sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

BEM-BOM - O ÁLBUM ÍCONE DE GAL COSTA


O mais bem sucedido disco comercial da carreira de Gal Costa, com vendas que assolaram não só o mercado brasileiro, mas também o internacional, trazia um sofisticado repertório que se viu eclipsado e vincado pela mítica “Um Dia de Domingo”, dueto antológico da cantora com Tim Maia, considerada pelos críticos mais austeros a grande mácula brega no repertório galcostiano, sem justiçar a bela arquitetura sonora de um álbum eclético.
Lançado em plena virada que mudaria a face da MPB ante ao grande público, em 1985, Bem-Bom é a síntese dessa mudança, onde o tradicional toque bossanovista dava passagem para o popularesco, que por sua vez, fecharia a década de oitenta de portas abertas para os movimentos do axé e do pseudo- sertanejo. Bem-Bom, cumpre esta função ao diluir nas suas faixas o novo rock que se desenhava, trazendo autores então incipientes como Cazuza, consolidando a Bossa Nova que se estreitava naquela década, o velho rock psicodélico pós Tropicália de Waly Salomão e, principalmente, o romantismo exacerbado que abriria passagem para as bem sucedidas duplas sertanejas vindouras, através da coragem de gravar Michael Sullivan e Paulo Massadas, a dupla mais registrada por grandes intérpretes da MPB naquela década, hoje marginalizada e datada pela crítica e pelo público.
Bem-Bom demarcava os quarenta anos de Gal Costa, na época estrela absoluta da MPB, trazendo um vigor estonteante, uma extensão vocal que beirava o viés da perfeição. Idealizado pela cantora e pelo genial Waly Salomão, mostra-se eclético, moderno e tradutor da essência de uma década, muitas vezes injustiçada pelas novas gerações, que da época só viram o exagero das cores new wave. Erroneamente identificado como o disco de “Um Dia de Domingo”, é um dos registros mais ousados da cantora, que passa por Chico Buarque, Roberto e Erasmo Carlos, Milton Nascimento, Djavan, Gonzaguinha e Marina Lima, trazendo uma sensível beleza técnica de uma das maiores vozes do mundo. Bem-Bom, quem comprou o álbum na ânsia de um apelo popular, deparou-se com um sofisticado repertório, longe de ser alcançado pelos milhões de ouvintes que o levou para casa. O disco é a sutil tradução de uma década, sem jamais ficar preso a ela.

Um Dia de Domingo, a Mais Polêmica Canção da Carreira

No momento que chegava aos quarenta anos, Gal Costa mostrou-se audaciosa, sensual e imprescindível no cenário musical brasileiro. Começou 1985 posando nua para a revista masculina “Status”, causando grande furor. Cabelos mais curtos, roupas mais insinuantes, ela terminaria aquele ano com o lançamento do disco Bem-Bom, concebido em parceria com Waly Salomão, velho companheiro da época de musa do desbunde. A capa, uma das mais sensuais da sua carreira, resumia-se em uma única fotografia, trazendo a cantora num sofisticado vestido sintético futurista, que lhe realçava as curvas. A concepção visual era por si só uma provocação, invertendo a posição da fotografia de Milton Montenegro, que se abria mostrando a cantora num todo, sendo a parte inferior do seu corpo, pernas, quadris e microfone, a capa, e a parte superior, rosto, busto, braços, a contracapa. Algo audacioso que só Gal Costa poderia fazê-lo tão bem. No encarte, a mesma fotografia tomava aspectos futuristas, sendo vista através de um vídeo, numa readaptação eletrônica do mítico encarte do álbum “Fa-Tal – Gal a Todo Vapor” (1971), mais uma vez mostrando a presença de Waly Salomão, que ao lado de Miguel Plopschi, assumia a direção artística.
Bem-Bom traz onze faixas, mostrando um repertório eclético e bem costurado, convergindo Bossa Nova e rock psicodélico, balada popular e pop/rock, até a mais pura MPB. Foi lançado originalmente na forma de LP. Traz uma curiosidade, foi o primeiro disco de Gal Costa, com exceção dos álbuns temáticos em homenagem a Dorival Caymmi (Gal Canta Caymmi, 1976) e Ary Barroso (Aquarela do Brasil, 1980), a não trazer uma composição de Caetano Veloso no seu repertório.
O lado A do disco abria-se com a romântica “Sorte” (Celso Fonseca – Ronaldo Bastos). Para compensar a ausência autoral de Caetano Veloso nas onze faixas, a cantora fazia um dueto singelo com o velho companheiro. Leve, suave, “Sorte” tornou-se um dos maiores sucessos do álbum. A compreensão estética dos dois baianos mostra-se perfeita, siamesa, como se ambos tivessem composto a melodia. “Sorte” traz o idílio da paixão juvenil, desnudando figuras de linguagem que nos faz caminhar de mãos dadas pelas noites prateadas do Rio de Janeiro, algo já sugerido no disco anterior, com a doce “Chuva de Prata” (Ed Wilson – Ronaldo Bastos), mas aqui sem tanto açúcar, sem tanto mel, numa linguagem esteticamente dietética.
Último Blues” (Chico Buarque), chega de forma sofisticada, dando ao álbum o selo garantido da mais pura MBP. Feita para a versão cinematográfica da peça “A Ópera do Malandro” e pensada para a voz de Gal Costa, a canção encontra o torpor sensual exigido, a estética jazzística que nos faz sentir a figura fosforescente de uma das vozes mais belas do mundo, a eclodir em todos os sons do nosso quarto. Gal Costa mostra-se inatingível na técnica, intocável na beleza doce da sua voz, fazendo das personagens femininas de Chico Buarque algo ainda mais sublime dentro do imaginário da canção.

“Apaga a última luz
E nos cantos do seu quarto
A figura dela fosforesce
Ao som do último blues”


Inesperadamente surge “Um Dia de Domingo” (Michael Sullivan – Paulo Massadas), em um dueto com Tim Maia, que jamais seria esquecido. A voz doce de Gal Costa luta arduamente com a voz selvagem e agreste de Tim Maia. A bela e a fera, num duelo que se faz pungente, vibrante, para que ela não seja engolida por ele. “Um Dia de Domingo”, considerada por demais popularesca para o repertório de Gal Costa, sofreu as mais severas críticas, como se fosse a maior heresia cometida por ela em toda a carreira. Curiosamente, a canção tão polêmica alcançou um grande público, mostrando que a MPB que se apresentara desde a abertura política, em 1978, e alcançara as grandes vendagens, as rádios além das FMs, com “Álibi”, de Maria Bethânia, começava a falir na fórmula. E um público menos exigente, mais voltado para o popular, começava a vislumbrar no cenário musical. Gal Costa, apesar de não ter sido a primeira e nem a única a gravar grandes sucessos da dupla Sullivan-Massadas, por sua importância dentro da MPB, foi quem demarcou esta mudança, pagando um preço e cobranças quase que sufocantes para uma carreira genial como a dela. “Um Dia de Domingo” alcançou grande sucesso fora do Brasil, especialmente em Portugal e na Argentina. Em terras lusitanas, a canção, lançada em compacto ao lado de “Sorte”, ficou meses no primeiro lugar das paradas, sendo um dos mais vendidos da Europa. Também o álbum “Bem-Bom” alcançou números consideráveis de vendas em Portugal. Diante do sucesso, Gal Costa viu os seus espetáculos esgotados nas cidades de Lisboa e do Porto, obrigando-a a fazer o dobro dos que estavam agendados. No Porto, voltou tantas vezes ao palco para o bis, que perdeu a voz, sendo agraciada com a chave daquela cidade. “Um Dia de Domingo” era o carro chefe de todo aquele sucesso em terras estrangeiras. No Brasil, serviu como cartão de críticas negativas à cantora, que teve a sua imagem na década de oitenta, vinculada de forma indelével à canção.

Retratos Musicais de Um Tempo

Acende o Crepúsculo” (Marina Lima – Antonio Cícero) chega após o embate entre Gal Costa e Tim Maia. Canção pop/rock que mostrava o vigor vocal de uma cantora que, chegava aos quarenta anos quase que banhada por uma fonte juvenil inesgotável na garganta. A canção vem de forma que espelha uma juventude pós- liberação sexual, pós-ditadura militar, que se vê presa pela fúria da Aids, naquele ano decretada como mortal e, pela primeira vez, com um rosto adquirido, a do ator Rock Hudson. Acender o crepúsculo daquela juventude, aqui em metáfora com a cidade de Cubatão, na época a mais poluída do Brasil, era gritar, quando o momento das conquistas calava no princípio da queda dos ideais. Juventude de carne e osso, eletrônica, pré-internet, pré-CD, que hoje parece longínqua, obtendo na voz de Gal Costa a sua representação maior.
O lado A do disco encerrava-se com a serena, existencialista e definitiva “Muito Por Demais” (Luiz Gonzaga Jr.). A voz de Gal Costa amplia a sensação das metáforas, dá cor ao carmim da boca, aos sabores de sapoti da pele e do cajá da vida, ao cheiro do alecrim, dá, essencialmente, a sensação de navegarmos numa embriagante paz momentânea, que se nos leva ao abismo do canto de uma sereia. A paz entorpecente da interpretação suave da canção, alivia os momentos de tensão existencial nas faixas de rock, faz do universo de Gonzaguinha algo bem mais do que a angústia de viver, e de Gal Costa o precipício da beleza estética musical.

“Tudo que sonhei, flor
Fruto que ganhei, mel
Paz no coração, vida sapoti
Toque de maçã, muito por demais”


Gal Costa, A Musa de Qualquer Estação

Romance” (Djavan), iniciava o lado B do LP. Se as metáforas com sabor e cores de frutas idealizaram uma paz desenhada em “Muito Por Demais”, “Romance” é o universo intimista e muitas vezes sem significados traduzidos de Djavan, que só a voz de Gal Costa pode dar sentido. Aqui diluído em imagens de frutos regionalistas, na tentativa de identificação de um Brasil das matas. É quase uma Bossa Nova oitentista, quase um existencialismo diluído entre a filosofia do desbunde e a do bicho grilo. É Gal Costa dando sentido e beleza à obra de um dos seus compositores prediletos.
Em 1969, a dupla Roberto e Erasmo Carlos fazia para a musa da Tropicália uma homenagem, a canção “Meu Nome é Gal”, que se iria tornar a digital de uma jovem cantora pronta para conquistar o país e o mundo. Em 1985, a dupla da Jovem Guarda complementa a homenagem, dando seqüência a ela na canção “Musa de Qualquer Estação” (Roberto Carlos – Erasmo Carlos). Desta vez a homenagem não é para uma cantora incipiente, mas para a grande dama da MPB, para a grande estrela que encantava o Brasil. Musa da Tropicália, do desbunde, de qualquer estação, Gal Costa era, naquele momento a voz da juventude brasileira, quando já era uma jovem senhora de quarenta anos. A canção não ficou tão marcada no repertório da cantora como “Meu Nome é Gal”, mas foi a síntese do rei Roberto Carlos, descendo o seu cetro em homenagem latente sobre a cabeça de uma das maiores cantoras da sua geração.

