma, pelas luzes difusas das noites paulistanas, pelas pontes às margens do Sena, por todas as cidades que me apagaram os passos e diluíram a minha sombra.
Hoje quero espargir a lembrança do odor dos carinhos maternos, do suor dos corpos que amei ou mesmo dos que apenas ejaculei os meus desejos. Quero tocar na lembrança da pele, no torpor dos corpos, nos desenhos dos pêlos eretos às carícias. Quero agarrar cada amante que se foi, cada prazer que deixei nos lençóis molhados pela paixão.
Quero um momento sozinho comigo mesmo, para voltar a ler as algumas páginas do meu ser, que por motivo fugaz escrevi e virei sem as perceber. Não quero futuro, quero o presente, ardentemente o presente. Não quero as ilusões, quero a vida, tragada, bebida e entorpecida pelos sonhos que me conduzem.

“Não te quero ver a face que não me é permitida ver. Siga com os teus segredos que não te fustigarei por não mos revelar. E não me serás menor pelos teus mistérios.”

Hoje caminhei pela tarde nublada, incitado pela saudade de todos os meus erros. Sorvi todos os pecados que ousei cometer, todas as atrocidades que vociferei, todos os perdões que me permiti conceder. Revidei todas as faces que ofereci. Traguei todas as lágrimas que não verti, todos os soluços que sufoquei.
Hoje, quando a chuva chegou, e a tarde escureceu, iluminei a minha saudade. Revi todas as fases da minha vida, debrucei-me sobre as fotografias de um álbum existencialista. Não me reconheci em nenhum retrato, perfeito estranho que se perdeu no passado, reconheço-me apenas nas minhas lembranças, nos momentos que a minha saudade codificou, jamais nas molduras da parede.
Hoje me permiti ter saudades. Como um fado lusitano, dedilhei as guitarras dos sentimentos vividos. Apossei-me de todas as canções de amor, como se tivessem sido feitas para mim. Construí uma trilha sonora, envolta nos momentos que se foram, nas melodias que ecoaram pelas janelas dos quartos, nas notas musicais feitas de suor nos corpos que amei.

“E porque a vida corre como estações...
Sorria como se todos os dias fosse verão! Se te agarras às alegrias, o vento armazena os teus sorrisos soltos para o inverno!”


Hoje revi na chuva que escorria, todos os olhos que por mim lacrimejaram. Todas as bocas que gemeram na penumbra. Todas as línguas que navegaram pelo meu corpo, suspirando palavras quentes e sem sentido. Encontrei todos os olhares dos quais fugi, todas as mãos que me fizeram tremer, todos os braços que me apertaram as ilusões, todos os beijos que me sugaram os desejos.
Hoje me reencontrei com todos os meus erros, ironizei todos os acertos, desenhei todos os sortilégios, soprei os vendavais que me embalaram a paz. Olhei para o tempo e sorri. Descobri-me gênero humano.
Mas a chuva passou...
A lua cheia despontou no céu...
Outra ilusão, outra paixão, outra noite. Novos quartos, camas, lençóis, momentos. Outro espelho para Narciso amar. Nos jardins proibidos, outra rosa para seduzir e cravar seus espinhos na carne. Outras roupas a cobrirem as marcas esculpidas pelos anos, velhos jeans desbotados para despir.. E as horas dispararam o correr implacável do tempo. Quando a madrugada rasgou a noite, já não tinha saudades de mim.
Mas ontem acordei com todas as saudades do mundo.


Texto e Pensamentos: Jeocaz Lee-Meddi
Fotografias: Arquivo pessoal Jeocaz Lee-Meddi

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A ABERTURA POLÍTICA E OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

A abertura política do regime militar, lenta e gradual, atingiu a todos os setores das artes, onde a censura imperou com mão de ferro por mais de uma década. Televisão, cinema, teatro, música, jornais, livros; todos sofreram com a falta de liberdade de expressão, sendo obrigados a encontrar soluções através do que se podia escrever, editar e mostrar visualmente.
Em 1978, após um longo inverno, a abertura política começa a florir no Brasil. O Ato Institucional número (AI-5) foi revogado. Apesar de deixar de vigorar apenas no dia 1 de janeiro de 1979, já no ano da sua revogação se sentia o efeito de não se viver sob ele, e conseqüentemente, o amenizar da censura.
No período da abertura à queda do regime militar, findado em 1985, o Brasil assistiu a uma nova proposta de linguagem dos meios de comunicação. Cenas do cotidiano, tantas vezes dissimuladas pelas telenovelas, passaram a discutir temas tabus como a complexidade das relações entre os casais, a sexualidade e as questões políticas. A crítica política tomou conta dos programas humorísticos, tornando-se a sua principal veia cômica.
O cinema brasileiro voltou a respirar, encerrando a fase das pornochanchadas, procurando a sua identidade dentro do país e do mundo. Timidamente, produziu alguns filmes de conotação política, como “Pra Frente Brasil", vetado pela censura em 1982, mas logo liberado pelos ventos da abertura, que já não podia ser obstruída.
Os jornais deixaram de emitir tarjas às matérias censuradas, publicando-as na íntegra. As revistas de informação começaram a publicar reportagens de denúncia. A abertura refletiu-se também na moralidade hipócrita da nação, defendida pelo regime militar através da censura. A pornografia, a partir de 1980, foi permitida, sendo a sua liberação mais ligeira do que a de temas políticos. Revistas de sexo explícito inundaram as bancas, postas à venda ao lado dos jornais dos partidos clandestinos da esquerda, entre eles o “Hora do Povo”, do MR-8. Era a nova linguagem da comunicação brasileira, que explodia como um vulcão, após anos de liberdade reprimida. Incipiente, procurava respirar uma identidade de comunicação. Da liberdade política à pornografia, a abertura começou, finalmente a ser identificada pelos meios de comunicação e pelos brasileiros, sobreviventes ao furacão de 1964.

A Abertura e os Programas Humorísticos

Em 1978, o público brasileiro surpreendeu-se com a nova linguagem do programa humorístico “Planeta dos Homens”, da TV Globo. Os quadros apresentados deixaram de usar metáforas para satirizar os políticos, fazendo-o de forma mais direta. A pergunta era, “já se pode falar?”. Eram os primeiros ecos da abertura política, desenhada desde 1976 pelo governo Geisel, e que finalmente, começava a se fazer presente.
Quando da implantação do regime militar, em 1964, a televisão era um meio de comunicação sem influência sobre as grandes massas populares. Poucos tinham acesso aos aparelhos retransmissores. Na época da abertura, tornara-se o meio de comunicação mais consumido pelo povo brasileiro. Dentro das emissoras, era preciso encontrar a nova linguagem proposta pela abertura e pela censura amenizada, para que não fossem atropeladas pelo comboio da história.
Os programas humorísticos foram os primeiros a abraçar àquela liberdade que se vislumbrava. Adaptaram para a pequena tela a linguagem da sátira política dos antigos teatros de revista; que consistia em assimilar instantaneamente os acontecimentos políticos e jornalísticos. O “Planeta dos Homens”, programa que substituiu, em 1976, a série norte-americana “O Planeta dos Macacos”, trazia em seu elenco Jô Soares e Agildo Ribeiro. Sua mascote era o macaco Sócrates, uma alusão ao filósofo grego. Sócrates fazia perguntas indiscretas, de cunho político, e que impossibilitadas pela censura de serem respondidas, ele lançava o bordão “Não precisa explicar, eu só queria entender”. Sob as garras da censura, um quadro “Gandola”, em que Jô Soares procurava um bom emprego, exigindo um bom cargo, pois tinha sido enviado pelo Gandola, satirizava o nepotismo do regime. A palavra gandola, uma peça de vestuário, usada pelos militares em substituição ao capote, passou despercebida pela censura. Quando descoberto o ardil, Gandola foi substituído pelo “Bochecha”.
Já em 1979, a mão da censura não tinha tanto poder diante do processo de abertura, e a sátira política tornou-se a essência dos programas humorísticos. Na temporada do “Planeta dos Homens” daquele ano, Jô Soares vivia o doutor Sardinha, que diante de uma melancia, perguntava quem produzira um chuchu tão grande. Era uma alusão clara ao então ministro Delfim Neto, empossado na pasta da agricultura. Tido como um homem das finanças, Delfim Neto, renomado economista da época do “Milagre Brasileiro”, era tido como incapaz no ministério da agricultura. No final do quadro, o doutor Sardinha anunciava: “Meu negócio é número”. Era a ditadura e os seus homens a ser abertamente criticada. O “Planeta dos Homens” foi ao ar até 1980, sendo substituído, em 1981, por “Viva o Gordo”, tendo Jô Soares na frente do elenco.
Outro programa humorístico de sucesso era “Chico City”, do genial Chico Anýsio. Em 1979 o general João Batista Figueiredo subiu ao poder, sendo o último presidente da ditadura militar. Chico Anýsio criou Salomé, ex-professora de infância do presidente. Salomé de Passo Fundo, cidade natal do general, tinha uma linha telefônica direta com o presidente. Com o seu humor sagaz, mordaz e inteligente, satirizava o presidente e os seus colaboradores. Nunca o regime militar foi tão diretamente criticado. Salomé tornou-se um dos maiores sucessos de público de Chico Anýsio. O bordão final, “Ou eu faço a cabeça do João Batista ou não me chamo Salomé”, alusão às personagens bíblicas homônimas, virou palavra de ordem nacional. Salomé conquistou até mesmo o presidente satirizado. Nas festas de fim de ano de 1979, Chico Anýsio foi convidado para representar Salomé no Palácio do Planalto, assistido pelo presidente e os seus parlamentares, diante de Salomé, a ditadura ria de si mesma.
Em 1981, “Viva o Gordo” voltava a satirizar a ditadura, na figura do Reizinho (presidente João Batista) e do seu eminente (Golbery). A oposição acusava o presidente de obtuso, sendo manipulado pelo temível ministro militar Golbery do Couto e Silva. Na figura do Reizinho, o povo ria dessa manipulação. A crítica política dos programas humorísticos durante a abertura, serviu para mostrar o desgaste de um regime que ruía, e que o povo e a arte já não podiam ser calados.

A Abertura e as Telenovelas

A abertura refletiu nas telenovelas através do ponto de vista moral da sociedade brasileira, que tinham temas tabus reprimidos pela censura. Até então, as personagens dos folhetins da televisão não podiam, em horário nobre, ter amantes, apaixonar-se por outra se fosse casado, falar em divórcio ou em sexo, ter crianças rebeldes, ou expressar qualquer posição política. Certos assuntos que pudessem oferecer perigo à moral estabelecida pela burguesia que sustentava a ditadura, poderiam ser falados com moderação, no horário das 22h00.
Em 1978, tão logo soprou a abertura, Dias Gomes retratou na telenovela “Sinal de Alerta”, temas políticos em evidência, como o ressurgimento dos movimentos sindicais, a rebelião dos operários contra a fábrica que poluía o seu bairro. O dramaturgo deixara as metáforas usadas em “O Bem Amado” (1973), para falar, pela primeira vez, das cicatrizes do Brasil.
Quanto à moral estética, a novela “O Astro”, de Janete Clair, exibiria no fim de 1977 o primeiro nu masculino da televisão. Tony Ramos, vivendo o rebelde Márcio Hayalla, em um protesto contra o dinheiro e o poderio do pai, Salomão Hayalla (Dionísio Azevedo), protagonizou a cena. Era simples, com Márcio, uma espécie de São Francisco moderno, renunciando a todos os bens diante da família, inclusive as roupas. O rapaz despe-se, sai de casa, quando é amparado pelo jardineiro, que lhe põe uma capa velha em cima do corpo nu. A cena foi feita ao longe, ainda tímida diante do que se iria tornar a nudez dos atores nos tempos atuais. A cena escandalizou os moralistas, mas foi aplaudida por uma população que já se despia dos preconceitos. Até então, a cena de nudez mais audaciosa tinha acontecido fora do horário nobre, em “Gabriela”, às 22h00, em 1975, onde o casal vivido por Cidinha Milan e Pedro Paulo Rangel, vestindo uma roupa cor da pele, corriam pelas ruas da cidade, após serem apanhados pelo coronel mantenedor da moça. Mostrar o corpo nu na televisão, era impensável na época mais dura da ditadura militar.
Em 1979, iniciou-se o processo da quebra dos tabus sociais. Já era possível falar de sexo. O seriado “Malu Mulher” foi o pioneiro em dar sexualidade às heroínas da televisão. A virginal Namoradinha do Brasil, Regina Duarte, transformava-se em uma revolucionária feminista. Questões abominadas pela moral do regime, eram temas constantes. Malu, mulher separada e com uma filha pré-adolescente para criar, deparava-se com problemas existenciais à volta: a primeira menstruação da filha; o homossexualismo; as primeiras relações sexuais com outros parceiros após o divórcio; o uso de anticoncepcionais, que tiravam da mulher a função reprodutiva e possibilitava-lhe o sexo como forma de prazer. Assuntos vistos atualmente, como corriqueiros, mas que sem a abertura do regime moralista militar, jamais seria possível de se falar. Para culminar a ousadia de desafio à censura agonizante, Malu simulou o primeiro orgasmo feminino a ir ao ar. Ainda debaixo da abertura, em 1980, Débora Duarte, vivendo Catucha, na novela “Coração Alado”, de Janete Clair, simulava o primeiro orgasmo feminino em horário nobre.
Temas políticos chegaram lentamente às telenovelas. Em 1978, “Aritana”, de Ivany Ribeiro, realizada pela extinta TV Tupi, debatia a questão indígena e a tomada das suas terras. Em 1983, Janete Clair ensaiou uma visita ao mundo da política, em “Eu Prometo”, tratando a temática de forma superficial.
Enquanto as novelas evitavam temas políticos, as séries e seriados eram mais audaciosos. Em 1982, “Lampião e Maria Bonita”, contava parte da história do nordeste brasileiro. “Bandidos da Falange” (1983), mostrava pela primeira vez na televisão, o submundo do crime. O seriado símbolo da abertura foi “O Bem Amado”, de Dias Gomes. O autor, em 1980, ressuscitou Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), morto na novela original, em 1973. Trouxe de volta os personagens originais, transformando a trama em um seriado de sucesso, que iria perdurar por quatro anos. Durante a existência do seriado, Dias Gomes um dos maiores perseguidos pela censura, pôde finalmente, de forma clara, criticar e ironizar a ditadura militar.
A religião era outro tabu para o regime militar. Qualquer tema que parecesse ofensivo à ala conservadora da igreja católica, era proibido. Não poderiam ter padres a quebrar o voto de castidade, tão pouco pertencerem à Teologia da Libertação. Outras religiões, como o espiritismo e o candomblé, eram retratadas de forma abstrata, sem profundidades. As senhoras de rosários nas mãos que promoveram passeatas de milhares de pessoas pelas ruas, em 1964, apoiando o golpe militar, eram católicas fervorosas e abominavam as outras religiões. A moralidade beata da família conservadora, sustentou a ditadura e impediu a retratação das mudanças sociais através dos meios de cultura e comunicação. Somente com a abertura, outras religiões puderam vir à tona nos seriados, séries e telenovelas.

Abertura e o Cinema Nacional

Após o AI-5, o cinema brasileiro passaria por profundas crises e cerceamento ideológicos. A partir de 1968, o Cinema Novo entraria no seu terceiro momento, voltando-se para as projeções alegóricas do Brasil real. Fazem parte desse ciclo “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969), de Glauber Rocha; “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade; e, “Os Deuses e os Mortos” (1970), de Ruy Guerra.
A censura e a repressão deram origem ao cinema “udigrudi”, ou cinema underground, marginal. Mas a contracultura no cinema não deixou muitas produções, destacando-se “Matou a Família e Foi ao Cinema” (1969), de Júlio Bressane; e, “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla.
Foram as pornochanchadas que garantiram a sobrevivência do cinema nacional durante o período mais negro do regime militar. As pornochanchadas eram assim chamadas por ser um gênero de comédia picante que lembravam as chanchadas da Atlântida dos anos 1940 e 1950, e devido ao erotismo que continham. Não tinham cenas pornográficas, mas eram consideradas pelo rígido moralismo como tais. Continham cenas de nudez parcial, que vistas através do tempo, parecem ingênuas. Construiu grandes mitos e estrelas, como Vera Fischer e David Cardoso. Grandes nomes da dramaturgia brasileira passaram pelas pornochanchadas, entre eles Juca de Oliveira, Reginaldo Faria, Nuno Leal Maia, Antonio Fagundes, Sandra Bréa, Marieta Severo, Nádia Lippi e Sônia Braga.
Com a abertura política, filmes internacionais que tinham sido proibidos pela censura, estrearam com sucesso em 1980, sendo eles “Emmanuelle” (1974), de Just Jaeckin, que revelara Sylvia Kristel ao mundo; “O Último Tango em Paris” (1972), de Bernardo Bertolucci, com Marlon Brando; e, “O Império dos Sentidos” (1976), de Nagisa Oshima. A estréia dos filmes no Brasil gerou polêmica e expectativa do que viria.
Diante das produções eróticas internacionais, as pornochanchadas tiveram que se adaptar às mudanças, fazendo filmes de cenas de teor erótico mais acentuado, mostrando a nudez total dos atores. A nova e final fase do gênero, gerou estrelas como Aldine Muller, Helena Ramos e Zaira Bueno.
Em 1982, os filmes pornográficos de alto escalão foram liberados, com a estréia de “Garganta Profunda” (Deep Throat, 1972), de Gerard Damiano, estrelado pela atriz pornô Linda Lovelace. No Brasil, estreava naquele ano, “Coisas Eróticas”, de Laente Calicchio e Raffaele Rossi, primeiro filme nacional do gênero. Para que se distinguisse da pornochanchada, passou a ser chamado de filme de sexo explícito. As velhas pornochanchadas não resistiram, e o gênero foi extinto. Curiosamente, os cinemas encheram para ver a estréia de “Coisas Eróticas”; populares, intelectuais, críticos, estudantes, políticos, todos foram ver como o brasileiro fazia sexo no cinema.
Com a abertura, o teor erótico foi amplamente explorado pelo cinema nacional não somente nas pornochanchadas, mas pelo chamado cinema sério, ou de arte. Um exemplo foi “A Dama do Lotação”, em 1978, de Neville de Almeida. Baseado em uma história de Nelson Rodrigues, o filme protagonizado por Sônia Braga, trazia um erotismo insinuante, pulsante e intenso. Seguiram o estilo: “Eu Te Amo” (1981), de Arnaldo Jabor; “Eros, Deus do Amor” (1981), de Walter Hugo Khouri; “Engraçadinha” (1981), de Haroldo Marinho Barbosa, com Lucélia Santos.
Dentro do contexto político social, a abertura trouxe ao cinema momentos raros, mas definitivos. “Pixote, A Lei do Mais Fraco” (1981), de Hector Babenco, relatava um problema que ainda persiste nos tempos atuais, os menores de rua. “Bye Bye Brasil” (1979), de Cacá Diegues, mostrava um Brasil pobre e de grandes contrastes, visto através das aventuras de uma trupe de atores mambembes. “Eles Não Usam Black Tie” (1981), de Leon Hirszman, baseado na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri, trazia para a grande tela os movimentos grevistas sindicais, as divergências ideológicas dentro da própria família.
O filme que mais incomodou a ditadura militar durante o processo de abertura foi “Pra Frente Brasil” (1982), de Roberto Faria. Filme denúncia, que mostrava o Brasil de 1970, em plena euforia da Copa do Mundo de Futebol, no México, quando a seleção brasileira tornou-se tricampeã mundial. Paralelo às festas nas ruas, nos porões a ditadura torturava e matava. Conta a história de Jofre (Reginaldo Faria), confundido pela polícia repressora como um ativista de esquerda, sendo preso, torturado e morto. À procura de notícias do irmão, Miguel (Antonio Fagundes), um pacato cidadão, envolve-se com a esquerda armada. O filme tocava numa grande ferida que a ditadura militar tentava esquecer, e, que negara por anos, a tortura. O filme, programado para estrear durante a Copa do Mundo de Futebol de 1982, sofreu o embargo da censura. A repercussão negativa da proibição, fez com que o desmoralizado regime o liberasse meses depois, em 1983. “Pra Frente Brasil” era só a primeira página de uma história que começaria a ser contada, sem jamais chegar ao capítulo final.