“Me leia, me creia
Faça fé no meu violão
Me cota, me vota
Me cai no gosto da multidão
Por que me eleger só no verão
Se eu sou musa de qualquer estação?”

Bem-Bom” (Eduardo Gudin – Arrigo Barnabé – Carlos Rennó), canção que dá título ao álbum, foi feita especialmente para Gal Costa, é um trocadilho com “Bim-Bom”, clássico de João Gilberto, dando aqui o tom de Bossa Nova que tanto fascinou e influenciou a cantora por toda a sua carreira. Em homenagem explícita, ela cita vários versos de canções do movimento carioca que se espalhou pelo mundo inteiro. Arrigo Barnabé, músico paranaense muito cultuado no início da década de oitenta por críticos e cantores, sempre foi um perseguidor árduo da música experimental. Até então, suas composições eram traduzidas pelos agudos extremos de Tetê Espíndola, sua principal intérprete. Os agudos doces de Gal Costa deram um novo sentindo e beleza à obra que ele dividia com Eduardo Gudin e com o paulista Carlos Rennó, tendo este último transformado a cantora na musa principal das suas canções, fazendo com ela outros grandes trabalhos futuros. “Bem-Bom” é uma homenagem que se faz necessária no disco, dando a ele uma sofisticação que contrasta de forma quase abismal com “Um Dia de Domingo”, interliga “Sorte”, alinhava “Romance” e “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” , centrando os rocks diluídos pelos agudos tecnicamente selvagens da cantora.

O Legado de Bem-Bom

Após passar pelo experimentalismo da vanguarda paulistana da época, Gal Costa lança-se de cabeça no universo do então jovem e promissor poeta Cazuza. “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” (Cazuza – Frejat), canção visceral, criada na latência final dos resquícios da geração do desbunde, que ainda ousava ser seguido pela geração dos anos oitenta, traz uma Gal Costa cantando em um tom diferente do habitual, inovando na interpretação, que se nos parece aqui, uma mudança no timbre da cantora. Mera ilusão acústica, é Gal Costa brincando com a voz, fazendo dela experimentações ousadas, numa técnica dominada pela emoção madura. Aqui a cantora não suaviza o existencialismo da geração exprimida entre o mel e a ferida, deparando-se com as limitações e com o inferno nosso de cada dia, traduzidos nas doenças sociais, na queda da ditadura e na falta de direção das ideologias agonizantes. Gal Costa mostra-se mais visceral aqui do que em todas as canções mais eletrizantes do disco. Consegue, com perfeição, traduzir o universo inquietante e poético do insuperável Cazuza.

“E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio o mel e a ferida
E o corpo inteiro feito um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não”


Voltando à essência da MPB de então, “Quem Perguntou Por Mim” (Milton Nascimento – Fernando Brant), é quase uma prece focada para dentro da cantora, numa referência à expansão do amor e admiração que a sua voz atingia pelo mundo, atravessando mares, rompendo fronteiras. Com “Bem-Bom”, Gal Costa viajou por Portugal, Argentina, Japão e tantos outros países, causando comoção e adquirindo fãs das mais diversas nações. “Quem Perguntou Por Mim”, produzida no disco pela própria cantora, com participação especial luxuosa de Wagner Tiso, é um registro de carinho e amor para aqueles que, em qualquer parte do mundo, deixaram-se seduzir por sua voz de sereia.
Assim como encerrava o álbum anterior, “Profana” (1984), Gal Costa terminava este disco mergulhada no mais puro rock psicodélico, “De Volta ao Futuro” (Ricardo Cristaldi – Waly Salomão), embora com um leve trave da época do desbunde, apresenta-se como algo futurista, fugindo à sensatez dos insensíveis, trazendo a vertente aguda da voz da cantora, traduzindo a genialidade explosiva de Waly Salomão, encerrando de forma imprevisível mais um trabalho da dupla, que tanto fez sucesso, gerando discos e shows históricos. Mestre e musa, inspiração e voz, “Bem-Bom” despede-se com a certeza de que poderia ser tudo, menos um disco de fácil assimilação popular, apesar de ser o comercialmente mais vendido da carreira de Gal Costa. Um paradoxo, muitas vezes explicado de forma simplista no eco dos maledicentes, que jamais superaram as limitações e grande sucesso de “Um Dia de Domingo”. “Bem-Bom" é o disco ícone da década de 1980, mas está longe de ser datado, ou mesmo resumido a esse estigma. O álbum hoje, quando ouvido e revisto, surpreende, mostrando-se de uma sofisticação eclética que só uma cantora como Gal Costa consegue produzir.

Ficha Técnica:

Bem-Bom
RCA – BMG
1985

Direção Artística: Miguel Plopschi e Waly Salomão
Coordenação Artística: Gal Costa, Waly Salomão e Miguel Plopschi
Produzido Por: Ricardo Cristaldi (Sorte, Acende o crepúsculo, Todo amor que houver nessa vida e De volta ao futuro), Miguel Plopschi (Um dia de domingo, Musa de qualquer estação e Quem perguntou por mim), Luiz Avelar (Último blues e Muito por demais), Arrigo Barnabé (Bem-bom), Djavan (Romance) e Gal Costa (Quem perguntou por mim)
Estúdios de Gravação: Multi Estúdios
Técnicos de Estúdio: Carlos de Andrade (Carlão) e Eduardo Costa
Auxiliares: André Mattos, Alberto, Antonio Carlos e Guilherme
Estúdio Lincoln Olivetti
Técnicos de Estúdio: Lincoln Olivetti e Eduardo Costa
Auxiliar: Tico
Estúdio RCA – RJ
Técnicos de Estúdio: Guilherme Reis, Flávio Sena, Dalton Rieffel, Franklin Garrido e Luiz Carlos Reis
Auxiliares: Liu, Mauro e Magro
Mixagem: Ricardo Cristaldi (Sorte, Acende o crepúsculo, Todo amor que houver nessa vida), Luiz Avelar (Último blues), Eduardo Costa (Acende o crepúsculo, Muito por demais, Romance, Bem-bom, Todo amor que houver nessa vida, Quem perguntou por mim), Gal Costa (Muito por demais, Romance), Djavan (Romance), Miguel Plopschi (Musa de qualquer estação), Marcelo Sussekind (Musa de qualquer estação), Flávio Sena (Musa de qualquer estação), Franklin Garrido (Musa de qualquer estação) e Carlos de Andrade (Carlão) (Sorte, Último blues, Bem-bom, De volta ao futuro)
Capa: Noguchi
Clima: Waly Salomão
Foto: Milton Montenegro e Márcia Ramalho
Assistente: Marquinho
Vídeo: Lúcia Veríssimo
Computer Graphic: Milton Montenegro
Remake Cibernético de “Fatal”: Waly Salomão
Maquiagem: Guilherme Pereira
Cabelos: Jan
Roupa: YES BRAZIL
Coordenação Gráfica: Tadeu Valerio

Músicos Participantes:

Arranjos: Ricardo Cristaldi (Acende o crepúsculo, Todo amor que houver nessa vida e De volta ao futuro), Lincoln Olivetti (Um dia de domingo), Luiz Avelar (Último blues e Muito por demais), Arrigo Barnabé (Bem-bom), Eduardo Gudin (Bem-bom), Djavan (Romance), Marcelo Sussekind (Musa de qualquer estação)
Regência: Edson Alves (Bem-bom)
Baixo: Pedrão Baldanza (Sorte, De volta ao futuro), Nico Assumpção (Último blues), Otávio Fialho (Acende o crepúsculo, Todo amor que houver nessa vida), Fernando Souza (Um dia de domingo), Paulo César Barros (Musa de qualquer estação), Bebeto (Bem-bom) e Sizão (Romance)
Guitarra: Tony Costa (Sorte, Acende o crepúsculo, Todo amor que houver nessa vida, De volta ao futuro), Ricardo Silveira (Último blues), Marcelo Sussekind (Musa de qualquer estação) e Pisca (Muito por demais)
Guitarra Solo: Rogério Meanda (Acende o crepúsculo)
Guitarra Gybson Nylon: Djavan (Romance)
Bateria: Marcelo Costa (Gordo) (Sorte, Acende o crepúsculo, Todo amor que houver nessa vida, De volta ao futuro), Carlinhos Bala (Último blues, Muito por demais, Musa de qualquer estação, Bem-bom) e Teo Lima (Romance)
Percussão: Cidinho (Sorte, Acende o crepúsculo, Todo amor que houver nessa vida, De volta ao futuro), Marcelo Costa (Gordo) (Sorte, Acende o crepúsculo), Ohana (Muito por demais, Bem-bom), Paulinho Trumpete (Muito por demais) e Armando Marçal (Romance, Todo amor que houver nessa vida)
Teclados: Ricardo Cristaldi (Sorte, Acende o crepúsculo, Todo amor que houver nessa vida, De volta ao futuro), Lincoln Olivetti (Um dia de domingo), Luiz Avelar (Muito por demais, Romance), Robson Jorge (Um dia de domingo), Júlio César Teixeira (Sorte, Último blues, Acende o crepúsculo) e Cleberson Horsth (Musa de qualquer estação)
Piano Acústico: Wagner Tiso (Quem perguntou por mim), Luiz Avelar (Último blues, Romance) e Arrigo Barnabé (Bem-bom)
Violão Acústico: Djavan (Romance) e Tony Costa (Todo amor que houver nessa vida)
Violão Acústico Solo: Tony Costa (Todo amor que houver nessa vida)
Sax Alto: Lino Simão (Último blues, Todo amor que houver nessa vida), Leo Gandelmann (De volta ao futuro) e Zé Carlos (Todo amor que houver nessa vida)
Sax Soprano: Zé Luiz Segneri (Todo amor que houver nessa vida)
Sax Tenor: Bangla (Todo amor que houver nessa vida) e Zé Luiz Segneri (Todo amor que houver nessa vida)
Flautas: Celso Woltzenlogel (Bem-bom), Paulo G. Ferreira (Bem-bom), Murilo Barquette (Bem-bom) e Franklin Correa e Silva (Bem-bom)
Clarinetas: Pedro Silveira Neto (Bem-bom), José Cardoso Botelho (Bem-bom), Armênio Z. Suzano (Bem-bom) e Clovis Guimarães (Bem-bom)
Violinos: Giancarlo Pareschi (Bem-bom), Alzick Geller (Bem-bom), Alfredo Vidal (Bem-bom), João Daltro (Bem-bom), Jorge Faini (Bem-bom), Valter Hack (Bem-bom), Carlos Eduardo Hack (Bem-bom), Michel Bessler (Bem-bom), Paschoal Perrota (Bem-bom), Luiz C. Marques (Bem-bom), Francisco Perrota (Bem-bom) e Nelson Abramento (Bem-bom)
Violas: Frederick Stephany (Bem-bom), Arlindo Penteado (Bem-bom), Hindenburgo Borges (Bem-bom) e Nelson Macedo (Bem-Bom)
Cellos: Alceu Reis (Bem-bom), Marcio Mallard (Bem-bom), Jorge Ranevsky (Bem-bom) e Jaques Morelenbaum (Bem-bom)
Trombone: Nelson Martins (Bem-bom)
Coro: Pedrão Baldanza (Acende o crepúsculo, De volta ao futuro), Márcio Lott (Acende o crepúsculo, De volta ao futuro), Luna Messina (Acende o crepúsculo), Marisa Fossa (Acende o crepúsculo, De volta ao futuro), Paulo Massadas (Musa de qualquer estação), Roberto Correa (Musa de qualquer estação), Ronaldo Correa (Musa de qualquer estação), Fabíola (Musa de qualquer estação), Regina Correa (Musa de qualquer estação), Renata Moraes (Musa de qualquer estação) e Eveline Hecker (De volta ao futuro)