Outros Veículos de Comunicação

O teatro, massacrado em sua essência durante a ditadura militar, voltou a florir com a abertura. No período das trevas, Plínio Marcos foi o dramaturgo mais perseguido. Considerado um autor maldito, suas peças só voltaram a ser encenadas após a abertura, nos anos 1980.
Calabar: O Elogio à Traição”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, proibida em 1973, pôde finalmente ser encenada, em 1980. A abertura permitiu que se encenasse, sem problemas com a censura, em 1979, a mítica “Ópera do Malandro”, mordaz crítica à ditadura do Estado Novo, e que se refletia à repressão do regime militar.
A abertura pôs fim às censuras aos jornais e às revistas. Com maior liberdade, a notícia passou a ser mais confiável. Jornais de esquerda voltaram a ser impressos, tornando-se porta-voz dos partidos comunistas clandestinos. Assim, “Voz da Unidade” era o órgão oficial do Partido Comunista Brasileiro (PCB); “Hora do Povo” do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8); “Tribuna da Luta Operária” do Partido Comunista do Brasil (PC do B); havendo ainda, a “Tribuna da Imprensa”; e, “Tribuna de Vitória”. De todos os jornais de esquerda que surgiram, o “Hora do Povo” foi o que mais incomodou. Escrito de forma popular, o órgão do MR-8 era vendido pelos militantes, em brigadas pelos centros de São Paulo e outras grandes cidades do país. A ala radical do regime militar, contrária à abertura, passou a explodir com bombas, as bancas de revistas que vendiam os jornais de esquerda. Os ataques aconteceram com intensidade, de abril a setembro de 1980, obrigando alguns jornais a fechar as portas. No dia 30 de maio de 1980, duas dessas bombas explodiram na sede do “Hora do Povo”, em São Paulo.
Voltando à abertura estética, as principais revistas masculinas do país, “Status”, “Playboy” e “Ele & Ela”, puderam exibir nas suas páginas, o nu frontal das celebridades fotografadas. Antes, a nudez, assim como no cinema, só era exibida parcialmente. O nu frontal chegou em 1980. Com liberdade plena na execução dos ensaios fotográficos, estrelas constantes das páginas dessas revistas, como Sonia Braga e Sandra Bréa, voltaram em novas edições, mostrando pela primeira vez, seus pêlos pubianos.
A partir de 1980, as revistas de fotos pornográficas, antes importadas, passaram a ser produzidas e vendidas livremente nas bancas. Numa mesma banca, encontravam-se os símbolos dos novos tempos propostos pela abertura: os jornais de esquerda, as revistas pornográficas, os jornais sem censura e as revistas masculinas com os seus modelos totalmente despidos. Liberdade política, erotismo e pornografia eram oferecidas no mesmo prato, uma tática da ditadura para confundir a população, e atrair de volta o apoio dos moralistas e conservadores. Muitos chegaram a ficar assustados com a quebra repentina de costumes e de tabus. Alguns chegaram a clamar pela volta da censura moral. Mas, com o tempo, as novidades foram assimiladas, e o desejo de liberdade falou mais alto. A abertura política do regime militar era irreversível, assim como o seu fim.




Veja também:

A ABERTURA POLÍTICA E A MPB
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2009/10/abertura-politica-e-mpb.html

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

BACURI - UM GUERRILHEIRO BRASILEIRO

Quatro décadas se passaram da deflagração das guerrilhas urbanas, mas muitas sombras ainda pairam sobre aquele momento de turbulência da história do Brasil. A figura do guerrilheiro, transformada em terrorista pela propaganda do regime militar, ainda é um ponto nevrálgico e um caminho estreito para que se possa percorrer e identificá-lo. Heróis para uns, terroristas para outros, o guerrilheiro passou para a história como um enigma da violência ideológica, um instigante proclamador de uma revolução que nunca chegou, de uma ideologia que se esvaiu da atualidade do mundo.
No contesto da luta armada no Brasil, nomes controversos emergiram numa história nem sempre contada com imparcialidade, quer pela direita, quer pela esquerda. Nomes ecoaram pelo país, guerrilheiros para os companheiros, terroristas para o regime militar. Com o fim da ditadura militar, a imagem do guerrilheiro foi dividida nos “redimidos” pela história, tendo muitos deles chegado ao poder; nos esquecidos, desaparecidos nas valas dos desconhecidos ou no ostracismo que o tempo lhes designou; e, nos eternamente malditos. Eduardo Collen Leite, o Bacuri, faz parte dos que ainda hoje são tidos como malditos. Sua morte, efetuada sob torturas, é considerada a mais cruel e violenta de todas as vítimas do regime militar.
Eduardo Leite era conhecido pelo vigor da sua militância nas organizações de esquerda que resistiram ao governo militar. Enérgico, violento e objetivo, era o companheiro certo para a concretização dos planos logísticos de sobrevivência da esquerda, que incluíram assaltos a bancos, a quartéis e seqüestros de embaixadores. Bacuri, como era chamado pelos companheiros, foi o militante perfeito para a execução da parte sórdida da guerrilha. Destemido, enfrentou armas e fuzis, matou quando determinada operação o exigiu, tornou-se ao lado de Carlos Marighella e Carlos Lamarca, o mais temido e odiado dos guerrilheiros.
Eduardo Leite, o homem, revelou-se para os poucos que com ele conviveram, passou despercebido pela sua época. Bacuri, o guerrilheiro, ainda é uma incógnita. Temido, odiado, exaltado... É daquelas personagens controversas que ainda não foram revisadas pela história. Sobre ele paira o estigma da violência dos seus atos, da complexidade que é uma ideologia morta e o seu significado naquela época. Bacuri faz parte de um momento da história, seu suplício não o faz mártir, mas sim vítima do seu tempo, do sistema da guerra fria. Atirou-se de cabeça em um caminho que não tinha volta. Pegou em armas, assaltou bancos, matou, seqüestrou; garantindo assim, a sobrevivência das células dos aparelhos e, a de muitos companheiros. Herói ou terrorista, só o tempo poderá decifrar Bacuri, um homem que se tornou guerrilheiro, e em nome da militância, viveu e morreu de forma violenta.

Eduardo Leite e a Sua Época

Eduardo Collen Leite, nasceu em 28 de agosto de 1945, em Campo Belo, Minas Gerais. Nascera no ano em que as nações encerraram a Segunda Guerra Mundial, e que uma paz aparente pairava sobre o planeta. No Brasil, a ditadura do Estado Novo chegava ao fim. Por um curto espaço de tempo, o país viveria uma democracia a engatinhar. Com a promulgação da Constituinte de 1946, couberam na nova história da nação até os que eram considerados velhos inimigos da elite, os comunistas, que obtiveram a legalização do PCB. Eduardo Leite cresceria nesse prelúdio democrático, que aos poucos foi minguando, ameaçado por golpes sucessivos.
Se a tragédia da grande guerra passara, as nações desenhavam uma outra, a Guerra Fria, que dividiu o mundo entre duas ideologias: a capitalista, liderada pelos Estados Unidos e pela Europa Ocidental, e a socialista, liderada pela extinta União Soviética e a Europa do leste. As novas tendências no quadro político mundial obrigaram que as nações escolhessem o lado que iriam ficar. O Brasil ficou do lado dos norte-americanos, e em 1947, o PCB teve a legenda cassada, passando a vigorar na clandestinidade. Era o primeiro golpe à democracia instituída em 1946.
Eduardo Leite mudou com a família para São Paulo ainda criança. Viveu na adolescência o efervescer das ideologias. Nunca no Brasil a mobilização política voltou a ser tão organizada, como naquele período que antecedeu ao golpe de 1964. As ligas camponesas, os sindicatos, as entidades estudantis, todos, sob a benção das ideologias de esquerda, ocupavam espaço na política do país, incomodando e assustando as elites do poder.
No cenário internacional, a Revolução Cubana de 1959 dava um basta às oligarquias corruptas do seu país, acenando para o resto da América Latina, inspirando aos que sonhavam com a revolução proletária. O medo de que o Brasil viesse a ser uma nova Cuba, deixou a elite direitista em alerta. As reformas agrárias e sociais propostas pelo governo João Goulart foram determinantes para que a direita temesse a implantação de um governo sindicalista e de esquerda. O velho fantasma do comunismo foi usado como propaganda contra a esquerda, e serviu para aliciar o apoio da classe média e setores da população ao golpe militar. A década de 1960 foi a década da quebra dos tabus, das revoluções sociais a explodirem pelo mundo. Das ideologias de esquerda a se fragmentarem em várias linhas intelectuais e dogmáticas. O maoísmo chinês; o castrismo; a visão romântica da revolução de Che Guevara, de fazer da América Latina uma só voz socialista; os trotskistas; os stalinistas; os reformistas liderados pelos soviéticos. Um cenário em princípio caótico para a atualidade contemporânea, mas que influenciaria uma geração pensante e preste a quebrar todos os tabus moralistas até então impostos à cultura ocidental
A juventude à qual Eduardo Leite pertenceu, assistiu a todas as tendências citadas. Vivera uma ínfima democracia, única até então na história da República, a ser encerrada pelos tanques e fuzis militares, naquele negro 1 de abril de 1964. Era tarde demais para aqueles jovens, acostumados ao debate político, à liberdade que em quinze anos marcara, ainda que de forma imperceptível, uma concepção diferente do Brasil e do mundo.
Muito cedo, Eduardo Leite ingressou na militância política. Tinha dezoito anos quando o golpe militar foi instaurado. Como a maior parte da juventude do seu tempo, acreditava que a esquerda traria a solução para os problemas do mundo, e que o mundo velho e de velhos, teria que ruir em nome de uma revolução socialista. Repudiava a ditadura das elites, economicamente voltada para poucos, acreditava na ditadura do proletariado, extensiva para todos. Assim, integrou-se à Polop (Política Operária), entidade de esquerda.

Codinome Bacuri

Como bom cidadão do regime militar, em 1967 foi incorporado ao exército, servindo na 7ª Companhia de Guarda, e, no Hospital do Exército, no bairro do Cambuci, região central de São Paulo. Na época em que freqüentou o exército, a grande ala da esquerda dos oficiais de menores patentes, tradicionalmente históricas no Brasil, tinha sido completamente expurgada.
O erro de avaliação do Partido Comunista Brasileiro quanto ao perigo de um golpe militar e, a falta de mobilização quando da sua concretização; a posição reformista e conciliatória com a burguesia; a luta pelo poder interno do comitê central, tudo contribuiu para que se fragmentasse em várias organizações.
Em 1968, Eduardo Leite passou a integrar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), uma organização política armada de extrema esquerda. Mostrou-se um militante arrojado e destemido, que se iria notabilizar pela eficiência em executar as mais difíceis tarefas das guerrilhas urbanas.
Para não ser identificado pelos serviços repressivos do regime, Eduardo Leite passou a usar o codinome de Bacuri, apagando de vez o antigo técnico de telefonia, tornando-se um ávido militante da esquerda opositora à ditadura. O codinome virou alcunha, grudou-se de forma indelével à pele e à alma de Eduardo Leite, que se despiu totalmente do pacato cidadão para dar passagem ao vigoroso guerrilheiro. Bacuri, descrito pelos companheiros de luta como simples, afável e bem-humorado, tornar-se-ia para o regime militar um terrorista sanguinolento e temível. Bacuri passou a ser uma lenda na história das guerrilhas da esquerda. A alcunha se lhe perseguiria até a sua morte.

Assaltos e Mortes

1968 foi o ano das grandes manifestações estudantis francesas e européias, da Primavera de Praga, das grandes passeatas pelo Brasil. Desde 1964, que não se ousara tanto a enfrentar a ditadura militar. A resposta do regime não tardou, veio com o Ato Institucional número 5 (AI-5), que aboliu o hábeas corpus, permitindo que o governo dissolvesse partidos e cassasse parlamentares, prendesse supostos inimigos à segurança nacional, sem que lhe fossem dados os direitos legais. O regime recrudescera, fechando-se por completo a qualquer esperança de democracia e de liberdade civil.
Sem as esperanças que haviam florescido em 1968 e encerradas com o AI-5, a esquerda decidira que a única solução era a luta armada, só ela atrairia as grandes massas, derrubaria a ditadura e consolidaria a revolução proletária. As diferenças de opinião quanto à estratégia da guerrilha; a dificuldade de reunir os militantes em grandes aparelhos, devido à vigilância intensa dos órgãos repressores; a carência de verba para manter os companheiros; fez com que surgissem várias organizações da extrema esquerda.
O ano de 1969 despontou como uma ressaca do AI-5. Seria um dos anos mais violentos tanto para a ditadura, quanto para as organizações de esquerda. Em abril, Bacuri deixou a VPR para fundar a Resistência Democrática (REDE). Destacou-se rapidamente nas empreitadas da guerrilha urbana. Praticou dezenas de assaltos a bancos, supermercados e carros fortes, sem nunca se deixar apanhar. Sua reputação de perigoso subversivo logo se espalhou. Ainda naquele fatídico 1969, seu rosto aparecia estampado, ao lado de Carlos Marighella, nos cartazes de “Procurados” espalhados pelo país. Bacuri tornara-se uma lenda, um nome que incomodava os agentes da repressão.
As operações de assaltos a bancos e supermercados envolviam grandes riscos, podendo vitimar tanto os assaltados quanto os assaltantes. Não era objetivo dos guerrilheiros matar inocentes, mas a pressão, a violência do ato, jamais poderia garantir quaisquer seguranças. Os assaltos tinham como finalidade levantar dinheiro para as operações de luta armada, além de poder manter a sobrevivência dos que viviam na clandestinidade, impedidos de trabalhar e ter o seu próprio sustento. Muitas vezes, dentro dos aparelhos, a fome falou mais alto do que a ideologia. Bacuri tornou-se o militante mais eficiente para executar essas operações, o que lhe acarretou uma vida de extrema violência e de mortes nas costas, aumentando-lhe a fama de “terrorista” perigoso.
Entre os mortos nas operações de assalto, foram imputados direta ou indiretamente a Bacuri, as mortes de:
Abelardo Rosa Lima, soldado da policia militar de São Paulo, metralhado numa tentativa de assalto ao Mercado Peg-Pag, em 6 de outubro de 1969. Além de Bacuri, participaram do assalto Walter Olivieri, Devanir José de Carvalho, Ismael Andrade dos Santos e Mocide Bucherone. A operação foi realizada em conjunto, pela REDE e pelo Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT).
Orlando Girolo, bancário de uma agência do Bradesco em São Paulo, morto numa operação executada por Bacuri e Devanir José de Carvalho, representando a REDE e o MRT, respectivamente.
João Batista de Souza, guarda de segurança da Companhia de Cigarros Souza Cruz, no Cambuci, em São Paulo. Bacuri foi identificado como o autor do assassínio, aumentando-lhe substancialmente a fama de guerrilheiro. A operação foi novamente executada pela REDE e pelo MRT, reunindo outros militantes das duas organizações.

Participação em Dois Seqüestros

O seqüestro do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, realizado pela Aliança Libertadora Nacional (ALN) e pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), resultou na libertação de vários presos políticos, servindo de inspiração para novos seqüestros.
Além dos assaltos a bancos, os seqüestros passaram a ser engendrados como meio de libertar a grande militância que se encontrava nos calabouços, sendo torturada e pondo em risco à segurança dos companheiros, caso não resistissem ao suplício e entregasse os nomes, além de chamar a atenção internacional para as atrocidades do regime.
A competência de Bacuri nas operações de guerrilha, fez dele o militante ideal para novos seqüestros. Ao lado da mulher Denise Crispim, participou ativamente no seqüestro do cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okushi. VPR, REDE e MRT, realizaram a operação, em 11 de março de 1970. As negociações com o governo resultaram na libertação de cinco prisioneiros políticos.
No dia 11 de junho de 1970, em plena Copa Mundial de Futebol, realizada no México, mais uma vez Bacuri fazia parte de outro seqüestro, o do embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben. Durante a operação de seqüestro, Bacuri disparou três tiros contra o agente da polícia federal Irlando de Souza Régis, matando-o com um tiro na cabeça. A morte do agente, que fazia a segurança do embaixador, gerou um recrudescimento dos órgãos de repressão do governo, que se lançaram implacáveis na perseguição aos guerrilheiros, em especial, na captura de Bacuri. Alfredo Sirkis, um dos seqüestradores, relataria mais tarde, que Bacuri aparecera sem capuz diante do embaixador, o que lhe causou constrangimento e irritação, pedindo que ninguém se apresentasse a ele com o rosto descoberto. A operação rendeu a libertação de quarenta presos, entre eles Fernando Gabeira e Vera Sílvia Magalhães, envolvidos no seqüestro de Charles Elbrick.

Bacuri Negocia a Libertação da Mulher Grávida

O caminho da guerrilha era sem volta. Ao ingressar nas organizações de luta armada, o guerrilheiro era tido como terrorista. Sob as garras do AI-5, não tinha direito a hábeas corpus, julgamento por júri popular, além de estar sujeito à pena de morte, prevista para os que praticavam atos que pusessem em perigo a segurança nacional, ou seja, que ameaçassem o regime ilegítimo dos militares.
Com o desmembramento da REDE, Bacuri e a mulher, Denise Crispim, passaram a militar na ALN. Ele já tinha realizado operações sob o comando de Carlos Marighella, assassinado pelos militares em novembro de 1969.
No dia 15 de julho de 1970, a militante Ana Bursztyn aguardava a hora para dirigir-se ao ponto combinado com os companheiros. Como estava adiantada, passou pela loja de departamentos do Mappin, pegando alguns cosméticos. Seu nervosismo atraiu as desconfianças de um fiscal; quando se dirigia ao caixa para pagar, o fiscal pediu para que abrisse a bolsa. Levada à sala do chefe de segurança, Ana Bursztyn apavorou-se quando pediram para revistá-la, sabia que na bolsa estava uma arma, o suficiente para incriminá-la. Ao ser descoberta, tentou fugir, puxou da arma, uma taurus 32, atingindo o chefe de segurança na perna. Ferimento suficiente para causar uma hemorragia e matá-lo. Ana Bursztyn foi presa, no dia seguinte os jornais anunciavam que se havia prendido a guerrilheira ladra. Submetida a intensas e ininterruptas torturas durante oito dias, Ana Bursztyn deixou escapar o endereço do aparelho de Bacuri.
Como conseqüência, Denise, grávida de poucos meses, foi presa. Silenciosamente, à distância, Bacuri, ao lado dos companheiros Carlos Eugênio Paz e Ana Maria Nacinovic, assistiu à prisão da mulher. Mais tarde, tentando evitar que Denise fosse torturada, telefonou para o comandante do II Exército, identificando-se como Bacuri, guerrilheiro da ALN. Avisou ao militar que Denise tinha sido presa pelo DOI-CODI, e que se alguma coisa acontecesse a ela e à criança, iria matar o general-comandante do II Exército. Os militares só deram importância à ameaça, quando Carlos Eugênio voltou a telefonar, dando detalhes da rotina do general, ameaçando ceifar-lhe a vida. Acossados, os militares negociaram com Bacuri a libertação da mulher e do filho. Denise Crispim foi libertada mediante acordo para que se preservasse a vida do general. Foi a última vitória do guerrilheiro Bacuri sobre a ditadura. A partir de então, seria procurado e, se apanhado, sua vida não teria mais valor.

Uma Morte Anunciada

Quando a esquerda engendrava um triplo seqüestro de diplomatas, que tinha como objetivo libertar duzentos prisioneiros de uma só vez, Bacuri caiu nas mãos da repressão durante os levantamentos preliminares. Foi preso no Rio de Janeiro, em 21 de agosto de 1970, pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, tido como o carniceiro dos calabouços da ditadura.
Durante 109 dias, consecutivamente, Bacuri foi brutalmente torturado, recebendo sobre o corpo, toda a ira que se projetara sobre ele. A tortura a que foi submetido talvez tenha sido a mais cruel de todos os supliciados pelo regime militar. Bacuri resistiu bravamente ao seu calvário, sem nunca entregar qualquer companheiro.
Inicialmente, passou pelo Cenimar e pelo DOI-CODI do Rio de Janeiro, onde foi visto pela então presa política, Cecília Coimbra. Estava completamente mutilado e, já quase a não poder se locomover.
Mais tarde, foi removido da prisão para uma casa particular. Os gritos que emitia durante as ininterruptas sessões de tortura chamaram a atenção da vizinhança, que assustada, chegou a chamar a polícia. Ao chegar à residência, os policiais depararam-se com a equipe do delegado Fleury, calmamente, pediram para que mudassem o local de torturas. O guerrilheiro foi levado de volta para o Cenimar. Algum tempo depois, foi transferido para o 41º Distrito Policial de São Paulo, covil do delegado Sérgio Fleury.
O suplício de Bacuri continuou, foi diversas vezes transferido de lugar. Voltou ao Cenimar carioca, sendo ali torturado até setembro, quando retornou aos cárceres de São Paulo, sendo levado para a sede do DOI-CODI.
Em outubro, Bacuri foi levado para o Dops de São, onde viveria os últimos dias do seu calvário, sendo encarcerado na cela 4 do chamado “fundão”, que consistia em celas isoladas, reservadas aos presos mais perigosos. A prisão de Bacuri estava sendo ocultada, a sua morte começava a ser engendrada.
No dia 23 de outubro, o então comandante da ALN, Joaquim Câmara Ferreira, foi morto sob tortura. Só no dia 25 de outubro, o Dops de São Paulo divulgou oficialmente sua morte para a imprensa. Na mesma nota, foi inserida a informação de que o temido Bacuri, mantido em prisão sigilosa por motivos de segurança, tinha conseguido fugir. Com aquela falsa notícia, a morte de Bacuri tinha sido anunciada. Mesmo vivo, Bacuri já era considerado morto.