Faixas:

1 Sorte (Celso Fonseca – Ronaldo Bastos) Participação: Caetano Veloso, 2 Último Blues (Chico Buarque), 3 Um Dia de Domingo (Michael Sullivan – Paulo Massadas) Participação: Tim Maia, 4 Acende o Crepúsculo (Marina Lima – Antonio Cícero), 5 Muito Por Demais (Luiz Gonzaga Jr.), 6 Romance (Djavan), 7 Musa de Qualquer Estação (Roberto Carlos – Erasmo Carlos), 8 Bem-Bom (Eduardo Gudin – Arrigo Barnabé – Carlos Rennó), 9 Todo Amor Que Houver Nessa Vida (Cazuza – Frejat), 10 Quem Perguntou Por Mim (Milton Nascimento – Fernando Brant), 11 De Volta ao Futuro (Ricardo Cristaldi – Waly Salomão)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

HERA - A CIUMENTA E VINGATIVA RAINHA DO OLIMPO


Hera (Juno), é dentro da mitologia greco-romana, a personificação humana que mais se aflora dentro de um deus. Suas características essenciais refletem o ciúme, o desejo da fidelidade elevado ao seu mais extremado zelo. Hera, casada com Zeus (Júpiter), o senhor de todos os deuses, reina soberana ao seu lado. Tem todos os poderes atribuídos ao marido, mas se destaca pela preservação da família, pelos princípios da monogamia, e pela perpetuação do amor único e exclusivo entre os casais.
O mito de Hera consolidou-se numa época em que a Grécia passava a defender os princípios da monogamia e a adotá-la como regra, tornando-se necessária a personificação de uma divindade que defendesse tais princípios, sendo eles atribuídos à deusa-rainha, deusa-mãe, aqui elevada à companheira de Zeus.
As lendas que envolvem Hera são rebuscadas pelo seu ciúme excessivo, o desejo de vingança em punir as traições de Zeus, perseguir as amantes do marido infiel e, conseqüentemente, os filhos que resultaram de tais atos de infidelidade. A deusa protege a família. No casamento, é por vezes, uma oponente fervorosa aos pensamentos do poderoso marido, pondo-se de lado avesso, como no caso da guerra de Tróia, onde protegeu os gregos enquanto Zeus favorecia os troianos! Seu senso de justiça limita-se ao lar, ao casamento, à família, tudo que possa corromper esse universo é rigidamente castigado por ela.
Hera é o mais irritante de todos os mitos, fazendo-o o mais humano deles. O ciúme é a sua maior característica. A fidelidade a sua obsessão. O casamento o seu ideal, embora seja uma mãe ausente e muitas vezes cruel, capaz de abandonar Hefestos (Vulcano), o filho que nasceu defeituoso. Hera é a personificação da mais pura essência da alma humana na forma de amar outrem, dentro de uma relação consolidada pela sociedade, opondo-se ao ato livre e espontâneo dos amores clandestinos, dos amantes da madrugada. Hera é a essência do matrimônio e suas prisões psicológicas, menores do que o solar da visão de uma sociedade talhada pelos princípios da monogamia.

Hera, a Rainha do Olimpo

A origem do mito de Hera é incerta, sendo descartada a idéia de ser uma divindade indo-européia, podendo ter sido trazida para a Grécia antes da invasão dos aqueus. Originalmente era mais uma das várias deusas-mães das antigas civilizações, sendo elevada à condição de esposa de Zeus, o todo poderoso senhor do Olimpo, tornando-se assim, uma entidade de consagrada importância dentro dos cultos pagãos gregos. Nas venerações mais primitivas à divindade, era-lhe atribuída a responsabilidade do nascimento, do bom parto, conforme o mito era desenvolvido, tornava-se protetora do matrimônio.
Hera era a filha mais nova de Cronos (Saturno) e Réia (Cibele). Assim como o irmão Zeus, foi poupada de ser devorada pelo pai, através de um ardil da mãe, que a entregaria recém nascida aos cuidados de Tétis e das Horas.
Quando Zeus derrotou Cronos, após uma guerra sangrenta de dez anos, tornando-se o senhor dos deuses, procurou pela irmã. Fascinado por sua beleza, encantou-se por ela, declarando-lhe uma paixão arrebatadora. Mas Hera declinou diante da paixão do irmão, preferindo manter-se casta. Inconsolável, Zeus transformou-se em um cuco, surgindo na frente da amada como um pássaro triste e quase morto pelo frio. Compadecida, Hera, pegou a ave, aquecendo-a no calor do seio. Tão logo se viu junto ao corpo da deusa, Zeus, entorpecido pelo desejo, tomou-a para si, violando-a.
Diante da vergonha e humilhação sofrida, Hera exigiu que o irmão reparasse o ultraje. Apaixonado e decidido a encontrar uma companheira, o senhor dos deuses tomou a irmã como esposa, em uma pomposa cerimônia no Olimpo, assistida por todos os deuses. Hera tornava-se, ao lado do marido, a rainha de todos os deuses do Olimpo.
Reza a lenda, que após a grandiosa festa de matrimônio, Hera e Zeus partiram para um longo período de núpcias que duraria trezentos anos. Após regressar das núpcias, a deusa foi até Náuplia, banhando-se na fonte de Cánatos, sendo ali, restituída a sua virgindade. É interessante a necessidade das lendas em preservar o princípio virginal à deusa, que mesmo quando violado, é reparado pelo matrimônio e, depois dele, restabelecido para que ela pudesse, finalmente, sentar-se no trono de ouro, reinando absoluta ao lado do marido no alto do Olimpo. Talvez por isto, Hera fosse a divindade que tinha elevada importância para as mulheres gregas, sendo sensivelmente cultuada por elas.

Esposa Fiel, Mãe Não Afetuosa

Hera assumia, diante do mito, a personificação da esposa ideal grega, que exigia de forma explícita a fidelidade do marido, fator fundamental para o equilíbrio do casamento. Se Hera reflete o lado tranqüilo e fiel do matrimônio, Zeus, por sua vez era o pai dos deuses e dos heróis gregos. Senhor absoluto do universo, cabendo a ele dar vida a uma prole sagrada e numerosa. Ao lado da esposa, o sentido procriador de Zeus é anulado, restrito à madre limitada da deusa. Diante das limitações, Zeus é um deus vulnerável às paixões, nascendo delas uma prole de grandes mitos, acendendo a ira e os ciúmes da esposa.
Hera é o princípio do lar, da esposa perfeita, mantendo o equilíbrio do casamento através da fidelidade exigida, mas jamais alcançada. Mas a deusa não se mostra como uma entidade procriadora, uma mãe exemplar! Sua prole é pobre de grandes mitos. Ao lado de Zeus, gera quatro filhos: Ares (Marte), o sanguinário e brutal deus da guerra, a entidade mais odiada no Olimpo; Ilítia, deusa menor da maternidade, protetora das mães na hora do parto; Hebe, representante divina da juventude eterna, que tinha como função servir aos deuses o néctar e a ambrosia; e, Hefestos (Vulcano), deus da metalurgia, do fogo, ferreiro oficial dos deuses e dos heróis. Hera teria, segundo vertentes da lenda, gerado sozinha, um quinto filho, Tifão, um monstro terrível, que trazia o corpo coberto por escamas, cabeças de dragão entre os dedos, lançando fogo dos olhos.
Para manter a estabilidade conjugal do matrimônio, Hera é a esposa universal, descolada da personificação de mãe afetuosa. Para não acender a ira do marido ao gerar um filho deficiente, Hefestos, que nasceu coxo, ela atira o recém nascido do alto do olimpo, rejeitando-o. Enciumada por Zeus ter gerado sozinho a bela Atena (Minerva), deusa da sabedoria, ela pede para que Gaia (Terra), conceda-lhe o poder de gerar sozinha um ser. Nasce Tifão, o monstro. As duas lendas personificam a preocupação dos gregos com as imperfeições genéticas. Tifão alimenta o princípio grego de que uma mulher sozinha é incapaz de gerar um ser perfeito. Hefestos resulta na preocupação dos gregos diante das deficiências genéticas dos filhos de casamentos entre parentes, Hera e Zeus são irmãos, daí a necessidade de demonstrar os perigos dessas uniões. É a forma mística, através dos deuses, de explicar à civilização antiga as falhas da genética.

Perseguidora Implacável dos Cônjuges Infiéis

O mito de Hera não ressalta a boa mãe, tão pouco a esposa ideal. É vingativa com Zeus, quando por ele é traída. Por várias vezes abandona o marido e o posto de rainha do Olimpo, como forma de punição às traições constantes que sofre. Mas, como exemplo do matrimônio perfeito, sabe ceder ao marido, e, para ele voltar quando aplacada a sua ira. Por seu lado, também Zeus volta arrependido aos braços da mulher, tão logo passa o torpor passional e, cumpre o papel de deus fecundador e pai de todos os mitos.
Se Zeus, após punição imediata, é perdoado pela esposa, as suas amantes e os seus filhos não têm igual sorte. Hera mostra-se implacável e agressiva com as rivais, perseguindo-as sem compaixão.
A bela Calisto, quando despertou a paixão de Zeus, foi transformada em uma ursa. Para evitar que Calisto fosse morta pelo próprio filho, um exímio caçador, Zeus transformou-os nas constelações Ursa Maior e Ursa Menor.
Io, outra ninfa que despertou o amor de Zeus, foi transformada em novilha e posta aos cuidados dos cem olhos vigilantes de Argo.
Sêmele, princesa tebana, foi vítima do ardil de Hera, que disfarçada, procurou a rival, convencendo-a a fazer Zeus mostrar diante da sua face o seu verdadeiro aspecto, sabendo que mortal algum sobreviveria à visão divina do deus. Tão logo arrancou a palavra do amante, Zeus mostrou-se como era, fazendo o palácio incendiar e, a infeliz Sêmele, morrer entre as chamas. A malograda princesa trazia no ventre Dioniso (Baco), o deus do vinho, salvo pelo pai, com a ajuda de Hefestos. Dioniso seria perseguido por Hera, assim como Héracles (Hércules), filho do amor roubado entre Zeus e Alcmena.
Ciumenta, vingativa, Hera perpetua através das suas lendas, as questões familiares, a necessidade de preservar o princípio da monogamia que era adotada pela civilização grega. Hera trazia princípios rígidos e moralistas, não admitindo nenhum desejo nefasto ou perverso a perturbar a legitimidade do matrimônio, a desconstrução da ordem familiar através dos amores ilícitos, dos idílios dos amantes. Hera era o exemplo que precisava a civilização grega em um momento que a monogamia tornava-se uma realidade moral a ser adotada.