Os 109 Dias de Tortura

No dia 25 de outubro de 1970, o comandante da equipe de choque do Dops, tenente Chiari, em um momento de crueldade sádica, mostrou ao guerrilheiro a nota divulgada na imprensa, anunciando a sua fuga. Das grades da carceragem, Bacuri, aos gritos, revelou aos presos o que acabara de saber. Lúcido, bradou: “Eu vou ser morto, tenho certeza”.
Ao serem informados do que se sucedia, os demais prisioneiros do Dops, montaram um esquema de vigilância à porta da cela de Bacuri, na vã tentativa de impedirem que o companheiro fosse assassinado.
Para facilitar a retirada de Bacuri da sua cela, sem que os demais prisioneiros percebessem, o delegado responsável pela carceragem do Dops, Luiz Gonzaga dos Santos Barbosa, fez com que os presos fossem remanejados e o guerrilheiro transferido para a cela 1, que ficava em frente à sala dos carcereiros, longe da visão dos outros presos. As dobradiças da porta da cela foram lubrificadas, para que não rangessem quando da remoção do encarcerado. Àquela altura, Bacuri já era considerado oficialmente morto, tendo o seu nome retirado da relação de presos.
Às 0h50 da madrugada de 27 de outubro de 1970, Bacuri foi retirado da cela, sendo carregado, pois já não conseguia andar devido às torturas que sofrera. Ao perceberem o que acontecia, cerca de cinqüenta presos que se encontravam no Dops, começaram a gritar e bater nas portas de metal com pratos e canecos. Bacuri jamais foi visto outra vez por qualquer preso político. Sua vida estava nas mãos dos torturadores. Um policial do esquadrão da morte, Carlinhos Metralha, disse que Bacuri tinha sido levado para o sítio particular de Fleury, usado para torturar os presos especiais e os que deveriam ser executados.
No dia 7 de dezembro de 1970, o seqüestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher selou de vez o fim de Bacuri. Era certo que os guerrilheiros seqüestradores iriam acrescentar o nome do guerrilheiro à lista dos presos que deveriam ser trocados pelo embaixador. Não havia como apresentá-lo em público devido ao estado de mutilação que se encontrava.
Elio Gaspari, no livro “As Ilusões Armadas”, relata que Bacuri viveu o último dia da sua vida no forte dos Andradas, no Guarujá. Chegara ao local dentro de um saco de lona, sendo encarcerado em uma solitária erguida na praia do Bueno. Dali teria sido levado para um túnel do depósito de munições. No dia 8 de dezembro, segundo narrativa do soldado Rinaldo Campos de Carvalho, uma veraneio parou em frente à entrada do depósito, de onde saltaram um major e dois tenentes. Foram ao local onde Bacuri estava trancado, anunciando que iriam levá-lo para o hospital militar. Segundo o soldado, que ajudava o prisioneiro a encostar-se na pia para que se pudesse lavar, o major ordenou que saísse. Ele só ouviu uma pancada, que ambiguamente não sabe tratar-se de um tiro ou de uma cabeça a bater contra a parede. Testemunhou que, logo a seguir, o corpo foi retirado do banheiro no mesmo saco de lona em que fora para ali trazido. Acabaram-se os 109 dias da sua agonia.
Oficialmente, as autoridades anunciaram para a imprensa que Carlos Collen Leite, o Bacuri, morrera em tiroteio em Boracéia, estrada que liga Bertioga a São Sebastião, litoral paulista, após oferecer selvagem resistência. Para confirmar a farsa, o laudo da sua morte, assinado pelos médicos legistas Aloysio Fernandes e Décio Brandão Camargo, responde “não” à pergunta se houve tortura.
O corpo de Eduardo Leite foi entregue à família coberto de hematomas, cortes profundos, escoriações, queimaduras generalizadas por toda a parte, dentes arrancados ou quebrados, orelhas decepadas e olhos vazados, dois tiros no peito e outros dois na cabeça.
No dia 13 de janeiro de 1971, após uma longa negociação, setenta presos políticos trocados pelo embaixador suíço, embarcaram em um avião da Varig para o exílio. Faltara o 71º, Bacuri, o arrojado e temido guerrilheiro.

Bacuri, o Guerrilheiro

Ao vestir a roupa do guerrilheiro Bacuri, Eduardo Leite escolheu para si uma vida mergulhada na violência. Em momento algum duvidou da ideologia pela qual ele e grande parte da sua geração lutaram, renunciando a si mesmo. Os que sobreviveram àqueles tempos, assistiram ao fim da ideologia. Bacuri congelou a sua vida no tempo, não desmoronou com o ruir dos ideais, não sentiu que perder a vida em nome de uma causa não lhe foi inútil.
Dos nomes que a guerrilha urbana consagrou, Bacuri foi o retrato fiel do guerrilheiro brasileiro. Enquanto Carlos Marighella é o mentor, idealizador e intelectual da guerrilha; e, Carlos Lamarca o comandante que atraiu para si a admiração romântica da guerrilha; Bacuri é o guerrilheiro, o executor da guerrilha. Seu vigor, sua coragem e obstinação, fizeram com que ele matasse sem remorsos quando preciso. Assim como Marighella e Lamarca, estava condenado a não sobreviver ao seu tempo. A violência dos assaltos por ele praticado privou vários companheiros da fome e da miséria estabelecidas pela clandestinidade; com os seqüestros salvou a vida de muitos companheiros. Para Bacuri não houve tempo de analisar ou combater o ideal revolucionário, não houve tempo para avaliação ou uma autocrítica histórica do mundo ao qual se lançara. A autocrítica ficou para os que sobreviveram às torturas e à queda da guerra fria.
Descritos como terroristas pela ditadura militar, os guerrilheiros ainda hoje causam polêmicas e controversas. No decorrer das décadas, muitos ex-guerrilheiros tiveram a sua imagem transformada e redimida diante da nação, que muitas vezes os temia, sem perceber a essência da causa. Muitos chegaram ao poder, como José Genuíno, Franklin Martins e Fernando Gabeira. Outros entraram para a história como o guerrilheiro romântico, caso do capitão Lamarca. Carlos Marighella, até pouco tempo considerado maldito, vem sendo revisado pela história. Falta Eduardo Leite, o Bacuri, perder o estigma de maldito. Ceifou vidas quando em combate corporal, mas jamais torturou e supliciou os que se lhe puseram na frente. Quem foi mais selvagem, ele que matou à queima roupa, ou os homens que o torturam brutalmente até matá-lo 109 dias depois? Lampião, um assassino da caatinga, aclamado o rei do cangaço, herói do sertão, matou sem piedade ou ideologia. Os mortos de Bacuri é um quase nada diante dos de Lampião. Cangaceiro e guerrilheiro, porque se redime um e execra-se o outro?
Eduardo Collen Leite foi morto aos 25 anos, no esplendor da sua juventude. A mulher, Denise Crispim, exilou-se logo após a sua morte. Deixou uma filha, Eduarda, nascida no exílio, jamais a conheceu. Não se tornou um mártir da história nacional, mas um mártir da guerrilha, do seu tempo e dos seus ideais.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

HERMES, O MENSAGEIRO DOS DEUSES

A mais esperta e eloqüente das divindades gregas, Hermes, identificado como Mercúrio na mitologia romana, é o mensageiro dos deuses olímpicos. Sua capacidade de dominar a palavra, demonstrar astúcia e diplomacia, fez dele o deus do comércio e dos ladrões.
Hermes representa a jovialidade divina. Seu vigor faz com que viaje por todos os lugares do mundo, o que o torna o deus dos viajantes e protetor das estradas. Para percorrer os céus, traz um chapéu de abas com duas asas e sandálias aladas, que lhe permite voar com eximia ligeireza. Numa das mãos porta o caduceu, varinha mágica que recebeu de Apolo.
Símbolo da juventude fálica, Hermes tinha suas imagens itifálicas erguidas nos templos. Era, assim como Apolo, tido como o ideal de beleza, possuidor de uma agilidade viril. É na figura de Hermes que a androgenia da perfeição da beleza idealizada pelos gregos toma forma, através de Hermafrodito, fruto do seu amor com a bela Afrodite (Vênus), ser que nascera com os dois sexos.
Nascido da aventura amorosa entre Zeus (Júpiter) e Maia, Hermes foi o único filho tido pelo senhor do Olimpo fora do casamento, que não despertou a ira da ciumenta Hera (Juno). Seu carisma conquistara a deusa, que chegou a alimentá-lo no peito quando ainda criança. Hermes é sedutor, atraente com as palavras, senhor absoluto da astúcia.
Deus dos lucros das transações, é ambíguo como o é o próprio comércio. Se protege a lábia dos ladrões, também os condena por atos espúrios. Odeia a guerra e a discórdia, prezando a diplomacia como solução às querelas divinas e humanas.
Sem nunca parar, Hermes percorre todos os caminhos entre a Terra e o Olimpo. Incansável, leva nos lábios as mensagens dos deuses, propagando-as para os mortais. Seu poder de persuadir embriaga a humanidade, fazendo dele o mais sedutor de todos os olímpicos.

Os Epítetos e Atributos de Hermes

Não se sabe ao certo a origem desta divindade mitológica, sendo a Trácia o local mais provável. Os pelasgos, primitivos habitantes da Grécia, difundiram o culto ao deus. A lenda mais recorrente conta que Maia, sua mãe, era uma ninfa que vivia no cume do monte Cilene, na Arcádia. Ali, entregara-se a Zeus e dera à luz ao deus.
É nas terras geladas da Arcádia que se registra a veneração mais primitiva de Hermes, essencialmente pelos pastores, que lhe deram os epítetos de Hermes Epimélio e Hermes Nômio, sendo invocado como o protetor das cabanas, dos cavalos, dos cães, dos rebanhos, dos leões e dos javalis. Certas características primitivas seriam perdidas para Apolo Nômio, após o domínio dos dóricos.
Em épocas ainda remotas, recebeu na Samotrácia o epíteto de Hermes Casmilo, com características de um deus ctônico, protetor do subsolo e da vegetação. Era nesta época, representado com um falo desenvolvido, evidenciando o vigor viril, sendo cultuado ao lado das deusas da fecundidade.
Com a evolução do mito, a divindade sofreu transformações significantes, desenvolvendo novas características e recebendo outros atributos. Com o epíteto de Hermes Logio, era venerado como o deus da eloqüência e da persuasão, com o poder de praticar boas transações, favorecendo o comércio, proporcionando bons lucros aos helenos.
Hermes Krysorrais (munido de vara de ouro), mostrava o deus com o famoso caduceu, uma vara mágica que transformava em ouro tudo o que tocava, além de distribuir abundância aos homens. Portador das mensagens de Zeus, através do caduceu, transmitia aos mortais a benção dos olímpicos.
Com os epítetos de Hermes Empolaios (que preside o comércio) e Hermes Agoraios (que dirige as tarefas da praça pública), era venerado nas terras do Mediterrâneo visitadas pelos gregos. Trazia uma bolsa cheia como atributo, representando os lucros nas transações comerciais.
Hermes Agonios (que preside os certames), cultuava a juventude e a virilidade do deus, sendo venerado nos ginásios e estádios atléticos da Beócia. Com este epíteto, recebia homenagens periódicas através de lutas de jovens, efetuadas em Atenas, Creta, Acaia e cidades da Arcádia. Recebia culto como sendo o patrono dos desportistas, o criador do pugilato e das práticas atléticas.
Hermes Trismegisto (três vezes santo), era cultuado pelos poetas e cantores, como o protetor da música e inventor da lira; como criador das ciências, da matemática e da astronomia. Hermes Trismegisto era venerado juntamente com Apolo, as funções que se lhe eram atribuídas confundiam-se com as do deus solar. Várias lendas eram comuns aos dois, como a invenção da lira.
Quanto mais se aceitava um mito, maiores e mais complexas eram as atribuições dadas a ele. A figura mitológica de Hermes foi adquirindo diversas funções conforme evoluía a civilização grega. Com o epíteto de Hermes Psicopompo (condutor de almas), passou a ser venerado nas festas dos mortos e próximo às tumbas, como aquele que conduzia as almas dos mortos ao Hades.

Hermes, o Deus dos Ladrões

Tido como um deus natural da Arcádia, onde era primitivamente venerado como divindade agrícola e pastoril, Hermes foi aos poucos, adquirindo atribuições ligadas ao comércio, passando as funções primitivas a Apolo.
A astúcia do deus é descrita desde que era um recém nascido na Arcádia. Após amamentá-lo, Maia deixou-o no berço. Na calada da noite, o bebê libertou-se das faixas com as quais a mãe lhe envolvera o corpo. Silenciosamente, para que não acordasse Maia, deixou o berço. Era um bebê precoce e diferente de todos os imortais.
Hermes caminhou pela noite, direcionando-se para a Tessália. Na mente, o deus planejava roubar o rebanho do rei Admeto, de Feras, cidade daquela região; guardado por Himeneu e Apolo. Afinal, quem poderia desconfiar de um bebê?
Ao chegar aos campos onde estava o gado real, Hermes aproveitou-se de um descuido de Apolo, que caminhava enternecido ao lado do amado Himeneu, roubando-lhes o rebanho.
Apagando as pegadas do gado e às suas próprias, o travesso bebê atravessou a Tessália e a Beócia, chegando a Pilo. Ali encontrou Bato, um velho andarilho. Para que o homem não lhe denunciasse, Hermes ofereceu-lhe um bezerro em troca do silêncio. O velho aceitou a proposta. Mas o pequeno deus não se convenceu da fidelidade do homem. Deixou o gado em uma caverna, tomou a forma de um pastor e voltou para junto de Bato. Diante do velho, simulou desespero, dizendo que se lhe tinham roubado o rebanho, oferecendo uma recompensa a quem lhe desse uma pista do ladrão. Sem desconfiar da verdadeira identidade do pastor, Bato aceitou de imediato o suborno, denunciando o roubo. Após testar a falsa fidelidade do homem, o astuto deus transformou-o em uma rocha.
Antes que a noite terminasse, Hermes chegou com o gado ao cume do gélido monte Cileno, morada da sua mãe na Arcádia. Deparou-se com uma tartaruga, tomando-a como um sinal de sorte. Pegou o animal e o matou, esvaziando-lhe a carcaça, prendendo a ela pedaços de cana de tamanhos diferentes. Do intestino do animal, distendeu sete cordas. Tocou o instrumento, que produziu o mais belo de todos os sons, tinha inventado a lira.
Cansado da longa jornada, o pequeno voltou ao berço e adormeceu, certo de que a sua esperteza enganaria os guardadores dos animais.
Na Tessália, Himeneu deparou-se com a falta do rebanho. Sentindo-se culpado, recorreu a Apolo para que o ajudasse. Os dons divinos do deus fizeram com que descobrisse que Hermes era o autor do roubo, e que o rebanho real estava no monte Cileno. Furioso, Apolo dirigiu-se para a Arcádia, onde encontrou Hermes, um bebê recém nascido, a fingir dormir inocentemente, a dissimular sua precoce astúcia. Mas o deus da luz não se deixou intimidar pelos protestos de Maia, que se sentia ofendida com as acusações, muito menos pela imagem inocente do bebê. Interrogou Hermes, que negou o roubo. Mostrou-se um hábil orador diante das acusaçãoes do irmão. Exasperado, Apolo recorreu a Zeus, senhor do Olimpo, que não se deixou enganar, fazendo o filho confessar e devolver o rebanho.
Vencido, Hermes pegou a lira nas mãos. Quando se preparava para partir, Apolo ouviu uma canção que saía do instrumento que o pequeno tocava. O deus da luz comoveu-se, jamais tinha ouvido tão límpido e perfeito som. Sorriu para Hermes. Não conseguiu nutrir rancor por tão amável ser. Admirou-se com aquela esperteza. Diante da astúcia do pequeno, Apolo o consagrou como o deus dos ladrões, tornando-se desde então, o seu maior amigo e companheiro.

O Deus dos Viajantes e do Comércio

Desde bebê, que Hermes se mostra um andarilho veloz. Sua primeira grande viagem, da Arcádia à Tessália, foi marcada pela astúcia e pela malícia. A negociação com Bato representou o quanto a esperteza é necessária para que se realize uma empreitada bem sucedida, ainda que ilícita. As lendas de Hermes e de suas viagens com propósitos ambíguos, repletos de engodos e de vitórias diplomáticas, fizeram com que os gregos antigos o venerasse como o deus viajante, que se encontrava em todas as estradas do mundo. A certeza da presença de um deus, fazia com que os viajantes gregos se sentissem protegidos diante dos perigos. Assim, Hermes passou a ser cultuado como o deus dos andarilhos e dos viajantes, o condutor de uma viagem tranqüila, protetor de todas as artimanhas que se pudessem deslumbrar nas estradas.
Para invocar a proteção de Hermes aos viajantes, os marcos de pedra que indicavam o rumo, passaram a ser chamados de hermas, transformando-se no símbolo do deus, fazendo-o definitivamente o protetor das longas e perigosas caminhadas pelas terras desconhecidas. No decorrer do tempo, os marcos passaram a ser esculpidos com as características do deus. Estátuas de Hermes eram erguidas nas encruzilhadas ao longo das estradas. Por muitos séculos, as hermas e o falo foram os principais símbolos do mito de Hermes e das representações feitas pelos artistas.
Com a expansão da civilização grega, as suas viagens passaram a ter maiores objetivos comerciais. Hermes deixou de proteger apenas o viajante, estendendo o seu poder às transações dos comerciantes que viajavam em busca de bons negócios. Sua astúcia era essencial para que se realizasse boas empreitadas. A ambigüidade que envolvia o comércio, calcada na lábia e na habilidade, muitas vezes regida pela falta de escrúpulos dos helenos, a esperteza como fonte de sobrevivência, tudo volvia à lenda do deus ladrão. Hermes passou a ser cultuado como o deus do comércio e das transações bem sucedidas, além de eterno protetor dos ladrões, inspirador das suas lábias.
Hermes era o deus dos mercadores, seu caduceu quando estendido aos comerciantes, proporcionava bons lucros, quando estendido à Grécia, trazia as bênçãos dos olímpicos. Hermes propiciava as fortunas. Ao mesmo tempo em que propiciava os lucros, dispensava-os, sendo visto como doador de bens.
Outra ambigüidade do mito era a sua proteção aos ladrões. Ao mesmo tempo em que os protegia, poderia voltar-se contra eles, repudiando-os. Inventou a balança, instrumento que garantia aos compradores e aos vendedores o mesmo peso. Evitando que uma das partes fosse enganada.

A Representação da Imagem de Hermes

As viagens constantes pelo mundo, a ligeireza em que atravessava os céus do Olimpo, fazia de Hermes um deus vigoroso e atlético, ágil e viril. Assim, era imaginado pelos gregos como belo e jovem. As mais antigas representações do deus ressaltavam-lhe o falo. Suas estátuas viris eram espalhadas pelas encruzilhadas das estradas, à porta das casas, à entrada dos ginásios e estádios.
A imagem do Hermes arcaico era a de um jovem barbado e de cabelos longos, caídos sobre a nuca e o tórax; a cabeça era protegida por um chapéu pontudo ou de abas largas, portando pequenas asas; vestia uma túnica curta; trazia um manto preso ao ombro; um par de sandálias com asas, que o ajudava a voar como o vento; e, o caduceu, às vezes um simples bastão, outras vezes possuidor de três hastes que se encontravam na ponta, fazendo um nó. No decorrer dos tempos, as hastes foram substituídas por duas serpentes.
No século V a.C., a imagem do deus foi reformulada, provavelmente por Fídias (500?-432? a.C.), sendo esculpido nu, sem barba, com uma túnica sobre o braço esquerdo, e, com o braço direito erguido.
Seja qual fosse a representação, a imagem era sempre jovial, viril, repleta de beleza física. Ao lado de Apolo, Hermes era tido como o símbolo da beleza masculina idealizada pela civilização grega.

A Identificação com Mercúrio

Se Atena (Minerva), era a deusa da sabedoria, promovendo tanto a guerra, como a sua estratégia expansionista; e, Ares (Marte), promovia o horror sanguinário da guerra, as suas calamidades; Hermes era o deus da astúcia das palavras, da diplomacia e da conciliação. Ao contrário de Ares e Atena, ele não é um deus guerreiro, é o menos colérico dos olímpicos. Odeia a guerra e castiga severamente quem a desencadeia. Sua esperteza é usada como embaixadora das soluções pacíficas, é o deus da diplomacia.
Ao mesmo tempo em que propicia os lucros, Hermes condena as guerras que são travadas por causa deles. Seu maior amigo é Apolo, deus da luz e das artes. Num paradoxo anacrônico, a arte e o lucro caminham juntos
A característica de deus do comércio, levou Hermes a ser identificado com a entidade romana de Mercúrio. A partir do século V a.C., Mercúrio foi aos poucos, sendo helenizado, adquirindo todas as características de Hermes. Tornou-se na Roma antiga, o mensageiro de Júpiter, sendo nas lendas romanas, fiel servidor e cúmplice dos amores extraconjugais do senhor dos deuses.
Ao contrário de Hermes, que primitivamente foi cultuado como deus pastoril, Mercúrio sempre foi o protetor do comércio. Teve o seu primeiro templo erguido em Roma, em 496 a.C., no vale do Circo Máximo, próximo ao porto do rio Tibre, centro comercial fluvial da cidade. Assim como Hermes, o caduceu, o chapéu e as sandálias alados, são os principais símbolos de Mercúrio. A ele é acrescentando uma bolsa, simbolizando os lucros das transações comerciais.
Hermes e Mercúrio possuem uma prole com vários filhos em comum. Como a identificação do deus grego com o romano só aconteceu no século V a.C., as lendas dos filhos dos deuses, umas mais antigas do que as outras, fizeram a diferença da prole.
São filhos de Mercúrio: Evandro, fruto do amor do deus com a ninfa Carmena, tido como quem ensinou a escrita e a música aos latinos. Com a ninfa Lara, gerou os gêmeos Lares, entidades protetoras das casas e das encruzilhadas.
A prole de Hermes, mais tarde adotada por Mercúrio, é extensa. Com Afrodite teve Hermafrodito, ser de dupla natureza, metade homem, metade mulher. Com Antianira teve Equíon, o arauto dos Argonautas, e Êurito, famoso arqueiro. Com Quíone engendrou o famoso ladrão Autólico, avô de Odisseu. Com a ninfa Acacális teve Cidão, fundador da Cidônia, cidade da ilha de Creta. Com a princesa Herse teve Céfalo, por quem Eos, a Aurora, viria a nutrir uma grande paixão. A ninfa Driopéia foi quem o fez pai do mito mais famoso da sua prole, Pã, divindade dos pastores e dos rebanhos. Com Daíra teve Elêusis, herói da Ática. Com a princesa Polimela gerou Eudoro, um dos companheiros de Pátroclo na guerra de Tróia. Com Faetusa concebeu Mírtilo, que teve um infeliz destino como cocheiro do rei Enômao. Com a princesa Aglauro teve Cérix, grande sacerdote de Deméter.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A ABERTURA POLÍTICA E A MPB