Veneração à Deusa na Grécia Antiga

Senhora absoluta do matrimônio, defensora perpétua da fidelidade conjugal e dos seus valores morais dentro da sociedade grega, Hera era venerada no alto das montanhas, concentrando-se essencialmente no Peloponeso e regiões adjacentes. Em Argos encontrava-se o principal centro de seu culto. O fato deve-se à lenda em que tinha dado a Argo, ser mitológico que possuía cem olhos, de vigiar a rival, Io, metamorfoseada em novilha. Para livrar a amante de tal martírio, Zeus pediu a Hermes (Mercúrio), que a libertasse. Com uma faca, Hermes cortou a cabeça do vigilante. Ao ver a cabeça de Argo inerte no campo, Hera esbravejou contra os deuses, soltando grandes gritos de dor. No meio da dor, a deusa transformou os cem olhos do guardião nas penas de uma bela ave, que chamou de pavão. O pavão foi representado em várias obras de arte ao lado da deusa, tornando-se a sua ave predileta.
O maior templo de devoção dedicado à deusa era o Heraion, edificado no século V a.C., entre Argos e Micenas. Neste templo estava a mais célebre estátua de Hera, esculpida por Policleto (século V a.C.). Considerada a obra-prima do seu autor, a estátua apresentava a deusa como uma bela e jovem mulher, trazendo um olhar severo, diadema na cabeça, trajando uma túnica discreta, portando na mão o cetro, cuja extremidade estavam a granada (sua pedra preciosa) e o cuco, símbolos que representavam a fidelidade e o amor conjugal. Hera, para os gregos, personificava a esposa fiel, responsável absoluta pela boa relação entre os casais.

Juno, a Personificação do Mito de Hera em Roma

Em Roma o mito de Hera foi assimilado ao da já existente Juno, esposa fiel do poderoso Júpiter. Os romanos deram à deusa diversos atributos, ampliando as suas funções divinas e protetoras. As várias faces de Juno, suas funções extensas, fizeram os romanos atribuir-lhe vários epítetos, sendo eles:
Juno Pronuba, responsável pela realização dos casamentos. Juno Lucina, a poderosa deusa dos partos, que auxiliava as crianças na hora do nascimento e, protegia, também, as mulheres grávidas. Juno Lucetia, representava a luz celeste do princípio feminino, sendo a protetora de tais princípios. Juno Domiduca, condutora da virgem para a casa do esposo. Juno Ossipagina, fortificadora do feto durante a gravidez. Juno Populonia, deusa responsável pela multiplicação dos povos. Juno Rumina, que durante a gestação, conduzia a futura mãe para que ela tivesse leite forte e fosse boa nutriz. Juno Sospita, responsável pelo alívio da mãe diante do peso da criança na hora do parto.
O templo mais famoso erguido à deusa pelos romanos, foi o do Sanuvium, onde eram atribuídas honras a Juno Sospita.
A importância de Juno para os romanos foi adquirindo, através do tempo, funções não só como protetora dos partos e libertadora das mães, mas também libertadora do povo, sendo tomada como entidade protetora dos romanos nas diversas batalhas vitoriosas quando lutaram contra os seus inimigos. Na representação do mito nas artes, a imagem mais famosa é a da Juno Ludovisi, escultura que traz o rosto da deusa ovalado, com boca séria e olhos grandes, assumindo para o mundo, a imagem ideal da deusa.
Na Roma antiga, a principal festa em honra à deusa era a Matronalia, celebrada em fevereiro, realizada nas matas do Palatino, local de veneração à divindade. Após as homenagens, as atenções voltavam-se para as matriarcas, que recebiam dos maridos e filhos, presentes especiais. A Matronalia, é considerada por muitos, como a festança que originou o dia das mães. Também o mês de Junho do calendário atual, tem o seu nome derivado da deusa Juno.

domingo, 6 de junho de 2010

SOM IMAGINÁRIO - POR FREDERA

No início da década de 1970, em plena explosão do movimento que ficou conhecido como desbunde, surgiu uma banda de rock psicodélico e progressivo, o Som Imaginário, que se tornou um ícone daquela geração.
Nascida de um projeto para acompanhar o cantor Milton Nascimento no show “Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário”, a banda trazia músicos incipientes e de genialidade criativa, que se revelaria nos ressoantes nomes de Zé Rodrix (vocal, órgão, flautas e percussão), Wagner Tiso (piano e órgão), Tavito (violão), Luiz Alves (baixo), Robertinho Silva (bateria) e Frederyko (guitarra), atualmente conhecido como Fredera; em sua composição mais tradicional. Outros nomes passaram pelo grupo: Laudir de Oliveira, Naná Vasconcelos, Novelli, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Paulinho Braga e Jamil Joanes.
Irreverentes, atirados à psicodelia latente da música, ao mais autêntico conceito “flower power”, à vontade de subverter os costumes, sem a preocupação das ideologias vigentes, das imposições de um sistema que se construía sob uma ditadura militar, os rapazes cabeludos, de longas barbas, tinham além do talento genial, a sede de viver o momento na sua mais anárquica emoção, legando uma música criativa e inteligente.
O fenômeno Som Imaginário foi rápido. Passou por várias formações, deixando três discos “Som Imaginário” (1970), “Som Imaginário” (1971, conhecido como “Nova Estrela”) e “Matança do Porco”, além de participações em discos de Milton Nascimento e Taiguara. Deixou no cenário musical brasileiro uma marca indelével, sendo hoje cultuados por uma geração que se não esquece das efervescências de um passado que parece ter sido ontem, mas que já lá se vão quatro décadas.
Na comemoração dos quarenta anos do Som Imaginário, “Virtuália – O Manifesto Digital”, foi buscar a essência de um dos participantes, o irreverente Fredera, que gentilmente concedeu uma entrevista exclusiva. Polêmico, às vezes cru com a visão da época, Fredera não se deixa intimidar para falar o que pensa. Continua a ser aquele que subverte a palavra, os costumes e a verdade do que pensa, mesmo quando sabendo que pode atingir a mais dolorosa forma verbal no âmago da sua visão de vida. Viscerais são as palavras de Fredera, numa coragem de tirar o fôlego de quem as lê. Em um momento de perda, com a morte do Zé Rodrix em 2009, e que se faz quarenta anos da criação da banda, Fredera expõe de forma lancinante a sua visão do que foi uma das maiores e mais genial bandas de rock progressivo do cenário musical brasileiro.

Fredera, Exclusivo para o Virtuália

Frederico Mendonça de Oliveira, primeiro Frederyko, depois Fredera, músico, compositor, jornalista, pintor e escultor, é um desses personagens raros, cuja arte lhe aflora a alma nas mais variadas vertentes. Dono de um discurso inteligente, irreverente e às vezes cáustico, sabe como ninguém usar a palavra na sua mais perfeita concepção, causando o impacto verbal fulminante. Numa trajetória longa pela MPB, atuou ao lado de nomes retumbantes, como Gal Costa, Raul Seixas, Ivan Lins, Gilberto Gil, Marcos Valle, Beto Guedes, Caetano Veloso e Gonzaguinha. Membro ícone do Som Imaginário, sua discografia solo é pequena, com destaque para o álbum “Aurora Vermelha”, lançado em 1981. Carioca do Bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, Fredera atualmente vive no sul de Minas Gerais, em Alfenas. Em um momento de expectativa, durante a entrevista acena com a promessa de um trabalho inédito, com surpresas guardadas no baú da sua genialidade. Numa entrevista visceral, Frederyko, ou simplesmente Fredera:

VIRTUÁLIA – Com o fim da Tropicália, oprimida pela ditadura, surgiu uma espécie de Tropicália underground, ou geração do desbunde, da qual o Som Imaginário foi um ícone. Vocês traziam um existencialismo psicodélico latente, que, visto ao longo do tempo, mantém uma mensagem intacta. A ditadura pesava no respirar do desbunde, mal interpretado pela esquerda engajada? O desbunde conseguia fugir das limitações ideológicas de uma ditadura ferrenha e uma esquerda presa às dialéticas?
FREDERA – Bem, a Tropicália puxou toda uma postura de enfrentamento, mesmo que apenas através de comportamento extravagante, de manifestação “artística” de desobediência, de discordância. A gente pegou esse bonde e levou pros palcos, sendo que só dois ou três da área do pop-rock sabiam o que faziam ou, em outras palavras, agiam conscientemente. Quase todos da Tropicália e, óbvio, adjacências, pensavam mais era em se dar bem, em trepar o mais possível, não se importando com ditadura ou o que fosse, a menos quando se sentiam ameaçados pelos gorilas e prepostos. Hoje a Tropicália é passado, e o rock brasileiro, curioso, persiste, e está muito mais crítico, é como se fosse o que deveria ocorrer naqueles tempos. Hoje o rock protesta, desde aquele lance parece que do Paralamas, que xingou a cambada dos parlamentares de “300 picaretas”, ainda quando o atual boneco enfaixado era só deputado – e não fazia porra nenhuma. Naqueles tempos, a lei era outra: a turma tinha cu e medo. Pois eu espicaçava, e até andei sendo procurado por eles – houve indagações a meu respeito em torturas na PE da Barão de Mesquita, Rio –, o que me levou a dois anos de “exílio” em BH. De gente da área que agiu como eu, só me lembro dos gêmeos Paulo e Cláudio Guimarães Ferreira, flautista e guitarrista respectivamente, gente muito teorizada, e do Ricardo Villas Boas, mas este não abraçou o rock, o desbunde, as drogas, agiu como guerrilheiro mesmo, e foi banido junto com a turma em que estava o Pacheco, que encontrei em Cuba. A turma queria mesmo, no dizer quase geral, era mulheres, fama e drogas, o resto que se danasse. A minha exclusão do Som Imaginário, conduzida pelo Wagner (Tiso), foi uma tomada de posição dele pela música instrumental, já que mal sabia se expressar, e que assim aproveitava também e virava as costas para a conscientização e para a consciência política. O segundo disco, dirigido por mim, apresentava desafio de fora a fora, não tinha amenidades musicais, as letras eram literárias e cabeludas, e era um disco também de muita beleza, apresentando um rock maduro e profundo musicalmente, dissonante, e já na raia do progressivo. O terceiro virou a pista de decolagem da carreira solo do Wagner, um disco sem palavras e conceitos.
Na verdade, era uma questão clara: eram, TODOS, com raras exceções, incultos de pai e mãe. E, quando dirigindo o Som Imaginário, calquei no tom político, a turma se sentiu “out of tune”, e isso possibilitou ao Wagner, que tinha maioria porque tinha Luís (Alves) e Robertinho (Silva) sempre com ele, uma base política, promover minha exclusão – isso depois de eu me recusar a excluir o Tavito pelas costas, como o Wagner propôs, sem que o Tavito soubesse. Bem, a canalhice é inerente à condição humana, e assim aconteceu naqueles dias negros.