Na conturbada década de 1960, a história da Música Popular Brasileira seria totalmente reescrita, revelando grandes músicos, cantores e compositores, que dariam um contorno definitivo a ela. Sob os ventos da Bossa Nova, uma nova mensagem estética e sonora iria gerar movimentos históricos como a Tropicália e a Jovem Guarda, essenciais para que se perceba os caminhos que a MPB seguiu na segunda metade do século XX.
Uma pulsante renovação explodia no cenário musical na década de 1960, sendo drasticamente afetada pela implantação do regime militar através de um golpe de estado, em 1964. Para manter o poder de um governo ilegítimo, a ditadura militar teve que reprimir e conter todos os seus opositores. A juventude estudantil foi a primeira a ser atingida, tendo os seus órgãos oficiais, como a União Nacional dos Estudantes (UNE), sendo lançados na clandestinidade. Silenciados os movimentos, a MPB passou a ser a voz rebelde daquela juventude. Os festivais de música explodiram nas emissoras de televisão da época, promovendo um grande alcance popular e revelando para o país talentos definitivos, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Gal Costa, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Milton Nascimento e tantos outros.
Com o endurecimento do regime militar, a partir de dezembro de 1968, a MPB que se fazia na época, considerada pelo governo como porta voz da juventude universitária comunista, passou a ser vigiada e censurada, sendo classificada como subversiva.
A censura aos meios de comunicação imperou rígida por mais de uma década. Atingiu à música, aos jornais, à televisão, ao teatro, à literatura, ao cinema, às artes plásticas, nenhum meio de expressão cultural foi poupado. Ao contrário do que se pensa, não era uma censura apenas política, mas essencialmente moralista, sustentando assim, o conceito de moralidade de uma classe conservadora da população brasileira, que sob os canhões militares, desenhava um Brasil estética e moralmente perfeito. Com o declínio do apoio da elite brasileira aos militares, a revelação das torturas nos calabouços e o desaparecimento de muitos dos filhos dessa elite; o regime militar começou a enfraquecer, sendo obrigado, a partir de 1975, a acenar com uma abertura lenta e gradual, que culminaria com o fim da censura e da própria ditadura.
Em 1978 a abertura chegou às artes e, conseqüentemente, à MPB. Canções outrora proibidas, como “Cálice” (Gilberto Gil – Chico Buarque), foram liberadas. Em 1979, a Lei da Anistia trazia de volta ao país os exilados políticos. A MPB passou a ser a voz daquele novo período da história. Voltou com fôlego, deixando de ser elite e alcançando as grandes massas. De 1978, data do início da abertura do regime militar, a1985, data do seu fim, a MPB alcançou um apogeu de vendas de discos e uma influência que jamais se repetiu. É o período que podemos chamar de “A MPB da Abertura”.

A MPB e os Primeiros Anos da Ditadura

Em 1958, emergia a partir da zona sul carioca, um movimento musical que passou a ser conhecido como Bossa Nova. Incipientes e talentosos músicos e cantores como Tom Jobim e João Gilberto, lançavam um novo conceito de MPB, que influenciaria todos os movimentos vindouros. Paralelamente ao surgimento da Bossa Nova e à sua expansão para a década de 1960, a juventude brasileira alcançava um nível de conscientização e de organização políticas jamais vistas. A UNE, principal órgão estudantil, passou a ter grande influência nas decisões políticas do país. Tradicionalmente ligada aos partidos de esquerda clandestinos, a UNE concentrava uma pululante militância de jovens artistas e intelectuais. No início da década de 1960 criou o Centro Popular de Cultura (CPC), idealizado pelo dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. O recém-criado órgão cultural estudantil trazia Ferreira Gullar como diretor do setor de poesia e literatura; Leon Hirszman dirigia o setor de cinema; Vianinha o de teatro; e, Carlos Lyra o de música. Grandes espetáculos e eventos foram realizados, em sua maioria, na sede da própria UNE. Na parte musical, nascia o que se pode chamar de MPB universitária. Com a chegada da ditadura militar, a UNE foi posta na ilegalidade e o CPC deixou de existir.
Ainda no princípio da ditadura militar, a resistência da música ao regime instaurado trazia demarcada evidência. Nara Leão, musa da Bossa Nova, deixou o movimento e abraçou o tradicional samba dos morros cariocas. Literalmente, a cantora subiu o morro e trouxe o samba para o asfalto. No dia 11 de dezembro de 1964 estreava o “Show Opinião”, na sede do Teatro de Arena do Rio de Janeiro. Com textos concebidos por Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa, sob a direção de Augusto Boal, trazendo Nara Leão ao lado de legítimos sambistas das batucados dos morros, João do Vale e Zé Kéti. A produção coletiva reunia os integrantes do extinto CPC e do Arena. Teatro e música uniam-se naquele que significava o primeiro grito de protesto contra o regime militar. A canção “Carcará” (João do Vale), apresentada no show, ecoava como um grito latente de revolta da voz da MPB. Nara Leão tornava-se um símbolo da música de protesto, atraindo para si a vigilância e desconfiança do regime militar.
As limitações vocais de Nara Leão impediram que ela resistisse a uma longa temporada. Doente, a ex-musa da Bossa Nova mandou vir da Bahia uma jovem cantora desconhecida, de voz agreste e grave: Maria Bethânia.

Os Grandes Festivais de Música dos Anos 1960

A partir de 1965, a TV Excelsior, uma pioneira na renovação e definição dos programas da televisão brasileira, lançou os festivais de música, que seria o grande marco da história mais recente da MPB. Naquele ano, em abril, foi realizado o 1º Festival de Música Popular. Uma certa Elis Regina, jovem cantora gaúcha, movendo os braços no ar como se fosse um moinho atômico, encantou e empolgou o Brasil, interpretando “Arrastão” (Edu Lobo – Vinícius de Moraes). A canção venceu o festival e Elis Regina escreveu para sempre o seu nome na MPB.
Em setembro de 1965 a TV Record lançou o programa “Jovem Guarda”, apresentado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa. O nome designaria um movimento musical ameno, sem pretensões ou seguimentos ideológicos, mais próximo do grande público, o que agradou aos moralistas e aos vigilantes da ditadura militar.
Em 1966, o Festival Nacional da Música Popular, premiava a vencedora “Porta Estandarte” (Geraldo Vandré – Fernando Lona). A música de protesto, através da figura engajada de Vandré, dava os contornos da linha principal dos festivais. Ainda naquele ano, em outubro, dois festivais eram realizados: o 1º Festival Internacional da Canção (FIC) transmitido pela TV Rio, futura TV Globo; e, o 2º Festival de Música Popular Brasileira, a partir de então transmitido pela TV Record. “Saveiros” (Dori Caymmi – Nelson Motta), interpretada por Nana Caymmi, ganhou o primeiro FIC. “A Banda” (Chico Buarque), interpretada por Nara Leão, dividiu com “Disparada” (Geraldo Vandré – Theo de Barros), o prêmio de melhor canção.
Os festivais, aos poucos, revelavam para o Brasil novos cantores e compositores. A nova MPB que estava sendo feita tornava-se um forte canal de oposição ao regime militar. Os grandes festivais alcançariam o auge de 1967 a 1969. Com o decreto do Ato Institucional número 5 (AI-5), em dezembro de 1968, o endurecimento do regime militar perseguiu de forma implacável a chamada MPB universitária. Sem liberdade plena de expressão, os festivais foram cada vez mais cerceados e, aos poucos, descaracterizados, minguando definitivamente.O Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, chegaria à sua quinta edição, findando em 1969, com "Sinal de Alerta", de Paulinho da Viola, sendo a vencedora. O FIC, transmitido pela TV Globo, atravessaria a década de 1960, chegando à sétima edição, em 1972, quando “Fio Maravilha” (Jorge Ben), interpretada por Maria Alcina, vencia e encerrava, para alívio do regime militar, aquela página da história da MPB.

Os Engajados e os Tropicalistas

Se os festivais definiram uma nova linha engajada àquela MPB, em 1967, uma nova vertente mudaria todo o cenário, a instigante Tropicália, movimento liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. “Domingo no Parque” (Gilberto Gil), não abandonava a linha de protesto engajado, mas reformulava toda a estética musical de então. “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso, mudava por completo o conceito de melodia e letra, a estética entre a poesia e a música. Considerados alienados e alienantes pelos engajados, os tropicalistas sofriam com o preconceito da MPB universitária e, ao mesmo tempo, eram repudiados pelo regime militar.
Para que se perceba o paradoxo entre a música engajada e a contestação tropicalista, é necessário que se conheça as diferenças, hoje aparentemente sutis, mas que na época geravam um grande abismo entre ambas. A primeira, encabeçada por Geraldo Vandré, consistia no engajamento político da militância da esquerda, direta ou indiretamente. Era feita por jovens talentos intelectuais, dentro ou em volta do então clandestino Partido Comunista Brasileiro. Cantos de protestos tinham um objetivo claro, derrubar a ditadura militar. A segunda, liderada pelos tropicalistas, trazia uma canção de protesto social, mais próxima da ideologia do “Maio de 1968” de Paris. Para os tropicalistas, mais importante do que derrubar o regime militar, era derrubar os seus costumes morais falidos. A censura do governo era política e moralista, afinal os militares, sem a legitimidade do povo, sustentava-se através da repressão e do apoio de uma moralista classe média, que em uma visão ambígua, zelava pela moral e pelos bons costumes da família e dos brasileiros. Assim, tanto o engajamento de Geraldo Vandré quanto à subversão social dos tropicalistas, eram postos no mesmo saco e perseguidos pelo regime.
A promulgação do AI-5 permitiu que se sufocasse o que restara do movimento estudantil, perseguindo, prendendo, torturando e matando os seus líderes. A música de protesto foi aos poucos, abafada e silenciada. “Caminhando (Para Não Dizer Que Não Falei das Flores)”, de Geraldo Vandré, tornou-se um hino de resistência contra a ditadura, fazendo do seu autor o inimigo número um do regime militar, dentro da MPB. Lançada em setembro de1968, no 3º FIC, ficou em segundo lugar, provocando protestos e vaias sobre a vencedora, “Sabiá” (Chico Buarque – Tom Jobim). Às vésperas do fechamento do Congresso Nacional, a canção de Vandré foi o último grande grito de protesto da MPB dentro dos festivais. As edições posteriores foram mornas, sem a evidência de uma resistência ao regime, trazendo canções com insinuações sutis, jamais diretas. A canção de Vandré foi censurada e proibida de ser cantada ou tocada durante o tempo que durou o AI-5.
Com o endurecimento da ditadura militar, seguido de várias prisões e perseguições, muitos dos novos nomes da MPB, revelados pelos festivais, foram obrigados a seguir para o exílio, entre eles Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré e Taiguara. Aos artistas que ficaram, restou um imposto silêncio, o cerceamento ideológico e a submissão das suas obras à censura.

A MPB e a Opressão do Regime Militar

A primeira metade da década de 1970 foi sufocante para a MPB. A censura prévia à música, fez com que grandes canções fossem proibidas, indo parar nas gavetas dos seus autores. Quando o general Emílio Garrastazu Médici subiu ao poder, a guerra entre o governo e a resistência comunista foi intensa, gerando seqüestros e guerrilhas urbanas. Para combater os guerrilheiros, a tortura foi institucionalizada, a delação incentivada, e os atos culturais vigiados e silenciados, censurados com rigidez quando ofereciam qualquer tipo de contestação ao regime.
Vivendo sob vigilância constante do Estado repressivo, os autores da MPB passaram a usar metáforas de bastidores dentro das suas composições. Sob pressão e reféns do medo, as canções de protestos tornaram-se cada vez mais escassas. A censura tornou-se moralista, defendia a ideologia política do governo e a moral que lhe ladeava. O nu artístico era limitado, filmes pornográficos e políticos eram proibidos em um só pacote. Músicas com teor sensual eram consideradas tão subversivas quanto às de protesto. A lógica dos censores perdeu-se nos seus preconceitos, tornando-se absurdas, burocráticas e desprovidas de qualquer inteligência ideológica.
Em 1973, a morte sob tortura do estudante Alexandre Vanucchi Leme, o Minhoca, estudante de geologia da USP, comoveu os seus colegas. Em protesto, eles chamaram Gilberto Gil para um concerto em homenagem ao estudante morto, realizado na Politécnica. Gilberto Gil, desafiando à censura e ao regime, cantou a proibida “Cálice”. Foi a primeira manifestação estudantil desde o massacre dos seus líderes, promovida após a instituição do AI-5. Mais uma vez MPB e movimento estudantil davam as mãos, numa clara demonstração de que a resistência às atrocidades do regime não tinha sido extinta.
Na direção oposta da censura, a produção de qualidade da MPB adquiriu uma grande sofisticação, juntando com esplendor poesia e melodia. Raramente esse conteúdo chegava às grandes massas. A música de língua inglesa era soberana de vendas e de sucesso nos meios de comunicação. Cantores brasileiros, como Christian e Michael Sullivan, usavam nomes estrangeiros, compunham e cantavam sucessos instantâneos. Os sucessos nacionais não aliciavam a compra dos “long plays” de vinil, para vendê-los no mercado, as gravadoras lançavam os discos compactos, que mantinham o vigor das carreiras dos cantores de MPB. O brasileiro não tinha o hábito de ouvir um álbum inteiro do mesmo intérprete.
A censura colaborava com a falta de interesse do público, pois mantinha os shows sob severa vigilância, e os discos, muitas vezes eram mutilados pelo corte de certas canções, que apareciam sem letras, lançadas apenas instrumentalmente. Chico Buarque, o mais perseguido pela censura na década de setenta, usou de subterfúgios, como usar o pseudônimo de Julinho da Adelaide, para que tivesse as suas canções aprovadas. A MPB prosseguia como um vulcão silencioso, preste a derramar as suas larvas sobre a opressão que se lhe era imposta.

O Florescer da Abertura

Em 1975, já sob o governo do presidente Ernesto Geisel, as atrocidades do governo começaram a vir à tona. A morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog obrigou o governo, pela primeira vez, a admitir que existiam prisioneiros torturados no país, e aquela realidade já não podia ser ignorada. Sob pressão da comunidade internacional, o governo foi obrigado a acenar com uma possível abertura política do regime.
Curiosamente, a TV Globo decidiu ressuscitar os velhos festivais, lançando, em 1975, uma edição sem grande repercussão, que trazia o ambíguo e sugestivo nome de Festival Abertura. Carlinhos Vergueiro vencia com a música de sua autoria, “Como Um Ladrão”.
A abertura viria de forma lenta, quase a exasperar. Em 1978 foi decretado o fim do AI-5, que deixaria de vigorar a partir do dia 1 de janeiro de 1979. Novos ventos soprariam sobre a MPB, modificando a sua trajetória. Ainda em 1978, canções proibidas há anos foram finalmente liberadas. Chico Buarque, em seu álbum de 1978, pôde gravar três ícones da sua música engajada: “Cálice”, com participação vocal de Milton Nascimento; “Tanto Mar”, música em homenagem à Revolução dos Cravos, deflagrada em Portugal, vetada em 1975; e, “Apesar de Você”, tirada com truculência das lojas quando lançada em compacto, em 1970.
Não só a censura política foi liberada, como também a censura moralista. Se dantes a simples menção da palavra pêlo em “Atrás da Porta” (Chico Buarque – Francis Hime) era considerada obscena, a sensualidade e o erotismo explodiram na voz das cantoras de MPB. “O Meu Amor” (Chico Buarque), revelava um dueto sensual e provocativo entre duas mulheres, a canção foi registrada no disco de Chico Buarque de 1978, num dueto de Marieta Severo e Elba Ramalho, e, por Maria Bethânia e Alcione, no álbum “Álibi”, também daquele ano. “Condenados” (Fátima Guedes), gravado por Simone, declarava que a mulher estava mais “safada” e a tirar maior proveito do prazer. Gal Costa, era daquelas mulheres que só diziam sim, na memorável interpretação de “Folhetim” (Chico Buarque). As senhoras que se diziam representantes da moral e dos bons costumes da família, que com os seus rosários nas mãos marcharam pelas ruas das grandes cidades, abraçando o golpe militar, tremeram e protestaram diante de tanta ousadia. Mas o regime e a moral que elas defendiam estavam corroídos pela hipocrisia e prontos para ruírem. A MPB e as suas cantoras, a exalar talento e sensualidade, já não podiam ser caladas. A abertura chegara, ainda que lenta, mas definitiva.

A Ascensão da MPB

Com maior possibilidade de expressão, a MPB passou a chegar ao grande público. “Álibi”, álbum lançado por Maria Bethânia no fim de 1978, tornou-se no ano seguinte um fenômeno de vendas. Jamais uma cantora tinha ido tão longe em vendagem de discos no Brasil. Com “Álibi” o brasileiro passou a ouvir um disco inteiro de MPB, fazendo com que os discos compactos fossem, aos poucos, perdendo mercado. A MPB deixava de ser elite, atingindo grandes massas, mostrando que qualidade também podia ser vendável e agradar a todos.
A abertura política proporcionou a Lei da Anistia, promulgada em agosto de 1979, possibilitando o retorno dos exilados políticos. A MPB tornou-se porta voz do movimento, através das canções “Tô Voltando” (Maurício Tapajós – Paulo César Pinheiro), cantada por Simone, e, “O Bêbedo e a Equilibrista” (João Bosco – Aldir Blanc), numa interpretação antológica de Elis Regina, transformada no hino da Anistia.
Em 1979 a UNE era reconstruída, apesar de não ser reconhecida legalmente. Movimento estudantil e MPB começavam a pulsar arrebatadoramente dentro da já moribunda ditadura militar. Atenta ao fato, a TV Tupi voltou a promover um festival de música, o Festival 79 da Música Popular. Apesar de não ter obtido a repercussão esperada, o festival destacou a presença de Fagner, com “Quem Me Levará Sou Eu” (Dominguinhos – Manduka), e do então desconhecido Oswaldo Montenegro, com “Bandolins”. No ano seguinte seria a vez da TV Globo voltar a investir nos festivais. Lançou o Festival da Nova Música Popular Brasileira – MPB 80, alcançando um grande sucesso. O festival, rebatizado como “MPB Shell”, teve mais duas edições, em 1981 e 1982. Em 1985, o Festival dos Festivais seria a última grande produção do gênero feita no Brasil.
A partir de 1979, a MPB foi tomando o espaço da música de língua inglesa, ultrapassando as vendas dos discos estrangeiros no país. Novos nomes eram revelados, alcançando relativo sucesso: Zizi Possi, Diana Pequeno, Ângela Ro Ro, Joanna, Marina, Fátima Guedes, Oswaldo Montenegro, Elba Ramalho, Zé Ramalho. Muitos que há anos estavam no mercado, mas que não tinham reconhecimento, projetaram-se com solidez: Gonzaguinha, Fagner, Simone, Ney Matogrosso, Djavan, Belchior. E os grandes reprimidos pela censura, ascenderam vertiginosamente: Gal Costa, Chico Buarque, Elis Regina, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Caetano Veloso. Todos encontravam espaço, e, principalmente, um público ávido para consumir o que eles produziam.

A Concretização da Abertura e a MPB

A militância da MPB no cenário nacional foi escancarada ao país depois do fim do AI-5. Já nada podia deter as vozes do Brasil. No fim de 1979, Simone deu um espetáculo no Canecão. No meio do show, cantou a música há tantos anos proibida pela ditadura, “Caminhando (Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores)”. Emocionado, o público acompanhou a cantora, sem medo, após dez anos de silêncio, de entoar o refrão do hino da luta contra a ditadura. A canção de Vandré voltou a fazer parte das manifestações contra o regime militar, sendo cantada nos comícios e eventos políticos.
Incontestavelmente, a MPB tornara-se porta voz da luta pela volta da democracia e pelo fim do regime militar. Grandes concertos de MPB foram feitos em apoio e junto com as manifestações sindicais. O show-comício das comemorações do 1 de Maio de 1980, alcançou grande número de público. Concertos de protesto eclodiram por todo o país. Setores radicais do regime militar, contrários à abertura, passaram a olhar os cantores como inimigos e perigosos subversivos. Na noite de 30 de abril de 1981, a ala radical promoveria o maior atentado público da ditadura militar. No Pavilhão Riocentro era realizado um grande show comemorativo do Dia do Trabalhador. Na decorrência do espetáculo, os militares, sargento Guilherme Pereira e o então capitão Wilson Dias Machado, punham em prático um ardil mortal, a plantação de bombas que daria fim à apresentação, e eliminaria vários nomes oponentes ao regime que ali se encontravam, entre eles Chico Buarque, Gonzaguinha, Gal Costa e Elba Ramalho. No estacionamento do pavilhão, uma das bombas explodiu dentro do carro onde estavam os dois militares, matando o sargento e ferindo gravemente o capitão. O atentado foi frustrado, e a MPB não foi calada.
Na campanha pelas “Diretas Já”, em 1984, novamente cantores da MPB vestiram as camisas amarelas e subiram aos comícios. A canção “O Menestrel das Alagoas” (Milton Nascimento – Fernando Brant), feita em homenagem ao líder político Teotônio Vilela, foi aclamada hino do movimento, sendo cantada em todos os comícios por Fafá de Belém. Com a frustração do movimento, Chico Buarque criou e cantou “Pelas Tabelas”.
Da abertura política iniciada em 1978 e concretizada em 1985, com o fim da ditadura militar, a MPB teve uma ascensão vertiginosa. Pela primeira vez ela deixava de ser elite. Cumpriu o sentido histórico interrompido pela promulgação do AI-5, tornou-se uma voz essencialmente feminina, de grandes cantoras, e, uma voz de luta em favor da queda da opressão política e moralista no Brasil pós-1964. Nunca se consumiu tanta música de MPB como naquele período. Nunca o povo e a qualidade musical caminharam tão juntos. O apogeu declinou após o fim da ditadura, a MPB voltou a ser elitizada, à espera que novos ventos ideológicos façam com que lance as suas larvas incandescentes sobre a cultura brasileira.

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A MÚSICA E A CENSURA DA DITADURA MILITAR
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