VIRTUÁLIA – Do antigo Som Imaginário, uma constelação de bons músicos brilhou na MPB. Havia uma unidade grande entre vocês, apesar dos egos, que com certeza, deveriam aflorar. Esta unidade vê-se bem nas composições “Sábado” (Fredera) e “Casa no Campo” (Zé Rodrix – Tavito), que se complementam, quase numa atmosfera única. No decorrer do tempo, quatro décadas depois, restou alguma unidade, ou afinidade entre vocês?
FREDERA – Só para esclarecer: Sábado saiu no início de 1970, Casa no Campo quase em fins de 72. Sábado foi unanimidade, Casa no Campo foi um bom produto e foi bem lançado, pela Elis, e também era rica no aspecto concepcional. Sábado foi a simplicidade de um clássico; Casa no Campo foi uma espécie de profissão de fé extemporânea, porque tudo já tinha sido considerado. Lennon já tinha decretado o fim do sonho. Ele já sabia das coisas. E Sábado fala da senda do aperfeiçoamento, fala da desmaterialização, da busca do céu. Casa no Campo tem equívocos formais visíveis e prega uma reclusão no padrão das já superadas comunidades. Se há semelhanças, há por outro lado diferenças imensas. Para mim, são duas coisas que convergem em termos, mas divergem bastante em forma e na essência do conteúdo.
Tenho relação de irmão com o Tavito. Com o Zé (Rodrix) era limpeza e até carinho, mas tínhamos menos identificação. O resto dos imaginários não tem condições para uma troca comigo. Até musicalmente, como no caso do Wagner, que não passa de factóide: é compositor sem concepção e sem fôlego, e o piano dele é limitado. Também pessoalmente, ele mesmo se definiu quando do encontro na casa do Gil, o negócio de afirmar não estar nem aí para a ética do PT ou qualquer tipo de ética. A ignorância da moçada era córnea, mal sabiam formular idéias. O Tim, nosso contemporâneo, disse no Jô na década de 90 que ele, o Roberto e o Erasmo não tinham “cultura”, só tinham o curso de datilografia no Colégio Urca, mesmo assim incompleto. Ele falou de cultura, queria falar é de instrução... Como vê, amigo, eles nem falar sabiam, e era geral. O Zé e o Tavito não: tinham preparo, berço. E o Robertinho era um grande músico, compensava suas deficiências. Uma vez briguei num banco do Rio quando o cara que nos atendeu não quis aceitar a assinatura dele no documento, porque era de forma primária. Mas o meio em geral era quase todo composto de apedeutas, e às vezes eram até atrevidos. Uma vez, em 1971, quando falei com o Pepeu sobre a ditadura, ele respondeu com inflexão de cafre que “Tem que estar bem pra tocar bem! Esse papo de ditadura tá por fora!”. Que tal? Mas o Som Imaginário venceu dificuldades e foi grupo de impacto, até que veio o golpe do Wagner, e aí... nunca mais. Cheguei até a armar tarefas em 1976, sob a produção do César Augustus Pereira, uma retomada do Som Imaginário, trabalhamos quase um ano, mas o grande lance já era: a tentativa ficou fria, caiu no vazio.

VIRTUÁLIA – Em 2009 perdemos o Zé Rodrix. O que impossibilitou uma reunião do grupo original. Mas nota-se que o Som Imaginário marcou a vida de vocês. Wagner Tiso ao completar 60 anos, chamou o disco comemorativo de “60 Anos – Um Som Imaginário”, quase como uma referência. Há qualquer possibilidade de um encontro entre vocês?
FREDERA – Não posso perder a piada: perguntaram o que faltava para reunir os Beatles hoje. Resposta: duas balas.
Lamento ter de informar que o uso do nome do grupo, atitude inexplicável do Wagner, é uma forma de apropriação indébita – mas que na verdade nada acrescenta, porque o trabalho dele não cola. É um factóide. Pra começar, o nome foi criado pelo José Minssen, produtor do Milton, no bar Sachinha’s, Leme, RJ, em 1970, onde tocavam Tavito e o Zé. Depois, temerosos de alguma usurpação, eu e Wagner registramos a marca em nosso nome numa firma de nome Leonardos, no Rio. Agora ele usa o nome, e consta, segundo o Zé e o Tavito, se não me engano também confirmado pelo Robertinho, que o lance de reunir o grupo em 2000, para comemorar 30 anos do grupo, foi abortado pelo Wagner. Ele não concordava em ombrear com os colegas que não estavam no olimpo, como ele. Foi unicamente por isso que não nos reunimos. O Zé até me falou, quando comentamos sobre subir ao palco mesmo com a diferenciação imposta pelo Wagner, que “Tudo bem, tocamos sim. Sem beijo na boca, óbvio!, mas tocamos sem problema.”
Teve até outra: o que o “escritório” do Wagner informava era que a Heineken, que seria a patrocinadora, queria a PRIMEIRA formação do grupo, quando não havia nenhum sucesso e o grupo apenas acompanhava o Milton e tinha uma pontinha no show quando o Zé cantava With a Little Help from my Friends. Quando foi proposto que subissem ao palco os autores das canções de sucesso do grupo, Feira Moderna, Sábado, Nepal, não se falou mais no assunto.
E hoje é impensável subir ao palco o velho Som. O Zé “saiu”, o Tavito tem a vida dele pra lá, eu ando pra cá, Robertinho e Luís trabalham suas carreiras e vivem em seus trampos, e o Wagner resolveu no estilo dele a coisa: no show dele no Municipal, reuniu o que ele contrata para sua carreira, e ficou desse tamanho. O Som morreu, a obra que fizemos está aí.

VIRTUÁLIA – Com a Abertura política a partir de 1978, a MPB voltou a ter força no cenário nacional. Na primeira metade da década de 80 a MPB vendia aos milhões. Houve uma saturação de mercado, e o lixo começou a ser dado para a população. A MPB voltou a ser elitizada? As grandes massas não têm mais o costume de ouvir MPB?
FREDERA – Não se trata de nada disso, embora seja consenso: tudo foi armação de fora, golpe, intervenção internacional, e a MPB foi apenas instrumento para devastar definitivamente nossa cultura. Tudo isso é ação internacional via globo e multinacionais do disco pra nos desertizar culturalmente. O resultado hoje é o que sofremos: a ditadura da estupidez, a proletarização (no pior dos sentindos) a tapa, a miséria política e institucional, o fim. O povão ouve o que lhe mandam, é como papel, aceita a tinta que for lançada nele. Nossa cultura, que assombrava o mundo nos anos 50/60, com a Bossa Nova, Villa Lobos, Guimarães Rosa, nossos poetas, nossos artistas plásticos, nossos cineastas, tudo isso desapareceu sob a MPB, sob comando da Globo e das multinacionais do disco. Tudo foi muito controlado e muito bem executado, sem resistência qualquer, apenas uma voz clamando aqui, outra acolá, e quem falava disso era logo tachado de doido. E a turma da emepebê enriqueceu a mil.

VIRTUÁLIA – Na atual crise do mercado discográfico, com as gravadoras sendo ultrapassadas pela era digital, acha que há investimentos em grandes carreiras por parte dos produtores? Ou a produção independente é a saída? E a internet, mina qualquer hipótese de grandes vendas de discos? Tem como conciliar mercado fonográfico e era digital?
FREDERA – Não há saída senão uma virada cósmica e radical. Assim como o cinema não interessou mais à intervenção anticultural internacional desde que a TV adentrou os lares e foi um degrau acima na destruição cultural e da vida em família em todo o ocidente. O cinema foi descartado, depois da TV, como prioridade: já tinha feito o estrago necessário. Da mesma forma a MPB: interessou quando e enquanto tínhamos cultura a ser pulverizada. Agora a etapa de dominação se opera em outro âmbito, tudo atomizado e caotizado. A internet atende a interessados em termo de revelar o que é bom, mas o futuro imediato é a desagregação total para que seja desferido o golpe de Estado internacional. Mercado fonográfico e era digital são unicamente circunstâncias de momento para o avanço da devastação cultural. Nada disso existe senão como instrumento de invasão e desmantelamento de Estados, de destruição da cultura e da coesão social.

VIRTUÁLIA – O Fredera compositor tem muitas surpresas guardadas na gaveta ou já produziu tudo que se propôs? Algum projeto musical à vista, ou planejado? Algum sonho musical ainda não realizado?
FREDERA – Tenho alguma coisa sim, dá um bom CD. Até andam me sondando sobre isso. E ainda periga sair muito mais, quando estiver com a mão na massa, do que tenho pronto. Mas nada de sonhos: tenho é a realidade nas mãos, e não me preocupa aparecer, porque não existem mais ouvidos para ouvir. Talvez apenas reúna tudo e grave e edite para deixar para estudantes e estudiosos.

VIRTUÁLIA – Como um ex-cabeludo, que vestia de velhos jeans a propagar as mudanças dos costumes naqueles tumultuados inícios dos anos 70, vê hoje conceitos de liberdade, quando tudo é resumido no politicamente correto? Ainda dá para subverter o estabelecido?
FREDERA – Nem sonhando, subverter o statu quo hoje é utopia pura, aliás, sempre foi. Hoje sou apenas desviante, por ser consciente. Não sou politicamente correto, sou correto em termos de política, ou seja, me mantenho atento a tudo que rola e trato de agir com a mente afinada no cosmo. Não vejo senão uma perspectiva de “armagedon” pela frente. Basta ver o grau de alienação a que foi submetido o pobre povo deste lugar – porque o Brasil como país ou nação já era, há muito! – e entender que tudo está irremediavelmente perdido.

VIRTUÁLIA – Vejo grandes nomes da MPB, como Gal Costa, sendo saco de pancadas de críticos e fãs, que não aceitam a passagem da idade dos ídolos. O Brasil é injusto com os seus ídolos? Prevalece o culto ao ídolo morto, como Elis Regina e Renato Russo, e a desconstrução do ídolo vivo? Ídolo morto no Brasil vale mais do que o vivo?
FREDERA – A Gal, falando claro, sempre foi conduzida: dependeu da condução de Caetano e Gil, sempre teve repertório condicionado, volta e meia caindo no vulgar, no comercialóide, sempre foi assimilada por setores atrasados. Musicalmente sempre foi duvidosa, sempre vacilou em afinação, não sabia usar a voz em certos agudos, por aí. Foi musa do desbunde, mas sempre foi conduzida musicalmente e no geral. Pessoa adorável, simplíssima, às vezes até simplória, um doce, mas inculta, superficial. Hoje está fora do jogo, do qual se beneficiou sem saber que estrago ajudava a fazer em nossa História. Quanto a cultuar os mortos, tenho outra impressão: Raul, Renato Russo, Elis, a meu ver, estão soterrados. Está soterrado Gonzaguinha também, o que mostra a pobreza em que vivemos por imposição: é uma das mais importantes obras da MPB, e não se fala mais nele. E não se fala mais de ninguém, nem mesmo do Tom!... A realidade hoje é completamente irreal, tudo é imposto e incorpóreo, passageiro e vazio. É o que os caras querem pra dominar.

VIRTUÁLIA – Uma curiosidade pessoal: como era ser músico da musa do desbunde? Acompanhar uma Gal Costa jovem e pulsante era difícil?
FREDERA - Não, era um trampo, do qual tirávamos um troco e uma casquinha pra sacanear os generais. Eu puxava o cordão da provocação, o Robertinho aderia, e só. Musicalmente era chato acompanhar a Gal, não tinha harmonia, era canção barata, embora inteligente em alguns momentos, porque tinha Caetano, Capinam, Wally, Duda fazendo boas letras. Éramos muito superiores a ela em conhecimento e espírito musical, ela era apenas um produto bem armado para aquela conjuntura, era um instrumento na imposição do massacre do intérprete sobre o músico. O mais difícil era suportar a exploração hipócrita a que nos submetiam. Para nós, a Gal era apenas uma cantora simples alçada a uma condição de surrealismo. Então, como a curra era inevitável, relaxávamos e aproveitávamos. Era isso, sem tirar nem pôr. Se o Wagner disser hoje algo diferente disso, que era exatamente o que ele dizia à época, estará sendo corporativista, oportunista; quanto a Luís e Robertinho, sinceramente o que eles dizem não pesa, porque atuam em concordância com o que pensam, e estão bastante fora de cena. E o Tavito é elegante, talvez desconverse...

VIRTUÁLIA – Fredera hoje. Ainda há limitações a serem rompidas? Musicalmente, há descobertas estéticas a acrescentar à obra? O que foi o Som Imaginário para você?
FREDERA – O Som Imaginário foi, pelo que avalio hoje, uma grande oportunidade para minha eclosão como compositor, e uma tremenda prova de fogo. Para integrar o grupo realizei um salto imenso em minha vida, e isso foi esmagado pela política mineira que tinha e tem o Milton como guru. Tinha a máfia do dendê na turma dos baianos (o Cláudio Tognolli denunciou isso, é bem feio), tínhamos e ainda temos a máfia do pão de queijo em Minas, ressaltando que em ambas imperam fatores estranhos à música, tendendo a excluir os que não aderem a certas tendências de comportamento. Os verdadeiros músicos de Rio e São Paulo são bem moderados nisso, a militância musical não é capitaneada pela turma da, digamos, gay power. Isso pesa porque mistura categorias, submetendo o essencial, no caso a música, a contingências desviantes. A MPB, por seu turno, selecionou muito: a presença de intérpretes que difundiam comportamento alinhado a uma nova conduta até então não tão promovida no meio artístico, especialmente na canção, virou modismo, e pegou. Cantores como Bethânia, por exemplo, faziam um sucesso que os músicos digamos ortodoxos não entendiam. Como é que uma cantora que mal sabe dividir e é tão crítica em afinação e inflexão pode obter tanto sucesso e tanta oportunidade? Que melhorou com o passar dos anos, melhorou sim. Mas cantar com Pavarotti??..., ela e a Gal?? Nem um fenômeno quase sobre-humano como a Mônica Salmaso se sentiria bem ao lado do homem!... Para com o resto, portanto, pareceu faltar um apoio que levasse a uma concretização maior, sei lá. E isso é digno de registro apenas por ser um componente muito visível no conjunto, sobressaindo muito. E nunca me preocupou, embora eu tenha sido perseguido pela tropa de choque deles, até porque nem mesmo tomava conhecimento ou atentava para isso. Estava interessado numa outra coisa para mim verdadeiramente divina e gostosa... Considero isso como cor de pele: no meu caso, sou branco, e pronto. As outras peles para mim são peles também, mesmo que de cor diferente. E somos todos filhos de Deus. Eles, porém, pensam diferente, parece. Mas o Som Imaginário foi, pelo que podemos aferir hoje, um grupo realmente diverso: tínhamos muita harmonia musical, coisa rara na onda pop-rock; tínhamos erudição em nossa ala culta (Zé, Tavito e eu), eu vinha de Letras e trazia uma forte cultura em música erudita, pintura, e isso valeu. Na verdade, hoje estou certo de que foi o mais importante grupo brasileiro nessa categoria, e disparado. Até porque, na verdade, éramos populares só até onde convinha. Como o gato, que é sociável até onde lhe convém.
Quanto a ter o que acrescentar, sempre tem! Estou envolvido numa pesquisa revolucionária, parece que explode neste ano. Estou sempre estudando, agora em fase febril, para deixar um legado aí para interessados em progresso musical, como já disse. Filosoficamente considero ter o que deixar também, tenho livros já prontos na mente só esperando a hora de poder sentar e escrever, sem contar que escrevi o Crime, que sacudiu geral. E tem a pintura e as artes plásticas, que também persigo com paixão, é religião. O que você indagou sobre descobertas estéticas, para mim, graças a Deus, elas não param, e até aumentam com a idade. Estou em franco crescimento, com uma obra bem consistente para apresentar a quem interessar possa – se um dia eu tiver saco de registrar tudo.
E fico feliz porque vejo que pessoas estão ligadas, como você, e isso sempre é sinal de que a vida não morre pelas mãos dos algozes da humanidade e da liberdade.

Reportagem: Jeocaz Lee-Meddi

sexta-feira, 4 de junho de 2010

AVENIDA SÃO JOÃO - DIGITAIS DA NOITE PAULISTANA

Uma das avenidas míticas da Paulicéia, a Avenida São João é símbolo de uma época que caracterizou a atmosfera boêmia e noturna da capital paulistana. É a maior artéria digital de uma cidade confusa em suas identidades humanas, mas indelevelmente arraigada em sua perspectiva cultural, essência como metrópole.
Se a Avenida Paulista representou a sofisticação, o glamour da burguesia ascendente, a chegada das grandes empresas econômicas, a Avenida São João demarcou o pulsar da identidade paulistana. Nesta artéria foram, aos poucos, nascendo bares, cafés, teatros, cassinos, cinemas, numa efervescente vida noturna que deu forma à geografia humana de São Paulo.
No decorrer das décadas, a Avenida São João perdeu parte da importância na vida noturna da capital paulista. Sua atmosfera underground eleva-se a partir de bares alternativos que vazam os mistérios da noite marginal.
Mitificada pela Música Popular Brasileira, ficou famosa nos versos de Paulo Vanzolini, na música “Ronda”; ou ainda na célebre “Sampa”, de Caetano Veloso. Este ícone de São Paulo é sempre uma descoberta, ainda que mais não seja pelos imponentes arranha-céus que riscam a o seu traçado, e os prédios que se lhe rabiscam um glamour de uma Paulicéia que o tempo ofuscou, mas jamais apagou.

Nascida a Partir da Ladeira do Acu

Nascida da antiga Ladeira do Acu, a incipiente Rua de São João Batista, deve o seu nome à insalubridade que abrangia a região do Anhangabaú, obrigando as pessoas a levarem consigo a imagem de São João Batista para atravessarem o Vale.
O loteamento da chácara pertencente ao comendador Luis Antonio de Sousa Barros, permitiu que se abrissem partes da atual Avenida São João, o largo e a travessa do Paissandu, a Rua do Seminário e a Praça do Correio.
Inicialmente modesta no fim do século XIX e no alvorecer do século XX, a São João era uma rua de botequins e velhas quitandas, que ladeavam o Teatro Polytheama, local onde, tradicionalmente, circulavam os fogareiros de lata de querosene assando castanhas.
Em 30 de junho de 1890, no local onde predominavam bambuzais, coqueiros e arbustos, ergueu-se o Mercado São João, conhecido como Mercado Acu. Consistia em uma estrutura pré-moldada de placas metálicas vindas da Bélgica, sendo ponto de encontro de vendedores oriundos de várias partes do mundo, imigrantes na pulsante São Paulo. Em 1914, o mercado foi demolido, dando lugar à Praça do Correio e à Praça Pedro Lessa, sendo os comerciantes locais transferidos para debaixo do Viaduto Santa Ifigênia.
Em 1911, a antiga Ladeira do Acu, depois Rua de São João, foi alargada, transformando-se na Avenida São João.
Outro ponto histórico da Avenida São João começou a ser edificado em 7 de outubro de 1920, o imponente prédio da Agência Central da Empresa de Correios e Telégrafos. Erguido a partir de um projeto de Domiziano Rossi e do Escritório Técnico Ramos de Azevedo, o prédio foi inaugurado em 20 de outubro de 1922, fazendo parte das comemorações do centenário da independência do Brasil.

Ícone da Vida Noturna Paulistana

A Avenida São João foi uma das primeiras a ser contemplada com os serviços dos bondes elétricos de São Paulo, o que facilitou a expansão da sua vida noturna.
Por muito tempo, o Teatro de Variedades e Comédia Polytheama, um barracão acaçapado, de zinco, sem formas arquitetônicas definidas, sombrio no aspecto geral, era a referência cultural do local, chegando a receber nos seus palcos a grande diva do teatro francês, Sarah Bernhardt. O velho teatro fora erguido para abrigar o circo de Frank Brown, o que lhe explicava o formato circular. O velho Polytheama teve os seus dias de glória, sendo o centro efervescente e cultural de toda a cidade, escrevendo para sempre o seu nome na história paulistana.
Fazia parte ainda da vida noturna da Avenida São João, o Cassino Paulista, situado ao lado do Polytheama. O famoso Café Brandão, na esquina da Avenida com a Rua São Bento, demolido em 1915, para dar lugar à construção do Edifício Martinelli. O famoso Bijou Salão. O originalmente bar e mais tarde casa de espetáculos Moulin Rouge.
A tradição da Avenida São João como ponto de referência cultural e vida noturna da capital paulistana, alcançou o apogeu entre as décadas de 1940 a 1960. Ali ocorriam grandes bailes ao som de orquestras, realizados nas casas da região das Avenidas Ipiranga e São João. Tais casas comportavam grandes orquestras que empregavam mais de quarenta músicos em cada uma delas. Eram destaques a Boate e a Confeitaria Marabá, tendo esta última dado lugar ao mítico Bar Brahma. Neste bar encontravam-se os maiores artistas, jornalistas, políticos e amantes da vida noturna paulistana. Local preferido de Adoniran Barbosa, o mais paulistanos de todos os compositores da MPB.
Histórica, pulsante, a Avenida São João recebe ao longo da sua extensão, grandes cruzamentos: Avenida Ipiranga, Largo do Paissandu, Vale do Anhangabaú, Avenida Prestes Maia, Rua Líbero Badaró e Rua São Bento. Também possui edifícios de relevante importância histórica e econômica: Edifício Banespa, Edifício Martinelli, Palácio dos Correios, Edifício Andraus e Galeria Olido.
Underground, imponente, histórica, moderna, tradicional, a Avenida São João é a própria essência digital de uma cidade plural, formada por uma população vinda de todas as partes do Brasil e do mundo. E como diz Caetano Veloso, em “Sampa”:

“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João”


segunda-feira, 31 de maio de 2010

RICARDO MACHADO VOLUME 2 - DESENHOS DE VOZ

Após a produção do álbum, “Corra e Olhe o Céu”, trabalho coeso, de imponente beleza lírica, apesar de um certo academicismo, Ricardo Machado lançou o segundo álbum, tendo como título apenas o seu nome, fugindo do intimismo do primeiro, trazendo uma obra mais ousada e aguda, mostrando-se solto e com coragem de cantar no tom que se lhe acentua a verdadeira acepção do timbre metálico, sem recorrer a histrionismos, ou perder a suavidade lírica com a qual torna as melodias em agradáveis cantos que se nos seduzem os sentidos.
Mais seguro em cantar, Ricardo Machado, neste volume 2 de uma obra incipiente, propõe-se a mostrar sem máscaras a arte de interpretar. Não sendo fácil sobreviver apenas como intérprete em um mercado fechado, preconceituoso e aberto ao medíocre, o cantor compensa as limitações como compositor, escolhendo um repertório eclético e centrado no bom gosto, percorrendo canções clássicas, mas pouco exploradas, corajosamente tomando-as como suas, criando momentos únicos, impregnando-lhes uma identidade própria.
Ricardo Machado, volume 2, não traz um repertório tão vincado nas profundezas dos sentimentos como no primeiro álbum, mas não foge da obsessão sublime do cantor em cantar o amor, munindo-se do que há de melhor dentro da Música Popular Brasileira, sem jamais se mostrar meloso ou recorrer ao drama, ou ao canto fácil. Traz, principalmente, a afirmação de uma voz, que se mostra mais potente e com vontade de arriscar tons, navegar na que se lhe torna imprescindível, os agudos, dom que as vozes masculinas muitas vezes não se sentem à vontade em explorar.
Mais leve que o primeiro, este álbum consolida-se pela beleza estética de uma voz esculpida em um ínfimo procurar pela perfeição técnica, quebrando-se em metal suave quando traduzida na mais límpida emoção.
Concluído o que se iniciou com o artigo “Corra e Olha o Céu – Ricardo Machado”, aqui a apresentação de um jovem e promissor cantor, numa época em que se tem carência de boas produções musicais e de novos talentos que se propõem a soprar um canto de beleza dentro de um cenário enevoado e demarcado por nuvens de produções instantâneas. Aqui, análise contundente do álbum “Ricardo Machado – Volume 2”.

Agudos Fulminantes em Proposta Romântica

Com uma capa que fragmenta várias fotografias do cantor trazendo o microfone como apresentação da sua proposta, acentuando o contraste entre o azul do fundo do cenário, a camisa preta e a pele branca, o álbum, em uma primeira visitação ao invólucro, mostra-se discreto. Produzido e idealizado pelo próprio cantor, traz os arranjos coesos de Ricardo Calafate, o mesmo que se lhe apresentou no primeiro trabalho.
Seduzir” (Djavan), cantado em capela, surge em forma de vinheta, mostrando a delicadeza da voz de Ricardo Machado. Em um convite suave, ouve-se:

“Cantar é mover o dom
do fundo de uma paixão (...)
(...) Revelar todo o sentido”


E será do fundo das paixões, do âmago do dom do canto, que se erguerá todo o álbum. Após o singelo, mas contundente convite da vinheta, entramos na atmosfera do disco propriamente dito. “Quem Tem a Viola” (Zé Renato – Chico Chaves – Cláudio Nucci – Juca Filho), abre-se surpreendente. Ricardo Machado chega seguro, límpido, longe do intimismo lírico que a canção proporciona, arriscando um tom mais alto e o metal da voz, dando ritmo aos violões, eclipsando agudos e cordas de aço e nylon, num contraste atraente, quebrando a limitação de toada épica do original, fazendo-a mais pop e moderna. Já no início, percebe-se que a ousadia vence o medo de querer acertar, e a vontade de mostrar o que se manteve escondido até então, a força de uma voz liricamente vibrante. Quando pronuncia as palavras “metal” e “cristal”, os agudos fulminam os violões, sendo suavizados nos vocais do próprio cantor, que nos mostram as possibilidades de uma voz privilegiada.

“Quem tem a viola
Pra se acompanhar
Não vive sozinho
Nem pode penar
Tem som de rio
Numa corda de metal
Tem o mar num acorde final”


Sem Dizer Adeus” (Paulinho Moska), uma canção que toca na mais profunda emoção dos sentimentos, numa veia dramática latente, que, de tão rascante na mensagem contundente, chega a beirar às raias do brega se interpretada de forma errada. Ricardo Machado não tem medo de ir ao romantismo mais vincado das canções, mergulhando de cabeça, emergindo sóbrio, lírico, apaixonante. A voz está límpida, não abusa dos agudos, não percorre as feridas da letra, vai ao fundo da emoção, ampliando a latente lírica da voz, traduzida em pura beleza que de suave, corta como uma lâmina.

“Eu
Chorei até ficar debaixo d’água
Submerso por você
Gritei até perder o ar
Que eu já nem tinha pra sobreviver (Eu andei...)”


Um Clássico Imprescindível do Jazz

Vamos desaguar, surpreendentemente na mítica “My Funny Valentine” (Richard Rodgers – Lorenz Hart). Feita para um musical da Brodway, “Babes in Arms”, em 1937, a canção tornou-se um clássico do jazz, passando pelos repertórios de Chet Baker, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Jimmy Giuffre.
Ao contrário do que se pensa, é uma mulher quem canta para o seu amado, Valentine (palavra muitas vezes erroneamente traduzida como namorada [o]), onde acentua os defeitos do amado, mostrando-o não belo ou inteligente, mas que no final, pede para que não mude um fio de cabelo se a amar. São Valentino, Valentine, em inglês, é o santo dos casais apaixonados, sendo o dia dos namorados comemorado no seu dia em muitos países. Daí o arremate final da canção, “Each day is Valentines’s Day” (todo dia é dia dos namorados). Sabendo-se da origem da canção, fica mais fácil situá-la dentro do contexto do álbum. O que parece ser algo “cool” e isolado, interliga-se na proposta que Ricardo Machado quer dar, cantar o amor. Começa intimista, opta por uma canção em inglês que, aparentemente doce, é uma sátira ao amado, e ao mesmo tempo, uma declaração de amor sincera, sem máscaras. É este tipo de amor que canta Ricardo Machado, que se expõe em rasgos abertos e despidos, mas que se retrai ao dramático, fincando-se no lírico, na suavidade da poesia.
Interpretação aparentemente “cool”, ele vai, aos poucos, intencional ou intuitivamente, atingindo o universo dos autores, Richard Rodgers e Lorenz Hart, traduzindo aquela atmosfera do jazz branco dos judeus de Nova York. Se o intimismo inicial sugere a interpretação politicamente correta, Ricardo Machado agarra a atmosfera, solta-se na emoção do verso final “Stay little Valentine, Stay” (Fique, pequeno namorado, ou pequeno Valentine, conforme o jogo de palavras). Neste momento a voz vem quente, embriagante, mostrando porque “My Funny Valentine”, uma canção feminina, tornou-se através do tempo, essencial nas vozes masculinas. Ricardo Machado consegue manter o segredo da usurpação pelos homens do clássico. Numa primeira leitura do disco, perguntamos o que esta música está ali a fazer, no meio do repertório. Numa segunda audição, vamos perceber o elo, a essência do cantor, que mesmo quando se quer revelar docemente marginal, é vencido pela estética lírica inconfundível do seu canto.

“But don’t change your hair for me
Not if you care for me
Stay little Valentine, stay!
Each day is Valentine’s Day”


Prelúdio e Primeiro Clímax

Primavera” (Cassiano – Silvio Rochael), acentua a clareza da pronúncia das palavras na voz do cantor, que elimina qualquer sotaque regionalista, ampliando a beleza estética da poesia, milimetricamente articulada. Mais uma vez os vocais do cantor embelezam a canção, proporcionando-lhe um toque melódico envolto na extensão da sua voz. O passionalismo à flor da pele emerge quando o cantor pronuncia “meu amor”, numa verdade que se amplia incontestável, chegando aos nossos ouvidos diluída mais uma vez, pelo lirismo que provoca, fazendo do drama uma paisagem primaveril suave, do amor com o gosto quente do sangue e da carícia poética de uma brisa macia. Não é o melhor momento do disco, que ainda estar por vir, mas é o prelúdio, é a voz que já não se contenta em ser comportada, que quer subverter o potencial que se lhe negam os sofismas dos professores de música. É o canto já amadurecido, pronto para hipnotizar quem que se lhe ouse a ouvir.

“Eu, é primavera, te amo
É primavera, te amo meu amor
Trago esta rosa para te dar
Trago esta rosa para te dar
Meu amor”


E para quem percorreu todas as faixas à procura de um momento que se atinja o ápice, “Autonomia” (Cartola) proporciona a concretização deste instante. Ricardo Machado já havia navegado com segurança no universo de Cartola, gerando bons momentos no álbum anterior com “Corra e Olhe o Céu” (Cartola – Dalmo Casteli) e “Acontece” (Cartola). Mas é nesta faixa que se revela um profundo tradutor da emoção do velho mestre, e, brinda-nos com uma das mais sublimes, senão a melhor, interpretação de “Autonomia”. O amor como prisão consentida, o sentimento que de opção, torna-se o ar, a perda da liberdade ante outra vida. Cartola sabe como ninguém tocar na sensibilidade das relações, das paixões sinceras. Ao contrário do que aconteceu no disco anterior, aqui Ricardo Machado não se atém ao acadêmico, entrega-se de corpo e alma à canção. Faz da poesia a palavra cantada, dilacerada pela emoção. A sua voz alcança a beleza estética que tanto foi sugerida, em um momento de pura emoção lírica, atingindo um apogeu no fim das estrofes, revelando finalmente o timbre ideal, perseguido e traduzido na essência. Nesta interpretação, o cantor é revelado em seu esplendor vocal.

“É necessário a nova abolição
Pra trazer de volta a minha liberdade
Se eu pudesse gritaria, amor
Se eu pudesse brigaria, amor
Não vou, não quero”

E o bom momento do álbum segue com “Fadas” (Luiz Melodia), atingindo outro ápice. Luiz Melodia é daqueles compositores que crava no existencialismo solto em palavras que sugerem imagens, fragmentos de momentos. Suas canções têm um toque que se casam com a voz feminina. Ricardo Machado mostra-se extremamente seguro, em um à vontade que lhe permite conduzir com brilho os fragmentos poéticos da mensagem do autor. Os bandolins simulam as guitarras portuguesas, dando um toque de fado contemporâneo, leve e sem o gosto da lágrima. Suave, de ritmo que se mescla entre uma valsa e um fado, proporcionando um dos pontos altos do cantor, que aqui já se faz soberano, encantador, usando do privilégio rítmico que só os que nascem com o dom do cantar conseguem atingir sem que se esforce muito. Ricardo Machado absorve todos os movimentos de idas e vindas da poesia rabiscada do compositor das quadras do Estácio.

“Devo de ir, fadas
Inseto voa em cego sem direção
Eu bem te vi, nada
Ou fada borboleta, ou fada canção”


Visita aos Anos Oitenta e Um Outro Momento Mágico

Noite do Prazer” (Arnaldo Brandão – Cláudio Zolli – Paulo Zdanowski) dá uma quebra momentânea ao clima alcançado pelas faixas anteriores. Traz a leveza estética que lhe é peculiar. Exercício contundente para a voz, que desde a primeira faixa mostrou-se ancha. Sucesso dos anos oitenta, a canção não se furta em deixar um leve trave de uma época que já se foi. Ricardo Machado consegue articular todas as palavras, principalmente no verso “tocando B. B. King sem parar”, desfazendo a ambigüidade que sempre se lhe ficou enraizada, quando todos cantaram “trocando de biquíni sem parar”. Cumpre bem a proposta, mas não empolga. É o momento menor de um disco brilhante. É como se o cantor deixasse nos anos oitenta o seu fascínio pela canção. “Noite do Prazer” chega sem fôlego, visivelmente datada, presa aos resquícios da geração do desbunde, que dava os seus últimos suspiros na década da queda das ideologias.

“A noite vai ser boa
De tudo vai rolar
De certo que as pessoas
Querem se conhecer
Se olham e se beijam
Numa festa genial”


Mas as surpresas não se findaram, pelo contrário, chega com fôlego um outro grande momento, “Desenho de Giz” (João Bosco – Abel Silva). Cantando inicialmente em um tom mais grave, Ricardo Machado navega na canção com domínio técnico, perdendo-o por instantes para a emoção, alcançado o lirismo supremo vociferado por agudos perfeitos, magnetizando o metal da voz, atraindo como um ímã os ouvintes. Veste-se de sublime coragem para cantar o amor e os seus labirintos, sem fazê-lo extenuante, sem que lhe embace a delicadeza poética. As palavras sopradas e articuladas com perfeição, uma característica do cantor, perdem o academicismo proposto no primeiro álbum, ganhando a dimensão lírica do timbre metálico, a emoção vincada quando traduzidas na melodia, diluindo-se em efeitos provocados pelas várias vozes aqui por ele usadas. Consegue conciliar a pronúncia silábica com o lirismo extenuante da voz, unindo de forma estética definitiva a poesia e a melodia, impregnando-lhe a suavidade de um canto conduzido pelo etéreo. Assim como em “Autonomia”, a voz de Ricardo Machado expele beleza, desenhando não uma estética de giz, mas de sofisticada nanquim tatuada na pele dos sentimentos.

“Quem quer viver um amor
Mas não quer suas marcas, qualquer cicatriz
A ilusão do amor
Não é risco na areia, é desenho de giz
Eu sei que vocês vão dizer
A questão é querer desejar, decidir
Aí diz o meu coração
Que prazer tem bater se ela não vai ouvir”


Frenética Arrancada Final

Perdão Você” (Carlinhos Brown – Alaim Tavares) ressalta a verve de cantor lírico que Ricardo Machado traz na bagagem. Dando um toque de sofisticação, ele dispensa os instrumentos musicais, ousando interpretar toda a canção em capela, acrescentando-lhe um vocal próprio de fundo. Para completar o efeito, convida Ana Cláudia Casaca, com quem divide um delicado dueto. Desenhando uma erudição moderna, a ousadia não chega a traduzir um momento de grande esplendor, mas não decepciona em sua beleza estética. Ana Cláudia Casaca mostra com segurança a beleza da sua voz. Ricardo Machado consegue um bom momento, mas que nada evidencia a genialidade que já alcançou até aqui. Talvez seja o único momento do disco que traz aquele intimismo academicista do primeiro disco, sem que risque em nada toda a proposta aguda e ousada aqui diluída.

“Sei que a tendência
Anda nas frestas
No decidir da mente
É como se perder de Deus
E eu não quero
Eu não quero me perder
Eu não quero te perder
Perdão Você”

Surpreendentemente, o disco chega ao fim com uma velocidade estonteante, através da irreverente “Não Enche” (Caetano Veloso), uma daquelas canções de Caetano Veloso de tirar o fôlego de quem a canta. Letra provocativa, com termos que satirizam a amada, quase que ofensivamente, traz quilômetros de palavras vociferadas em tom frenético. Ricardo Machado aceita o desafio e freneticamente, não perde nenhuma sílaba das palavras arrancadas em uma melodia que não se deixa pausar, numa pulsação veloz. A canção surge divertida, agradável, de fácil assimilação não fosse uma letra sem fim, labiríntica, difícil de ser cantada e assimilada no todo. Ricardo Machado passa por todas as armadilhas dos ritmos, por todas as palavras de uma poesia quase psicodélica. Mostra-se tranqüilo, seguro, num prelúdio de despedida do álbum que lhe garante a qualidade de um grande intérprete, já maduro e pronto.

“Harpia! Aranha!
Sabedoria de rapina
E de enredar, de enredar
Perua! Piranha!
Minha energia é que
Mantém você suspensa no ar
Pra rua! Se manda!
Sai do meu sangue
Sanguessuga
Que sabe sugar
Pirata! Malandra!
Me deixa gozar, me deixa gozar
Me deixa gozar, me deixa gozar...


O disco é encerrado como foi iniciado, com “Seduzir” (Djavan), em forma de vinheta, cantada em capela:

“Cantar é mover o dom
do fundo de uma paixão (...)
(...) Revelar todo o sentido”


Nunca os versos de Djavan foram cantados com tanta sinceridade e, sinceridade, é a palavra chave do canto de Ricardo Machado, em um trabalho delicado, de sofisticada composição estética, de precisão na escolha de um repertório que não se perde, mas que se acrescenta a cada faixa, de uma voz que já se mostra técnica e emotivamente conciliada, expandido-se nas suas possibilidades, cada vez mais buscando por novos desafios. “Ricardo Machado – Volume 2” empolga pela honestidade de um trabalho límpido, pela tenacidade de um artista que tenta superar as limitações de um mercado fechado e cruel, pela tradução de que o cenário musical brasileiro tem muito a oferecer por aí, em sensíveis obras de autores independentes. Cabe a nós descobrirmos e divulgar estas pérolas tão docemente escondidas dentro de uma ostra de carcaça sólida chamada MPB.

Ficha Técnica:

Ricardo Machado 2
Produção Independente

Produção e Seleção de Repertório: Ricardo Machado
Direção Musical: Ricardo Machado e Ricardo Calafate
Técnico de Estúdio: Ricardo Calafate e Ricardo Cidade
Técnicos de Mixagem e Masterização: Ricardo Calafate e Ricardo Cidade
Arranjos: Ricardo Calafate
Arranjos Vocais: Ricardo Machado e Ricardo Calafate
Fotos: Jorshey Stúdio
Projeto Gráfico: Ricardo Machado
Processamento de Imagens: Gabriel Nunes
Arte Final: Gabriel Nunes
Realização Gráfica: Artes Gráficas e Editora Exímia
Idealização de Texto: Ricardo Machado
Colaboração: Nelson Almeida, Leandro Marzulo, Fernanda Veloso, Solange V. Santos, Rogério M. Santos
Gravado no Estúdio Usina
Agradecimentos Especiais de Ricardo Machado: Ricardo Calafate, Ana Cláudia Casaca, Ricardo Cidade, Nelson Almeida, Gabriel Nunes, Márcio Amorim, Afonso Martins, Leandro Marzulo, Fernanda Veloso, Filipe Affonso, Rogério Machado, Solange Veloso, Lúcia Regina, Odete Faria, Adyl Faria, Augusto Santos e a todos que apoiaram este projeto. Agradeço a Deus

Músicos Participantes:

Violão Aço: Ricardo Calafate (Faixas “Quem Tem a Viola”, “Sem Dizer Adeus”, “Primavera” e “Noite do Prazer”)
Violão Nylon: Ricardo Calafate (Faixas “Sem Dizer Adeus”, “Fadas”, “Desenho de Giz” e “Não Enche”)
Violão 7 Cordas: Ricardo Calafate (Faixas “Autonomia” e “Fadas”)
Guitarra Solo: Ricardo Calafate (Faixas “Quem Tem a Viola”, “My Funny Valentine”, “Noite do Prazer”, “Desenho de Giz” e “Não Enche”)
Guitarra Base: Ricardo Calafate (Faixas “My Funny Valentine”, “Desenho de Giz” e “Não Enche”)
Baixo Elétrico (Synti): Ricardo Calafate (Faixa “Quem Tem a Viola”) e Afonso Martins (Faixa “Noite do Prazer”)
Baixo Acústico: Afonso Martins (Faixa “My Funny Valentine")
Triângulo: Ricardo Calafate (Faixa “Sem Dizer Adeus”)
Bandolim: Ricardo Calafate (Faixa “Fadas”)
Programação de Bateria: Afonso Martins (Faixa “Noite do Prazer”)
Percussão: Afonso Martins e Ricardo Calafate (Faixa “Noite do Prazer”)
Surdo, Caixa, Tamborim, Xique-Xique e Reco-Reco: Ricardo Calafate (Faixa “Não Enche”)
Vocais: Ricardo Machado
Participação Especial: Ana Cláudia Casaca (voz em “Perdão Você”)

Faixas:

1 Seduzir (Djavan) (vinheta), 2 Quem Tem a Viola (Zé Renato – Chico Chaves – Cláudio Nucci – Juca Filho), 3 Sem Dizer Adeus (Paulinho Moska), 4 My Funny Valentine (Richard Rodgers – Lorenz Hart), 5 Primavera (Cassiano – Silvio Rochael), 6 Autonomia (Cartola), 7 Fadas (Luiz Melodia), 8 Noite do Prazer (Arnaldo Brandão – Cláudio Zolli – Paulo Zdanowski), 9 Desenho de Giz (João Bosco – Abel Silva), 10 Perdão Você (Carlinhos Brown – Alaim Tavares) Participação Ana Claudia Casaca, 11 Não Enche (Caetano Veloso), 12 Seduzir (Djavan) (vinheta)

Atualização

Desde junho de 2010, Ricardo Machado entrou em estúdio, para a gravação do seu terceiro álbum. O disco reunirá novamente a bem sucedida parceria entre o cantor e o músico Ricardo Calafate (na fotografia ao lado do cantor), responsável pelos arranjos e composição musical. Ricardo Calafate é um apaixonado pelo chorinho, sendo um mestre no gênero. Seu encontro musical com Ricardo Machado vem desde 1998, época do lançamento do primeiro disco do cantor. A sintonia perfeita entre os dois resultou em dois álbuns excepcionais e, promete um terceiro ainda melhor.
Num projeto audacioso, ao qual me juntei na concepção e produção musical, Ricardo Machado promete um disco trazendo a mais pura essência da MPB, desfilando em catorze faixas, mais de cem anos dos mais diferentes autores, recriando grandes clássicos que irão adquirir uma nova roupagem, usufruindo a beleza vocal do cantor e, sendo alguns apresentados às novas gerações, demarcando um cheiro de inédito dentro do já explorado, mostrando que a verdadeira MPB é atemporal, mantendo-se intacta a dilapidação dos anos.
Em pleno andamento das gravações e produções, vale a pena aguardar o seu lançamento, através do selo Umuarama, previsto ainda para 2010. Este fim de ano, reserve um espaço para o bom gosto, pois terá um grande álbum para presentear aos amigos e, a si próprio. É tempo de dar espaço para a nova primavera que floresce dentro da mediocridade da atual MPB.


RICARDO MACHADO - SITES:

http://ricardomachadocantor.blogspot.com/

http://ricardomachadocantor.multiply.com/